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Folha Paroquial nº 69 *Ano II* 17.03.2019 — DOMINGO II DA QUARESMA

«O Senhor é a minha luz e a minha salvação.»

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«EVANGELHO (Lc 9, 28b-3)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.»

MEDITAÇÃO
Pretendo que a reflexão que vou fazendo com o comentário às leituras de cada Domingo, não seja algo isolado e sem nexo uns com os outros, mas que sejam blocos de 3 a 5 semanas em interligação tanto quanto as leituras no-lo permitirem. Por isso relembro o que escrevi e disse na semana passada e já na continuação de outras anteriores.
A propósito das tentações de Jesus e das nossas afirmei: “A nossa riqueza não está no ter, no fazer, ou no prestígio do nosso bom nome. A nossa identidade mais profunda é a de sermos filhos do Pai celeste. Tudo o resto acaba, mas a nossa filiação divina em Cristo é eterna. A quaresma é o tempo de regressarmos ao essencial, de nos desembaraçarmos de tudo o que não deixa brilhar em nós a nossa condição de filhos. O nosso pecado, a nossa negligência espiritual, vai escondendo a beleza da nossa filiação divina. Mas na medida em que nos aproximamos de Deus e purificarmos o coração pela caridade, vamos resplandecendo a glória de filhos de Deus. Diz Paulo: E nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito. (2 Cor 3, 18) Que o nosso trabalho quaresmal nos leve, com Jesus, ao Monte da transfiguração para que, pela ação do seu Espírito e da nossa colaboração, possamos resplandecer melhor a imagem do Senhor na nossa vida.
E aqui estamos hoje, com Jesus no Monte da Transfiguração. Tentemos perceber-lhe o sentido.
Quando vamos em peregrinação à Terra Santa é passagem obrigatória a ida a Monte Tabor. Lá está uma igreja construída sobre outra muito mais antiga a atestar o lugar da transfiguração do Senhor. Este acontecimento histórico ficou bem guardado na memória dos discípulos tanto que Pedro vários anos mais tarde vai referir-se a ele dizendo: “Demos-vos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por havermos ido atrás de fábulas engenhosas, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. 17Com efeito, Ele foi honrado e glorificado por Deus Pai, quando a excelsa Glória lhe dirigiu esta voz: Este é o meu Filho, o meu muito Amado, em quem Eu pus o meu encanto.18E esta voz, vinda do Céu, nós mesmos a ouvimos quando estávamos com Ele na montanha santa.” (2 Pd1,16-18). Pude imaginar, naquele lugar, a experiência dos discípulos ao verem o corpo de Jesus, revestido de luz e de glória, como se já tivesse vencido a morte e recebido um corpo glorioso. E de facto, é isso que Jesus pretende mostrar aos discípulos preparando-os para a experiência dolorosa da sua morte. Lembram-se que alguns dias antes da Transfiguração, quando estavam em oração, Jesus fez aos discípulos uma pergunta crucial: «Quem dizeis vós que eu sou? Pedro respondeu: Tu és Cristo, (quer dizer o Messias), o Filho de Deus. E Jesus acrescentou: Sim, Mas não como esperam, a glória sim, mas não à maneira dos homens. «O filho do homem tem de sofrer muito, será rejeitado …morto, mas três dias depois ressuscitará. Cerca de oito dias depois, Jesus sobe ao monte levando consigo os privilegiados Pedro, Tiago e João. De novo quer orar com eles, e é enquanto rezam que Deus revela o mistério do Messias. Agora já não são as multidões que dizem quem ele é, nem sequer os discípulos, é o próprio Deus que responde sobre a identidade do Messias e nos dá a contemplar o mistério de Cristo: «Este é o meu Filho, o meu eleito, escutai-O.» Este monte da transfiguração faz-nos pensar no Sinai; e Lucas escolhe bem o seu vocabulário para nos fazer evocar o contexto da revelação de Deus no monte Sinai: O monte, a nuvem, a glória, a voz tonitruante, as tendas…E assim compreendemos melhor a presença de Moisés e Elias ao lado de Jesus. Sabemos que Moisés passou quarenta dias no Sinai na presença de Deus e quando voltou o seu rosto resplandecia de tal maneira que todos ficaram espantados. Também Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites no deserto até chegar ao mesmo monte Sinai ou Horeb que é o mesmo. E foi aí que Deus se revelou a ele de forma inesperada: não no ruído do vento, nem da grandeza do fogo, nem nos tremores de terra, mas no doce murmúrio de uma brisa ligeira. Assim as duas personagens do Antigo Testamento que tiveram o privilégio da revelação da glória de Deus no cimo do Monte estão igualmente presentes na altura da manifestação da glória de Cristo. E Lucas diz-nos o conteúdo da sua conversa. Falavam da morte de Jesus que se ia consumar em Jerusalém. Pela sua morte e ressurreição ele receberá um corpo gloriosos mas nós, participando também da sua morte e assumindo a cruz da vida unidos a Ele, participaremos da mesma glória de ressuscitados. E isso já começou em nós, no batismo. A nossa transfiguração já está a acontecer na medida em que nos unimos a Ele participando nos seus sofrimentos. E a segunda leitura, da carta aos Filipenses, resume bem isto: A nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso. (…) Entretanto o Espírito vai trabalhando em nós na medida em que O acolhemos, pois “nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito”. “Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor”. Continuemos firmemente a nossa quaresma pois sabemos a meta para onde caminhamos: Bendito seja Deus pela esperança a que fomos chamados.

