Folha Paroquial nº 69 *Ano II* 17.03.2019 — DOMINGO II DA QUARESMA

Folha Paroquial nº 69 *Ano II* 17.03.2019 — DOMINGO II DA QUARESMA

«O Senhor é a minha luz e a minha salvação.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 9, 28b-3)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.»

MEDITAÇÃO
Pretendo que a reflexão que vou fazendo com o comentário às leituras de cada Domingo, não seja algo isolado e sem nexo uns com os outros, mas que sejam blocos de 3 a 5 semanas em interligação tanto quanto as leituras no-lo permitirem. Por isso relembro o que escrevi e disse na semana passada e já na continuação de outras anteriores.
A propósito das tentações de Jesus e das nossas afirmei: “A nossa riqueza não está no ter, no fazer, ou no prestígio do nosso bom nome. A nossa identidade mais profunda é a de sermos filhos do Pai celeste. Tudo o resto acaba, mas a nossa filiação divina em Cristo é eterna. A quaresma é o tempo de regressarmos ao essencial, de nos desembaraçarmos de tudo o que não deixa brilhar em nós a nossa condição de filhos. O nosso pecado, a nossa negligência espiritual, vai escondendo a beleza da nossa filiação divina. Mas na medida em que nos aproximamos de Deus e purificarmos o coração pela caridade, vamos resplandecendo a glória de filhos de Deus. Diz Paulo: E nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito. (2 Cor 3, 18) Que o nosso trabalho quaresmal nos leve, com Jesus, ao Monte da transfiguração para que, pela ação do seu Espírito e da nossa colaboração, possamos resplandecer melhor a imagem do Senhor na nossa vida.
E aqui estamos hoje, com Jesus no Monte da Transfiguração. Tentemos perceber-lhe o sentido.
Quando vamos em peregrinação à Terra Santa é passagem obrigatória a ida a Monte Tabor. Lá está uma igreja construída sobre outra muito mais antiga a atestar o lugar da transfiguração do Senhor. Este acontecimento histórico ficou bem guardado na memória dos discípulos tanto que Pedro vários anos mais tarde vai referir-se a ele dizendo: “Demos-vos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por havermos ido atrás de fábulas engenhosas, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. 17Com efeito, Ele foi honrado e glorificado por Deus Pai, quando a excelsa Glória lhe dirigiu esta voz: Este é o meu Filho, o meu muito Amado, em quem Eu pus o meu encanto.18E esta voz, vinda do Céu, nós mesmos a ouvimos quando estávamos com Ele na montanha santa.” (2 Pd1,16-18). Pude imaginar, naquele lugar, a experiência dos discípulos ao verem o corpo de Jesus, revestido de luz e de glória, como se já tivesse vencido a morte e recebido um corpo glorioso. E de facto, é isso que Jesus pretende mostrar aos discípulos preparando-os para a experiência dolorosa da sua morte. Lembram-se que alguns dias antes da Transfiguração, quando estavam em oração, Jesus fez aos discípulos uma pergunta crucial: «Quem dizeis vós que eu sou? Pedro respondeu: Tu és Cristo, (quer dizer o Messias), o Filho de Deus. E Jesus acrescentou: Sim, Mas não como esperam, a glória sim, mas não à maneira dos homens. «O filho do homem tem de sofrer muito, será rejeitado …morto, mas três dias depois ressuscitará. Cerca de oito dias depois, Jesus sobe ao monte levando consigo os privilegiados Pedro, Tiago e João. De novo quer orar com eles, e é enquanto rezam que Deus revela o mistério do Messias. Agora já não são as multidões que dizem quem ele é, nem sequer os discípulos, é o próprio Deus que responde sobre a identidade do Messias e nos dá a contemplar o mistério de Cristo: «Este é o meu Filho, o meu eleito, escutai-O.» Este monte da transfiguração faz-nos pensar no Sinai; e Lucas escolhe bem o seu vocabulário para nos fazer evocar o contexto da revelação de Deus no monte Sinai: O monte, a nuvem, a glória, a voz tonitruante, as tendas…E assim compreendemos melhor a presença de Moisés e Elias ao lado de Jesus. Sabemos que Moisés passou quarenta dias no Sinai na presença de Deus e quando voltou o seu rosto resplandecia de tal maneira que todos ficaram espantados. Também Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites no deserto até chegar ao mesmo monte Sinai ou Horeb que é o mesmo. E foi aí que Deus se revelou a ele de forma inesperada: não no ruído do vento, nem da grandeza do fogo, nem nos tremores de terra, mas no doce murmúrio de uma brisa ligeira. Assim as duas personagens do Antigo Testamento que tiveram o privilégio da revelação da glória de Deus no cimo do Monte estão igualmente presentes na altura da manifestação da glória de Cristo. E Lucas diz-nos o conteúdo da sua conversa. Falavam da morte de Jesus que se ia consumar em Jerusalém. Pela sua morte e ressurreição ele receberá um corpo gloriosos mas nós, participando também da sua morte e assumindo a cruz da vida unidos a Ele, participaremos da mesma glória de ressuscitados. E isso já começou em nós, no batismo. A nossa transfiguração já está a acontecer na medida em que nos unimos a Ele participando nos seus sofrimentos. E a segunda leitura, da carta aos Filipenses, resume bem isto: A nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso. (…) Entretanto o Espírito vai trabalhando em nós na medida em que O acolhemos, pois “nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito”. “Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor”. Continuemos firmemente a nossa quaresma pois sabemos a meta para onde caminhamos: Bendito seja Deus pela esperança a que fomos chamados.

«Oração
Senhor, o teu rosto é sempre luminoso. Nele encontramos sempre aquele brilho que falta à nossa vida, tantas vezes sombria, opaca pelo pecado, pelas dificuldades do nosso peregrinar. Em cada jornada convidas-nos a subir ao monte, para nos transfigurares na tua luz, numa Páscoa contínua, que sempre nos revela a Tua e a nossa identidade. Quantas vezes a Eucaristia e a oração são para nós a oportunidade para subrimos ao monte da Transfiguração! E tantas vezes saímos de rosto sombrio porque fechámos os olhos à eterna novidade que és Tu, porque não Te escutamos. Tantas vezes não queremos assumir a consequência de sermos iluminados por Ti, porque não queremos descer, porque é mais confortável estar na comtemplação do Teu rosto do que contemplar o rosto do irmão a mesma Luz divina, que é transfiguração na dor e no sofrimento. Dá-nos, Senhor, disponibilidade para subir ao monte e coragem para descermos. Dá-nos a virtude da contemplação e a determinação da ação, para sermos portadores da Tua Luz nas sombras do mundo.»

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