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Folha Paroquial nº 114 *Ano III* 01.03.2020 — DOMINGO I da QUARESMA

«Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.»

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«EVANGELHO ( Mt 4, 1-11 )
Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a
palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixouO e aproximaram-se os Anjos e serviram-n’O.»

UM TEMPO DE RESSURREIÇÃO
«Concedei, Senhor que os vossos fieis celebrem com coração puro o mistério pascal….para chegar um dia à páscoa eterna» ( Oração de coleta da missa). A quaresma não é uma espécie de Ramadão. Não é somente
um tempo de exercício do autodomínio ou temperança para melhor corresponder à vontade de Deus. É essencialmente a
subida da Igreja para a Páscoa do seu Senhor. É o tempo em que aprofundamos a nossa aliança com Ele, aliança de amor que renovaremos na noite pascal juntamente com os catecúmenos que a vão fazer pela primeira vez nas águas do batismo, mergulhando na ressurreição do filho de Deus que nos associa a Ele na sua filiação divina. A quaresma vive-se com Cristo, por Cristo e em Cristo que sobe a Jerusalém com os seus apóstolos e a sua Igreja. Cristo que
lhes revela, a eles e a nós, progressivamente e, apesar de todas as nossas incompreensões, que Ele é, ao mesmo tempo, o crucificado e o ressuscitado. A segunda leitura diz-nos que pelo pecado entrou a morte no mundo e com ela as escolhas do mal e da morte. Só em Deus está a vida e, quando o rejeitamos, (é isso o pecado), deixamos que a morte nos visite. Não me refiro à morte total de nós mesmos, mas à morte do que contraria a plenitude da Vida em nós, a morte da vida divina em nós. Mas, em Cristo, a morte nunca tem a última palavra: “Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.” Por causa das nossas lentidões, dos nossos recuos, retomamos em cada ano este longo caminho que tem no seu termo a ressurreição. É um caminho austero, pois passa pela cruz, mas é um aminho iluminado pela perspetiva da última palavra de Deus que é sempre: «Tu és o meu Filho muito amado, eu hoje te gerei». Cada evangelho deste ano A da quaresma nos coloca neste caminho para a luz.
A Transfiguração (próximo Domingo) que nos permite entrever a luz divina. A Samaritana ( º Domingo) que à luz de Jesus se vê a si mesma com clareza e muda de vida. O cego de nascença (4º Domingo) que Vê Aquele que é a Luz do mundo. Finalmente Lázaro (5º Domingo) que Jesus chama do túmulo e reencontra a Vida saindo da escuridão onde jazia sepultado há quatro dias.
Entre a primeira tentação de Adão e Eva e a tentação de Cristo no deserto há uma estreita relação. Nas duas situações, o pai da mentira que desune, separa (é o sentido real de «diabolos» em grego), quer separar o homem de Deus. Faz-lhe crer numa autonomia, numa liberdade que restringe a interdição de tocar na árvore da vida. Deus tinha permitido tudo, “podes comer de todas as árvores do jardim, à exceção da árvore da vida”, e o diabo diz: «É verdade que Deus vos proibiu de comer de todas as árvores do jardim?». No deserto, o tentador propõe a Jesus o prestígio e o poder. Desviando-se de Deus do qual é imagem e semelhança, o homem e a mulher descobriram aquilo que são sem ele, apenas pó da terra, e assim encontram-se com a sua pobreza radical, a sua nudez fundamental. E é isso que ouvimos quando recebemos as cinzas na quarta-feira: «Lembra-te do que és sem Deus: pó da terra»; mas com Ele e nele, és Filho de Deus; por isso, “converte-te e acredita no Evangelho” – a segunda frase que também é dita na imposição das cinzas. Assim, desviados de Deus, o homem e a mulher precisam de se vestir. Também nós, para esconder a nossa pobreza, o nosso egoísmo, o nosso apego ao lucro, temos tendência a utilizar a esmola e mesmo a oração para nos “vestirmos” diante dos homens… para parecermos bem diante deles, nas praças públicas, segundo a palavra de Jesus no sermão da montanha.
Vivendo à volta do nosso círculo fechado de homens mortais, desconfiando das exigências de Deus que nos impediriam de sermos felizes, não confiando senão em nós mesmos, descobrimos a nossa miséria e estreiteza de horizontes. No deserto, o demónio queria destruir a própria pessoa de Cristo que é unidade perfeita com seu Pai. Se Jesus
ucumbisse à tentação, destruiria o seu eu profundo: «Eu e o Pai somos um só», dirá aos apóstolos na noite de quinta-feira santa. Preferindo o alimento terrestre, o prestígio e o domínio, ele deixaria de ser o que é intimamente. Também nós somos chamados a escolher Deus acima do alimento (o jejum), acima do prestígio (o serviço humilde e a partilha generosa), e o domínio (a oração que é entrega confiante a Deus). E, assim, Deus será
a nossa escolha e seremos filhos do Pai que está nos céus. A vida tenta-nos, como Jesus foi tentado. É-nos difícil limitar o nosso apetite de possuir bens visíveis e, da mesma forma, de limitarmos o nosso apetite de comida e bebida, de vestes e conforto. A vida tenta-nos para nos afastarmos de Deus, tentanos para Lhe recusarmos a sua soberania sobre nós, deixandonos orientar mais pelas nossas forças e pelos poderes deste mundo que nos envolve. Que também nós possamos triunfar destas três tentações. Deus nos dá o pão da vida que alimenta os nossos corações. «Saciados com o pão do céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade” (oração depois da comunhão da missa de hoje).

Folha Paroquial nº 109 *Ano III* 26.01.2020 — DOMINGO III do TEMPO COMUM

«O Senhor é minha luz e salvação.»

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«EVANGELHO ( Mt 4, 12-23 )
Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão An-dré, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de ho-mens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.»