«Oração
Senhor, o teu rosto é sempre luminoso. Nele encontramos sempre aquele brilho que falta à nossa vida, tantas vezes sombria, opaca pelo pecado, pelas dificuldades do nosso peregrinar. Em cada jornada convidas-nos a subir ao monte, para nos transfigurares na tua luz, numa Páscoa contínua, que sempre nos revela a Tua e a nossa identidade. Quantas vezes a Eucaristia e a oração são para nós a oportunidade para subrimos ao monte da Transfiguração! E tantas vezes saímos de rosto sombrio porque fechámos os olhos à eterna novidade que és Tu, porque não Te escutamos. Tantas vezes não queremos assumir a consequência de sermos iluminados por Ti, porque não queremos descer, porque é mais confortável estar na comtemplação do Teu rosto do que contemplar o rosto do irmão a mesma Luz divina, que é transfiguração na dor e no sofrimento. Dá-nos, Senhor, disponibilidade para subir ao monte e coragem para descermos. Dá-nos a virtude da contemplação e a determinação da ação, para sermos portadores da Tua Luz nas sombras do mundo.»

Folha Paroquial nº 68 *Ano II* 10.03.2019 — DOMINGO I DA QUARESMA

«Estai comigo, Senhor, no meio da adversidade.»

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«EVANGELHO (Lc 4, 1-13)
Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O Diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O Diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.»

À primeira impressão não percebemos bem a relação que existe entre a 1ª leitura do livro do Deuteronómio e o Evangelho que neste dia nos narra as tentações de Jesus como acontece em todos os primeiros domingos da quaresma. Mas se continuamos a escavar nos textos vamos descobrindo a complementaridade. Quais são as tentações que o demónio lança a Jesus? Que Jesus se desligue de Deus e da Sua palavra e se deixe levar pelas grandes tentações humanas de ter, poder e prestígio. Sempre que abandonamos a Palavra de Deus para seguir os nossos critérios entramos na idolatria. A resposta de Jesus ao demónio é o cumprimento da Palavra de Deus escrita. «Está escrito» .
Na 1ª leitura, ouvimos o credo de Israel, que era uma confissão dos feitos maravilhosos de Deus para introduzir o povo na Terra Prometida para que o povo, já na possa da terra, nunca esquecesse quem lhe deu a mesma onde agora colhe os frutos e os animais. A tentação do povo, rodeado por povos idólatras, era cair também na adoração desses ídolos esquecendo o seu Deus e os seus dons admiráveis. Ao oferecer em cada ano as primícias dos frutos da terra e as primícias dos rebanhos (as primícias eram os primeiros frutos), o povo recordava-se de quem lhe deu tudo, permanecendo fiel ao Deus único e verdadeiro. Depois da oferta das primícias prostravam-se em adoração reconhecendo o Senhor como o seu único Deus. A oração que, na paróquia de S. João Baptista se faz, imediatamente antes de irmos ao altar oferecer o nosso dom no último Domingo do mês, dia da pastoral da partilha, está inspirada nesta confissão de fé de Israel. Nós rezamos: «Esta minha oferta SENHOR, é para vos adorar, pois sois o meu Criador, eu, vossa criatura; Esta minha oferta é para reconhecer que Sois infinitamente generoso para comigo; E porque vos amo SENHOR, vos ofereço uma parte daquilo com que me enriquecestes, pois tudo o que possuo, de Vós recebi; Aceitai, esta minha oferta, expressão da minha fé, da minha caridade.» Ao darmos generosamente ao Senhor, reconhecemos que tudo vem d’Ele e que nós fomos constituídos em administradores dos seus dons e não em donos absolutos. Renunciamos assim a pôr a nossa confiança nos bens ou no ter, tentação que o demónio coloca a Jesus, para colocar a nossa confiança só em Deus que tudo nos dá. Mas isto não se entende se não tivermos feito a experiência do Espírito Santo. Por isso S. Lucas tem o cuidado de nos contar que Jesus foi para o deserto, cheio do Espírito Santo, depois do seu batismo. A experiência mais profunda que Jesus fez foi a de ser o Filho do amor do Pai. «Este é o meu Filho muito amado em quem pus todo o meu enlevo» E o Espírito Santo desceu sobre Ele. As tentações do demónio têm a ver com a sua própria identidade de Messias, Filho de Deus. O demónio começa por lhe dizer no princípio de cada tentação: «Se és Filho de Deus…» Ora essa era a experiência mais profunda de Jesus, a sua riqueza fundamental, o seu nome excelso. Mas o demónio pretende subjugá-lo oferecendo-lhe poder, riquezas, prestígio à custa da desobediência à Palavra de Deus. Mas é no facto de ser o «Filho amado» que Jesus coloca a sua confiança.
Ao entrarmos na quaresma devemos ter também presente a nossa identidade fundamental. «Somos filhos do pai celeste, e somos chamados a renunciar a tudo o que negue esta filiação divina em Cristo. A nossa riqueza não está no ter, no fazer, ou no prestígio do nosso bom nome. A nossa identidade mais profunda é a de sermos filhos do Pai celeste. Tudo o resto acaba, mas a nossa filiação divina em Cristo é eterna. A quaresma é o tempo de regressarmos ao essencial, de nos desembaraçarmos de tudo o que não deixa brilhar em nós a nossa condição de filhos. A prata e o ouro com o tempo vão perdendo brilho e beleza. De vez em quando temos de os levar a um ourives que limpe aquilo que acumulou e foi escondendo a beleza da prata ou do ouro. O nosso pecado, a nossa negligência espiritual, vai também escondendo a beleza da nossa filiação divina. Mas na medida em que nos aproximamos de Deus e purificarmos o nosso coração pela caridade, vamos resplandecendo a glória de filhos de Deus. Diz Paulo: E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito.( 2 Cor 3, 18)
Que o nosso trabalho quaresmal nos leve com Jesus ao Monte da transfiguração para que, pela ação do seu Espírito e da nossa colaboração, possamos resplandecer melhor a imagem do Senhor na nossa vida.

