Folha Paroquial nº 48 *Ano I* 21.10.2018 — DOMINGO XXIX

Folha Paroquial nº 48 *Ano I* 21.10.2018 — DOMINGO XXIX

«Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Mc 10, 35-45)
Naquele tempo, Jesus chamou os Doze e disse-lhes: Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».»

NÃO DEVE SER ASSIM ENTRE VÓS
No Domingo passado, as leituras falavam-nos do perigo das riquezas para o seguimento de Jesus. Dissemos que o dinheiro não é mau pois é necessário, mas que temos de prestar atenção para que ele não nos transforme de tal modo que nós sejamos servos dele em vez de senhores.
Hoje Jesus apresenta-nos um outro perigo bem real para o seu seguimento: o desejo de poder. Aliás, dinheiro e poder andam muitas vezes ligados. O texto de hoje segue-se ao terceiro anúncio da paixão. S. Marcos deixa-nos ver o grotesco da situação: Jesus acaba de fazer o terceiro anúncio da paixão dizendo “O filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e eles condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos gentios. Hão de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas três dias depois ressuscitará.” E o espanto é que é nesta altura que os filhos de Zebedeu se aproximam para lhe fazer o tal pedido de poder, metendo uma cunhazita.
Mas os outros dez indignaram-se com eles, não por acharem mal o que eles estavam a pedir, mas por se terem antecipado, e eles poderem ficar só com os cargos mais baixos na hierarquia do poder… É interessante que, mais tarde, quando se tratar de pôr o Evangelho por escrito- nenhum dos evangelistas vai deixar no esquecimento esta passagem- S. Mateus não vai ter coragem de mostrar esta fraqueza de Tiago e de João, por pudor, e coloca a mãe deles a fazer o pedido a Jesus. (Cf Mt 20, 20).
Jesus já tinha falado muitas vezes com os discípulos sobre a humildade e o serviço e sobretudo o seu exemplo era muito forte, mas, apesar de já andarem com Jesus há cerca de três anos, a sua renúncia ao poder e a opção pelo serviço não estava ainda feita.
Jesus chama-os de lado e diz-lhes com solenidade: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»
Disse há pouco que nenhum evangelista deixa em branco esta cena, pois consideram que a dimensão do serviço humilde e a renúncia às grandezas e ao poder bem como o desapego do dinheiro, faz parte essencial da mensagem do Reino que Jesus pregou, mas, S. João, em vez de contar o acontecimento como os outros Sinópticos, conta-o através do gesto do lava-pés que a Igreja mimetiza na Quinta-feira santa. O que Jesus diz aos discípulos no fim de lhes lavar os pés é, no essencial, o mesmo que é dito pelos outros evangelistas.
«Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.» (Jo 13, 13-17)
Marcados pelo pecado original, nós trazemos connosco uma tendência quase inata para o poder, para o domínio de uns sobre os outros bem como para possuir bens ou riquezas que nos possam obter esse poder. Ninguém está isento desta tentação visceral por mais espiritual que pareça ser. Aliás, é um pecado ainda maior quando se aproveita o espiritual para conquistar o poder. Foi um dos grandes pecados dos discípulos de Cristo de todos os tempos, apesar de Ele os ter prevenido desde o início. Dissemos no domingo passado, a propósito do dinheiro, que o antídoto para este apego era o dar com frequência e como hábito. O desejo do poder tem também um antídoto que o serviço humilde. Quem serve, transforma o poder que tem em serviço e constrói o mundo livre de cadeias que o aprisionam. Jesus diz aos discípulos: “vós chamais-me Mestre e Senhor e dizeis bem, pois o sou.” Jesus não nega que tem poder sobre os discípulos. Aliás na Ascensão Ele diz: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra”. O papa tem poder, o professor na aula tem poder, aliás o problema é quando o desautorizam e ele perde a capacidade de ter poder para servir melhor. O pai e a mãe têm poder na família e é preciso que lho reconheçam. Quando elegemos alguém para estar à frente de uma associação ou de um grupo qualquer o que estamos a fazer é conferir-lhe poder para ele realizar essa função e servir os outros, mas se não tiver poder também não pode servir. Só que aquilo que Jesus nos previne é que todo o poder tem de ser visto como serviço e vivido como tal. A pessoa a quem é confiado o poder não fica mais importante, mas mais serva dos seus irmãos. «Aquele de entre vós que quiser ser o maior… faça-se, o servo de todos. Jesus diz, depois do lava-pés: Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.» (Jo 13, 13-17). É feliz aquele que, como Jesus, serve por amor, porque se torna verdadeiro discípulo do Mestre. Que a nossa paróquia apareça como serva e que os cristãos deem testemunho de que querem ser discípulos de Jesus o servo da humanidade que veio para servir e dar a vida por todos.

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