A ESCRITURA, PALAVRAS DO AMOR DE DEUS PARA CONNOSCO
«Toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensi-nar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o ho-mem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa.» (2 Tim 3, 16)
Por outras palavras, podemos dizer que a Sagrada Escritura, bem interpretada, dentro da Tradição viva da Igreja e sob a orientação do Magistério da mesma, é a autoridade para o que acreditamos e para o modo como vivermos. Ora, mesmo pessoas que se dizem cristãs, têm dificuldade em aceitar a autoridade da Escritura, o que significa não aceitarem a auto-ridade do seu autor. Por exemplo, a Escritura diz: «Não mata-rás». Este mandamento, bem concreto, seria suficiente para não haver cristãos a defender o aborto ou a eutanásia. Mas hoje há muitos que se dizem cristãos e acerca de tudo dizem: «“ah, eu acho que”….» E o “eu acho” é que é a fonte da sua autoridade. E o mundo de hoje, que se furtou à autoridade moral de Deus e da sua palavra, entrou naquilo que o papa Bento XVI chamou de «ditadura do relativismo». Ficámos sem Pai, sem autoridade e, onde não há autoridade acabamos por magoar-nos. Um dia observei um grupo de crianças que, num parque, jogavam à bola mas não tinham árbitro. Passavam o tempo a discutir uns com os outros porque uns faziam “falta” e diziam que não era, e outros diziam que era… e passavam o tempo parados fazendo crescer a irritação. Um rapaz dos seus 30 anos, que observava enquanto passeava e se ia rindo com o que via, chamou-os e perguntou-lhes: «Querem que eu arbitre o vosso jogo para jogarem com alegria?» Todos res-ponderam: -«Sim, queremos.» E ele perguntou ainda: «Mas aceitam a minha autoridade e obedecem ao que eu disser?» Sim, disseram eles. Acabei por ficar a ver o jogo, com alguma curiosidade sobre o que ia acontecer. E fiquei espantado com o que vi: As crianças nunca resmungaram com o árbitro e sempre aceitaram as suas decisões. Este era um conhecedor da arbitragem, pois fez um trabalho quase profissional e, fi-nalmente, o jogo terminou. As crianças, já mais a entrar na adolescência, estavam todas muito alegres pelo belo jogo que a autoridade daquele árbitro permitiu. Foram as regras e a autoridade aceite daquele árbitro que fez do jogo algo belo. Mas enquanto cada um tentava pôr em prática a sua opinião, no jogo não se avançava. Quando foram mais livres? Com regras ou sem elas? Deus, porque nos ama, propõe-nos um caminho a seguir. Como Ele diz no Deuteronómio: “Ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Esco-lhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habita-res na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob.». Deus apresenta-nos limites porque nos ama muito e deseja-ria que não nos feríssemos. A Bíblia é uma carta de amor onde aparecem também algumas leis e preceitos que deve-mos cumprir para vivermos bem e, quem recebe uma carta de amor ou de grande amizade, não a quer perder pois con-sidera-a preciosa, não pela carta, mas pela pessoa que a escreveu. Também a Bíblia não é o importante, o importan-te é o seu autor. O autor ama-nos e quer ter uma relação de amor com cada um de nós. Quando me retiro para o silên-cio para rezar a Bíblia, não é por causa da Bíblia, é por dese-jar entrar em relação com Aquele que ali me chama a en-contrar-me com Ele
Jesus disse: «Investigai as Escrituras, dado que julgais ter nelas a vida eterna; são elas que dão testemunho a meu fa-vor». Por outras palavras: «Este livro é sobre mim» – «Vós, porém, não quereis vir a mim, para terdes a vida!» (Jo 5,39) Não esqueçamos: o importante na Bíblia é ter uma relação com Jesus. E se começamos a lê-la, a nossa fé vai crescer. Pois diz a Bíblia que a fé vem da escuta.
Para a próxima semana tentaremos responder à questão: «Como ouvimos Deus falar-nos na Bíblia?»

Folha Paroquial nº 108 *Ano III* 19.01.2020 — DOMINGO II do TEMPO COMUM

«Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.»

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«EVANGELHO ( Jo 1, 29-34 )
Naquele tempo, João Baptis-ta viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Isra-el que eu vim batizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espíri-to Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na batizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e per-manecer é que batiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemu-nho de que Ele é o Filho de Deus».»

MEDITAÇÃO
A PALAVRA DE DEUS NA VIDA DA IGREJA E DE CADA CRISTÃO
Sempre que houve na minha história pessoal, alguma mudança re-novadora, foi fruto de uma Palavra de Deus que iluminou a minha mente e o meu coração. Aos 19 anos, quando andava confuso e dividido entre ser padre ou seguir outros caminhos nos quais me sentia aprisionado, houve uma Palavra, da Bíblia, que percebi que era para mim, logo que os meus olhos caíram nela. Dizia: «O reino dos céus é semelhante a um homem que encontrou um grande tesouro no seu campo, quando o encontro ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía para adquirir esse campo”. Santa Teresinha do Menino Jesus conta-nos como o capítulo 13 da carta aos Coríntios a iluminou para encontrar a sua vocação na Igreja. A Palavra de Deus tem sido a luz a iluminar o caminho de multidões e multidões ao longo dos séculos. Ela é misteriosa. A carta aos He-breus, diz-nos que ela «é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articu-lações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração».
Algumas pessoas pensam e dizem: “A Bíblia? Um livro tão antigo e ainda por cima escrito numa cultura tão distante e diferente da nossa, o que pode dizer ao homem da era tecnológica? No entanto, temos de admitir que ela continua a atrair a humanidade. O sinal disso, é que continua a ser o livro mais vendido no mundo, todos os anos, desde sempre. Não há nenhum que se lhe compare. Em cada ano mais de cem milhões de Bíblias são vendidas e oferecidas. Não pode fazer parte da lista dos best-seller pois não tinha piada ser sempre o mesmo todos os anos. Porque é que num mundo que parece ser tão indiferente a um Deus pessoal, a Bíblia continua a ser imensamente vendida e a um ritmo sempre crescente? A razão está numa frase da própria Bíblia proferida por Jesus ao tentador: «Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.»
Se nos contentássemos em comer, beber, ter uma casa, ter saúde e dinheiro, não pre-cisávamos da Bíblia mas «nem só de pão vivemos». Dentro de nós existe uma inquietação que nos leva a beber na fonte que é a Bíblia. E é ela própria que nos diz: «Feliz o homem que se com-praz na Lei do Senhor e nela medita dia e noite. É como árvore plantada à beira das águas correntes. Dá fruto a seu tempo e a sua folhagem não murcha.»
Donde vem a importância desta palavra? O que tem ela de especi-al? É a própria Sagrada Escritura que responde: «Toda a escritura é inspirada por Deus», quer dizer, é como um respirar do pensamen-to de Deus. É claro que houve muitos autores humanos. Ao longo de um período de 1.600 anos houve pelo menos quarenta autores. Houve reis, pobres, filósofos, pescadores, poetas, estadistas, histo-riadores, médicos. Eles escreveram diversos tipos de literatura, tal como história, poesia, profecia, cartas. Por isso é 100% escrito por autores humanos mas é também 100% inspirado por Deus. Como pode ser isso? Vamos a uma imagem: O projeto de arquitetura da Igreja Paroquial de S. José foi terminado em 1953, sendo seu autor o Arquiteto Álvaro da Fonseca. Toda a igreja foi desenhada e pensa-da por ele e, por isso, conhecemos o seu nome. Mas quase de cer-teza ele não colocou uma única pedra ou tijolo ou madeira na igre-ja. Isso foi obra dos pedreiros, carpinteiros, pintores etc. Ela é 100% obra de Álvaro da Fonseca mas é também 100% realização de todos os que trabalharam para a edificar. Neste caso só conhecemos o nome do autor do projeto, os outros ficaram no anonimato. Mas sem eles ela não se faria. No caso da Bíblia conhecemos o autor do projeto, Deus, mas até conhecemos alguns dos autores huma-nos tanto do Antigo como do Novo Testamento.
A Bíblia é como uma longa carta do amor de Deus pelos homens. Por isso quando a lemos, ela edifica-nos, anima-nos, dá-nos paz, alegria, leva-nos ao perdão, desperta o que há de melhor em nós, e, no fundo, humaniza-nos e diviniza-nos. O papa Bento XVI escreveu em 2009 uma exortação apostólica sobre a palavra de Deus intitulada Verbum Domini. Aí afirma: «A Igreja funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela. Ao longo de todos os séculos da sua história, o Povo de Deus encontrou sempre nela a sua for-ça, e também hoje a comunidade eclesial cresce na escuta, na celebração e no estudo da Palavra de Deus. Há que reconhecer que, nas últimas décadas, a vida eclesial aumentou a sua sensibili-dade relativamente a este tema, com particular referência à Reve-lação cristã, à Tradição viva e à Sagrada Escritura.» Ao proclamar o Domingo da Palavra o papa Francisco pretende dar continuidade a este amor à Palavra de Deus por parte dos fieis para que todos sejamos melhor alimentados pelo alimento que dá a Vida em abundância.