«Oração
Senhor Jesus, que no deserto Venceste a tentação, renunciando a um caminho de poder e de triunfo, concede-nos a graça de vivermos enraizados em Ti, para que em cada dia do nosso caminhar sejas Tu em nós a vencer todo o mal. Dá-nos a humildade necessária para reconhecer em cada proposta do mal um caminho para a nossa desintegração. Ajuda-nos, com a força do Teu Espírito, a discernir o bem e o mal. Liberta-nos daquela cegueira que é a autojustificação de quem nunca se sente pecador porque não mata, não rouba… Ajuda-nos a olhar a vida, as nossas relações humanas, as nossas intenções com profundidade, para que, à luz da Tua Palavra saibamos sempre pedir um coração contrito. Dá-nos arrependimento sincero, Senhor, para que o caminho de Conversão que agora iniciamos possa ser autêntico, na configuração Contigo, rumo à Páscoa, na cruz e pela cruz.»

Folha Paroquial nº 67 *Ano II* 03.03.2019 — DOMINGO VIII DO TEMPO COMUM

«É bom louvar o Senhor.»

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«EVANGELHO (Lc 6, 39-45)
Naquele tempo, disse Jesus aos discípulos a seguinte parábola: «Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova? O discípulo não é superior ao mestre, mas todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre. Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’, se tu não vês a trave que está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão. Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. Cada árvore conhece-se pelo seu fruto: não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas das sarças. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração».»

MEDITAÇÃO
«O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração» O que é que a Bíblia chama coração, donde o homem pode tirar o bem ou o mal? Hoje gostaria de falar desta zona íntima onde o homem se encontra com Deus e traz em si a imagem e semelhança divina. São quatro dimensões constitutivas do ser humano, embora só uma delas seja palpável pelo bisturi dos médicos. A primeira delas é a física, biológica, material: a do corpo (soma.) É a mais fácil de identificar, é palpável visível, sensível. Sentimos frio, calor, prazer, sofrimento, fome, sede etc. A segunda mais interior, é feita de sentimentos, emoções, afetos: sentimos medo, cólera, ódio, amor, paixão. É a dimensão psíquica. (psychè). Percebemo-la bem em nós e sentimo-la mas não a vemos da mesma forma que vemos as coisas materiais como o corpo. A terceira, é a nossa dimensão mental ou racional, (nous). Com ela estruturamos o pensamento, associamos as coisas e simbolizamos a realidade. Isto permite-nos pensar de forma crítica e livre ainda que dentro de certos limites, pois também temos condicionalismos.
Finalmente, chegamos à quarta dimensão, a mais profunda em nós e que dá à pessoa humana a sua mais alta dignidade. É a dimensão do espírito (pneuma). A Bíblia chama a esta dimensão, “coração” e, na tradição da Igreja, chamamos-lhe : alma ou espírito. É a dimensão espiritual exclusiva do ser humano. No domingo passado dizia que nós, feitos à imagem do Pai celeste, trazemos connosco este património Seu que partilhou connosco. Temos algo do Pai celeste, isto é, espiritual, quase divino. Ele soprou o seu sopro vital sobre nós e comunicou-nos o seu ser divino, o seu espírito. Daí a nossa grandeza, dentro dos limites da nossa condição terrena. Por isso o salmista exclama: «Quem é o homem, Senhor, para que dele cuideis? Fizeste dele quase um ser divino, de honra e glória o coroastes. (salmo 8). Porque é que só o ser humano é religioso desde o início e, embora tateando, sempre procurou deuses ou Deus? Porque nos interrogamos tanto sobre o sentido da vida e da existência? Porque temos sentido ético? Porque somos seres sempre insatisfeitos e sentimos que nos falta sempre algo mais? É porque temos em nós a marca de Deus, o selo divino. Não somos só pó da terra. Aspiramos ao absoluto, aspiramos por Deus como uma saudade que trazemos em nós. É no nosso coração, nesta dimensão capaz de Deus, que se situa o nosso Eu profundo, aquilo que me constitui de original e único. É aqui que se inscreve a minha liberdade e a minha capacidade de decisão, de escolher o bem mesmo quando o meu corpo e os meus sentimentos me pedem outra coisa. Posso decidir ao contrário dos meus impulsos quando eles não me conduzem para aquilo que eu sei ser o bem, porque tenho uma consciência moral, um centro de liberdade e vontade que pode comandar todas as potências do meu ser. O pensamento de Jesus no evangelho de hoje é claro: O homem verdadeiro constrói-se a partir do coração, deste seu centro interior. É aqui, no coração, que se joga o melhor e o pior de nós mesmos. Ou deixamos que Deus habite este nosso centro interior com a Sua luz ou fechamo-nos a Ele e então essa zona íntima passa a ser habitada pelas trevas e pelo vazio e só pode produzir o mal. Quando Jesus disse a Zaqueu: «Zaqueu hoje preciso de ficar em tua casa.» Zaqueu recebeu-O cheio de alegria e logo se viu o resultado. Toda a vida de Zaqueu mudou porque a sua casa interior foi iluminada. Jesus diz no Apocalipse: «Eis que eu estou à porta e bato, se alguém ouvir e abrir a porta eu entrarei e cearei com Ele e Ele comigo» Quando este centro interior da nossa vida é habitado por Ele, todo o nosso ser; corpo, psíquico e mente, entram em harmonia e nós sentimo-nos unificados, íntegros, inteiros. Quando esta zona íntima não tem a luz da presença de Deus, tornamo-nos seres espartilhados, divididos, desintegrados e o fruto que produzimos é mau, pois vem da carne e não do espírito.A palavra de Jesus tem hoje mais atualidade que nunca pois vivemos numa sociedade programada a partir de fora e onde os indivíduos são vítimas de modas e padrões obrigatórios. É preciso «interiorizar a vida» para nos tornarmos mais humanos. Por isso precisamos do silêncio e da oração. Precisamos de ouvir o nosso Mestre interior a conduzir-nos e a falar-nos. A Eucaristia enche constantemente de luz o nosso coração e irradia para todo o nosso ser. Mas o que comunga precisa de purificar constantemente o seu coração pela confissão e pelo perdão para oferecer a Deus uma digna morada.
O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração».

