Folha Paroquial nº 65 *Ano II* 17.2.2019 — DOMINGO VI DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 65 *Ano II* 17.2.2019 — DOMINGO VI DO TEMPO COMUM

«Feliz o homem que pôs a sua esperança no Senhor..»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 6, 17.20-26)
Naquele tempo, Jesus desceu do monte, na companhia dos Apóstolos, e deteve-Se num sítio plano, com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia. Erguendo então os olhos para os discípulos, disse: Bem-aventurados vós, os pobres, porque é vosso o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem e insultarem e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa recompensa. Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa c onsolação. Ai de v ós, que agora estais saciados, porque haveis de ter fome. Ai de vós, que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar. Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem. Era assim que os seus antepassados tratavam os falsos profetas.»

MEDITAÇÃO
Os dois caminhos: O da bênção e o da maldição.
Ela tinha uma boa reforma de alguns milhares de euros e ainda acumulava com a do marido que tinha morrido. Mas vivia em grande simplicidade e até austeridade. Só tinha um filho adotado e tinha
recursos suficientes para lhe deixar bens em herança. Mas tanto gente singular como instituições de bem-fazer podiam sempre contar com ela. O interessante é que fazia quase tudo anonimamente. Várias vezes na paróquia recebi envelopes com dinheiro avultado para obras no centros social, na igreja, no grupo socio-caritativo. Sabia de quem vinha apesar de virem anónimos.
Quando faleceu as pessoas diziam: Viveu a fazer o bem.. .Deu-se aos outros. Foi como o bom samaritano que sempre se compadecia dos que encontrava à beira do caminho. E não foram precisas grandes palavras naquela missa de exéquias. Toda a gente tinha a convicção de que a sua vida tinha sido mergulhada no divino e sabiam que dela era o reino dos céus.
Mas recordo outro caso, quando era ainda criança em idade escolar. Um senhor da minha aldeia tinha andado no Brasil e feito uma pequena fortuna para aquele tempo. Voltado para a aldeia era
o único que tinha dinheiro no meio daquela pobreza toda. As pessoas quando precisavam muito de dinheiro batiam-lhe à porta e pediam emprestado. E ele emprestava com juros muito altos. Como
passado o tempo, as pessoas não tinham com que pagar, ficava-lhes com os bens que eram a sua sobrevivência. E morreu sozinho, sem amor, sem amigos. Foi o primeiro funeral a que fui, com uma opa vermelha vestida, e já me sentia grande por poder também vestir uma opa. Mas ao contrário do costume, as pessoas todas falavam alto o que me chamou a atenção. Alguém mais piedoso pediu mais silêncio, enquanto se caminhava para o cemitério levando a carreta, mas a resposta foi: « Silêncio para quê? Respeito por aquele que não nos respeitou?» Nunca mais esqueci aquele episódio pois achei pena que alguém chegue ao fim da vida e não deixe saudade nenhuma porque viveu só a pensar em si.
Nestes dois exemplos temos as bem aventuranças e as maldições que S. Lucas coloca na boca de Jesus.
A vivência das bem-aventuranças são a expressão de uma fé feita de confiança em Deus que não falha. Quem confia n’Ele não vive preocupado com amealhar. Diz-nos a 1ª leitura: “Bendito quem
confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança. E as bemaventuranças de Jesus estão baseadas nesta confiança: “Bemaventurados, vós os pobres porque é vosso o reino dos céus.”
Jesus diz-nos que há um caminho verdadeiro para a felicidade que Ele nos indica e que há caminhos falaciosos que parecem ser uma miragem a prometer-nos felicidade mas que são isso mesmo, uma
miragem. Segundo Jesus, “é melhor dar do que receber, é melhor servir que dominar, é melhor partilhar do que amealhar para si, é melhor perdoar do que vingar-se, é melhor criar vida do que
explorar. E no fundo, quando conseguimos escutar sinceramente o melhor que há no fundo do nosso coração sabemos que Jesus tem razão. E cá dentro sentimos necessidade de gritar também hoje as
bem-aventuranças e as maldições que Jesus gritou.” (J. Pagola) .
Felizes os que aceitam dar e partilhar o pouco que têm com os seus irmãos, com o serviço de Deus, da igreja, dos pobres. Malditos os que só se preocupam com a s suas riquezas e os seus interesses.
Felizes os que podendo viver mais comodamente, escolhem uma vida simples porque querem partilhar, como no primeiro exemplo que dei. Malditos os que são capazes de viver tranquilos e
satisfeitos, sem se preocupar com os que à sua volta choram e sofrem. Deus está do lado deles e contra os exploradores.
Tanto a 1º leitura como as bem-aventuranças de Lucas não nos deixam esquecer que não é a mesma coisa amar ou não amar, dar ou não dar, servir ou não servir, escolher o comodismo ou escolher a
desinstalação para fazer o bem. Hoje nas pregações corremos o risco de deixar na sombra o juizo de Deus contra os que de uma forma perseverante fazem o mal e não se arrependem. Os nossos
actos têm consequências para a nossa salvação ou perdição eterna.
Podemos analisar como pensamos e agimos quando damos na igreja ou noutra situação em que somos chamados a partilhar Quando damos na igreja, por exemplo, parece que muita gente
pensa: « Vamos lá ver qual a moeda mais pequenina que aqui tenho…» Felizmente também há quem não pense assim: De certeza que há pessoas na assembleia com dificuldades mas há
também, de certeza, gente que vive folgadamente. Uma eucaristia com 300 pessoas não chega a dar 150 euros o que significa que foi uma média abaixo de 50 cêntimos por pessoa. Deus e a
comunidade cristã onde recebi a fé e a alimento têm assim tão pouco valor para mim? Eu sei que é um costume que vem detrás mas que exige reflexão. Há tempos houve aqui um casamento, em
S. José, que gastou 2.000 euros para enfeitar a igreja de flores… mas não davam nada à igreja se não lhes tivesse sido lembrado que deviam deixar alguma coisa. Deixaram 30 euros. O nosso
crescimento na identificação com Cristo passa por vermos como lidamos com os bens materiais e vermos as prioridades que existem na nossa vida. Se gastamos tanto dinheiro em coisas
supérfluas e depois resistimos a dar para boas obras da comunidade ou para quem precisa, vê-se logo onde está o nosso coração. E se entregamos o nosso coração ao supérfluo, pode
acontecer que a nossa vida se funde no supérfluo, casa construída na areia movediça que depressa se esmorona.
Quanto bem a comunidade poderia fazer a nível da evangelização, da compaixão, da solidariedade, da formação e de acolhimento às pessoas ! Bem-aventurados vós os que confiais em Deus e por isso
vos destes com amor….malditos vós que amealhastes e pensastes só em vós. Já recebestes a vossa recompensa na terra.

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