Arquivo da categoria z- Apresentação na Igreja

Folha Paroquial nº 51 *Ano I* 11.11.2018 — DOMINGO XXXII

«Ó minha alma, louva o Senhor.»

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«EVANGELHO (Mc 12, 38-44)
Naquele tempo, Jesus ensinava a multidão, dizendo: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa». Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro, a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas. Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante. Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».»

MEDITAÇÃO
A audácia da generosidade
Uma viúva apresenta-se no templo, enquanto Jesus falava, para fazer a sua oferta. Ela é pobre, Marcos repete-o três vezes (v.42,43) «uma pobre viúva» Era caso geral na época, pois as viúvas não tinham direito a herdar dos maridos e a sua sorte dependia em grande parte da caridade pública: Por isso a Lei de Moisés insiste muito no amparo que se deve dar à viúva e ao órfão. A viúva avança então para depositar duas pequenas moedas; e é ela que Jesus dá como exemplo aos seus discípulos: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver». O evangelho não diz mais, mas a reflexão de Jesus deixa perceber que a sua confiança será recompensada…a aproximação com a primeira leitura (a viúva de Sarepta) é sugestiva: Como a viúva de Sarepta tinha dado as suas últimas provisões ao profeta Elias, o homem de Deus, colocando toda a sua confiança em Deus, assim a viúva no Templo de Jerusalém, dá os seus últimos recursos. A sua confiança em Deus vai até correr o máximo de riscos, o despojamento completo. Nunca faremos a experiência se Deus é digno de confiança, se não tivermos gestos de entrega e de confiança n’Ele.
Estes últimos conselhos de Jesus aos seus discípulos tomarão um relevo particular algum tempo mais tarde depois da Sua morte e ressurreição: Também eles, discípulos, deverão escolher a atitude da viúva do Templo e da viúva de Sarepta na Igreja nascente. O modelo que o Senhor lhes deu não é o da ostentação de certos escribas, a sua procura de honras…mas a generosidade discreta da viúva e a audácia de arriscar tudo.
A diferença entre a dádiva da viúva pobre e o dar dos ricos no Templo é que enquanto aquela se ofereceu a si mesma, entregando-se confiante nas mãos de Deus, estes deram algo que não os implicou por dentro para fazer um ato de confiança em Deus, pois deram do que lhes sobrava sem terem necessidade de se entregar a eles mesmos. O que deram era exterior a eles, pois não precisavam do que deram para continuar a sua vida confortável.
Ora a generosidade que Deus nos pede é a entrega de nós mesmos em tudo aquilo que fazemos: Deus não procura coisas, procura o nosso coração, o nosso amor, a nossa confiança n’Ele a nossa entrega generosa. E isto não tem só a ver com o dinheiro, tem a ver com toda a nossa vida.
Às vezes na Igreja tem-se medo de correr riscos, pois estamos tão habituados a fazer as coisas da mesma maneira ao longo de tantos anos, que a perspetiva de ousar caminhos novos, quando vemos que é isso que Deus nos pede, mete-nos medo. É preciso arriscar com confiança.
Estive de segunda a quarta- feira em Milão num encontro de responsáveis nacionais pelas células paroquiais de evangelização. Estávamos uns 15 países diferentes. Em todo o lado se procuram caminhos novos e, graças a Deus, os frutos da ousadia de muitas paróquias em terem encetado novas opções pastorais estão a dar abundantes frutos transformando-as em paróquias vivas e renovadas, em vocações sacerdotais, religiosas e missionárias. Paróquias cujos fiéis perceberam que o Senhor lhes pede que se tornem evangelizadores vão descobrindo a alegria de se entregarem ao Senhor e Deus recompensa abundantemente quando nos damos a Ele. Em que me toca este texto? Que tem ele a ver comigo? Que atos de confiança em Deus me lembro de ter feito na vida? Confio realmente n’Ele, ou prefiro estar seguro nas seguranças humanas?

Folha Paroquial nº 49 *Ano I* 28.10.2018 — DOMINGO XXX

«O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.»

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«EVANGELHO (Mc 10, 46-52)
Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.»

