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Folha Paroquial nº 43 *Ano I* 16.09.2018 — DOMINGO XXIV

“Caminharei na terra dos vivos, na presença do Senhor.”

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«Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».»

Hoje as leituras e, de modo especial o evangelho, apontam-nos o caminho de fé do discípulo, que é progressivo e fruto de uma relação para levar ao conhecimento de Jesus que não é intelectual mas relacional. Só conhecemos bem aqueles que amamos. Estamos no meio do evangelho de Marcos. Este evangelista construiu o seu evangelho à volta da descoberta progressiva da identidade de Jesus. Começa por dizer que Ele é o Filho de Deus, a meio coloca a afirmação de Pedro escutada hoje: “Tu és o Messias” e termina com a afirmação do centurião junto à cruz; «Este homem era realmente o filho de Deus. A resposta de Pedro sobre a identidade de Jesus parece corretíssima mas, mais à frente, vemos que afinal Pedro tem ainda um longo caminho a percorrer até que a expressão: “Tu és o Messias “ tivesse o mesmo significado que tinha para Jesus. Para Pedro, “O Messias” era Aquele que vinha com a força e o poder de Deus libertar o povo de Israel dos seus dominadores, os romanos, e fazer da sua nação a primeira entre todos os povos. Ele estava a segui-lo para ter um lugar ao sol ao pé do «Rei de Israel». Mas Jesus sabe que não é Aquele Messias esperado por Pedro e por isso “começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.” Isso para Pedro é inconcebível e tenta meter na cabeça de Jesus «bom senso». Chama-o de parte para o contestar. Mas Jesus tem uma expressão firme que na nossa tradução em português perde muito: No original grego Jesus diz a Pedro: «Passa para trás de mim, Satanás porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». “Passa para trás de mim”, quer dizer: «Faz-te meu discípulo, deixa que seja eu a indicar-te o caminho de como ser Messias-Salvador, da forma como o Pai o pensou. Não sejas o continuador da voz de Satanás no deserto. Os teus pensamentos não são segundo Deus e o seu Espírito, mas segundo os homens inclinados a seguir os seus instintos mais fáceis. No pensamento dos homens a vida é boa quando se tem poder, prestígio, dinheiro, honra, reconhecimento social: Eu porém digo-vos: Se alguém quiser seguir-Me dando plenitude à sua vida, seja capaz de a dar, pois aquele que a dá, recebe-a com um sentido novo, experimentará a salvação no âmago da sua própria vida, mas quem teimar em fechar-se na sua vidinha confortável, egoísta, superficial, esse perde-a. Pedro vai aprender a andar nos passos de Jesus, mas vai levar tempo. Depois das lágrimas da sua negação por três vezes, e depois de Jesus ter ressuscitado dos mortos, Jesus vai-lhe perguntar junto ao lago de Tiberíades, (onde está hoje a igreja do primado, lembram-se?). Pedro, tu amas-me? E o pobre do Pedro nem é capaz de responder com o mesmo verbo, mas responde: “Senhor tu sabes que eu sou deveras teu amigo.” Ele agora já sabe que o seu amor é pobre e fraco, mas verdadeiro e sincero; está pronto para ser pastor das ovelhas porque aprendeu a ser discípulo. Está pronto para dar tudo pelo Mestre que o salvou e n’Ele confiou. Que grande caminho de discípulo ele fez! Um caminho lento e progressivo, como o de todo o discípulo. No princípio é feito de entusiasmo exterior, de sentimentos e emoções ainda superficiais que podem desaparecer com as primeiras dificuldades, mas é passando pela tentação, pelo sofrimento aceite e entregue por amor, que a fé do discípulo vai amadurecendo, tornando-se mais profunda, mais verdadeira, mais iluminadora, capaz de ir até à dádiva da própria vida. Pedro vai ir até ao fim, dando a sua vida à imagem do Mestre. As lutas e as tentações de Pedro, e até as suas quedas, ajudam-nos a perceber o caminho do discípulo rumo à maturidade da fé, cuja meta é a estatura de Cristo na sua plenitude.