Folha Paroquial nº 107 *Ano III* 12.01.2020 — BAPTISMO DO SENHOR

«O Senhor abençoará o seu povo na paz.»

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«EVANGELHO (Mt 2, 1-12)
Naquele tempo, Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser batizado por ele. Mas João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser batizado por Ti e Tu vens ter comigo?». Je-sus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse. Logo que Jesus foi batizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».»

MEDITAÇÃO
DOMINGO DA PALAVRA DE DEUS
No passado dia 30 de Setembro de 2019, foi divulgada a carta apos-tólica do Papa Francisco, sob forma de motu proprio “Aperuit illis”, na qual institui o terceiro domingo do tempo comum como o do-mingo da Palavra de Deus. O santo padre faz referência à experiên-cia dos discípulos de Emaús com Jesus, que ao apresentar a escritu-ra lhes aquece os corações e lhes abre os olhos ao partir do pão (Lc 24, 45). O contato pessoal com a sagrada escritura leva cada um de nós a descobrir que Jesus está vivo e ressuscitado. Esta novidade não pode ficar no silêncio do nosso coração, e por isso deve ser anunciada através do ensino da palavra e da evangelização. Este dia tem, portanto, o objetivo de levar a comunidade cristã a celebrar a Palavra de Deus, obtendo uma maior reflexão e divulgação, tornan-do a sagrada escritura próxima e acessível a todos, através das cele-brações e reflexões.
Hoje, celebramos o batismo do Senhor. A primeira leitura do profe-ta Isaías fala-nos, de forma profética, da pessoa de Jesus, que é o eleito de Deus em quem repousa o Espírito que o leva a ser Luz para as nações, a abrir os olhos aos cegos e a libertar os cativos. Este Jesus que o profeta anuncia é o mesmo apresentado por João Batis-ta e confirmado pela voz de Deus que se faz ouvir. É a Palavra do Pai que dá testemunho que Jesus é o filho de Deus. A Palavra de Deus faz-nos comtemplar a salvação que está na pessoa de Jesus que ao descer às águas as santifica. Também nós, através do sacra-mento do Batismo, recebemos a semente da Palavra e somos cha-mados a anunciá-La àqueles que ainda têm ouvidos surdos a esta palavra. É com esse propósito que o Papa Francisco, através do dia da Palavra de Deus, pretende que a Bíblia se torne mais conhecida, meditada e comida pois “quem não conhece a palavra de Deus não conhece Cristo”, dizia S. Jerónimo, pois Ele é o verbo de Deus que se fez carne. Quando anunciamos a sua Palavra anunciamos o Se-nhor Jesus e por isso a Palavra é viva, pois é a palavra d’Aquele que esteve morto mas venceu a morte e ressuscitou. Também a sua Palavra, essa que Ele anunciou, foi experimentada e testada pela morte e pela sepultura e, quando se pensava que essa palavra esta-ria morta, desaparecida e sem poder, eis que ela ressuscita da mor-te. O Pai, ao ressuscitar o seu Filho da morte, confirma que tudo aquilo que Ele disse e fez vem de Deus, que o Filho é a Palavra que Deus tem para dizer aos homens. Por isso Ele diz: “Escutai-O.”
Com a instituição do domingo da palavra, o papa Francisco também pretende uma aproximação maior dos cristãos e dos judeus já que a Palavra de Deus nos une. A Bíblia começou com o povo judeu e tem as suas raízes também no mesmo povo. Os protestantes dão todos muita importância à Palavra de Deus. Assim a Bíblia une-nos, faz de todos nós cristãos o povo da Palavra viva. Não a religião do Livro mas da palavra. A Palavra do livro fica aí imutável e não permite reinterpretações ou uma melhor compreensão, mas a Palavra viva vai sendo compreendida sempre melhor através dos tempos com o auxílio do Espírito Santo, da Tradição viva da Igreja e do magistério. Esta é uma das diferenças entre cristianismo e Islamismo que, estes sim, são a religião do livro, que não permite reinterpretação.
Enfim, a carta apostólica cha-ma, também, a atenção para percebermos que há um víncu-lo inseparável entre a sagrada escritura e a Eucaristia. Lem-bremos o texto base desta carta “E, quando se pôs à me-sa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no”. Vejam como é o percurso destes discípulos. Antes de se sentarem à mesa para se alimenta-rem do pão, eles recebem, pelo caminho, o alimento da própria escritura com a qual Jesus vai preparando os seus corações. «Não nos ardia cá dentro o coração quando Ele, pelo caminho, nos ex-plicava as escrituras?» Chegados à mesa, “Jesus deu graças, partiu o pão e entregou-lho” e os seus olhos abrem-se e só agora o reco-nhecem. É Ele! Foi a Escritura que os preparou para a ceia. Na eucaristia, a Ceia do Senhor, é sempre antecedida pela Leitura das escrituras e a sua meditação para que os nossos corações se abram depois à presença eucarística de Jesus no pão que nos ali-menta de outra forma, como Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo. Após essa experiência com o ressuscitado, depois de ouvimos a sua voz e termos comido o seu corpo entregue por amor, somos chamados a partir como os discípulos de Emaús, a dizer aos outros: «Vimos o Senhor». É a evangelização que decor-re da Eucaristia. Ao fim de cada missa, esta é a nossa missão, pois a missa termina como celebração mas os seus efeitos em nós con-tinuam durante toda a semana em nossa casa, no trabalho, na escola e em todos os lugares deste mundo. Vivamos, então, essa nova realidade de uma Igreja em Saída, alimentados pelo pão da palavra e da eucaristia.
P. Francisco Morais, Vigário paroquial

