Folha Paroquial nº 88 *Ano II* 01.09.2019 — DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 88 *Ano II* 01.09.2019 — DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM

«Na vossa bondade, Senhor, preparastes uma casa para o pobre.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 14, 1.7-14)
Naquele tempo, Jesus entrou, num sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos O observavam. Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». Jesus disse ainda a quem O tinha convidado: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.»

MEDITAÇÃO
O orgulho, primeiro pecado capital e a humildade o seu remédio
A Bíblia fala tanto da virtude da humildade por ela ser o remédio do maior pecado que nos afasta de Deus e dos outros. A Escritura é bem forte com o orgulhoso. «O Senhor derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes». Tanto o Antigo como o No-vo testamento diz que «Deus resiste aos orgulhosos e dá a sua graça aos humildes ( Pr 3, 34, Tg 4,6, 1 Pd 5,5) Cassien, um grande mestre espiritual francês, afirma: Esta resistência de Deus não existe para os outros pecados: Que grande mal é então o orgulho, para merecer ter como adversário não um anjo, nem outros oposi-tores, mas o próprio Deus? E o grande mestre espiritual responde: “É que o orgulho é contra o próprio Deus em pessoa!”
O que é o orgulho? Ele apresenta-se sob duas faces, segundo o enaltecimento do «eu», estar no final ou no princípio das ações do orgulhoso. Dito de outro modo, dependendo deste viver só para si mesmo, ou só por ele mesmo. Na primeira, dizemos que é egoísta, uma forma de orgulho que tem no centro o «eu», a segunda for-ma, chamamos-lhe independência, que é uma outra forma subtil de orgulho. O egoísta não ama o outro ou, se o ama, é porque ele lhe interessa. Mais ainda; ele está de tal forma no centro de si mesmo que Deus é evacuado. Ele não age nem para a glória de Deus nem para o amor dos outros, mas para a sua própria pessoa ainda que pareça muito religioso e muito cumpridor dos preceitos. É por isso que S. Paulo diz que o soberbo é um vaidoso e S. João Crisóstomo dizia que o a soberba, outro nome do orgulho, é uma doença da alma. Existe uma forma, subtil, de orgulho: a indepen-dência: Pode-se de facto ser generoso, dar-se ao próximo, sem deixar de ser orgulhoso: Certo, vive-se para o outro, ou até para Deus, mas sem deixar de viver por nós, a partir das nossas forças, do nosso eu. Esta forma de orgulho pode chamar-se também au-tossuficiência que hoje é muito exaltada. «Eu não preciso de nin-guém», não quero depender de ninguém. Não é uma das razões porque muitos querem a eutanásia para não dependerem de nin-guém quando caírem doentes e não se puderem valer a si mes-mos?
Mas será assim tão evidente que o egoísmo e a independência, estas duas faces diferentes do orgulho, sejam pecados? Em primei-ro lugar o amor a si mesmo não é mau. Antes pelo contrário. O “eu” não é odiável. Odiar-se é também orgulho. A autoestima é uma qualidade indispensável para viver. Precisamos de saber dizer «eu» antes de dizer «tu», é assim na ordem da conjugação dos pronomes pessoais e é também na ordem do amor. Cristo diz-nos para amarmos o próximo como nos amamos a nós mesmos. Tor-nar-se adulto é afirmar-se com os seus gostos próprios, as suas opiniões, decidir por si mesmo, etc. Por outro lado a independên-cia é também um critério de maturidade. Hoje, na sociedade oci-dental, dizem alguns psicólogos que cresce o número de adultos-adolescentes que permanecem em casa dos pais, eternizando ou multiplicando os seus estudos, evitando o compromisso, porque não ousam enfrentar o mundo, o outro, os conflitos o fracasso. O homem, à medida que cresce, vai aprendendo a ser autónomo. Mas não se deve confundir esta autonomia da pessoa com o senti-do de independência em relação a tudo ou a todos que tem sem-pre na génese o orgulho.
Porque é que o orgulho é um pecado capital? Diz o livro do ecle-siástico: «O princípio de todo o pecado é o orgulho» E a 1ª leitura de hoje diz-nos: «A desgraça do soberbo (ou orgulhoso) não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes.» Quer dizer, o pecado está na raíz de todos os outros. Transgredimos a lei de Deus porque colocamos a nossa lei acima da de Deus. Não é o que hoje está enraizado na nossa cultura? Eu é que sei o que é o bem. O orgulho é não somente o primeiro pecado, o pecado primordial, mas é o gerador, o pai de todos os outros pecados capitais, que serão eles mesmos a fonte de todos os outros pecados.
O orgulho é um pecado que leva à morte mas, felizmente, tem um remédio que o pode curar mas que exige ser tomado em peque-nas doses todos os dias, a humildade. E é desse remédio que nos falam as leituras de hoje. Antes de mostrar o remédio, quis, po-rém, de forma resumida, falar da doença. O remédio da humilda-de vive-se em três dimensões: O combate contra o egoísmo, o combate contra o espírito de independência e o exercício da justa auto-estima. Uma virtude adquire-se por pequenos atos que va-mos praticando, mas os pequenos atos de humildade não são os mais fáceis de realizar. A humildade não está na moda na cultura de hoje marcada pelos grandes filósofos mestres da suspeita. Aos olhos de Nietzsche, a humildade é a grande mentira dos fracos que transformam assim astuciosamente a sua cobardia em apa-rente virtude. Para Freud, é uma variante masoquista do comple-xo de culpabilidade, para Adler, ela é vizinha do sentimento de inferioridade. As suas interpretações deixaram marcas profundas na cultura moderna. Como honrar então o texto do evangelho de hoje que nos convida a sentarmo-nos no último lugar quando vi-vemos numa sociedade impressionada pelo êxito? É preciso dei-xarmo-nos repassar pelos sentimentos de Jesus que se colocou a si mesmo no fundo do abismo, ele que era de condição divina. Sejam quais forem os nossos esforços, a humildade é uma virtude mais que humana; ela encontra a sua fonte em Cristo. Toda a vida de Jesus testemunha a sua humildade e a de Deus. O Evangelho mostra-nos que quando um humilde se aproxima de Deus tudo recebe dele.

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