Folha Paroquial nº 66 *Ano II* 24.2.2019 — DOMINGO VII DO TEMPO COMUM

«O Senhor é clemente e cheio de compaixão.»

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«EVANGELHO (Lc 6, 27-38 )
Naquele tempo, Jesus falou aos seus discípulos, dizendo: «Digo-vos a vós que Me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos injuriam. A quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, deixa-lhe
também a túnica. Dá a todo aquele que te pedir e ao que levar o que é teu, não o reclames. Como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós também. Se amais aqueles que vos amam, que agradecimento mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam. Se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, que é bom até para os ingratos e os maus. Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco».»

MEDITAÇÃO
As palavras de Jesus que acabámos de escutar soam-nos sempre cheias de novidade como se as escutássemos pela primeira vez. E no fundo de nós mesmos sabemos que são palavras de verdade pois apesar de sabemos que são muito difíceis de viver, reconhecemos também que são um caminho novo que, vividas, elevam a humanidade quase à esfera do divino.
Jesus faz referencia à lei de talião – do latim, talio, talis (tal, igual): Ouvistes o que foi dito aos antigos: «Olho por olho, dente por dente», encontramos esta lei no livro do êxodo e em formulação semelhante no código de Hammurabi. Ao contrário do que se pensa habitualmente, esta lei não representa a barbaridade, mas um avanço civilizacional, pois assenta, não na multiplicação desenfreada da vingança e da violência, mas na sua contenção, pois condena o agressor a receber apenas a sanção igual àquela que ele provocou à vítima. Bem diferente é a chamada Lei da Vingança Desenfreada, traduzida por exemplo, no famoso cântico da espada de Lamec que podemos encontrar em Génesis 4, 23-24: «Matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou.».
Mas Jesus vai infinitamente mais longe do que a lei de talião. Ele pede um amor total onde não pode existir «não amor» a alguém e em alguma circunstância. E isto porquê? “Porque sois Filhos do Pai que está nos céus” e deveis parecer-vos com Ele pois Ele é bom para com todos e faz vir as suas bênçãos sobre os ingratos e os maus.
O problema é que a nossa sociedade a partir da revolução francesa e dos filósofos da “morte de Deus” matou, no coração, o pai comum e ficámos órfãos. E este afastamento do Pai Nosso trouxe consigo uma enorme redução de valores morais na sociedade, a começar pelos mais importantes como o respeito pela vida em todas as suas situações.
Hoje, a sociedade laica fala de ética civil que é uma ética minimalista baseada naquele mínimo de valores em que ela se põe de acordo. E cada vez o acordo é menor. E se a sociedade, maioritariamente, acha que devemos matar quem já não produz e ainda por cima está doente, e até quer, então torna-se ético matar. E aí está a tentativa de legislar sobre a eutanásia. Quanto ao aborto, a sociedade portuguesa votou em pequena maioria o aborto até às 12 semanas e ele aí está, implacável, com alguns médicos e enfermeiros formados para proteger a vida, a matar, legalmente, todos os dias, dezenas ou centenas de crianças nos hospitais pagos pelos nossos impostos. E o que virá depois ainda não sabemos, mas podemos esperar que não se fica por aqui nesta luta que pretende reduzir o homem a simples matéria descartável. É uma visão antropológica que reduz o homem ao niilismo, pois cortados da nossa relação com o Pai celeste o que ficamos a ser? Apenas matéria descartável. Sem Deus, Pai nosso, todas as aberrações se tornam possíveis. Na verdade porque não hei de assaltar a casa do meu vizinho que vive mais rico do que eu? Por que razão não hei de assaltar um banco se consigo fazê-lo sem ser apanhado? Por que não posso odiar o meu semelhante? Por que hei de respeitar o diferente? A resposta da Bíblia é que o fundamento de toda a lei é DEUS. «Porque eu sou o Senhor», e sou um Deus Santo.», mas, quando se deixa de amar e respeitar a Deus, então o que pode evitar fazer o mal é só o medo de ser apanhado pela polícia, mas como não pode haver um polícia atrás de cada cidadão, e ainda por cima, com uma justiça que não funciona, há muitas probabilidades de não se sofrer consequências pelo mal que se fez e tenta-se. Não admira que os crimes cresçam e hão-de crescer ainda mais, à medida que a sociedade se afasta do Deus Santo. Para quem se sente filho de Deus e chama em cada dia a Deus, “pai nosso que estais nos céus”, como Jesus nos ensinou, há atitudes inconciliáveis com esse «ser filho», tais como o ódio e a vingança que matam. Daí o mandamento divino: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Jesus vai levar este mandamento mais longe – até ao amor aos inimigos e termina dizendo: «Sede perfeitos, como o vosso pai celeste é perfeito», ou na versão de Lucas que hoje escutámos: «Sede misericordiosos como o vosso pai é misericordioso», sede generosos, como o vosso pai é generoso, dai e dar-se-vos-á. A medida que empregardes com os outros o vosso pai empregá-la-á convosco. O fundamento da lei divina é sempre o mesmo: o próprio Deus. Por isso, o 1º mandamento de todos é: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua inteligência e com todas as tuas forças». Sem a vivência deste mandamento, os outros ficam suspensos, sem fundamento. Sem Deus no coração dos homens e da sociedade, o mundo pode voltar à barbárie. Por isso rezar a oração do Pai Nosso deve se um programa de vida e talvez se deva orar mais devagar para nos confrontarmos com a forma como somos filhos desse pai que está nos céus.

Folha Paroquial nº 65 *Ano II* 17.2.2019 — DOMINGO VI DO TEMPO COMUM

«Feliz o homem que pôs a sua esperança no Senhor..»