Folha Paroquial nº 106 *Ano III* 05.01.2020 — EPIFANIA DO SENHOR

«Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.»

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«EVANGELHO (Mt 2, 1-12)
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notí-cia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jeru-salém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide in-formar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encon-trardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Orien-te seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adora-ram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presen-tes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.»

MEDITAÇÃO
Todos são bem-vindos ao coração de Cristo e da igreja.
O Messias vem para todos
Quando lemos o principezinho de Antoine de Saint Exupéry perce-bemos facilmente que o autor nos conta algo muito mais profundo do que uma história que parece infantil mas não é.
A narrativa de S. Mateus da visita dos Magos não se entenderá na sua profundidade se ficarmos só na história simpática de uns ma-gos, de uma estrela e da oferta de ouro, incenso e mirra ao Menino no presépio. Os Magos procuram alguém a quem dão o título de “rei dos judeus”. É este mesmo título que Pôncio Pilatos mandará colocar na cruz de Jesus no Calvário. S. João, mencionando que esta inscrição estava em três línguas, quer dizer-nos que aquele que está na cruz se oferece por todos e não só por um povo. A primeira leitura de hoje, do profeta Isaías, afirma bem que não se trata só de uma salvação para um povo específico, mas que diz respeito a todos os povos. Os magos são pagãos que procuram sinceramente a verdade. No texto de hoje, os pagãos não se contentam em ver. Eles caminham para a luz que se deixa ver por eles. E são multidões. E não só de amigos, mas também multidões de países inimigos co-mo Madiã e Efá contra quem Israel guerreou várias vezes. Os magos aproximam-se da luz do Verbo de Deus sem serem filhos de Israel.
A primeira leitura reenvia-nos para um grande clarão de luz que ilumina todas as trevas da terra: “Resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Se-nhor. Vê como a noite cobre a terra, e a escuri-dão os povos. Mas sobre ti levanta-Se o Senhor, e a sua glória te ilumina.” O Natal é a festa da Luz, pois Ele veio para tirar os povos da escuridão da noite. Também o evange-lho nos fala da luz, numa estrela que vai iluminar o caminho dos Magos. E eles deixam-se iluminar por esta luz e seguem-na.
Porquê a estrela? E o que significa?
A esperança na vinda do messias era muito viva no tempo de Jesus. Toda a gente falava disso e rezava-se para apressar a sua vinda. Um dos sinais pelos quais se pensava que a vinda do Messias seria sina-lizada era por uma estrela. E esta crença tinha a sua raiz na profecia de Balaão. Talvez valha a pena conhecermos esta bela passagem que se encontra no livro dos Números: quando as tribos de Israel, já no final do êxodo, se aproximam da terra prometida e estão a tra-vessar as planícies de Moab (hoje Jordânia), o rei de Moab, Balac, convoca o profeta Balaão para que, do alto do monte, à vista das tribos de Israel, as amaldiçoe, pois tem medo delas por estarem abençoadas e protegidas por Deus. Mas em vez de amaldiçoar, Ba-laão, inspirado por Deus, começa a proferir profecias de felicidade e de glória para Israel, e em especial ele ousa dizer: «Uma estrela surge de Jacob e um cetro se ergue de Israel». É daqui que vem a crença de que uma estrela iluminaria o céu quando o Messias sur-gisse. Herodes sabe bem o significado da estrela e por isso fica ate-morizado quando os magos lhe dizem que viram a estrela no orien-te e que a seguem.
O texto do Evangelho de hoje mostra-nos que há uma luz que irra-dia sobre o mundo. Começa por iluminar os Magos e condu-los na sua procura. Mas, paradoxalmente, Jerusalém está às escuras e não vê luz nenhuma. A luz que conduz os Magos apaga-se naquela cida-de que mais devia resplandecer. «para nos libertar das trevas e das sombras da morte», não se abrem à luz e permanecem na morte. Os magos prosseguem o seu caminho e a Luz de novo irradia, tor-nando-se sol esplendoroso em Belém, naquela gruta, onde os Ma-gos entram e adoram. A estrela que tinha conduzido os seus cora-ções à procura, está ali indicando-lhes quem é a Luz do mundo. Mais tarde, na cura de um cego, essa luz dirá: «Eu vim a este mun-do para proceder a um juízo, de modo que os que não veem ve-jam, e os que veem fiquem cegos.» (Jo 9,39). Diz S. João, no prólo-go, a abertura do seu evangelho: «Veio para o que era seu, e os seus não O receberam. Mas àqueles que o receberam e acredita-ram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade do homem, mas de Deus”. “Agora já não há judeu nem grego”, recebe-se a graça, «de graça», isto é, gratuitamente: é pela fé no seu nome que nos tornamos filhos de Deus. A sua luz estendeu-se ao mundo inteiro e todos são bem-vindos ao encontro do Senhor que abre as portas do seu coração sempre que encontrar alguém com sede de verdade.
Se Deus acolhe a todos no seu coração, gratuitamente, sem exigir nada, a não ser a reta intenção de procura, não devemos também nós, comunidade cristã, fazer o mesmo? Não temos colocado mui-tos entraves a que venham? Muitas exigências morais que nem nós sempre cumprimos? A Igreja, diz o papa Francisco, deve ser uma mãe de coração aberto para todos e especialmente para os mais feridos e que não vivem segundo os nossos critérios morais. A Igreja é como um hospital de campanha que está sempre a acompanhar os homens onde estiverem feridos para estar próxi-mo deles e os curar. Precisamos de acolher melhor à maneira de Jesus. As pessoas só darão o passo da fé e da entrega da vida a Jesus quando se sentirem acolhidas e amadas. Vamos todos me-lhorar o acolhimento nas nossas paróquias, desde a entrada na igreja a todas as dimensões do acolhimento.