Folha Paroquial – Domingo XXIII do Tempo Comum- 09-09-2018

“Ó minha alma, louva o Senhor.”

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«Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.»

Faz que os surdos ouçam
No início da fé cristã está um encontro com Jesus. Por isso, só há fé cristã se houver encontro pessoal do crente com Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado. Hoje esse encontro acontece pela ação do Espírito que nos revela o «rosto» de Jesus e nos leva a abrir-nos à sua graça. A categoria de encontro faz parte essencial da fé cristã. O P. Nuno Santos, que publicou a sua tese de doutoramento sobre a esperança, analisa, demoradamente, 18 encontros que Jesus teve nos evangelhos com pessoas diferentes mostrando como cada encontro termina em alegria, júbilo, transformação da vida que ganha uma esperança e um rumo novo.
Hoje o evangelho apresenta-nos mais um desses encontros com Jesus, desta vez com um surdo-mudo. Este encontro segue-se depois da discussão com os judeus acerca das regras da pureza, como escutámos no evangelho de Domingo passado. Jesus partiu para território pagão, na Decápole, uma confederação de dez cidades mais de cultura grega e não judaica. É aqui que se dá o encontro com o surdo. Hoje já não se diz surdo-mudo, pois a mudez é uma consequência natural da surdez. De qualquer forma trata-se de uma enfermidade dupla.
Levam-lhe então o surdo e pedem-lhe para impor as mãos sobre ele. Jesus faz então alguns gestos que nunca tinha feito até agora. Conduz o enfermo à parte, longe da multidão e faz gestos sobre ele que os curandeiros faziam habitualmente; «meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua.» Não muda os gestos, mas dá-lhes um sentido novo: «Erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». O gesto de erguer os olhos ao céu não deixa nenhuma ambiguidade: Jesus só cura graças ao poder que lhe vem do Pai» Quanto ao suspiro, pelo vocabulário em grego, trata-se mais de um gemido: é a mesma palavra empregue nos Actos dos Apóstolos por Estevão no seu discurso para descrever o sofrimento do povo de Israel escravo no Egipto. Paulo emprega a mesma palavra para falar da impaciência da criação cativa na esperança da libertação: «Toda a criação geme e sofre as dores da maternidade esperando a libertação( Rom8, 22) e é empregue várias outras vezes sempre no mesmo contexto de sofrimento que espera ser libertado. Jesus lança o gemido como quem vive a impaciência pela libertação do sofrimento em que aquele surdo tem vivido por não poder ouvir nem falar. E eis o surdo curado: “Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente”. A resposta do povo, (não esqueçamos que se trata de pagãos) é uma proclamação das maravilhas de Deus: “Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem”. E com esta frase nos reenvia à 1ª leitura do profeta Isaías que anuncia a era da felicidade para os dias da vinda do Messias: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria.” As promessas messiânicas são então para todos, judeus e pagãos. E curiosamente, são os pagãos quem melhor decifra os sinais. Eles «proclamam», diz-nos Marcos. E a palavra não foi escolhida ao acaso. Proclamar aparece sempre como o anúncio de algo novo que Deus fez: “É a ordem de Jesus aos seus apóstolos depois da sua ressurreição. «Ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova».
Jesus diz ao surdo : Effata, quer dizer : Abre-te. Na celebração do batismo dos adultos, o sacerdote lê sempre esta passagem do evangelho de Marcos, depois toca os ouvidos e os lábios do batizado dizendo: « Effatha», quer dizer: “Abre-te, para proclamares, pelo louvor e pela glória de Deus, a fé que Ele vos transmitiu”. Parece-nos ouvir aqui a oração do salmo: «Senhor abri os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.»
A cura do surdo- mudo tem um alto valor simbólico no Novo Testamento. O discípulo é aquele que ouve a palavra de Deus e deixando-se transformar por ela, proclama o que Deus fez por Ele num louvor incessante. A sua boca abre-se para falar d’Ele porque o seu coração está cheio do fruto do encontro misericordioso com Ele. Como escreveu o papa Francisco, «a alegria do evangelho enche o coração e a vida d’aquele que se encontrou com Cristo.»
Quando na celebração vemos as pessoas que não abrem a boca para cantar nem para responder às orações, quando poucas vezes, ou nunca, falamos do Senhor e proclamamos o seu louvor, não estaremos surdos- mudos? Precisamos do encontro com Jesus que cura os surdos e abre os lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.
Que Jesus cure as nossas comunidades da surdez e da mudez, para que sejam comunidades missionárias prontas para escutar a Deus e proclamar as suas maravilhas.
Cura os surdos e os mudos ao ponto de não poderem calar o que viram e ouviram.