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«EVANGELHO (Lc 6, 17.20-26)
Naquele tempo, Jesus desceu do monte, na companhia dos Apóstolos, e deteve-Se num sítio plano, com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia. Erguendo então os olhos para os discípulos, disse: Bem-aventurados vós, os pobres, porque é vosso o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem e insultarem e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa recompensa. Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa c onsolação. Ai de v ós, que agora estais saciados, porque haveis de ter fome. Ai de vós, que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar. Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem. Era assim que os seus antepassados tratavam os falsos profetas.»

MEDITAÇÃO
Os dois caminhos: O da bênção e o da maldição.
Ela tinha uma boa reforma de alguns milhares de euros e ainda acumulava com a do marido que tinha morrido. Mas vivia em grande simplicidade e até austeridade. Só tinha um filho adotado e tinha
recursos suficientes para lhe deixar bens em herança. Mas tanto gente singular como instituições de bem-fazer podiam sempre contar com ela. O interessante é que fazia quase tudo anonimamente. Várias vezes na paróquia recebi envelopes com dinheiro avultado para obras no centros social, na igreja, no grupo socio-caritativo. Sabia de quem vinha apesar de virem anónimos.
Quando faleceu as pessoas diziam: Viveu a fazer o bem.. .Deu-se aos outros. Foi como o bom samaritano que sempre se compadecia dos que encontrava à beira do caminho. E não foram precisas grandes palavras naquela missa de exéquias. Toda a gente tinha a convicção de que a sua vida tinha sido mergulhada no divino e sabiam que dela era o reino dos céus.
Mas recordo outro caso, quando era ainda criança em idade escolar. Um senhor da minha aldeia tinha andado no Brasil e feito uma pequena fortuna para aquele tempo. Voltado para a aldeia era
o único que tinha dinheiro no meio daquela pobreza toda. As pessoas quando precisavam muito de dinheiro batiam-lhe à porta e pediam emprestado. E ele emprestava com juros muito altos. Como
passado o tempo, as pessoas não tinham com que pagar, ficava-lhes com os bens que eram a sua sobrevivência. E morreu sozinho, sem amor, sem amigos. Foi o primeiro funeral a que fui, com uma opa vermelha vestida, e já me sentia grande por poder também vestir uma opa. Mas ao contrário do costume, as pessoas todas falavam alto o que me chamou a atenção. Alguém mais piedoso pediu mais silêncio, enquanto se caminhava para o cemitério levando a carreta, mas a resposta foi: « Silêncio para quê? Respeito por aquele que não nos respeitou?» Nunca mais esqueci aquele episódio pois achei pena que alguém chegue ao fim da vida e não deixe saudade nenhuma porque viveu só a pensar em si.
Nestes dois exemplos temos as bem aventuranças e as maldições que S. Lucas coloca na boca de Jesus.
A vivência das bem-aventuranças são a expressão de uma fé feita de confiança em Deus que não falha. Quem confia n’Ele não vive preocupado com amealhar. Diz-nos a 1ª leitura: “Bendito quem
confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança. E as bemaventuranças de Jesus estão baseadas nesta confiança: “Bemaventurados, vós os pobres porque é vosso o reino dos céus.”
Jesus diz-nos que há um caminho verdadeiro para a felicidade que Ele nos indica e que há caminhos falaciosos que parecem ser uma miragem a prometer-nos felicidade mas que são isso mesmo, uma
miragem. Segundo Jesus, “é melhor dar do que receber, é melhor servir que dominar, é melhor partilhar do que amealhar para si, é melhor perdoar do que vingar-se, é melhor criar vida do que
explorar. E no fundo, quando conseguimos escutar sinceramente o melhor que há no fundo do nosso coração sabemos que Jesus tem razão. E cá dentro sentimos necessidade de gritar também hoje as
bem-aventuranças e as maldições que Jesus gritou.” (J. Pagola) .
Felizes os que aceitam dar e partilhar o pouco que têm com os seus irmãos, com o serviço de Deus, da igreja, dos pobres. Malditos os que só se preocupam com a s suas riquezas e os seus interesses.
Felizes os que podendo viver mais comodamente, escolhem uma vida simples porque querem partilhar, como no primeiro exemplo que dei. Malditos os que são capazes de viver tranquilos e
satisfeitos, sem se preocupar com os que à sua volta choram e sofrem. Deus está do lado deles e contra os exploradores.
Tanto a 1º leitura como as bem-aventuranças de Lucas não nos deixam esquecer que não é a mesma coisa amar ou não amar, dar ou não dar, servir ou não servir, escolher o comodismo ou escolher a
desinstalação para fazer o bem. Hoje nas pregações corremos o risco de deixar na sombra o juizo de Deus contra os que de uma forma perseverante fazem o mal e não se arrependem. Os nossos
actos têm consequências para a nossa salvação ou perdição eterna.
Podemos analisar como pensamos e agimos quando damos na igreja ou noutra situação em que somos chamados a partilhar Quando damos na igreja, por exemplo, parece que muita gente
pensa: « Vamos lá ver qual a moeda mais pequenina que aqui tenho…» Felizmente também há quem não pense assim: De certeza que há pessoas na assembleia com dificuldades mas há
também, de certeza, gente que vive folgadamente. Uma eucaristia com 300 pessoas não chega a dar 150 euros o que significa que foi uma média abaixo de 50 cêntimos por pessoa. Deus e a
comunidade cristã onde recebi a fé e a alimento têm assim tão pouco valor para mim? Eu sei que é um costume que vem detrás mas que exige reflexão. Há tempos houve aqui um casamento, em
S. José, que gastou 2.000 euros para enfeitar a igreja de flores… mas não davam nada à igreja se não lhes tivesse sido lembrado que deviam deixar alguma coisa. Deixaram 30 euros. O nosso
crescimento na identificação com Cristo passa por vermos como lidamos com os bens materiais e vermos as prioridades que existem na nossa vida. Se gastamos tanto dinheiro em coisas
supérfluas e depois resistimos a dar para boas obras da comunidade ou para quem precisa, vê-se logo onde está o nosso coração. E se entregamos o nosso coração ao supérfluo, pode
acontecer que a nossa vida se funde no supérfluo, casa construída na areia movediça que depressa se esmorona.
Quanto bem a comunidade poderia fazer a nível da evangelização, da compaixão, da solidariedade, da formação e de acolhimento às pessoas ! Bem-aventurados vós os que confiais em Deus e por isso
vos destes com amor….malditos vós que amealhastes e pensastes só em vós. Já recebestes a vossa recompensa na terra.