Folha Paroquial nº 105 *Ano II* 29.12.2019 — DOMINGO SAGRADA FAMÍLIA

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«EVANGELHO (Mt 2)
Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há de chamar-Se Nazareno».»

MEDITAÇÃO
Ao celebrarmos a festa da Sagrada Família, lembramos, antes de mais, que Deus, fazendo o homem à Sua imagem e semelhança, na união de homem e mulher, quis que a família humana fosse expres-são da comunhão de amor da família divina: o Pai, o Filho e o Espíri-to Santo. E lembramos também que, na Encarnação, Deus, na pes-soa do Filho, quis precisar de uma família humana, a Família de Na-zaré, para realizar a obra da salvação da humanidade, anunciada desde a queda de Adão, ao longo de toda a história do povo de Deus, no Antigo Testamento, e consumada plenamente na morte e ressurreição do Verbo Encarnado.
É nessa Família de Nazaré que podemos comtemplar o melhor tes-temunho de amor para as nossas famílias de hoje, porque ele se traduz na dádiva e na entrega: na dádiva do Pai que entrega o Seu Filho Único para a salvação do mundo; na dádiva de Maria que se entrega total e incondicionalmente à vontade do Pai, viabilizando assim o plano divino; na dádiva de José, homem simples e humilde, que se entrega ao cumprimento integral da missão que Deus lhe confia. Trata-se, pois, de uma família exemplar, onde existe verda-deiro amor, mas, sobretudo, de uma família que sabe escutar Deus e seguir com absoluta confiança os caminhos por Ele propostos.
A partir deste quadro, as leituras de hoje fornecem-nos indicações práticas para a construção das nossas famílias, na medida em que elas possam ser espaços de encontro, de escuta, de partilha e de entrega ao serviço mútuo, a exemplo de Cristo “que veio para servir e não para ser servido e dar a vida” (Mt 20, 28), aceitando assim ser testemunhas do “Homem Novo” no espaço familiar e à sua volta.
Na história narrada no Evangelho contemplamos a figura de José, homem atento que escuta e acolhe as indicações de Deus e sabe interpretar a Sua vontade, não se poupando a qualquer esforço e sacrifício para, com sua esposa, cuidar e defender a vida daquele menino.
Pelas exortações de Paulo na segunda leitura, de que o Papa Fran-cisco faz eco no capítulo IV da Exortação Apostólica “Amoris laeti-tia”, somos levados a compreender o papel que a família cristã é chamada a desempenhar e que todos nós somos convidados a ex-perimentar, no dia a dia, na relação marido e esposa e na relação pais e filhos, como também na família alargada. As nossas famílias hão de ser espaço de aceitação mútua, no esforço contínuo do ajus-tamento dinâmico e progressivo entre os seus membros, “suportando-se uns aos outros e perdoando-se mutuamente”; es-paço de confiança mútua que radica no compromisso e na fidelida-de à união e ao amor-entrega, em que o egoísmo, o ciúme, a inveja e a cedência a apetites ou desejos próprios não têm lugar; espaço de estima mútua, em que todos se esforcem na caridade recíproca e se tratem com “bondade, humildade, mansidão e paciência” e cada membro aceite renunciar ao seu comodismo para se sacrificar pelo outro; espaço de pertença mútua, em que cada um se sinta verdadeiramente acolhido, em sua casa e na sua família; e, final-mente, as nossas famílias hão de ser espaço de oração, de partilha da fé, de encontro, de união com Deus e de comunhão fraterna, onde “habite com abundância a palavra de Cristo”, à luz da qual todos se possam “instruir e aconselhar uns aos outros”, pois a famí-lia é sacramento do amor indestrutível e eternamente fiel de Cristo ao seu povo – a Igreja, onde todos “somos chamados a formar um só corpo”.
Sabemos que este modelo de família proposto na Sagrada Escritura, está seriamente ameaçado, pelos contra-valores da sociedade pós-moderna que nos invadem e influenciam, muitas vezes sem darmos conta. Entre eles, o Papa Francisco, destaca o individualismo cres-cente e exagerado, considerando que ele representa uma séria ameaça à união e coesão familiar, na medida em que “desvirtua os laços familiares e acaba por considerar cada componente da família como uma ilha, fazendo prevalecer a ideia de um sujeito que se constrói segundo os seus próprios desejos assumidos com caráter absoluto” (AL 33). Isto, claro, a par do “ritmo da vida atual, o stresse, a organização social e laboral, porque são fatores culturais que colocam em risco a possibilidade de opções permanen-tes” (idem).
Não podemos, porém, sucumbir perante tantas ameaças, riscos e desafios que as famílias de hoje enfrentam e peçamos à Sagrada Família de Nazaré que nos acompanhe e ilumine no caminho a seguir, rezando com o Papa:
Oração à Sagrada Família
Jesus, Maria e José, em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor, confiantes, a Vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evange-lho e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do carácter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Ámen.
Diác. Albano

Folha Paroquial nº 104 *Ano II* 22.12.2019 — DOMINGO IV DO ADVENTO

«Venha o Senhor: é Ele o rei glorioso.»

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«EVANGELHO (Mt 1, 18-24)
O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.»