Folha Paroquial – Domingo XVI do Tempo Comum- 22-07-2018

“« O Senhor é meu pastor: nada me faltará.»”

Folha Paroquial – Domingo XV do Tempo Comum- 15-07-2018

“«Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia.»”

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EVANGELHO (Mc 6, 7-13 )
Naquele tempo, Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

NUEVA ETAPA EVANGELIZADORA
O papa Francisco está-nos a chamar para uma «nova etapa evangelizadora marcada pela alegria de Jesus». Em que consiste esta etapa?
Onde pode estar a sua novidade? Que havemos de mudar? Qual foi realmente a intenção de Jesus ao enviar os seus discípulos a prolongar a sua tarefa evangelizadora?
O relato de Marcos deixa claro que só Jesus é a fonte, o inspirador e o modelo da ação evangelizadora dos seus seguidores. Não farão nada em nome próprio. São « enviados» de Jesus
Não se pregarão a si mesmos: Só anunciarão o seu evangelho: Não terão outros interesses: só se dedicarão a abrir caminhos ao reino de Deus.
A única maneira de impulsionar «uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria de Jesus» é purificar e intensificar esta vinculação com Jesus: Não haverá nova evangelização se não há novos evangelizadores, e não haverá novos evangelizadores se não há contacto mais vivo, lúcido e apaixonado com Jesus: Sem ele faremos tudo menos introduzir o seu Espírito no mundo.
Ao enviá-los, Jesus não deixa os seus discípulos abandonados às suas forças: Dá-lhes “ poder”, que não é poder para controlar, governar ou dominar os outros, mas a sua força para «expulsar os espíritos imundos», libertando as pessoas do que as escraviza, oprime e desumaniza.
Os discípulos sabem muito bem em que consiste o encargo que Jesus lhes confere. Nunca o viram a governar ninguém, no sentido de querer controlar alguém. Sempre o viram foi a curar as feridas, a aliviar o sofrimento, a regenerar vidas, libertando os medos, contagiando confiança em Deus. » Curar» e «libertar» são tarefas prioritárias na atuação de Jesus. Darão um rosto radicalmente diferente à nossa evangelização.
Jesus envia-os com o necessário para o caminho. Segundo S. Marcos. Só levarão bastão, sandálias e uma túnica. Não necessitam de mais para serem testemunhas do essencial. Jesus quere-os ver livres e sem apegos; sempre disponíveis, sem se instalarem no bem-estar; confiando na força do evangelho.
Sem recuperar este estilo evangélico, não há « nova etapa evangelizadora». O importante não é pôr em marcha novas atividades e estratégias, que também são necessárias, mas desprender-nos de costumes, estruturas e servilismos que nos estão a impedir de sermos livres para contagiar o essencial do Evangelho com verdade e simplicidade.
Na Igreja perdeu-se este estilo itinerante que Jesus sugere: O seu caminho é lento e pesado. Não sabemos acompanhar a humanidade: Não temos agilidade para passar de uma cultura já passada a outra atual. Agarramo-nos ao poder que temos tido. Enredamo-nos em interesses que não coincidem com o reino de Deus. Necessitamos de conversão.
José Antonio Pagola
Por falta de tempo deixo aqui a reflexão que o teólogo espanhol Jose António Pagola faz do evangelho deste Domingo. Quem dera que, pouco a pouco, recuperemos o estilo evangélico de Jesus. Começámos ao lançar a adoração eucarística, por nos voltar para Jesus para nos «vincularmos mais a Ele, é o princípio mas falta ainda muita coisa. Que Ee nos ajude a converter-nos pessoalmente e pastoralmente.

