Folha Paroquial nº 68 *Ano II* 10.03.2019 — DOMINGO I DA QUARESMA

Folha Paroquial nº 68 *Ano II* 10.03.2019 — DOMINGO I DA QUARESMA

«Estai comigo, Senhor, no meio da adversidade.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 4, 1-13)
Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O Diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O Diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.»

À primeira impressão não percebemos bem a relação que existe entre a 1ª leitura do livro do Deuteronómio e o Evangelho que neste dia nos narra as tentações de Jesus como acontece em todos os primeiros domingos da quaresma. Mas se continuamos a escavar nos textos vamos descobrindo a complementaridade. Quais são as tentações que o demónio lança a Jesus? Que Jesus se desligue de Deus e da Sua palavra e se deixe levar pelas grandes tentações humanas de ter, poder e prestígio. Sempre que abandonamos a Palavra de Deus para seguir os nossos critérios entramos na idolatria. A resposta de Jesus ao demónio é o cumprimento da Palavra de Deus escrita. «Está escrito» .
Na 1ª leitura, ouvimos o credo de Israel, que era uma confissão dos feitos maravilhosos de Deus para introduzir o povo na Terra Prometida para que o povo, já na possa da terra, nunca esquecesse quem lhe deu a mesma onde agora colhe os frutos e os animais. A tentação do povo, rodeado por povos idólatras, era cair também na adoração desses ídolos esquecendo o seu Deus e os seus dons admiráveis. Ao oferecer em cada ano as primícias dos frutos da terra e as primícias dos rebanhos (as primícias eram os primeiros frutos), o povo recordava-se de quem lhe deu tudo, permanecendo fiel ao Deus único e verdadeiro. Depois da oferta das primícias prostravam-se em adoração reconhecendo o Senhor como o seu único Deus. A oração que, na paróquia de S. João Baptista se faz, imediatamente antes de irmos ao altar oferecer o nosso dom no último Domingo do mês, dia da pastoral da partilha, está inspirada nesta confissão de fé de Israel. Nós rezamos: «Esta minha oferta SENHOR, é para vos adorar, pois sois o meu Criador, eu, vossa criatura; Esta minha oferta é para reconhecer que Sois infinitamente generoso para comigo; E porque vos amo SENHOR, vos ofereço uma parte daquilo com que me enriquecestes, pois tudo o que possuo, de Vós recebi; Aceitai, esta minha oferta, expressão da minha fé, da minha caridade.» Ao darmos generosamente ao Senhor, reconhecemos que tudo vem d’Ele e que nós fomos constituídos em administradores dos seus dons e não em donos absolutos. Renunciamos assim a pôr a nossa confiança nos bens ou no ter, tentação que o demónio coloca a Jesus, para colocar a nossa confiança só em Deus que tudo nos dá. Mas isto não se entende se não tivermos feito a experiência do Espírito Santo. Por isso S. Lucas tem o cuidado de nos contar que Jesus foi para o deserto, cheio do Espírito Santo, depois do seu batismo. A experiência mais profunda que Jesus fez foi a de ser o Filho do amor do Pai. «Este é o meu Filho muito amado em quem pus todo o meu enlevo» E o Espírito Santo desceu sobre Ele. As tentações do demónio têm a ver com a sua própria identidade de Messias, Filho de Deus. O demónio começa por lhe dizer no princípio de cada tentação: «Se és Filho de Deus…» Ora essa era a experiência mais profunda de Jesus, a sua riqueza fundamental, o seu nome excelso. Mas o demónio pretende subjugá-lo oferecendo-lhe poder, riquezas, prestígio à custa da desobediência à Palavra de Deus. Mas é no facto de ser o «Filho amado» que Jesus coloca a sua confiança.
Ao entrarmos na quaresma devemos ter também presente a nossa identidade fundamental. «Somos filhos do pai celeste, e somos chamados a renunciar a tudo o que negue esta filiação divina em Cristo. A nossa riqueza não está no ter, no fazer, ou no prestígio do nosso bom nome. A nossa identidade mais profunda é a de sermos filhos do Pai celeste. Tudo o resto acaba, mas a nossa filiação divina em Cristo é eterna. A quaresma é o tempo de regressarmos ao essencial, de nos desembaraçarmos de tudo o que não deixa brilhar em nós a nossa condição de filhos. A prata e o ouro com o tempo vão perdendo brilho e beleza. De vez em quando temos de os levar a um ourives que limpe aquilo que acumulou e foi escondendo a beleza da prata ou do ouro. O nosso pecado, a nossa negligência espiritual, vai também escondendo a beleza da nossa filiação divina. Mas na medida em que nos aproximamos de Deus e purificarmos o nosso coração pela caridade, vamos resplandecendo a glória de filhos de Deus. Diz Paulo: E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito.( 2 Cor 3, 18)
Que o nosso trabalho quaresmal nos leve com Jesus ao Monte da transfiguração para que, pela ação do seu Espírito e da nossa colaboração, possamos resplandecer melhor a imagem do Senhor na nossa vida.

«Oração
Senhor Jesus, que no deserto Venceste a tentação, renunciando a um caminho de poder e de triunfo, concede-nos a graça de vivermos enraizados em Ti, para que em cada dia do nosso caminhar sejas Tu em nós a vencer todo o mal. Dá-nos a humildade necessária para reconhecer em cada proposta do mal um caminho para a nossa desintegração. Ajuda-nos, com a força do Teu Espírito, a discernir o bem e o mal. Liberta-nos daquela cegueira que é a autojustificação de quem nunca se sente pecador porque não mata, não rouba… Ajuda-nos a olhar a vida, as nossas relações humanas, as nossas intenções com profundidade, para que, à luz da Tua Palavra saibamos sempre pedir um coração contrito. Dá-nos arrependimento sincero, Senhor, para que o caminho de Conversão que agora iniciamos possa ser autêntico, na configuração Contigo, rumo à Páscoa, na cruz e pela cruz.»

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