A FIDLIDADE DE DEUS
Cada uma das três leituras é tão rica e tão profunda que pena é termos pouco espaço para as aprofundar. Como habitualmente nos detemos mais no Evangelho, hoje convido-vos a colocar o nosso olhar sobre a 1ª leitura tirada do profeta Isaías. Claro que tenho pena de não me referir à 2ª leitura de Paulo aos Romanos por ser tão bonita e tão profunda. Ainda assim gostava de colocar todo o peso nestas palavras de Paulo para serem ouvidas a poucos dias do nascimento de Jesus: «(…) Evangelho que Deus tinha de antemão prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras, acerca de seu Filho, nascido, segundo a carne, da descendência de David, mas, segundo o Espírito que santifica, constituído Filho de Deus em todo o seu poder pela sua ressurreição de entre os mortos: Ele é Jesus Cristo, Nosso Senhor.» Deus tinha prometido e não falha. Ele é fiel. +E isso que vamos ver na 1ªleitura de hoje. Estamos no ano 735 antes de Cristo, num dos momentos mais dramáticos da história de Israel em que está em causa a sua sobrevivência como povo inde-pendente. O antigo reino de David está dividido em dois pe-quenos reinos há cer-ca de 200 anos. Dois reis, duas capitais: Samaria ao Norte e Jerusalém ao Sul. É em Jerusalém que reina a dinastia de David, aquela donde nascerá o Messias. Por agora é claro que o Messias ainda não nasceu. Um jovem rei de 20 anos, Acaz, acaba de subir ao trono de Jerusalém e desde que tocaram as trombetas da sua coroação real, ele tem aos seus om-bros o peso de grandes decisões a tomar.
A Bíblia fala a partir da história mas não é um livro de história, é um livro de fé. E se as palavras do profeta Isaías foram conservadas e transmitidas, é porque a questão que se coloca a Acaz é, em primei-ro lugar, uma questão de fé. Para bem das suas decisões, ele deve apoiar-se sobre a sua fé, isto é, só em Deus que prometeu que a dinastia de David não se extinguiria; e se prometeu, manterá a Sua promessa. Deus não abandonará o seu povo. Esta é a convicção que Isaías transmite a Acaz. Mas a situação é dramática e demasiado pesada. Os dois pequenos reinos da Síria e Samaria revoltam-se contra Nínive e cercam Jerusalém para destronar Acaz e substituí-lo por um outro rei que aceite ser aliado deles na guerra de indepen-dência contra Nínive. Acaz entra em pânico. Os versículos anterio-res que não vêm na leitura de hoje, dizem que «o seu coração e o do seu povo ficaram agitados como as árvores das florestas são agitadas pelo vento» (Is7,2). Isaías começa por convidar à calma e confiança; Ele diz-lhe qualquer coisa como «Confia em Deus, a tua dinastia não pode extinguir-se, pois Ele prometeu». E, por isso, o conselho de Isaías é: «enfrenta tranquilamente as ameaças que se apresentam, apoia-te na tua fé e sobre os recursos do teu povo»; e depois acrescenta: «A fé é a vossa sobrevivência; se tu e o teu povo não acreditarem, vós não subsistireis.» Israel é o povo do Senhor e, ou vive da fé que é a sua força, ou deixa de viver dela e fica entre-gue a si mesmo e não vai longe. Mas Acaz não é capaz de escutar; ele, o depositário da fé no Deus único, oferece sacrifícios a todos os ídolos, e vai mesmo ao ponto de fazer a coisa mais atroz, que é ha-bitual no seu tempo entre os outros povos pagãos, mas que era proibidíssimo em Israel: Matou o seu filho único para oferecer em sacrifício (cf 2Reis 16,3). Finalmente Acaz decide pedir o apoio do imperador Assírio para se ver livre dos pequenos reis que o amea-çam. Isaías é fortemente contra esta solução, porque «não há al-moços grátis», tudo se paga.
Acaz, pedindo este apoio, perde a sua independência política e religiosa perante o rei Assírio. É varrer de um só golpe a obra de libertação realizada desde Moisés. E é aqui que Isaías pronuncia as palavras que escutámos hoje. Antes de serem dirigidas aos nossos ouvidos de cristãos, com um outro significado para nós, elas foram primeiro pronunciadas numa situação particular muito concreta. Ele diz a Acaz: “Já que tens dificuldade em acreditar, pede a Deus um sinal; podes pedi-lo nas alturas ou nos vales… Deus reina em toda a parte”. Acaz responde de um modo muito hipócrita, ele que já tinha tomado a sua decisão, contrária aos conselhos do profeta, e, pior, ele que cheio de pânico sacrificou o seu filho úni-co, sobre quem repousava a promessa de Deus, diz: «Oh, não! Longe de mim a ideia de ousar exigir qualquer coisa a Deus!» E é aqui que Isaías, que não é vesgo, lhe diz: «Não vos basta que an-deis a molestar os homens, para quererdes também molestar o meu Deus?»
Intencionalmente, ele diz «O meu Deus», porque ele acha que Acaz está a pôr-se fora da Aliança. Por isso, continua o profeta, «o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho, e o seu nome será Emanuel». Mesmo diante destas infidelidades repetidas de Acaz, Isaías anuncia que Deus permane-ce fiel. E vai prová-lo: a Virgem, quer dizer, a jovem rainha, mulher do rei, conceberá; e o filho que ela vai trazer ao mundo chamar-se-á precisamente «Deus connosco».
Conclusão: nem os inimigos, que que-rem destruir Acaz, nem ele mesmo que na sua falta de fé e confiança imola o seu filho, impedirão a fideli-dade prometida por Deus à descendência de David e ao seu povo. O rei que nascerá da mulher de Acaz será Ezequias. Também ele cometerá erros, pois os homens permanecem livres, mas a profe-cia de Isaías continuará sempre válida: sejam quais forem as infi-delidades dos homens, nada impedirá a fidelidade prometida por Deus à descendência de David e ao seu povo. É assim que, de sé-culo em século, se manterão vivas no coração as promessas de Deus, com a certeza de que um dia, talvez longínquo, virá final-mente um rei digno de ter o nome de Emanuel.
Talvez possamos perceber agora melhor como devem ter ressoa-do no coração de José as palavras do anjo: “Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será cha-mado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’»”. Que Deus seja louvado pelo seu amor e fidelidade.

Folha Paroquial nº 103 *Ano II* 15.12.2019 — DOMINGO III DO ADVENTO

«Vinde, Senhor, e salvai-nos.»

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«EVANGELHO (Mt 11, 2-11)
Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».»