Folha Paroquial – Domingo XIV do Tempo Comum- 08-07-2018

“«Os nossos olhos estão postos no Senhor, até que Se compadeça de nós.»”

Folha Paroquial – Domingo XIII

“«Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.»”

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«Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-Se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha f ilha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Entretanto, vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Mas riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.»

Eu vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.
Quando em vista da preparação das missas de Domingo comecei a meditar o evangelho deste dia, fiquei logo preso com as palavras de Jairo, chefe da sinagoga, a Jesus: ««A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Fui imediatamente transportado para um caso conhecido em que a mãe, entre lágrimas angustiadas me pede frequentemente: «A minha única filha está a morrer, reze por ela.» Decidi colocá-la todos os dias no altar da Eucaristia e confiá-la ao poder de Deus. Confio-a também à oração dos leitores. Jesus é o Salvador de todo o homem e do homem no seu todo. Os dez leprosos que lhe pediram para ser curados quando iam pelo caminho para se mostrarem aos sacerdotes perceberam que estavam curados, mas só um voltou atrás reconhecendo Aquele que o curou e prostrando-se diante dele. Foram dez os curados da doença física mas só um experimentou a salvação. Os textos de hoje mostram-nos, como grande parte dos evangelhos, que Deus é um Deus que cura porque quer salvar-nos por dentro. Quer que saibamos que somos amados e que a nossa vida tem um destino de eternidade. Ele compadece-se de nós e não quer a nossa doença ou morte, como diz a primeira leitura. “Não foi Deus quem fez a morte, nem Ele Se alegra com a perdição dos vivos”.
Hoje os nossos contemporâneos, mesmo os cristãos, não estamos muito à vontade com o tema da cura. Cheira-nos a charlatanismo ou exploração das fraquezas emocionais dos que estão em situação de fragilidade. Um padre dizia há tempos num sermão: «Hoje não há curas nem milagres. Isso era no tempo de Jesus». Não sei com que fé os participantes naquela missa de lá saíram. Mas uma das pessoas que ouviu e me contou disse para si mesma: “Aqui Deus morreu. Já não há nada a fazer nem a esperar». Foi o que concluíram os amigos de Jairo depois da filha ter morrido. «Já não vale a pena estares a importunar o mestre. A tua filha morreu.» Mas Jesus disse-lhe: “Não temas: crê somente.”
Cerca dum quarto dos evangelhos é consagrado à cura dos doentes, pois era o sinal por excelência de que o reino de Deus estava entre nós. E Jesus mandou a Igreja fazer o que Ele fez. Ao longo da história da Igreja nunca as curas cessaram, sinal de que Jesus está vivo. Santo Agostinho de Hipona ( 354-430), declara no seu livro a Cidade de Deus que “ ainda hoje milagres se realizam no nome de Cristo” Ele cita o exemplo de um homem cego em Milão que recuperou a vista, na sua presença. Cita igualmente uma mulher muito piedosa de uma grande linhagem- que foi curada de um cancro no seio, que os médicos diziam incurável.
