A Oração (Cont.)

A Oração (Cont.)

Falámos no Domingo passado da oração de meditação ou Lectio Divina. Hoje falamos daquilo que se costuma chamar, em Português, oração mental. O que é a oração mental? Santa Teresa de Ávila, ajuda-nos na resposta: «A oração mental não é, em meu entender, senão uma relação íntima de amizade, em que muitas vezes nos entretemos a sós com Deus, que sabemos que nos ama» Esta definição é a que melhor expressa o que é a oração mental: um encontro de dois amores; o de Deus por mim e o de mim por Deus. Cito o Catecismo da Igreja Católica: «A oração mental procura «Aquele que o meu coração ama», (CT1,7) que é Jesus, e n’Ele o Pai. Ele é procurado na fé pura, a fé que nos faz nascer d’Ele e viver n’Ele: Nesta modalidade, pode ainda meditar-se; todavia, o olhar vai todo para o Senhor.

Pessoalmente, quando falo em oração, sem mais explicações, é a este tipo de oração que me refiro.

Esta oração não é possível fazer sem tempo exclusivo para estar a sós com Ele. Mas quando se faz determinada e fielmente, traz um fruto grande à alma. S. João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars, encantava-se ao ver um paroquiano simples e humilde que todos os dias vinha rezar longamente à igreja paroquial e ali fixava de tal modo os olhos no sacrário que deixava o santo admirado com o seu paroquiano. Um dia, S. João Maria Vianney pergunta-lhe: “O que dizes a Deus quando estás tão embevecido na oração?” E o pobre aldeão, rico de amor a Deus, respondeu com simplicidade: «Eu não digo nada: “Je l’avise et il m’avise”»: é a resposta na língua original que significa “Eu olho fixamente para Ele e Ele olha para mim”. A oração mental é este olhar de amor, este estar na presença do amado que nos dá alegria, fortaleza, serenidade e paz. Esta oração pode ser feita diante do Santíssimo Sacramento escondido no sacrário, ou solenemente exposto no altar, ou no meu recanto de oração lá em casa, onde me coloco a sós com Deus.

A entrada em oração é análoga à da Liturgia eucarística: «reunir o coração, recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, habitar na casa do Senhor que nós somos, despertar a fé para entrar na presença d’Aquele que nos espera, fazer sair a máscara e voltar o coração para o Senhor que nos ama, de modo a entregarmo-nos a Ele como oferta a purificar e transformar».

Pode acontecer, neste encontro de amantes entre Deus e a alma humana, que nos sintamos tão inundados pela presença divina em nós que nos faltem palavras e fique só o silêncio ou um balbuciar do nome de Deus. Nestes momentos sentimo-nos pequeninos, quase nada, diante da grandeza do amor de Deus que se nos revela. E então entregamo-nos a Ele rendidos, dizendo-lhe «Eis-me aqui», “fala, Senhor, que o teu servo escuta”, «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». E quando chegamos aqui estamos na verdadeira adoração, prostração rendida diante da grandeza infinita de Deus.

A melhor definição de adoração é “rendição”. Muitas vezes andamos em luta com Deus, ele pede-nos algo mas nós temos medo e não nos entregamos. Na adoração, diante da experiência da grandeza de Deus, nós entregamo-nos. É na adoração que nascem as vocações, todas as vocações, de serviço a Deus e à Igreja. Isaías, na liturgia do templo, experimenta a glória da presença de Deus e sente-se inundado do divino; então, ouve a voz do Senhor que pergunta: «Quem enviarei eu, quem irá por mim?», e logo ele exclama: «Eis-me aqui, podeis enviar-me». Está rendido à presença de Deus porque agora sabe quem Ele é, e que d’Ele tudo pode esperar. A oração mental pode conduzir-nos à adoração, ao louvor, à ação de graças.

Mas sobre estas expressões de oração falaremos no próximo Domingo e com as quais concluiremos o pequeno percurso sobre oração para entrar no dos sacramentos.

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