Folha Paroquial – Domingo XIII

Folha Paroquial – Domingo XIII

“«Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.»”

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«Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-Se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha f ilha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Entretanto, vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Mas riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.»

Eu vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.
Quando em vista da preparação das missas de Domingo comecei a meditar o evangelho deste dia, fiquei logo preso com as palavras de Jairo, chefe da sinagoga, a Jesus: ««A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Fui imediatamente transportado para um caso conhecido em que a mãe, entre lágrimas angustiadas me pede frequentemente: «A minha única filha está a morrer, reze por ela.» Decidi colocá-la todos os dias no altar da Eucaristia e confiá-la ao poder de Deus. Confio-a também à oração dos leitores. Jesus é o Salvador de todo o homem e do homem no seu todo. Os dez leprosos que lhe pediram para ser curados quando iam pelo caminho para se mostrarem aos sacerdotes perceberam que estavam curados, mas só um voltou atrás reconhecendo Aquele que o curou e prostrando-se diante dele. Foram dez os curados da doença física mas só um experimentou a salvação. Os textos de hoje mostram-nos, como grande parte dos evangelhos, que Deus é um Deus que cura porque quer salvar-nos por dentro. Quer que saibamos que somos amados e que a nossa vida tem um destino de eternidade. Ele compadece-se de nós e não quer a nossa doença ou morte, como diz a primeira leitura. “Não foi Deus quem fez a morte, nem Ele Se alegra com a perdição dos vivos”.
Hoje os nossos contemporâneos, mesmo os cristãos, não estamos muito à vontade com o tema da cura. Cheira-nos a charlatanismo ou exploração das fraquezas emocionais dos que estão em situação de fragilidade. Um padre dizia há tempos num sermão: «Hoje não há curas nem milagres. Isso era no tempo de Jesus». Não sei com que fé os participantes naquela missa de lá saíram. Mas uma das pessoas que ouviu e me contou disse para si mesma: “Aqui Deus morreu. Já não há nada a fazer nem a esperar». Foi o que concluíram os amigos de Jairo depois da filha ter morrido. «Já não vale a pena estares a importunar o mestre. A tua filha morreu.» Mas Jesus disse-lhe: “Não temas: crê somente.”
Cerca dum quarto dos evangelhos é consagrado à cura dos doentes, pois era o sinal por excelência de que o reino de Deus estava entre nós. E Jesus mandou a Igreja fazer o que Ele fez. Ao longo da história da Igreja nunca as curas cessaram, sinal de que Jesus está vivo. Santo Agostinho de Hipona ( 354-430), declara no seu livro a Cidade de Deus que “ ainda hoje milagres se realizam no nome de Cristo” Ele cita o exemplo de um homem cego em Milão que recuperou a vista, na sua presença. Cita igualmente uma mulher muito piedosa de uma grande linhagem- que foi curada de um cancro no seio, que os médicos diziam incurável.
Temos sido testemunhas, na paróquia de S. João Baptista, ao longo destes dois anos, de curas admiráveis pelas quais damos muitas graças a Deus. Isso tem tido como resultado as pessoas acreditarem mais no poder do Senhor e se voltarem mais para Ele. Cresceu enormemente os pedidos de oração durante as muitas horas de adoração. Se não acreditarmos e não pedirmos, não veremos a glória de Deus. Mas se acreditarmos Ele manifestará a Sua glória porque Ele quer que todos se salvem e dá-nos os sinais da sua salvação.
Não quero entrar pelo caminho fácil do curandeirismo ou charlatanismo. Sabemos que muitos por quem rezamos, não se curam, porque a cura não é um fim em si mesmo. As curas de Jesus estão ordenadas a qualquer coisa de mais importante, o reino de Deus, o anúncio de um mundo onde todos os sofrimentos serão abolidos, pois como diz a primeira leitura, «Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem da sua própria natureza». As curas são uma luz neste mundo a apontar para o mundo novo onde já não haverá mais doença, mais dor, mais morte.
A cura maior da nossa vida é a libertação do pecado e viver em harmonia e paz com Deus. Conhecemos muita gente de corpo são que está bastante doente e gente de corpo doente que vende alegria e paz, mas nada disto contradiz a importância de rezarmos pelos irmãos que nos pedem oração, pois muitos chegarão à fé ao experimentarem a solicitude misericordiosa de Deus para com eles. Frequentemente há pessoas que vêm ter com o sacerdote com pedidos que revelam uma crença não muito «católica». Pedem para benzer as casas porque andam lá coisas esquisitas, querem uma bênção porque acham que têm qualquer coisa que as anda a tentar. Muitas vezes lhes digo: “Vou rezar por si, não porque acredito que tenha alguma coisa disso, mas porque está a sofrer e precisa da graça de Deus. E então, ali mesmo, rezo com ela e por ela. Jesus disse: Não rejeitarei nenhum dos que vêm a Mim e nós temos de fazer o mesmo. E como dizia o P. Tardiff, «Não interessa a razão que as traz que pode ser errada, mas o que importa é como regressam.» Temos de acreditar mais no poder da oração feita com fé e confiança. A doença, seja ela psíquica, física ou espiritual, é um mal que existe no mundo que Deus não deseja para nós. Por isso é que a quantos sofrendo lhe pediam ajuda, Jesus compadecia-se da sua situação e a ninguém disse: «Olha carrega o sofrimento que é para desconto dos teus pecados». O leproso chegou junto d’Ele e disse-lhe: «Senhor, se tu quiseres podes curar-me”. E imediatamente ouviu a resposta: « Sim, quero, fica limpo».
Se é verdade que o sofrimento não vem de Deus, também é verdade que muitas vezes é através dele que encontramos a Deus. Muitas vezes é na experiência da nossa condição frágil como Jairo, ou a mulher com o fluxo de sangue, que nos aproximamos d’Ele e encontramos mais do que procurávamos. Procurávamos a cura do corpo e encontrámos a salvação do corpo e da alma que é muito mais. Bendito seja Deus que é nosso salvador.

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