Temos sido testemunhas, na paróquia de S. João Baptista, ao longo destes dois anos, de curas admiráveis pelas quais damos muitas graças a Deus. Isso tem tido como resultado as pessoas acreditarem mais no poder do Senhor e se voltarem mais para Ele. Cresceu enormemente os pedidos de oração durante as muitas horas de adoração. Se não acreditarmos e não pedirmos, não veremos a glória de Deus. Mas se acreditarmos Ele manifestará a Sua glória porque Ele quer que todos se salvem e dá-nos os sinais da sua salvação.
Não quero entrar pelo caminho fácil do curandeirismo ou charlatanismo. Sabemos que muitos por quem rezamos, não se curam, porque a cura não é um fim em si mesmo. As curas de Jesus estão ordenadas a qualquer coisa de mais importante, o reino de Deus, o anúncio de um mundo onde todos os sofrimentos serão abolidos, pois como diz a primeira leitura, «Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem da sua própria natureza». As curas são uma luz neste mundo a apontar para o mundo novo onde já não haverá mais doença, mais dor, mais morte.
A cura maior da nossa vida é a libertação do pecado e viver em harmonia e paz com Deus. Conhecemos muita gente de corpo são que está bastante doente e gente de corpo doente que vende alegria e paz, mas nada disto contradiz a importância de rezarmos pelos irmãos que nos pedem oração, pois muitos chegarão à fé ao experimentarem a solicitude misericordiosa de Deus para com eles. Frequentemente há pessoas que vêm ter com o sacerdote com pedidos que revelam uma crença não muito «católica». Pedem para benzer as casas porque andam lá coisas esquisitas, querem uma bênção porque acham que têm qualquer coisa que as anda a tentar. Muitas vezes lhes digo: “Vou rezar por si, não porque acredito que tenha alguma coisa disso, mas porque está a sofrer e precisa da graça de Deus. E então, ali mesmo, rezo com ela e por ela. Jesus disse: Não rejeitarei nenhum dos que vêm a Mim e nós temos de fazer o mesmo. E como dizia o P. Tardiff, «Não interessa a razão que as traz que pode ser errada, mas o que importa é como regressam.» Temos de acreditar mais no poder da oração feita com fé e confiança. A doença, seja ela psíquica, física ou espiritual, é um mal que existe no mundo que Deus não deseja para nós. Por isso é que a quantos sofrendo lhe pediam ajuda, Jesus compadecia-se da sua situação e a ninguém disse: «Olha carrega o sofrimento que é para desconto dos teus pecados». O leproso chegou junto d’Ele e disse-lhe: «Senhor, se tu quiseres podes curar-me”. E imediatamente ouviu a resposta: « Sim, quero, fica limpo».
Se é verdade que o sofrimento não vem de Deus, também é verdade que muitas vezes é através dele que encontramos a Deus. Muitas vezes é na experiência da nossa condição frágil como Jairo, ou a mulher com o fluxo de sangue, que nos aproximamos d’Ele e encontramos mais do que procurávamos. Procurávamos a cura do corpo e encontrámos a salvação do corpo e da alma que é muito mais. Bendito seja Deus que é nosso salvador.