Folha Paroquial nº 64 *Ano II* 10.2.2019 — DOMINGO V DO TEMPO COMUM

«Na presença dos Anjos, eu Vos louvarei, Senhor.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 5, 1-11)
Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse
a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.»

Os pescadores estavam a lavar as redes. No seu coração, não devia haver muito ânimo, pois tinham andado toda a noite a trabalhar… em vão. Não tinham pescado nada. Jesus escolhe a barca de Simão para dali fazer a sua pregação do reino. Quando acabou de falar, tinha uma surpresa para o dono da barca e para os seus amigos da pesca: «Simão, faz-te ao largo. E vós, lançai as redes para a pesca.». A resposta de Simão é lógica e provém da experiência de todos os dias: «Senhor, obrigado por te preocupares connosco, mas não vale a pena… pescámos toda a noite e não apanhámos nada.» Creio que o olhar de Jesus sobre Pedro foi aquele olhar luminoso, profundo e persuasivo que encontramos tantas vezes no Evangelho, ao ponto de Pedro exclamar logo a seguir: «mas, já que o dizes, largarei as redes». Obedecendo à Palavra de Jesus, eles contemplam, atónitos, uma inesperada e abundante pesca. Pedro, por momentos, intui que aquilo só pode acontecer pela presença do divino, do Mistério, e, tal como Isaías na 1ª leitura, sente-se impuro, pobre e pecador e experimenta aquele «santo temor de Deus» que nasce do assombro ante a grandeza divina, diante da nossa pequenez e miséria. Isaías exclama: «Ai de mim, que estou perdido, pois sou um homem de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo.». E Pedro, lançando-se aos pés de Jesus, exclama: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador.». Mas, um e outro, são acolhidos pela benevolência divina que os chama para a missão. A Pedro, Jesus diz: «Não tenhas receio, daqui por diante, serás pescador de homens». A Isaías, Deus pergunta: «Quem enviarei eu? Quem irá por mim?» E a resposta de Isaías é a resposta de alguém totalmente rendido à experiência inefável do encontro com o Deus vivo. É a atitude de adoração. «Eis-me aqui, podeis enviar-me.»
Jesus quer formar Pedro para o anúncio do Reino e ensina-lhe desde o início que a fecundidade da missão e a eficácia do Reino Lhe pertencem a Ele, o Mestre e o Senhor da Missão. Nós somos seus colaboradores e, como tal, devemos trabalhar em união com Ele, e em obediência à Sua Palavra. Entrar em ativismo, desligados dele, é cansar-se inutilmente, é pescar a noite inteira e não apanhar nada. A sabedoria popular pôs em ditado aquilo que é dito de muitas formas na Bíblia: «Vale mais a quem Deus ajuda, do que a quem muito madruga». Diz o Salmo: «Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os construtores; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas.» (Salmo 127)
Tudo começa no assombro do encontro com o Mistério. Quando digo Mistério refiro-me a Deus naquilo que Ele é na sua grandeza infinita, na sua santidade, que nós só podemos intuir mas não compreender. Ele está para além de toda a compreensão. E a sua grandeza revela-se também na sua pequenez, humildade e proximidade. É a experiência que Pedro faz depois da pesca. «Como é possível que “o totalmente outro”, esteja tão perto de mim, homem pecador?» «Afasta-te de mim, Senhor». Esta é a experiência que podemos fazer na adoração eucarística quando nos aproximamos daquele pão que é o Corpo entregue de Jesus. A adoração bem vivida como encontro amoroso com o Senhor, fecunda toda a nossa vida e transforma-a. Ainda não consegui perceber como é que há pessoas que se vão cansando de dar ao Senhor uma hora de adoração e vão desistindo. Deveria acontecer o contrário. Se a adoração for uma abertura da alma à presença do fogo devorador do amor de Deus só haveria de nos lançar no desejo de mais adoração, de mais serviço ao Senhor, como Isaías que exclama depois do encontro. «Eis-me aqui, podeis enviar-me.»
Não poderá acontecer que estamos lá mas não abrimos o coração à sua graça? É possível estar diante do fogo e não nos queimarmos? É,se nos protegemos. A adoração não é só para mim, é também um serviço que presto aos outros, a toda a comunidade. Sejamos generosos com Deus e com os irmãos e demo-nos na adoração de uma forma comprometida, uma hora por semana.
O amor de Cristo e a experiência de salvação que fizemos d’Ele, impulsiona-nos para o trabalho esgotante, mas cativante da missão. Não estamos dispensados de dar o nosso melhor, com criatividade e com os critérios da excelência. Quando a pesca não dá, em vez de continuarmos a fazer, rotineiramente, o que já fizemos tantas vezes, vendo que não dá fruto, precisamos de parar, para rezar, para avaliar, para pedir ao dono da messe que nos ilumine, que nos oriente e nos diga para onde lançar as redes. Ele nos inspirará caminhos novos e nos dirá: «Faz-te ao largo e não fiques a pescar na segurança da orla marítima, mas parte na confiança da fé, e eu estarei contigo para encher as tuas redes.» Sexta- feira passada e ontem, sábado, decorreu em Braga o e+novar19, que é um encontro promovido pelo Alpha nacional para bispos, padres e leigos refletirem sobre como liderar a inovação e a mudança para perspetivas novas de anúncio do evangelho. Esta experiência tem ajudado muitos padres e leigos a saírem da rotina do fazer pastoral para entrarem em caminhos inovadores. É muito mais cómodo continuar a fazer aquilo em que nos sentimos seguros do que a ousar o desconhecido.
É esta a eficácia do reino: o Homem, como colaborador da obra de Deus, dando o melhor de si mesmo, mas esperando tudo da graça divina que não se faz esperar onde vê um coração humilde, obediente e corajoso.