Bartimeu, curado, torna-se discípulo
Vejamos a situação em que está Bartimeu: «Estava um cego…a pedir esmola à beira do caminho». Era cego, era pobre, pedia esmola para sobreviver e estava sentado à beira do caminho, como um excluído. E como termina o encontro transformador com Jesus? Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. Agora vê, e deixa de estar sentado à beira do caminho para estar de pé, restituído na sua dignidade, e segue Jesus, isto é, tornou-se discípulo. O encontro com Jesus deu uma nova vida a este homem. Bastou para isso que Ele lhe abrisse o coração pela fé e suplicasse humildemente que o curasse. Mas fez dele logo um discípulo maduro e com uma vida bem estruturada pela fé no Senhor Jesus? O texto não responde a esta questão, nem precisa. Diz-nos apenas que ele deu início a um caminho de discipulado e o que provocou este desejo de ser discípulo foi o seu encontro transformador com Jesus. Sem este encontro não nasce sequer o desejo de ser discípulo. Volto a citar o papa Francisco no início da Evangelii Gaudium: “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria.”
É esta alegria que o cego agora experimenta que lhe dá a confiança de saber que seguir Jesus é a melhor escolha que pode fazer, pois só Jesus o salvou. Sabemos pelo que vimos ouvindo nestes últimos domingos, que o caminho do discipulado exige aceitar o repto da conversão, de aceitar a cruz, a disponibilidade para o serviço humilde. Sabemos que nos vai exigir fazer escolhas cada vez mais profundas do Senhor. Mas se passam os anos e não nos deixamos confrontar com as exigências do Evangelho e não aceitamos o caminho da conversão, ficamos cristãos queixosos, lamurientos, tristes e ressentidos como diz o papa com as palavras seguintes: “Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses: (…), já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.” (EG1)
Às vezes os momentos críticos na vida de uma comunidade, de um grupo ou de uma pessoa particular, são bons, porque nos ajudam a ver o que não está resolvido na fé. Quando tudo corre bem, o mar vai calmo, até parece que somos todos muito bons cristãos e discípulos, mas o carácter de uma pessoa conhece-se nos momentos mais dramáticos quando as seguranças em que fundamos a nossa vida são postas em risco. Jesus mostrou o seu carácter de filho de Deus quando, cheio de dores, quase a morrer e sem forças, na cruz, ainda consegue fazer uma oração cheia de perdão: «Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» O centurião ao vê-lo morrer exclamou: «Este homem é verdadeiramente o Filho de Deus.»
Quando um cristão, que parece que já serve com alegria, há tantos anos, o Senhor, se sente desrespeitado ou humilhado, fica tão irritado com os outros que é capaz de pôr tudo em causa, é porque não está arreigado e estruturado na Rocha firme que é o Senhor.
Claro que os cristãos são como as outras pessoas e podem sentir, com razão ou sem ela, que foram preteridos, que foram injustos com eles, que não os respeitaram. Os sentimentos que sentimos não os conseguimos evitar. Tantas vezes temos sentimentos que achamos que já não devíamos sentir: “Sentimentos de vingança, sentimentos de que fomos preteridos por outros e, no fundo, parece-nos que merecíamos mais e até temos vergonha de admitir para nós mesmos que ainda possamos sentir assim. Mas isso não quer dizer nada: Pois o importante não são os sentimentos que nos assaltam mas o que decidimos fazer com eles. O discípulo não pode levar-se pelos seus sentimentos mas pela decisão em agir como discípulo. E quando o faz, contrariando os seus sentimentos, sente então a paz do coração e a certeza interior de que escolheu bem, segundo Deus, e deu um passo em frente no discipulado. Quando uma pessoa com os sentimentos feridos, apesar disso, escolhe amar, servir e caminhar em frente porque o que quer é ser fiel ao Senhor, então está no caminho de discípulo. Claro que é dever de uma comunidade fazer com que todos se sintam bem e evitar por tudo gerar mal- estar, mas com o passar do tempo pode acontecer que alguns se encostem tanto aos seus pergaminhos do “foi sempre assim”, já “há tantos anos que aqui estamos” que toda e qualquer mudança não é bem-vinda porque parece pôr em risco a nossa segurança e apego àquilo que considero o meu mundo. E aí torna-se difícil evitar algumas colisões. Com elas alguns crescem, outros não avançam e ficam na sua revolta e azedume.
O Papa Francisco é bem claro no seu sonho para a Igreja: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo” na Igreja para “chegar a todos”.
Era interessante que, uns anos mais tarde, Bartimeu nos contasse como foi o seu caminho de discípulo. As crises porque teve de passar e como as ultrapassou. Terá ele ficado pelo caminho como o homem rico que tinha muitos bens? Ou soube aproveitar a crise e o sofrimento que elas trazem para avançar no caminho agora mais amadurecido pela humildade e pela escolha radical da missão que o Senhor lhe confia?
Dá-nos Senhor a alegria de nos sentirmos a caminho contigo, aprendendo com o teu coração manso e humilde.

Folha Paroquial nº 48 *Ano I* 21.10.2018 — DOMINGO XXIX

«Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.»

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«EVANGELHO (Mc 10, 35-45)
Naquele tempo, Jesus chamou os Doze e disse-lhes: Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».»