Folha Paroquial – Domingo XII – Solenidade do Nascimento de São João Baptista

“«O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe»…”

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«Naquele tempo, chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas a mãe interveio e disse: «Não, Ele vai chamar-se João». Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João».
Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos.
Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?». Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. O menino ia crescendo e o seu espírito fortalecia-se. E foi habitar no deserto até ao dia em que se manifestou a Israel.»

O sentido teológico e antropológico da festa
As festas de S. João Baptista são como que a porta de entrada das festas religiosas do verão que se vão sucedendo nas nossas aldeias, vilas e cidades.
Celebrar a alegria da vida, o reconhecimento e a gratidão a Deus pela criação, fez sempre parte, até hoje, das diversas culturas, tanto no paganismo como no cristianismo. É um dado antropológico e cultural. O homem precisa de celebrar. Digo «até hoje», porque na sociedade tecnicista em que vivemos o homem atual parece perder a capacidade de celebrar a festa. O trabalho e a produção eficaz fazem os seres humanos entrar num frenesim que os torna incapazes de celebrar a alegria da vida.
Hoje, os dias de festa são vistos mais como dias sem trabalho, feriados, do que festas. Assim, a festa deixa de ter conteúdo e fica vazia sendo substituída pelo turismo, viagens sem parar, ou fuga para os locais de divertimento, como as discotecas e outros locais.
Mas a festa é muito mais do que um dia feriado ou do que férias. O importante é “viver em festa por dentro. Saber celebrar a vida, abrir-nos ao dom do criador. Despertar o melhor que há em nós e que fica obscurecido pela superficialidade, a atividade e o ritmo agitado do dia a dia.” (Jose Pagola).
A Igreja ao evangelizar a cultura pagã, transformou as festas pagãs em festividades em honra de Cristo, de Nossa Senhora ou dos santos e, graças a estas festas religiosas, o povo, ao longo de muitos anos, aprofundou e alimentou a sua fé e sentiu o desafio à conversão e santidade. Lembro-me que em criança as festas eram antecedidas de tríduos preparatórios. Muita gente se preparava para viver cristãmente a festa confessando-se e comungando. Ainda hoje os mais velhos assim fazem. Como diz D. Jorge Ortiga, «hoje os tempos são outros, mas o testemunho dos santos é algo intemporal. Quando evocamos os santos e repassamos a sua vida, estamos a colocar a nossa própria vida em questão, estamos a criar oportunidades para arrepiar novos caminhos de santidade, isto é, de aproximação aos nossos anseios mais íntimos e, por isso, queremos, ou devemos querer, alimentar e aprofundar a fé.” Quando festejamos S. João Batista, como é agora o caso, podemos ser tocados com o seu exemplo: Ele foi um homem de fé e de coragem. Reconheceu, antes de todos os outros, que Jesus era o Cristo ou Messias. Foi humilde e soube retirar-se no momento certo, o que não é nada fácil. Falou daquilo que era essencial com palavras que todos entendiam. Viveu para Deus até ao martírio e Deus deu-lhe a vida eterna. O Anjo do Senhor diz a Zacarias, no Evangelho de hoje, que João “será motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento”. Nós, em festa, alegramo-nos com o seu nascimento e desejamos aprender com Ele a saber falar de Jesus com palavras que todos entendam, mas sobretudo com uma vida simples e coerente.
Os textos da missa de hoje falam-nos ainda de um aspeto importante da nossa fé: A vocação e a missão. O livro de Isaías começa assim “O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe”…Mas se isso é bem notório acerca de João Baptista e de muitos outros personagens bíblicos, temos mais dificuldades em pensar que Deus faz o mesmo com cada um de nós. Acreditamos que Ele também nos chamou desde o ventre materno e que nos confia uma missão neste mundo diferente para cada um? Se para João Baptista foi importante saber qual era a sua missão para se focar nela, também o é para cada um de nós.

Quando descobrimos a nossa missão neste mundo e a levamos a sério, tornamo-nos audazes e criativos, transformadores desse mundo. Compete-nos ir descobrindo, ao longo da vida, o que quer Deus de nós, qual a missão que Ele nos confia. João Baptista foi para o silêncio do deserto para ouvir melhor a voz de Deus e receber d’Ele a Palavra e a força para viver a sua missão.
Também nós precisamos deste silêncio para nos encontramos com a nossa vocação e a nossa missão. E não só nós como indivíduos, mas também cada instituição precisa de descobrir a missão para que existe para se focar nela e não se dispersar em todas as direções. O Papa Francisco lembra muita vez que a Igreja não é nenhuma ONG (organização não governamental), porque quando a Igreja deixa de anunciar o evangelho que é a sua principal missão, começa a dispersar-se em muitas coisas que são boas também, mas não são a razão pela qual existe.
Mas para além deste aspeto central da festa, há o aspeto da alegria gerada pela comunhão fraterna. Aqueles que celebraram juntos a Eucaristia continuam agora no exterior a festa da amizade e da fraternidade, através da comida, da bebida e do lúdico.
O Papa Francisco escreveu que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, 1). Um santo triste é um triste santo, diz o povo. A festa é uma oportunidade de saborear a beleza da vida que, mesmo com agruras e dificuldades, não deixa de ser bela quando temos fé e temos ao nosso lado os amigos e os irmãos.
Desejamos a todos os irmãos da paróquia de S. João Baptista que aproveitem bem a festa para os dois aspetos que aqui realço: Aprender com o padroeiro a amar e a servir a Deus, e a confraternizar com os irmãos, acolhendo a todos, dando testemunho da alegria de se sentir membro da Igreja.

Folha Paroquial – Domingo XI

“«É bom louvar-Vos, Senhor.»”

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«Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.»

