Folha Paroquial nº 67 *Ano II* 03.03.2019 — DOMINGO VIII DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 67 *Ano II* 03.03.2019 — DOMINGO VIII DO TEMPO COMUM

«É bom louvar o Senhor.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 6, 39-45)
Naquele tempo, disse Jesus aos discípulos a seguinte parábola: «Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova? O discípulo não é superior ao mestre, mas todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre. Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’, se tu não vês a trave que está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão. Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. Cada árvore conhece-se pelo seu fruto: não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas das sarças. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração».»

MEDITAÇÃO
«O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração» O que é que a Bíblia chama coração, donde o homem pode tirar o bem ou o mal? Hoje gostaria de falar desta zona íntima onde o homem se encontra com Deus e traz em si a imagem e semelhança divina. São quatro dimensões constitutivas do ser humano, embora só uma delas seja palpável pelo bisturi dos médicos. A primeira delas é a física, biológica, material: a do corpo (soma.) É a mais fácil de identificar, é palpável visível, sensível. Sentimos frio, calor, prazer, sofrimento, fome, sede etc. A segunda mais interior, é feita de sentimentos, emoções, afetos: sentimos medo, cólera, ódio, amor, paixão. É a dimensão psíquica. (psychè). Percebemo-la bem em nós e sentimo-la mas não a vemos da mesma forma que vemos as coisas materiais como o corpo. A terceira, é a nossa dimensão mental ou racional, (nous). Com ela estruturamos o pensamento, associamos as coisas e simbolizamos a realidade. Isto permite-nos pensar de forma crítica e livre ainda que dentro de certos limites, pois também temos condicionalismos.
Finalmente, chegamos à quarta dimensão, a mais profunda em nós e que dá à pessoa humana a sua mais alta dignidade. É a dimensão do espírito (pneuma). A Bíblia chama a esta dimensão, “coração” e, na tradição da Igreja, chamamos-lhe : alma ou espírito. É a dimensão espiritual exclusiva do ser humano. No domingo passado dizia que nós, feitos à imagem do Pai celeste, trazemos connosco este património Seu que partilhou connosco. Temos algo do Pai celeste, isto é, espiritual, quase divino. Ele soprou o seu sopro vital sobre nós e comunicou-nos o seu ser divino, o seu espírito. Daí a nossa grandeza, dentro dos limites da nossa condição terrena. Por isso o salmista exclama: «Quem é o homem, Senhor, para que dele cuideis? Fizeste dele quase um ser divino, de honra e glória o coroastes. (salmo 8). Porque é que só o ser humano é religioso desde o início e, embora tateando, sempre procurou deuses ou Deus? Porque nos interrogamos tanto sobre o sentido da vida e da existência? Porque temos sentido ético? Porque somos seres sempre insatisfeitos e sentimos que nos falta sempre algo mais? É porque temos em nós a marca de Deus, o selo divino. Não somos só pó da terra. Aspiramos ao absoluto, aspiramos por Deus como uma saudade que trazemos em nós. É no nosso coração, nesta dimensão capaz de Deus, que se situa o nosso Eu profundo, aquilo que me constitui de original e único. É aqui que se inscreve a minha liberdade e a minha capacidade de decisão, de escolher o bem mesmo quando o meu corpo e os meus sentimentos me pedem outra coisa. Posso decidir ao contrário dos meus impulsos quando eles não me conduzem para aquilo que eu sei ser o bem, porque tenho uma consciência moral, um centro de liberdade e vontade que pode comandar todas as potências do meu ser. O pensamento de Jesus no evangelho de hoje é claro: O homem verdadeiro constrói-se a partir do coração, deste seu centro interior. É aqui, no coração, que se joga o melhor e o pior de nós mesmos. Ou deixamos que Deus habite este nosso centro interior com a Sua luz ou fechamo-nos a Ele e então essa zona íntima passa a ser habitada pelas trevas e pelo vazio e só pode produzir o mal. Quando Jesus disse a Zaqueu: «Zaqueu hoje preciso de ficar em tua casa.» Zaqueu recebeu-O cheio de alegria e logo se viu o resultado. Toda a vida de Zaqueu mudou porque a sua casa interior foi iluminada. Jesus diz no Apocalipse: «Eis que eu estou à porta e bato, se alguém ouvir e abrir a porta eu entrarei e cearei com Ele e Ele comigo» Quando este centro interior da nossa vida é habitado por Ele, todo o nosso ser; corpo, psíquico e mente, entram em harmonia e nós sentimo-nos unificados, íntegros, inteiros. Quando esta zona íntima não tem a luz da presença de Deus, tornamo-nos seres espartilhados, divididos, desintegrados e o fruto que produzimos é mau, pois vem da carne e não do espírito.A palavra de Jesus tem hoje mais atualidade que nunca pois vivemos numa sociedade programada a partir de fora e onde os indivíduos são vítimas de modas e padrões obrigatórios. É preciso «interiorizar a vida» para nos tornarmos mais humanos. Por isso precisamos do silêncio e da oração. Precisamos de ouvir o nosso Mestre interior a conduzir-nos e a falar-nos. A Eucaristia enche constantemente de luz o nosso coração e irradia para todo o nosso ser. Mas o que comunga precisa de purificar constantemente o seu coração pela confissão e pelo perdão para oferecer a Deus uma digna morada.
O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração».

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