MEDITAÇÃO
Domingo III do Tempo Comum | Domingo Gaudete (da alegria)
Exulte em brados de alegria
O texto da 1ª leitura põe à prova o leitor. Só alguém que saiba dar-se conta de que está a ler um poema, e o ler como tal, dando a ento-ação poética, o lerá bem. É que não basta ler o que lá está para ler bem, é preciso despertar sentimentos e emoções, sobretudo des-pertar a esperança num salvador que, quando chegar, fará «que se abram os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado, e a língua do mudo cantará de alegria».
Às vezes cansamo-nos de esperar. Então ficamos cínicos, incrédulos, impacientes. A segunda leitura diz-nos: «Esperai com paciência a vinda do Senhor». Aprendei com o agricultor a saber esperar desde a sementeira à ceifa. Nós ainda não vemos o Reino de Deus total-mente realizado, mas já há tantos sinais dele no meio de nós. E so-mos chamados a acolhê-lo em grande exultação para que seja mais visível. Esta alegria vem do facto de sabermos que está algo imensa-mente bom para acontecer. E está perto.
João Baptista, na prisão, coloca a si mesmo várias perguntas: «Será que me tenha enganado acerca do Messias? Será Ele o Messias es-perado?» Tinha anunciado um Messias juiz rigoroso implacável para com os injustos e os maus, que viria para aplicar a justiça divina, que já está com o machado à raiz da árvore para castigar os que não praticam obras de arrependimento, e o que vê é um Messias dedica-do a curar as feridas dos que sofrem. Por isso envia, da prisão, emis-sários a Jesus para que lhes desvende as dúvidas: «És tu o que está para vir ou devemos esperar outro?» E Jesus responde-lhe com a sua vida de curador e consolador: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim moti-vo de escândalo».
Jesus não se sente enviado por um juiz rigoroso para julgar os peca-dores e condenar o mundo. Por isso, não atemoriza ninguém com gestos justiceiros, mas oferece aos pecadores e a todos os que se sentem longe do coração de Deus a sua amizade e o seu perdão. E por isso pede a todos: «Não julgueis para não serdes julgados».
Jesus não cura de maneira arbitrária ou por sensacionalismo. Cura movido pela compaixão, procurando restaurar a vida a essas pessoas enfermas, sofridas e destruídas. São as primeiras que hão de experi-mentar que Deus é amigo de uma vida digna e sã. Jesus nunca insis-tiu no caráter prodigioso das suas curas nem pensou nelas como uma receita fácil para suprimir o sofrimento do mundo. Apresentou a sua atividade curadora como sinal para mostrar aos seus seguido-res a direção que devemos tomar para abrir caminhos a esse projeto humanizador do Pai a que Ele chamava «Reino de Deus».
A Igreja é hoje a continuadora da missão de Jesus impulsionada pelo Espírito Santo. Em S. João Baptista, bem como na zona do Loreto, está-se a trabalhar para se construírem novas igrejas. Parece estar-se a contracorrente do que se passa nalguns países da Europa onde elas são vendidas e transformadas em cafés, museus, e outro locais públicos.
Se alguém nos perguntasse: Para que serve a Igreja? Por que razão havemos de trabalhar para que ela exista e se desenvolva? Penso que a nossa resposta poderia e deveria ser semelhante à de João Baptista acerca do Messias. Sendo continuadora da missão de Jesus e continuamente animada pelo seu Espírito, ela tem por missão tam-bém «curar os corações atribulados, levar a luz aos cegos, fazer ou-vir os surdos, levar alegria aos tristes, levar esperança aos desanima-dos, levar o pão aos famintos, levar o abraço da misericórdia e do perdão aos oprimidos; numa palavra, levar a fantástica e exultante boa notícia a todos de que Deus os ama e nunca os abandona, de que a vida vivida com Ele tem um enorme sentido e que não deve-mos temer a morte pois Ele tem preparado para nós uma vida abun-dante e eterna «que nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem ja-mais passou pela mente humana o que Deus tem preparado para os que O amam». Creio que se a Igreja souber, mostrar ao mundo de hoje estes sinais libertadores que a Igreja. Em Cristo realiza e se as pessoas forem experimentando isto as igrejas não se esvaziam porque as pessoas de ontem como de hoje continuam a precisar desta Boa Nova. E, graças a Deus, somos testemunhas muito fre-quentemente desta libertação, cura, restauração interior e exterior que tem acontecido na vida de tantos quando se encontram ou reencontram com a Igreja. Não faltariam testemunhos concretos para apresentar se tivesse aqui espaço para isso. Jesus é salvador e sempre que lhe abrimos a porta Ele vem e salva-nos de nós mes-mos e de todas as feridas que a vida produz em nós. Que Ele venha salvar-nos. Vem, Senhor Jesus.

Folha Paroquial nº 102 *Ano II* 08.12.2019 — DOMINGO II DO ADVENTO

«Cantai ao Senhor um cântico novo: o Senhor fez maravilhas.»

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«EVANGELHO (Mt 24, 37-44)
Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».»