Folha Paroquial nº 63 *Ano II* 3.2.2019 — DOMINGO IV DO TEMPO COMUM

«A minha boca proclamará a vossa salvação.»

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«EVANGELHO (Lc 4, 21-30)
Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.»

Cada cristão é chamado a ser profeta, isto, é “a anunciar as maravilhas d’Aquele que o chamou das trevas para a sua luz admirável”. A fonte que alimenta o profeta, o faz caminhar e ser perseverante no seu anúncio e denúncia, diante das dificuldades que enfrenta, é a experiência admirável que fez do encontro com o Senhor que o chamou e se revelou a Ele. «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações.»
A Igreja é uma comunidade profética, toda ela chamada e enviada a anunciar o reino de Deus realizado em Cristo. Ela anuncia-O pela palavra e pelo testemunho da sua vida. Acerca da Igreja primitiva diz-nos S. Lucas que os irmãos eram assíduos ao ensino dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão, ao serviço da caridade e à evangelização e, como consequência disso, “o Senhor aumentava todos os dias o número dos que entravam no caminho da salvação”. A comunhão fraterna que viviam no serviço do Senhor e dos irmãos, a forma como iam em auxílio dos necessitados, resplandecia para fora e era um ato evangelizador sem palavras. Tertuliano deixou-nos escrito que os de fora da igreja diziam acerca dos discípulos: “Vede como eles se amam.” A Igreja deve ser o lugar da vivência do Mandamento Novo que Jesus nos deixou: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei». Ela é a primeira instituição da caridade pois Jesus quis que a sua Igreja fosse uma instituição formada por laços de amor fraterno. E amar significa acolher, compreender, aceitar os outros como eles são. Significa ainda integrar, perdoar, ajudar quem está em dificuldade, alegrar-se quando estão em festa e estar com eles quando estão em dor. Quem ama não desiste do outro mas permanece fiel nesse amor.
Desejamos que a paróquia possa ver-se como uma comunidade de fé, de esperança e de caridade. Quando a paróquia se vê como um amontoado de pessoas anónimas que vêm à missa ao Domingo, é difícil de perceber como é possível viver o que estou a dizer. Mas na medida em que os irmãos vão caminhando em pequenos grupos, conhecendo-se e relacionando-se, servindo juntos na missão da igreja, superando as dificuldades de feitio e temperamentos diferentes com que temos de aprender a lidar, a comunidade torna-se uma escola de caridade. Então quando os diferentes grupos se encontram todos na Eucaristia dominical começa a ver-se que há comunhão, alegria em estar juntos, em se sentarem à mesma mesa numa refeição comum. Nessa altura já não será tão difícil enchermos o salão com irmãos da comunidade para um almoço pois já se sentirão todos membros de uma mesma família e sentem alegria na partilha da refeição. E por onde começar? Por pequenos passos. Vamos começar na próxima semana a ter irmãos que em nome da comunidade estarão à entrada com um cráchá para nos acolher com alegria mostrando-nos que toda a comunidade se regozija com a sua presença na assembleia. É como se o próprio Cristo dissesse a cada um: “Sê bem-vindo a casa.” O mais importante deste serviço de acolhimento é lembrar a todos que o acolhimento não é a tarefa de um grupo mas de toda a comunidade.
Todos devemos fazer o esforço da caridade de cumprimentarmos os outros, de nos interessarmos por eles e de dedicarmos uma atenção especial aos mais simples, mais idosos e mais frágeis. Não devemos conviver só com aqueles com quem já nos sentimos bem quentinhos afetivamente, mas ir ao encontro dos que não conhecemos mas são meus irmãos. O acolhimento não é uma técnica, é uma atitude interior que só é verdadeira se for cheia de amor, daquele amor com que Deus ama cada pessoano. Para quem acolhe, cada pessoa deve ser vista como se fosse o próprio Cristo. O acolhimento ajuda-nos a crescer na caridade e a sermos uma comunidade resplandecente. Possa Deus fazer-nos dar passos neste sentido para que a missão da paróquia seja credível pois «é por este sinal que todos reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros».
Acho que é possível dar passos para que a paróquia se torne uma comunidade mais acolhedora, fraterna e familiar?
Estou disposto (a) a fazer a minha parte?

Folha Paroquial nº 62 *Ano II* 27.1.2019 — DOMINGO III DO TEMPO COMUM

«As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida.»

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«EVANGELHO (Lc 1, 1-4;4, 14-21)
Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».»