Depois de semeado, começa a crescer
Em todo o Novo Testamento e, particularmente nas parábolas de Jesus, a ideia de crescimento do reino é uma constante: A primeira parábola de hoje, a da semente do trigo, acentua a ideia do espanto do agricultor que vê a planta desenvolver-se, passando pelas várias etapas da sua maturação sem ele saber como. Ele sabe que semeou a semente, mas reconhece que o que fez é quase nada diante do mistério daquele desenvolvimento que começa por dar, primeiro a planta, depois a espiga e por fim o trigo maduro na espiga. O agricultor não nos dá a ideia de ser alguém ansioso e perturbado; pelo contrário, ele dorme descansado, pois levantando-se pela manhã, e olhando a planta depara-se sempre com a alegria de ver a planta a crescer e a desenvolver-se. Este agricultor parece mais um contemplativo do poder daquela semente que traz consigo uma força misteriosa, uma graça de crescimento.
Jesus serve-se da natureza para explicar os mistérios do reino: Diz ele: «observai como crescem os lírios do campo…”
A segunda parábola, do grão de mostarda, acentua a ideia do crescimento: Começa por sublinhar a pequenez e a modéstia da semente: “Ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra”, para depois mostrar como a pequenez não é nenhum problema e que pode ser mesmo um bem. “Depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra”. ( Ef 3,21)
Paulo, na Carta aos Efésios, medita sobre o mistério da Igreja em crescimento e diz «Em Cristo qualquer construção bem ajustada, cresce para formar um templo santo no Senhor.” E mais à frente acrescenta: «É por Ele que o corpo inteiro, coordenado e unido, por meio de todas as junturas, opera o seu crescimento orgânico segundo a atividade de cada uma das partes, a fim de se edificar na caridade.» (Ef 4,16)
S. Lucas observa a Igreja em crescimento nos primórdios do anúncio do Evangelho e diz-nos nos Atos dos Apóstolos, que «O Senhor aumentava todos os dias os que entravam no caminho da salvação”.
Se a Igreja é um corpo vivo, como diz S. Paulo, então só pode crescer. A Igreja de Jesus desde o princípio traz consigo o poder da semente de mostarda, o gene do crescimento, porque a Igreja é um corpo vivo só pode crescer desde que esteja são.
Há muita gente que aceita de braços cruzados o declinar inexorável e fatal da Igreja no mundo. Eu, ao contrário, creio que estamos a viver tempos belos em que, embora menos numericamente, somos chamados a ter a força e o poder do fermento para levedar o mundo. E o fermento é pequeno mas tem uma força enorme para gerar o crescimento.
Rezemos para que a nossa comunidade se torne cada vez mais disponível à graça divina sendo comunidade orante, fraterna, sólida na fé, servidora da caridade e pronta para anunciar o evangelho. Quanto mais colaborarmos com a graça de Cristo mais cresceremos interiormente e como consequência também exteriormente.

Folha Paroquial – Domingo X

“«No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.»”

A folha pode ser descarregada em: Domingo X

«Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, que eles nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois se dizia: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não
pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode durar. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?». E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».»