NÃO DEVE SER ASSIM ENTRE VÓS
No Domingo passado, as leituras falavam-nos do perigo das riquezas para o seguimento de Jesus. Dissemos que o dinheiro não é mau pois é necessário, mas que temos de prestar atenção para que ele não nos transforme de tal modo que nós sejamos servos dele em vez de senhores.
Hoje Jesus apresenta-nos um outro perigo bem real para o seu seguimento: o desejo de poder. Aliás, dinheiro e poder andam muitas vezes ligados. O texto de hoje segue-se ao terceiro anúncio da paixão. S. Marcos deixa-nos ver o grotesco da situação: Jesus acaba de fazer o terceiro anúncio da paixão dizendo “O filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e eles condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos gentios. Hão de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas três dias depois ressuscitará.” E o espanto é que é nesta altura que os filhos de Zebedeu se aproximam para lhe fazer o tal pedido de poder, metendo uma cunhazita.
Mas os outros dez indignaram-se com eles, não por acharem mal o que eles estavam a pedir, mas por se terem antecipado, e eles poderem ficar só com os cargos mais baixos na hierarquia do poder… É interessante que, mais tarde, quando se tratar de pôr o Evangelho por escrito- nenhum dos evangelistas vai deixar no esquecimento esta passagem- S. Mateus não vai ter coragem de mostrar esta fraqueza de Tiago e de João, por pudor, e coloca a mãe deles a fazer o pedido a Jesus. (Cf Mt 20, 20).
Jesus já tinha falado muitas vezes com os discípulos sobre a humildade e o serviço e sobretudo o seu exemplo era muito forte, mas, apesar de já andarem com Jesus há cerca de três anos, a sua renúncia ao poder e a opção pelo serviço não estava ainda feita.
Jesus chama-os de lado e diz-lhes com solenidade: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»
Disse há pouco que nenhum evangelista deixa em branco esta cena, pois consideram que a dimensão do serviço humilde e a renúncia às grandezas e ao poder bem como o desapego do dinheiro, faz parte essencial da mensagem do Reino que Jesus pregou, mas, S. João, em vez de contar o acontecimento como os outros Sinópticos, conta-o através do gesto do lava-pés que a Igreja mimetiza na Quinta-feira santa. O que Jesus diz aos discípulos no fim de lhes lavar os pés é, no essencial, o mesmo que é dito pelos outros evangelistas.
«Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.» (Jo 13, 13-17)
Marcados pelo pecado original, nós trazemos connosco uma tendência quase inata para o poder, para o domínio de uns sobre os outros bem como para possuir bens ou riquezas que nos possam obter esse poder. Ninguém está isento desta tentação visceral por mais espiritual que pareça ser. Aliás, é um pecado ainda maior quando se aproveita o espiritual para conquistar o poder. Foi um dos grandes pecados dos discípulos de Cristo de todos os tempos, apesar de Ele os ter prevenido desde o início. Dissemos no domingo passado, a propósito do dinheiro, que o antídoto para este apego era o dar com frequência e como hábito. O desejo do poder tem também um antídoto que o serviço humilde. Quem serve, transforma o poder que tem em serviço e constrói o mundo livre de cadeias que o aprisionam. Jesus diz aos discípulos: “vós chamais-me Mestre e Senhor e dizeis bem, pois o sou.” Jesus não nega que tem poder sobre os discípulos. Aliás na Ascensão Ele diz: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra”. O papa tem poder, o professor na aula tem poder, aliás o problema é quando o desautorizam e ele perde a capacidade de ter poder para servir melhor. O pai e a mãe têm poder na família e é preciso que lho reconheçam. Quando elegemos alguém para estar à frente de uma associação ou de um grupo qualquer o que estamos a fazer é conferir-lhe poder para ele realizar essa função e servir os outros, mas se não tiver poder também não pode servir. Só que aquilo que Jesus nos previne é que todo o poder tem de ser visto como serviço e vivido como tal. A pessoa a quem é confiado o poder não fica mais importante, mas mais serva dos seus irmãos. «Aquele de entre vós que quiser ser o maior… faça-se, o servo de todos. Jesus diz, depois do lava-pés: Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.» (Jo 13, 13-17). É feliz aquele que, como Jesus, serve por amor, porque se torna verdadeiro discípulo do Mestre. Que a nossa paróquia apareça como serva e que os cristãos deem testemunho de que querem ser discípulos de Jesus o servo da humanidade que veio para servir e dar a vida por todos.

Folha Paroquial nº 47 *Ano I* 14.10.2018 — DOMINGO XXVIII

«Enchei-nos da vossa misericórdia: será ela a nossa alegria.»

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«Naquele tempo, ia Jesus pôr-Se a caminho, quando um homem se aproximou correndo, ajoelhou diante d’Ele e perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?». Jesus respondeu: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: ‘Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’». O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude». Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. Então Jesus, olhando à sua volta, disse aos discípulos: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!» Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus afirmou-lhes de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível».»

