Folha Paroquial nº 114 *Ano III* 01.03.2020 — DOMINGO I da QUARESMA

Folha Paroquial nº 114 *Ano III* 01.03.2020 — DOMINGO I da QUARESMA

«Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO ( Mt 4, 1-11 )
Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a
palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixouO e aproximaram-se os Anjos e serviram-n’O.»

UM TEMPO DE RESSURREIÇÃO
«Concedei, Senhor que os vossos fieis celebrem com coração puro o mistério pascal….para chegar um dia à páscoa eterna» ( Oração de coleta da missa). A quaresma não é uma espécie de Ramadão. Não é somente
um tempo de exercício do autodomínio ou temperança para melhor corresponder à vontade de Deus. É essencialmente a
subida da Igreja para a Páscoa do seu Senhor. É o tempo em que aprofundamos a nossa aliança com Ele, aliança de amor que renovaremos na noite pascal juntamente com os catecúmenos que a vão fazer pela primeira vez nas águas do batismo, mergulhando na ressurreição do filho de Deus que nos associa a Ele na sua filiação divina. A quaresma vive-se com Cristo, por Cristo e em Cristo que sobe a Jerusalém com os seus apóstolos e a sua Igreja. Cristo que
lhes revela, a eles e a nós, progressivamente e, apesar de todas as nossas incompreensões, que Ele é, ao mesmo tempo, o crucificado e o ressuscitado. A segunda leitura diz-nos que pelo pecado entrou a morte no mundo e com ela as escolhas do mal e da morte. Só em Deus está a vida e, quando o rejeitamos, (é isso o pecado), deixamos que a morte nos visite. Não me refiro à morte total de nós mesmos, mas à morte do que contraria a plenitude da Vida em nós, a morte da vida divina em nós. Mas, em Cristo, a morte nunca tem a última palavra: “Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.” Por causa das nossas lentidões, dos nossos recuos, retomamos em cada ano este longo caminho que tem no seu termo a ressurreição. É um caminho austero, pois passa pela cruz, mas é um aminho iluminado pela perspetiva da última palavra de Deus que é sempre: «Tu és o meu Filho muito amado, eu hoje te gerei». Cada evangelho deste ano A da quaresma nos coloca neste caminho para a luz.
A Transfiguração (próximo Domingo) que nos permite entrever a luz divina. A Samaritana ( º Domingo) que à luz de Jesus se vê a si mesma com clareza e muda de vida. O cego de nascença (4º Domingo) que Vê Aquele que é a Luz do mundo. Finalmente Lázaro (5º Domingo) que Jesus chama do túmulo e reencontra a Vida saindo da escuridão onde jazia sepultado há quatro dias.
Entre a primeira tentação de Adão e Eva e a tentação de Cristo no deserto há uma estreita relação. Nas duas situações, o pai da mentira que desune, separa (é o sentido real de «diabolos» em grego), quer separar o homem de Deus. Faz-lhe crer numa autonomia, numa liberdade que restringe a interdição de tocar na árvore da vida. Deus tinha permitido tudo, “podes comer de todas as árvores do jardim, à exceção da árvore da vida”, e o diabo diz: «É verdade que Deus vos proibiu de comer de todas as árvores do jardim?». No deserto, o tentador propõe a Jesus o prestígio e o poder. Desviando-se de Deus do qual é imagem e semelhança, o homem e a mulher descobriram aquilo que são sem ele, apenas pó da terra, e assim encontram-se com a sua pobreza radical, a sua nudez fundamental. E é isso que ouvimos quando recebemos as cinzas na quarta-feira: «Lembra-te do que és sem Deus: pó da terra»; mas com Ele e nele, és Filho de Deus; por isso, “converte-te e acredita no Evangelho” – a segunda frase que também é dita na imposição das cinzas. Assim, desviados de Deus, o homem e a mulher precisam de se vestir. Também nós, para esconder a nossa pobreza, o nosso egoísmo, o nosso apego ao lucro, temos tendência a utilizar a esmola e mesmo a oração para nos “vestirmos” diante dos homens… para parecermos bem diante deles, nas praças públicas, segundo a palavra de Jesus no sermão da montanha.
Vivendo à volta do nosso círculo fechado de homens mortais, desconfiando das exigências de Deus que nos impediriam de sermos felizes, não confiando senão em nós mesmos, descobrimos a nossa miséria e estreiteza de horizontes. No deserto, o demónio queria destruir a própria pessoa de Cristo que é unidade perfeita com seu Pai. Se Jesus
ucumbisse à tentação, destruiria o seu eu profundo: «Eu e o Pai somos um só», dirá aos apóstolos na noite de quinta-feira santa. Preferindo o alimento terrestre, o prestígio e o domínio, ele deixaria de ser o que é intimamente. Também nós somos chamados a escolher Deus acima do alimento (o jejum), acima do prestígio (o serviço humilde e a partilha generosa), e o domínio (a oração que é entrega confiante a Deus). E, assim, Deus será
a nossa escolha e seremos filhos do Pai que está nos céus. A vida tenta-nos, como Jesus foi tentado. É-nos difícil limitar o nosso apetite de possuir bens visíveis e, da mesma forma, de limitarmos o nosso apetite de comida e bebida, de vestes e conforto. A vida tenta-nos para nos afastarmos de Deus, tentanos para Lhe recusarmos a sua soberania sobre nós, deixandonos orientar mais pelas nossas forças e pelos poderes deste mundo que nos envolve. Que também nós possamos triunfar destas três tentações. Deus nos dá o pão da vida que alimenta os nossos corações. «Saciados com o pão do céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade” (oração depois da comunhão da missa de hoje).

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