A serpente enganou-me e eu comi.
Sempre que nos afastamos de Deus e não cumprimos a sua vontade, fazendo o mal contra a lei de Deus, contra os outros e contra nós mesmos, vemos que, afinal, a promessa de sermos felizes com o cometimento desse mal, não se confirmou. Foi uma mentira. O mal tenta-nos, aliciando-nos, mas depois deixa-nos entregues à nossa tristeza e ao nosso vazio.
Creio que, na vida moderna, deixamo-nos enganar por muitas vozes tentadoras que nos aliciam, nos prometem o paraíso da felicidade e nos inserem num mundo frenético para não pensarmos e nos deixarmos levar sem escutar o nosso interior. O barulho ensurdecedor e contínuo é um dos grandes enganos da serpente, nos tempos modernos, porque nos afasta de Deus, dos outros e de nós mesmos, para não vivermos segundo Deus e a Sua vontade.
Depois da cirurgia em que me arrancaram o pólipo da corda vocal tive que estar uma semana sem falar. Refugiei-me na Figueira da Foz e aproveitei para ir visitar as pequenas propriedades que os meus pais me deixaram e que agora são pinhais e eucaliptais. Foi bom ouvir o som do silêncio, apenas entrecortado pelo murmúrio do vento nas folhas das árvores ou de um réptil que fugia apressado à minha passagem e, ainda, de um javali assustado que me surpreendeu de repente. Trazia comigo, para todo o lado, o livro «A força do silêncio» que me ajudava a entrar dentro de mim para ouvir a voz sussurrante do Espírito. E dizia o autor, o cardeal Sarah, «o silêncio da vida quotidiana é uma condição indispensável para viver com os outros. Sem a capacidade de fazer silêncio, o homem não é capaz de ouvir o que o rodeia, amá-lo e compreendê-lo. A caridade nasce do silêncio. Procede de um coração silencioso capaz de escutar, de ouvir e de acolher (…) sem silêncio não há repouso, nem serenidade, nem vida interior (…) Hoje, num mundo com tanta tecnologia e tanta coisa para fazer, como se pode encontrar o silêncio? O barulho cansa, e temos a sensação de que o silêncio se tornou num oásis inatingível. As cidades tornaram-se fornalhas barulhentas onde nem a noite é poupada às agressões sonoras. Sem barulho, o homem pós moderno cai numa inquietude surda e lancinante. Está habituado a um barulho de fundo permanente, que o faz adoecer mas lhe dá segurança.”(Sarah, Roberto, a força do silêncio, ed Lucerna)Penso que a falta de silêncio na nossa vida é uma das causas importantes para muitos deixarem a fé, pois deixaram de experimentar o divino, deixarem de perder contacto com o mistério que os habita e a vida cai em trivialidade e sem sentido.
Na sua aparência festiva, o barulho é um turbilhão que evita ao homem enfrentar-se a si próprio. A agitação torna-se um tranquilizante, um sedativo, uma injeção de morfina, mas esse barulho é um medicamento perigoso e ilusório, uma mentira diabólica que permite que o homem não se confronte com o seu vazio. Quando vivemos sem interioridade, perde-se o respeito pela vida, pelas pessoas e pelas coisas pois, como disse em cima, sem o silêncio não somos capazes de escutar os outros e de ouvir o que nos rodeia. Mas sobretudo nos tornamos incapazes de escutar o mistério que habita no mais fundo da nossa alma.
Mas há uma esperança! É que apesar do homem moderno resistir à profundidade, não estar disposto a cuidar da sua vida interior, começa a sentir-se insatisfeito. Não sabe bem donde vem essa insatisfação mas sabe que lhe falta algo que a vida quotidiana não lhe está a proporcionar. E essa insatisfação é uma graça, pois torna-se um grito, uma ânsia que pode ser o princípio da salvação. Ainda esta semana atendi duas pessoas que estavam nesta situação e foi a insatisfação que os levou a procurar falar com um sacerdote.
Estou convencido que o silêncio da adoração eucarística ajudará a muitos a encontrar o mistério de Deus que os habita e a serem cada vez mais felizes porque se encontram com o mistério. E de um modo especial os que adoram durante a noite em que o total silêncio exterior é um caminho propício para o silêncio interior. O Espírito Santo conduz-nos à nossa interioridade onde Ele habita e aí O podemos encontrar. Pelo contrário, pecar contra o Espírito Santo seria carregar com o nosso pecado para sempre e fechar o nosso interior a Deus e à verdade. Diz o teólogo José Pagola: «O Espírito pode despertar em nós o desejo de lutar por algo mais nobre e melhor do que o trivial de cada dia. Pode dar-nos a audácia necessária para iniciar um trabalho interior em nós. O Espírito pode fazer brotar uma alegria diferente em nosso coração; pode vivificar a nossa vida envelhecida; pode acender em nós o amor inclusivamente para com aqueles por quem não sentimos o menor interesse.
O Espírito Santo habita o coração de cada homem. Oremos para que ninguém permaneça para sempre surdo ao seu murmúrio interior que clama por nós.