Hoje as leituras, particularmente o evangelho, tratam uma questão difícil para muita gente; a do dinheiro e do perigo que ele pode ser como usurpador do nosso coração. Nem sempre a conversão a Jesus leva o convertido a ser capaz de se tornar generoso como Zaqueu que depois que Jesus entrou em sua casa e disse: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e àqueles a quem roubei vou dar quatro vezes mais». Tenho visto pessoas com vida cristã bem regular e com posses acima da média, mas quando se trata em dar dinheiro, têm uma dificuldade enorme e até o reconhecem. O rico do evangelho de hoje, era boa pessoa e Jesus sentiu simpatia por ele mas estava apegado ao dinheiro. Jesus conclui que o apego às riquezas ou ao dinheiro é um dos maiores obstáculos ao seu seguimento e a entrar no Reino de Deus.
Jesus ou dinheiro? Quem será o Senhor? Em Lucas 16,13 quando Jesus afirma: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro», usa palavras de relação como “ódio” e “amor”. A questão essencial colocada por Jesus é a seguinte: Com quem queremos ter relação, com Deus ou com o dinheiro?
Na Bíblia encontramos uma série de ensinamentos acerca de como lidar com o dinheiro. Ter dinheiro não é uma coisa má, mas precisamos de pedir a graça e ajuda de Deus para garantir que ele não se transforme no nosso guia pois a carta a Timóteo diz que «o amor ao dinheiro é a raíz de todos os males». As parábolas e discursos sobre o dinheiro no Novo Testamento são muitos. No entanto, hoje na igreja, fala-se pouco disso porque os cristãos, sobretudo os católicos, sentem-se incomodados com o tema como se fosse tabú. E se algum padre o faz dizem: «está sempre a falar em dinheiro», o que revela bem o incómodo.
Para completar esta reflexão cito Ken Costa, cristão leigo, quadro da bolsa da city de Londres, do seu livro, God at work:.
“A melhor forma de nos exercitarmos na liberdade em relação ao dinheiro é a dádiva alegre e feliz.
Damos por várias razões:
Primeiro, porque o Senhor nos manda ser agradecidos pelos bens e dádivas materiais e espirituais que Ele nos dá
Segundo, damos porque dar é uma bênção. Dar regularmente de uma forma generosa é um dos modos que temos de demonstrar que confiamos em Deus. O dinheiro pode tornar-se um obstáculo ou um aceso às bênçãos de Deus (materiais e espirituais)
Jesus disse: “Há mais alegria em dar do que em receber” ( Act 20,35). Por isso dar deve ser uma das grandes alegrias do discípulo de Jesus. Ele nunca deve dar receoso ou triste porque como também diz a Bíblia, «Deus ama quem dá com alegria.» Quando somos generosos a resposta de Jesus é esta: «Ponham-me à prova e vereis se não vos abro o reservatório do céu e não espalho em vosso favor a bênção em abundância (Malaquias 3,10)
Como se deve dar?
1.Liberdade: Sempre que damos lançamos um desafio às forças do dinheiro dizendo realmente: «Não tens poder sobre mim» Dar é o antídoto do materialismo.
2.Investimento: Dar é uma parte do processo pelo qual nos tornamos mais semelhantes a Cristo. Dar é a nossa forma de semear e os frutos são a nossa justiça (2 Cor 9,10).
3.Como um hábito: Há sempre boas razões para adiar e pôr de lado por isso o importante é começar a dar. Mesmo que se comece por pouco, começa-se e o hábito crescerá porque vamos descobrindo quanto nos faz bem. Jesus disse: «Dai e dar-se- vos- á. A medida que usardes com os outros será usada convosco” (Lc 6,38).
A quem se deve dar? Há muitas pessoas não cristãs que dão para obras sociais e humanitárias e os cristãos estão também entre os primeiros a dar para tudo isto, mas só os cristãos dão para a Igreja. Investir na igreja é uma forma de investir na vida espiritual futura das nações. É importante, porém, construir uma relação com a instituição para quem se dá. Assim podemos saber como o dinheiro está a ser usado e garantir-nos que está a ser bem administrado.

Folha Paroquial nº 46 *Ano I* 07.10.2018 — DOMINGO XXVII

«O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida»

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«EVANGELHO (Mc 10, 2-16)
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus uns fariseus, que, para O porem à prova, perguntaram-Lhe: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério».

