Folha Paroquial – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Folha Paroquial – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

“Eis o dia que fez o Senhor, n’Ele exultemos e nos alegremos.”

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«Cristo ressuscitou dos mortos. Aleluia!
Que Cristo ressuscitado ilumine o coração de cada um e encha de alegria as vossas almas.
Que Ele entre em vossa casa e vos transmita a paz.»

A morte e ressurreição de Cristo é o mistério central do cristianismo, a pedra angular em que assenta a fé cristã. Como disse S. Paulo, se Cristo não tivesse ressuscitado a nossa fé era vazia e oca. Era vã. O inacreditável é que há pessoas que dizendo-se cristãs, têm como fé a reincarnação. Com esta crença afastam-se do núcleo da fé cristã e reduzem-na a uns valores éticos. Mas a fé cristã não é em 1º lugar uma doutrina, é uma experiência de libertação e de alegria suprema. No cristianismo primeiro há a vida e a experiência de fé, depois é que vem a sistematização doutrinal. É por isso sempre refrescante ouvirmos de novo o anúncio pascal e a sua reprodução de geração em geração até chegar até nós, hoje. Comecemos pelo princípio.
João diz-nos que ainda estava escuro: a luz da ressurreição brilhou na noite; pensamos imediatamente no prólogo do mesmo Evangelho de S. João: «A luz brilhou no meio das trevas, mas as trevas não a receberam.» Mas as trevas não podem prender a luz no sentido em que a não podem impedir de brilhar. E a luz brilhou no mundo, iluminando a noite dos discípulos desanimados e às escuras depois de terem visto adormecido na morte Aquele que eles pensaram que seria o Messias.
O discurso de Pedro em casa de Cornélio, da primeira leitura, é revelador do estado de espírito dos Apóstolos no tempo que se seguiu à ressurreição de Jesus. Eles tinham sido as testemunhas privilegiadas das palavras e dos gestos de Jesus, e tinham pouco a pouco compreendido que Ele era o Messias que todo o povo esperava. E depois aconteceu a Sexta- feira santa: Deus tinha deixado morrer Jesus de Nazaré. Ora, se Ele fosse O Messias, certamente Deus não o deixaria morrer. Então Deus abandonaria na morte o Seu Enviado? A sua deceção era imensa. Tinham perdido com ele três anos da sua vida e Ele tinha-lhes dado tantas e tão fundadas esperanças. Mas tinham que assumir a realidade. Jesus de Nazaré não podia ser o Messias de Deus. Isto está bem descrito no texto dos discípulos de Emaús.
Mas depois aconteceu o estrondo da ressurreição: No entanto, os discípulos não estão preparados para tamanha novidade, da qual nunca tinha havido experiência alguma. No princípio fica a interrogação, a dúvida…o que quer isto dizer? Uns têm mais facilidade do que outros em acreditar no mistério, mas todos vão precisar de processar tanta novidade. As aparições do ressuscitado numa e noutra ocasião vão ajudar os discípulos neste trabalho de compreensão e de releitura de tudo o que viveram com Ele. Mas cada vez se torna mais evidente. Afinal Deus não tinha abandonado o seu Enviado, Ele tinha-O ressuscitado. E é quando eles percebem essa evidência, com a ajuda do Espírito Santo que lhes é dado, que se tornam capazes de sair dos seus medos onde estão fechados para sairem a anunciar com todas as suas forças o que viram e ouviram. É exatamente o que Pedro diz a Cornélio: Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos Judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia… Nós comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos.
Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. Mas as pessoas a quem os apóstolos vão pregar esta boa notícia já não conheceram Jesus, como é o caso de Cornélio e os de toda a sua família. Como poderão eles, então, fazer a mesma experiência de salvação e alegria que fizeram os apóstolos? Através da aceitação, pela fé, da palavra que é anunciada e proclamada pelos Apóstolos e que narra a sua experiência salvadora. Doravante, não serão as aparições do ressuscitado que farão as pessoas acreditar que Ele está vivo, mas é o testemunho vivo dos cristãos que fizeram a experiência do encontro pessoal com Cristo ressuscitado e que, por sua vez, o testemunham, que fará outros acreditarem.
A fé cristã não está ligada a uma palavra que tivesse ressoado do céu, mas a qualquer coisa que aconteceu na nossa terra. Alguns homens fizeram com Jesus a experiência de uma Redenção e de uma libertação, pois foram testemunhas da sua ressurreição de entre os mortos. Eles começaram a partilhar esta experiência libertadora a outros. Assim, a sua experiência tornou-se para nós, anúncio. De forma que, como disse Bento XVI, “a tradição cristã não começa por uma doutrina ou por uma moral, mas por uma história de experiência salvadora. A apropriação pessoal desta história não é, porém, possível a não ser que ela se torne para o ouvinte uma nova experiência que pode também ser identificada como a minha própria experiência. É só nesta condição que surge uma tradição viva, quer dizer, uma nova experiência viva que se torna para outros um anúncio vivo.”
Exemplo: A Manuela (nome fictício) perdeu toda a vontade de viver. Morreram-lhe algumas pessoas de família, todas no mesmo ano, e aconteceram-lhe muitas coisas que ela não conseguiu ultrapassar. A sua tristeza e desânimo foram tão grandes que já nem queria viver. Sentia-se apática e desinteressada por tudo. Um dia, a Manuela, por feliz acaso, encontrou a Andreia, uma rapariga que, num movimento de jovens cristãos, tinha conhecido o Senhor e tinha trazido à sua vida uma autêntica ressurreição, pois também a Andreia tinha tido um passado cheio de mágoas. Esta, sabendo da angústia em que vivia a Manuela, fala-lhe da sua experiência do Senhor, como O tinha conhecido e como Ele tinha transformado a sua vida, desde que lhe abriu o coração e a convidou a ir ao seu grupo cristão. A Manuela sentiu-se muito bem acolhida no grupo e ofereceram-se para orar por ela para que ela experimentasse a salvação que vem do Senhor. Ela aceitou Cristo no seu coração, pediu perdão dos seus pecados e fez a mesma experiência de salvação que a Andreia já tinha feito. A Manuela tornou-se depois uma grande missionária, pois Deus encheu de sol a sua vida. E assim a boa nova da ressurreição vai gerando vida nova através do anúncio de Cristo ressuscitado. Esta é a missão da Igreja, a missão dos cristãos, individual e comunitariamente: testemunhar, pela vida e pela palavra, a experiência salvadora que fazemos da vida de Jesus ressuscitado em nós. Eu já experimentei a força da ressurreição de Jesus na minha vida? E se sim, já partilhei com alguém a experiência de salvação que faço dele?

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