MEDITAÇÃO
Como sois formosa, ó Maria, Imaculada, Mãe do Senhor
Já todos fizemos um dia a experiência de sermos atraídos com o nosso olhar para algo que era muito belo; uma pintura, uma bela paisagem verdejante, uma escultura ou outra coisa bela. Ficámos com aquela beleza na memória, mas, algum tempo mais tarde, voltámos a passar e deparámo-nos, incrédulos, com a pintura destruída, ou com a paisagem verdejante ardida e onde agora só se vêm cinzas. Antes de ex-perimentarmos um sentimento compreen-sível de cólera, apodera-se de nós uma grande tristeza, uma incom-preensão profunda. Porque é que aquilo que era tão belo, inocente, pôde ser destruído? Este sentimento pode dar-nos uma pequeníssi-ma e muito longínqua ideia dos sentimentos que habitaram o cora-ção de Deus, nosso pai, depois do primeiro pecado original de Adão e Eva. É toda a criação, gerada na inocência, na beleza e na graça, que foi manchada, destruída pelo pecado. “Adão, onde estás, o que fizeste e porquê?” Cada vez que o ser humano se desvia de Deus, seu verdadeiro bem, coloca um abismo entre ele e o único que o pode salvar. Mas Deus não se resigna com a morte do homem e com a sua infelicidade. Recria um plano salvador para nos resgatar da situação perdida. Em Conselho divino, a Trindade decide a salvação do homem na plenitude dos tempos. Para isso, o Verbo descerá dos céus e assumirá a nossa condição humana. E o Espírito Santo terá a missão de preparar uma Mulher para acolher o Verbo e enchê-la de graça desde a sua conceção. O texto do Génesis já faz referência a esta mulher nova que esmagará a cabeça da serpente. Como diz uma antífona deste dia: “Por Eva foi fechada aos homens a porta do céu e a todos foi de novo aberta por Maria.”
“Tendo entrado o anjo onde Maria estava disse-lhe: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».” Celebrando a Imaculada Conceição da Virgem Maria, celebramos a vitória do amor de Deus. A obra da salvação humana, desejada por Deus desde sempre, realiza-se atra-vés de Jesus, com a colaboração estreita duma pessoa da nossa hu-manidade chamada Maria. Deus tomou a iniciativa. É Ele que, de modo inesperado, irrompe em casa da jovem donzela de Nazaré, por Ele escolhida, através do anjo Gabriel. Maria, a primeira das criatu-ras a ser salva por Jesus, abre um Caminho novo que conduz à porta do Reino. Desde a sua conceição Imaculada, Maria é inteiramente objeto da misericórdia divina, é cheia de graça. Deus preparou para si uma morada digna d’Ele: “Avé, cheia de graça”. Maria, por seu lado, fica espantada diante desta inesperada visita e anúncio. Ela pressente um mistério que a ultrapassa completamente, e por isso perturba-se interiormente. É a perturbação que cada um de nós sente quando nos encontramos diante do mistério divino. Esta per-turbação é temor e, ao mesmo tempo, fascínio. Fascínio diante da-quele que pode cumular o nosso desejo profundo, e temor nascido do respeito reverente diante daquele que nos ultrapassa infinita-mente. Maria pergunta ao anjo: «Como será isso se eu não conheço homem?» E o anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra».
“O Espírito Santo virá sobre ti”. O anjo revela a Maria o mistério es-condido em Deus, o seu desígnio de amor. Cheia de graça, maravi-lhada pela realização das promessas feitas ao seu povo, Maria per-manece livre. Esta liberdade do Amor divino não cessa de criar um mundo novo naqueles que se oferecem a Ele. A Virgem Maria, em nome de todos nós, dá o seu «sim»: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» Deus estava em suspenso à espera da resposta de Maria. Logo que ela o disse, um mundo novo come-çou: “O Verbo fez-se carne no seio da virgem Maria e veio habitar entre nós.” Contemplando o que aconteceu à Virgem Maria, nós contemplamos o que Jesus realiza na sua Igreja. Este mistério que é agora revelado, será celebrado no Natal. Bendita seja a Virgem Ma-ria!

Folha Paroquial nº 101 *Ano II* 01.12.2019 — DOMINGO I DO ADVENTO

«Vamos com alegria para a casa do Senhor.»

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«EVANGELHO (Mt 24, 37-44)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem.»

MEDITAÇÃO
Hoje, a Igreja celebra o 1º Domingo do advento, tempo de espera, de oração e preparação para a celebração da solenidade do Natal do Senhor. Neste domingo vamos meditar a dimensão do encon-tro. Não é encontro qualquer: o tempo de advento é o momento propício em que a Igreja nos aponta para o grande encontro entre Deus e a humanidade, visto que esta se encontrava nas trevas do pecado e agora se prepara para receber o sol nascente que veio para iluminar e dar vida àqueles que já a tinham perdido. Este en-contro não é uma utopia, mas dá-se na nossa vida pessoal e comu-nitária.
Todos os anos nos preparamos para celebrar o nascimento de Jesus. Por que motivo celebramos então o nascimento de Alguém como se fosse nascer novamente? Na verda-de, Ele deve realmente nascer e eu devo também nascer com Ele. O advento permite-me, assim, um novo nascimento com Cristo. Posso então perguntar-me: “Como estou eu a viver a minha vida? Terá o Se-nhor lugar no meu coração? Tenho vivido a minha vida cristã de forma a que o meu coração seja a manje-doura onde o Senhor possa ter a sua morada?
Estamos à espera do Senhor que virá outra vez, não já como criança, mas na sua glória e majestade. Quando estamos à espera de alguém, não esperamos de qualquer maneira: para recebermos alguém sentimo-nos obrigados a mudar alguns hábitos e costumes que são comuns no dia-a-dia. Se o nosso convidado vem a nossa casa, preparamo-nos mudando a toalha da mesa, a loiça e até aprimoramos a ementa. Tudo é mais festivo que habitualmente. A expetativa daquele que virá gerou em nós mu-danças e transformação. A espera do Senhor que vem deve gerar em nós mudanças, e será Ele próprio quem manifestará a grande transformação na nossa vida, como vimos no profeta Isaías “Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foi-ces”(Is2,4). Pode-nos parecer difícil mudar de vida para receber o Senhor, mas, na verdade, todos os dias, e principalmente nos nos-sos dias, estamos preocupados em mudar. Em cada dia devemos ter a preocupação com a mudança para não cair na rotina do dia-a-dia.
Queremos estar diferentes e ser diferentes. Cito, por exemplo, as redes socias: há muitas pessoas preocupadas em não manter a mesma foto no perfil, é preciso estar sempre a mudar para que as pessoas possam pôr muitos “Gosto”. Preocupamo-nos se o nosso telemóvel ainda responde às nossas expectativas. O próprio tele-móvel exige periodicamente que façamos uma atualização do siste-ma para melhor se adequar às nossas necessidades. Assim também eu, como cristão, devo atualizar a minha vida cristã de acordo com o tempo litúrgico que a Igreja me convida a viver. Convertamos o nosso coração através da prática da oração, da partilha fraterna e da participação ativa na eucaristia dominical e da vida fraterna en-tre irmãos.
Estamos a ver que, para o encontro pessoal com Cristo, é necessá-rio uma conversão, uma mudança de vida. São Paulo, na sua Carta aos Romanos, é direto quando nos diz que é preciso abandonar as obras das trevas. Disse, no início da reflexão, que Jesus é o sol que veio para iluminar a humanidade no meio das trevas. Agora Paulo dá nome a essas trevas “Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebidas, as devassidões e liber-tinagens, as discórdias e os ciúmes”. Aproximar-se da luz é fazer o contrário das obras próprias das trevas.
O tempo do advento convida-nos a converter as obras más em obras de misericórdia. Somos chamados a partilhar o nosso pão material com aqueles que o não têm. Devemos sair do comodismo que nos aprisiona no egoísmo e egocentrismo dos tempos moder-nos e passar a dedicar um pouco do nosso tempo aos que se en-contram sós e abandonados. Tudo isto deve ser no entanto realiza-do como fruto de uma intimidade com Deus a partir de uma vida de oração. O Senhor também vem visitar-nos através dos mais pequeninos. Jesus foi o pequenino através do qual «Deus visitou o seu povo».
Pe Francisco Morais