Meditação
Deus criou o ser humano à sua imagem; homem e mulher o criou.
A 1ª leitura situa-nos nos primeiros capítulos do 1º livro da Bíblia, o Génesis, um livro que faz parte daquilo que se chama «sabedoria» quer dizer não é história mas reflexão: No 2º século antes de Cristo, provavelmente na corte de Salomão, um teólogo sentia-se inundado de questões: « Porquê a morte? Porquê o sofrimento? Porquê as dificuldades no casal? E todas as dificuldades com as quais nos enfrentamos tantas vezes—Para responder, ele contou uma história como Jesus contava parábolas. O autor não é um cientista, é um crente: Ele não pretende responder-nos ao quando e ao como da criação: Ele diz o sentido, o projeto de Deus. A parábola de hoje tenta compreender e situar a relação conjugal no plano de Deus. E como todas as histórias e parábolas ele emprega imagens; o jardim, o sono, o lado : Sob estas imagens prefigura-se uma mensagem para todos os tempos e para toda a humanidade em geral. A expressão Adão quer dizer terreno, feito do pó, não é um nome pessoal.
E qual a mensagem teológica deste texto?
Resumo-a em 4 pontos mas infelizmente por falta de espaço tem de ser mesmo resumida:
1ª A mulher faz parte da criação desde a origem. ( o que na Mesopotâmia não era evidente) E que ela é um dom de Deus e que o homem não pode ser feliz sem ela nem a humanidade ser completa.
2ª O projeto de Deus é a felicidade do homem. A expressão: “não é bom que o homem esteja só” significa que Deus procura a alegria e felicidade de cada pessoa.
3ª É uma afirmação muito importante e inovadora na Bíblia : A sexualidade é boa pois faz parte do projeto de Deus; É um dado muito importante para a felicidade do homem e da mulher.
4ª O ideal proposto ao casal humano não é o domínio de um sobre o outro mas a igualdade no diálogo: e quem diz diálogo diz ao mesmo tempo distancia e intimidade.
No evangelho colocam uma pergunta a Jesus sobre o divórcio e Jesus conduzi-os ao plano original de Deus que é narrado na 1ª leitura embora não tivesse dito a frase toda pois qualquer judeu a sabia de cor e que dizia:« Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou.” A verdadeira vocação do casal é ser imagem de Deus e é porque são imagem de Deus que « o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serem um só» Se o casal humano é imagem de Deus deve ser indivisível e indissolúvel e Jesus tira a conclusão lógica: « O que Deus concebeu na unidade não o separe o homem».
O divórcio é pois contra a vontade de Deus. Mas quando se vive na realidade concreta há muitas areias nas engrenagens pois o endurecimento do nosso coração continua a estar presente por causa do pecado. Em S. Mateus os discípulos dizem a Jesus; “Se é assim tão difícil o casamento não é muito interessante”- hoje muitos jovens dizem a mesma coisa e por isso não se casam. E Jesus mais uma vez os conduziu ao nível do mistério e do projeto de Deus. Se a realidade da construção da unidade num casal fosse fácil a questão do divórcio não se colocava, não podemos fugir ás dificuldades reais, ainda por cima com uma cultura que se centrou no indivíduo, e o casal são dois. Só pela graça de Deus se pode entrar no mistério do amor e das suas exigências. Entregues às nossas forças, não conseguimos responder ao desígnio do criador. A palavra mistério (grega) diz-se em latim sacramentum. O matrimónio é o dom da graça de Deus para o casal se amar com o amor vitorioso de Deus que é maior do que a morte. O matrimónio é infinitamente mais do que um casamento civil na igreja, é um dom extraordinário da graça que os habilita a amarem-se de um amor que tudo vence em Cristo. E perdeu-se tanto na vida dos casais e das famílias!!!
Fechámos a fonte donde brotava a água que nos fazia viver. E os casais não beberam não poderão vivera no amor pleno.
Que pena o sacramento do Matrimónio estar tão desvalorizado. É como se tivéssemos encerrado uma fonte.

Folha Paroquial nº 45 *Ano I* 30.09.2018 — DOMINGO XXVI

«Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco»

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«Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».»

A crise do pastor Moisés
Situemos este texto. O povo já está farto do Maná que é uma comida monótona e sente saudades das cebolas do Egipto: É daqui que vem o desânimo de Moisés; quando viu o povo pobre e mal agradecido, com boca de fidalgo, é tentado a deixar cair tudo por terra. E desejou morrer. «Moisés ouviu o povo que chorava, agrupado por clãs, cada um à entrada da sua tenda. O Senhor inflamou-se de uma cólera ardente e Moisés desorientou-se. …Porque colocas sobre mim o fardo de todo este povo? Fui eu que concebi todo este povo? Fui eu que o trouxe ao mundo? Queres que eu leve este povo no meu coração, como uma mãe leva ao colo o seu bébé? Onde encontrarei eu carne para toda esta gente? Já não posso mais, sozinho, conduzir todo este povo, é demasiado pesado para mim….dá-me antes a morte…(Núm 11,10-15)
E a resposta de Deus a Moisés é dupla: por um lado manda-o escolher uma lista de 70 colaboradores, para ser ajudado com um senado e, por outro, promete-lhe carne para todo o povo. Depois da escolha dos 70 homens, Moisés condu-los à tenda onde estava a arca da Aliança e aí Deus transmite a estes homens o Espírito que estava n’Ele, isto é, a graça de governo, associado a Moisés. O governo pastoral não é só uma questão de competências humanas, que também são precisas, e por isso Deus dá orientações a Moisés sobre quem ele deve escolher; mas é, em primeiro lugar, um deixar-se habitar pelo Espírito de Deus, aprender a depender d’Ele e a obedecer-Lhe. Hoje há leigos na Igreja que têm competências em várias matérias muito superiores às do pastor, seja ele padre ou bispo. Por isso, estes devem pedir a sua ajuda e aprender na humildade a escutá-los e a confiar-lhes responsabilidades na Igreja, sem que isso diminua o seu papel de ministro ordenado. Dá-me grande alegria nas reuniões do Conselho Pastoral Diocesano, órgão que aconselha o bispo a nível pastoral, ver a riqueza de um laicado competente e cheio de amor à Igreja que discute serenamente os temas levados à discussão e dão ao bispo a sua opinião avalizada sobre as questões. O mesmo se passa em muitos conselhos pastorais paroquiais como é o caso do de S. José que esteve reunido todo o sábado passado a debater o plano pastoral da paróquia e o de S. João Baptista que reuniu há um mês atrás.
Cientes desta riqueza dos membros do povo de Deus e sabendo que muitos sacerdotes estão esgotados, como Moisés, é pena não serem mais aproveitados para a liderança partilhada nas paróquias. Por isso a 5 e 6 de Outubro nas Jornadas de Pastoral, foram convidados muitos leigos para aprofundarem a sua forma de exercer melhor a liderança partilhada. Não está em causa substituir o Moisés (o padre) que é o ministro ordenado, mas juntos, em comunhão, cada um segundo o seu carisma, realizarem a Missão para bem do povo de Deus. Mas há um lado humano que o líder que delega responsabilidades tem de aceitar humildemente: deixar de controlar tudo. E esse é o problema que Moisés e Jesus aceitaram com facilidade, pois não queriam controlar tudo, mas que Josué e João no evangelho quiseram bloquear. Josué diz a Moisés: «Moisés, proíbe-o.» Mas este, ao contrário, continua fiel aos 70 que escolheu. Ele sabia bem que aceitando rodear-se de 70 co-responsáveis com ele, escolhia deixar de controlar tudo e alegra-se com isso dando uma resposta admirável: estás com ciúmes por minha causa? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e todos fossem cheios do Espírito. Um desejo que fica a aguardar até ao Pentecostes. Hoje já não é só alguns que recebem o Espírito para certas missões e em ocasiões especiais. Deus deseja que todo o povo do Senhor viva sempre cheio do Espírito Santo.
Feliz a comunidade onde pastores e povo vivem habitados pelo Espírito e isso se vê pelos seus frutos: alegria, comunhão, caridade, serviço, evangelização, paz .
Peçamos a Deus para que as nossas comunidades paroquiais sejam cheias do Espírito Santo abertas aos diversos carismas que este distribui para crescimento da Igreja.

