Folha Paroquial – Domingo X

Folha Paroquial – Domingo X

“«No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.»”

A folha pode ser descarregada em: Domingo X

«Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, que eles nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois se dizia: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não
pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode durar. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?». E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».»

A serpente enganou-me e eu comi.
Sempre que nos afastamos de Deus e não cumprimos a sua vontade, fazendo o mal contra a lei de Deus, contra os outros e contra nós mesmos, vemos que, afinal, a promessa de sermos felizes com o cometimento desse mal, não se confirmou. Foi uma mentira. O mal tenta-nos, aliciando-nos, mas depois deixa-nos entregues à nossa tristeza e ao nosso vazio.
Creio que, na vida moderna, deixamo-nos enganar por muitas vozes tentadoras que nos aliciam, nos prometem o paraíso da felicidade e nos inserem num mundo frenético para não pensarmos e nos deixarmos levar sem escutar o nosso interior. O barulho ensurdecedor e contínuo é um dos grandes enganos da serpente, nos tempos modernos, porque nos afasta de Deus, dos outros e de nós mesmos, para não vivermos segundo Deus e a Sua vontade.
Depois da cirurgia em que me arrancaram o pólipo da corda vocal tive que estar uma semana sem falar. Refugiei-me na Figueira da Foz e aproveitei para ir visitar as pequenas propriedades que os meus pais me deixaram e que agora são pinhais e eucaliptais. Foi bom ouvir o som do silêncio, apenas entrecortado pelo murmúrio do vento nas folhas das árvores ou de um réptil que fugia apressado à minha passagem e, ainda, de um javali assustado que me surpreendeu de repente. Trazia comigo, para todo o lado, o livro «A força do silêncio» que me ajudava a entrar dentro de mim para ouvir a voz sussurrante do Espírito. E dizia o autor, o cardeal Sarah, «o silêncio da vida quotidiana é uma condição indispensável para viver com os outros. Sem a capacidade de fazer silêncio, o homem não é capaz de ouvir o que o rodeia, amá-lo e compreendê-lo. A caridade nasce do silêncio. Procede de um coração silencioso capaz de escutar, de ouvir e de acolher (…) sem silêncio não há repouso, nem serenidade, nem vida interior (…) Hoje, num mundo com tanta tecnologia e tanta coisa para fazer, como se pode encontrar o silêncio? O barulho cansa, e temos a sensação de que o silêncio se tornou num oásis inatingível. As cidades tornaram-se fornalhas barulhentas onde nem a noite é poupada às agressões sonoras. Sem barulho, o homem pós moderno cai numa inquietude surda e lancinante. Está habituado a um barulho de fundo permanente, que o faz adoecer mas lhe dá segurança.”(Sarah, Roberto, a força do silêncio, ed Lucerna)Penso que a falta de silêncio na nossa vida é uma das causas importantes para muitos deixarem a fé, pois deixaram de experimentar o divino, deixarem de perder contacto com o mistério que os habita e a vida cai em trivialidade e sem sentido.
Na sua aparência festiva, o barulho é um turbilhão que evita ao homem enfrentar-se a si próprio. A agitação torna-se um tranquilizante, um sedativo, uma injeção de morfina, mas esse barulho é um medicamento perigoso e ilusório, uma mentira diabólica que permite que o homem não se confronte com o seu vazio. Quando vivemos sem interioridade, perde-se o respeito pela vida, pelas pessoas e pelas coisas pois, como disse em cima, sem o silêncio não somos capazes de escutar os outros e de ouvir o que nos rodeia. Mas sobretudo nos tornamos incapazes de escutar o mistério que habita no mais fundo da nossa alma.
Mas há uma esperança! É que apesar do homem moderno resistir à profundidade, não estar disposto a cuidar da sua vida interior, começa a sentir-se insatisfeito. Não sabe bem donde vem essa insatisfação mas sabe que lhe falta algo que a vida quotidiana não lhe está a proporcionar. E essa insatisfação é uma graça, pois torna-se um grito, uma ânsia que pode ser o princípio da salvação. Ainda esta semana atendi duas pessoas que estavam nesta situação e foi a insatisfação que os levou a procurar falar com um sacerdote.
Estou convencido que o silêncio da adoração eucarística ajudará a muitos a encontrar o mistério de Deus que os habita e a serem cada vez mais felizes porque se encontram com o mistério. E de um modo especial os que adoram durante a noite em que o total silêncio exterior é um caminho propício para o silêncio interior. O Espírito Santo conduz-nos à nossa interioridade onde Ele habita e aí O podemos encontrar. Pelo contrário, pecar contra o Espírito Santo seria carregar com o nosso pecado para sempre e fechar o nosso interior a Deus e à verdade. Diz o teólogo José Pagola: «O Espírito pode despertar em nós o desejo de lutar por algo mais nobre e melhor do que o trivial de cada dia. Pode dar-nos a audácia necessária para iniciar um trabalho interior em nós. O Espírito pode fazer brotar uma alegria diferente em nosso coração; pode vivificar a nossa vida envelhecida; pode acender em nós o amor inclusivamente para com aqueles por quem não sentimos o menor interesse.
O Espírito Santo habita o coração de cada homem. Oremos para que ninguém permaneça para sempre surdo ao seu murmúrio interior que clama por nós.

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