Folha Paroquial nº 44 *Ano I* 23.09.2018 — DOMINGO XXV

“O Senhor sustenta a minha vida.”

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«Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia. Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?». Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».»

Jesus continua a formar os seus discípulos, os de ontem e os de hoje, sobre como deve ser o pensamento e a ação dos que quiserem herdar o reino que Ele veio inaugurar. A Nicodemos e em tantas outras circunstâncias Jesus disse: « É preciso nascer de novo! Se não converterdes a vossa maneira de pensar e de agir não podeis ser meus discípulos e entrar no reino. Ouvimo-lo dizer a Pedro no Domingo passado: -«passa para trás de mim, Satanás, porque não tens em ti os pensamentos de Deus mas os dos homens.» Depois ensina-lhes que para O seguir é preciso renunciar a si mesmo, pegar na cruz e aprender a dar a vida para a receber em plenitude. No evangelho de hoje, Jesus continua o seu ensino sobre o mesmo tema, mas S. Marcos diz-nos que os discípulos nem entendiam aquelas palavras, ou então intuíam-mas tinham receio de que o que eles pensavam que Ele queria dizer era mesmo isso. E Jesus voltava a falar da sua entrega nas mãos dos homens que o haviam de matar mas que ressuscitaria ao terceiro dia. O mais espantoso que manifesta até que ponto os discípulos estavam noutra onda, é que, enquanto Ele lhes falava de humilhação e morte, eles discutiam, à socapa, entre eles, sobre qual deles seria o maior quando Jesus instaurasse o Reino como eles o imaginavam. Se Jesus não fosse o Mestre cheio de amor e paciência, teria desistido dos seus discípulos. Mas isso dá-me tanta esperança! Se Ele não desistiu daqueles doze que eram tão caturras, talvez eu possa ter confiança que também terá paciência com a minha lentidão a converter-me ao seu pensamento e a viver como Ele deseja. «Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos».
O desejo de grandeza e de prestígio, «a glória de mandar e a vã cobiça”, segundo as palavras do velho do Restelo, estão tão enraizadas no coração do homem velho, marcado pelo pecado, que é como o alcarracho que até a monda química tem dificuldade em destruir. Basta ver o que fizemos com a palavra ministro que vem do latim da palavra minus minor, o mais pequeno, o menor, como Jesus disse hoje: Quem quiser ser grande faça-se o ministro de todos, o mais pequeno. Mas hoje na vida civil e eclesiástica, o ministro é o maior. Mesmo aqueles que receberam ministérios laicais na igreja não conseguem fugir a esta tentação permanente de tirarmos proveito do cargo a que fomos chamados a servir os outros. É necessária uma vigilância contínua do nosso coração para não escorregarmos no plano inclinado de nos elevarmos sobranceiramente com aquilo que nos deveria fazer ainda mais humildes.
Na Basílica de S. Pedro no Vaticano está escrito a letras imensas: «Servus servorum Dei» É um dos títulos do papa, aliás belo: Servo dos servos de Deus. Os papas que mandaram construir a basílica eram tudo menos servos dos servos de Deus. Foi preciso esperar muitos anos para que os últimos papas a partir de João XXIII começassem a tentar levar mais a sério o evangelho do serviço e da humildade.
A segunda leitura, tirada da carta de S. Tiago, previne-nos contra as paixões que lutam nos nossos membros; Diz ele que essas paixões são a causa de muitos dos nossas males, desordens, invejas, divisões e guerras. Ele afirma mesmo que pedimos a Deus coisas que não obtemos porque pedimos mal levados apenas pelos nossos interesses egoístas e pelas nossas paixões.
S. Paulo no capítulo 12 da carta aos Romanos diz: “Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade” para viverdes segundo a vontade de Deus. De facto o mundo e a sua forma de viver exerce sobre nós um poderoso atrativo e é muito mais fácil deixarmo-nos moldar por ele do que pelos ensino de Jesus e a vontade de Deus. Mas só seremos sal da terra e luz do mundo se nos dispusermos a seguir Jesus na nossa forma de pensar e de atuar.

Folha Paroquial nº 43 *Ano I* 16.09.2018 — DOMINGO XXIV

“Caminharei na terra dos vivos, na presença do Senhor.”

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«Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».»

Hoje as leituras e, de modo especial o evangelho, apontam-nos o caminho de fé do discípulo, que é progressivo e fruto de uma relação para levar ao conhecimento de Jesus que não é intelectual mas relacional. Só conhecemos bem aqueles que amamos. Estamos no meio do evangelho de Marcos. Este evangelista construiu o seu evangelho à volta da descoberta progressiva da identidade de Jesus. Começa por dizer que Ele é o Filho de Deus, a meio coloca a afirmação de Pedro escutada hoje: “Tu és o Messias” e termina com a afirmação do centurião junto à cruz; «Este homem era realmente o filho de Deus. A resposta de Pedro sobre a identidade de Jesus parece corretíssima mas, mais à frente, vemos que afinal Pedro tem ainda um longo caminho a percorrer até que a expressão: “Tu és o Messias “ tivesse o mesmo significado que tinha para Jesus. Para Pedro, “O Messias” era Aquele que vinha com a força e o poder de Deus libertar o povo de Israel dos seus dominadores, os romanos, e fazer da sua nação a primeira entre todos os povos. Ele estava a segui-lo para ter um lugar ao sol ao pé do «Rei de Israel». Mas Jesus sabe que não é Aquele Messias esperado por Pedro e por isso “começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.” Isso para Pedro é inconcebível e tenta meter na cabeça de Jesus «bom senso». Chama-o de parte para o contestar. Mas Jesus tem uma expressão firme que na nossa tradução em português perde muito: No original grego Jesus diz a Pedro: «Passa para trás de mim, Satanás porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». “Passa para trás de mim”, quer dizer: «Faz-te meu discípulo, deixa que seja eu a indicar-te o caminho de como ser Messias-Salvador, da forma como o Pai o pensou. Não sejas o continuador da voz de Satanás no deserto. Os teus pensamentos não são segundo Deus e o seu Espírito, mas segundo os homens inclinados a seguir os seus instintos mais fáceis. No pensamento dos homens a vida é boa quando se tem poder, prestígio, dinheiro, honra, reconhecimento social: Eu porém digo-vos: Se alguém quiser seguir-Me dando plenitude à sua vida, seja capaz de a dar, pois aquele que a dá, recebe-a com um sentido novo, experimentará a salvação no âmago da sua própria vida, mas quem teimar em fechar-se na sua vidinha confortável, egoísta, superficial, esse perde-a. Pedro vai aprender a andar nos passos de Jesus, mas vai levar tempo. Depois das lágrimas da sua negação por três vezes, e depois de Jesus ter ressuscitado dos mortos, Jesus vai-lhe perguntar junto ao lago de Tiberíades, (onde está hoje a igreja do primado, lembram-se?). Pedro, tu amas-me? E o pobre do Pedro nem é capaz de responder com o mesmo verbo, mas responde: “Senhor tu sabes que eu sou deveras teu amigo.” Ele agora já sabe que o seu amor é pobre e fraco, mas verdadeiro e sincero; está pronto para ser pastor das ovelhas porque aprendeu a ser discípulo. Está pronto para dar tudo pelo Mestre que o salvou e n’Ele confiou. Que grande caminho de discípulo ele fez! Um caminho lento e progressivo, como o de todo o discípulo. No princípio é feito de entusiasmo exterior, de sentimentos e emoções ainda superficiais que podem desaparecer com as primeiras dificuldades, mas é passando pela tentação, pelo sofrimento aceite e entregue por amor, que a fé do discípulo vai amadurecendo, tornando-se mais profunda, mais verdadeira, mais iluminadora, capaz de ir até à dádiva da própria vida. Pedro vai ir até ao fim, dando a sua vida à imagem do Mestre. As lutas e as tentações de Pedro, e até as suas quedas, ajudam-nos a perceber o caminho do discípulo rumo à maturidade da fé, cuja meta é a estatura de Cristo na sua plenitude.

Folha Paroquial – Domingo XXIII do Tempo Comum- 09-09-2018

“Ó minha alma, louva o Senhor.”

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«Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.»

Faz que os surdos ouçam
No início da fé cristã está um encontro com Jesus. Por isso, só há fé cristã se houver encontro pessoal do crente com Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado. Hoje esse encontro acontece pela ação do Espírito que nos revela o «rosto» de Jesus e nos leva a abrir-nos à sua graça. A categoria de encontro faz parte essencial da fé cristã. O P. Nuno Santos, que publicou a sua tese de doutoramento sobre a esperança, analisa, demoradamente, 18 encontros que Jesus teve nos evangelhos com pessoas diferentes mostrando como cada encontro termina em alegria, júbilo, transformação da vida que ganha uma esperança e um rumo novo.
Hoje o evangelho apresenta-nos mais um desses encontros com Jesus, desta vez com um surdo-mudo. Este encontro segue-se depois da discussão com os judeus acerca das regras da pureza, como escutámos no evangelho de Domingo passado. Jesus partiu para território pagão, na Decápole, uma confederação de dez cidades mais de cultura grega e não judaica. É aqui que se dá o encontro com o surdo. Hoje já não se diz surdo-mudo, pois a mudez é uma consequência natural da surdez. De qualquer forma trata-se de uma enfermidade dupla.
Levam-lhe então o surdo e pedem-lhe para impor as mãos sobre ele. Jesus faz então alguns gestos que nunca tinha feito até agora. Conduz o enfermo à parte, longe da multidão e faz gestos sobre ele que os curandeiros faziam habitualmente; «meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua.» Não muda os gestos, mas dá-lhes um sentido novo: «Erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». O gesto de erguer os olhos ao céu não deixa nenhuma ambiguidade: Jesus só cura graças ao poder que lhe vem do Pai» Quanto ao suspiro, pelo vocabulário em grego, trata-se mais de um gemido: é a mesma palavra empregue nos Actos dos Apóstolos por Estevão no seu discurso para descrever o sofrimento do povo de Israel escravo no Egipto. Paulo emprega a mesma palavra para falar da impaciência da criação cativa na esperança da libertação: «Toda a criação geme e sofre as dores da maternidade esperando a libertação( Rom8, 22) e é empregue várias outras vezes sempre no mesmo contexto de sofrimento que espera ser libertado. Jesus lança o gemido como quem vive a impaciência pela libertação do sofrimento em que aquele surdo tem vivido por não poder ouvir nem falar. E eis o surdo curado: “Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente”. A resposta do povo, (não esqueçamos que se trata de pagãos) é uma proclamação das maravilhas de Deus: “Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem”. E com esta frase nos reenvia à 1ª leitura do profeta Isaías que anuncia a era da felicidade para os dias da vinda do Messias: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria.” As promessas messiânicas são então para todos, judeus e pagãos. E curiosamente, são os pagãos quem melhor decifra os sinais. Eles «proclamam», diz-nos Marcos. E a palavra não foi escolhida ao acaso. Proclamar aparece sempre como o anúncio de algo novo que Deus fez: “É a ordem de Jesus aos seus apóstolos depois da sua ressurreição. «Ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova».
Jesus diz ao surdo : Effata, quer dizer : Abre-te. Na celebração do batismo dos adultos, o sacerdote lê sempre esta passagem do evangelho de Marcos, depois toca os ouvidos e os lábios do batizado dizendo: « Effatha», quer dizer: “Abre-te, para proclamares, pelo louvor e pela glória de Deus, a fé que Ele vos transmitiu”. Parece-nos ouvir aqui a oração do salmo: «Senhor abri os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.»
A cura do surdo- mudo tem um alto valor simbólico no Novo Testamento. O discípulo é aquele que ouve a palavra de Deus e deixando-se transformar por ela, proclama o que Deus fez por Ele num louvor incessante. A sua boca abre-se para falar d’Ele porque o seu coração está cheio do fruto do encontro misericordioso com Ele. Como escreveu o papa Francisco, «a alegria do evangelho enche o coração e a vida d’aquele que se encontrou com Cristo.»
Quando na celebração vemos as pessoas que não abrem a boca para cantar nem para responder às orações, quando poucas vezes, ou nunca, falamos do Senhor e proclamamos o seu louvor, não estaremos surdos- mudos? Precisamos do encontro com Jesus que cura os surdos e abre os lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.
Que Jesus cure as nossas comunidades da surdez e da mudez, para que sejam comunidades missionárias prontas para escutar a Deus e proclamar as suas maravilhas.
Cura os surdos e os mudos ao ponto de não poderem calar o que viram e ouviram.

Horários da Catequese 2018/2019

1º Ano – 5ª Feira – 18.30
2º Ano – Sábado- 14.15
3º Ano – 3ª Feira – 18.30
4º Ano – 5ª Feira – 18.30
5º Ano – 2ª Feira – 18.30
6º Ano – 3ª Feira – 18.30
7º Ano – 4ª Feira – 18.30
8º Ano – Sábado – 16.00
9º Ano – 6ª Feira – 18.30
10º Ano – 6ª Feira – 18.30

NB: Do 1º ao 6 ano a catequese, na paróquia, é quinzenal.