Tanto na 1ª leitura de hoje, como no Evangelho é-nos apresentada uma ação litúrgica, isto é, um culto público a Deus feito por toda a comunidade de um modo hierarquizado em que cada um faz tudo, e só, o que lhe compete, segundo o ministério que recebeu. A primeira leitura mostra-nos uma “celebração da Palavra” em que a leitura da mesma tem uma solenidade própria de quem crê que se trata da Palavra de Deus. Essa fé é manifestada pelo “Amen” entusiasmado da assembleia e pela sua atitude de prostração diante do Deus que acabou de lhes falar na Palavra proclamada. A celebração termina com a alegria e a festa e o envio para a refeição.
No Evangelho, Jesus sobe ao ambão, como era costume na sinagoga, e ali recebe o rolo do profeta Isaías que lê solenemente. No fim da leitura, enrola o livro e faz a homilia, começando por dizer que Ele é o cumpridor daquela passagem. De facto, todo o Antigo Testamento tem n’Ele a sua plena realização. Os olhos de quantos estavam na sinagoga fixavam-se n’Ele e bebiam as Suas palavras.
É através da Liturgia que nos é oferecida a possibilidade de participarmos na salvação que Cristo nos ofereceu pela Sua morte e ressurreição. Lembra-nos a Constituição sobre a Divina Liturgia do Concílio Vaticano II que Jesus não enviou os apóstolos e toda a Igreja só a anunciar o Evangelho a toda a criatura, mas também «para que realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante a Eucaristia e os outros sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica. Desde os tempos apostólicos, «nunca mais a Igreja deixou de se reunir em assembleia para celebrar o mistério pascal: lendo o que se referia a Ele em todas as escrituras Lc 24,27), celebrando a Eucaristia na qual «se torna presente o triunfo e a vitória da sua morte» e dando graças pelo seu dom inefável em Cristo Jesus. Para realizar tão grande obra, Cristo está presente na Sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da missa, quer na pessoa do ministro, quer sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos sacramentos, de modo que quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta.» SC nº 7.
A Liturgia é uma ação com muitos intervenientes em que cada um faz o que lhe compete. Ela realiza-se através de ritos, sinais sensíveis, palavras, orações e todos eles são muito importantes, pois cada um significa e realiza à sua maneira a santificação dos homens.
Um desses elementos fundamentais em qualquer celebração litúrgica é a Palavra de Deus. Não há liturgia sem escuta de Deus presente na Sua Palavra. Por isso, o ministério do leitor é muito importante para se ouvir a Palavra de Cristo, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. O leitor exerce um ministério litúrgico para o qual deve receber formação, da mesma forma que o ministro da comunhão, para exercer o ministério, tem de participar em cursos formativos.
Brevemente teremos uma formação para leitores. Entretanto, deixo alguns conselhos básicos para exercer este ministério:
 Crer que Aquela palavra que leio é Palavra de Deus. Por isso, uma pessoa que vai a um casamento ou a um funeral mas que, habitualmente, não vai à missa, não está preparada para ler a Palavra de Deus ainda que saiba ler muito bem. Todo o leitor é primeiro um ouvinte da Palavra de Deus.
 Ter lido antes aquela Palavra, tentar perceber a sua mensagem, e ver se entende o significado de todas as expressões que lê. Quando alguma não lhe soa bem pede explicação para não ler coisas que não sabe o que está a ler.
 Quando em festas ou missas de catequese se convidam crianças a ler a Palavra de Deus deve ver-se, com elas, não só se são capazes de ler bem e de forma audível, mas explicar-lhes o que estão a ler, pois só entendendo darão ao texto a sua devida entoação.
 Dirigir-se ao ambão com simplicidade e humildade. Chegados lá, podem olhar num relance a assembleia para ver a sua dimensão. Deve pensar que a sua voz tem de chegar até à última fila da igreja e, por isso, apesar de ter amplificação sonora, tem de levantar o tom da voz, porque não se trata só de ler mas de uma proclamação da Palavra. Sinónimos de proclamação: “ Anúncio, alocução, feito em ocasião solene, o que indica a importância daquilo que é proclamado”, diz um dicionário. Trata-se, portanto, de ler solenemente e audivelmente. Para ser audível é importante que o leitor diga as palavras até ao fim tentando separá-las, pois em todas as línguas se come o final das palavras. É preciso estar muito atento á pontuação, vírgulas, pontos finais, e exclamações e sobretudo pontos de interrogação, pois se a frase é interrogativa, mas não se entoa a interrogação, pode perder o sentido do que é dito. Depois é necessário estar atento ao género literário do texto. Às vezes perde-se muito quando um texto é um canto poético e é lido como uma passagem doutrinal sem entoação e beleza, embora se lesse o que lá está. No final da leitura, faz-se uma pequena pausa de 3 ou 4 segundos, e depois diz-se solenemente e convictamente, olhando a assembleia: Palavra do Senhor, para que ela responda com a mesma convicção: Graças a Deus.
Todo o leitor deve sentir a bela responsabilidade que consiste em emprestar a sua voz ao próprio Cristo, para que Ele mesmo fale aos ouvidos e ao coração da assembleia reunida. Que belo ministério!

Folha Paroquial nº 61 *Ano II* 20.1.2019 — DOMINGO II DO TEMPO COMUM

«Anunciai em todos os povos as maravilhas do Senhor.»

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«EVANGELHO (Jo 2, 1-11)
Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.»

S. João é um evangelista cujo modo de apresentar os acontecimentos precisa que nos habituemos. É que as coisas mais importantes estão nas entrelinhas, por isso precisamos de estar atentos e ir mais longe do que aquilo que conseguimos ler à primeira vista. Para ele, este primeiro «sinal», como lhe chama, das bodas de Caná é muito importante: encerra só por si o grande mistério do projeto de Deus sobre a humanidade, mistério de Criação, mistério de Aliança, mistério de Núpcias.
Aquilo a que se chama o Prólogo, quer dizer a abertura do seu evangelho, o início, já era uma grande meditação sobre este mistério. O texto das bodas de Caná é exatamente a mesma meditação mas agora em forma de narrativa, isto é, contando um acontecimento. Com estes dois textos, no início do seu evangelho, pretende introduzir-nos na compreensão de tudo o que ele nos vai dizer durante todo o seu evangelho. É como a «abertura» de uma ópera em que a orquestra toca todos os andamentos e as partes da ópera que depois se vão desenvolver.
O texto termina dizendo, «Foi assim que em Caná da Galileia Jesus “deu início”, (principiou) os seus milagres (sinais). Este dar início reenvia-nos ao prólogo, “no princípio, isto é, no início de tudo, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus.” S. João está a dizer-nos que Jesus está a dar início a numa nova criação, a recriar tudo e a fazer uma Nova Aliança. Se
vermos bem, nas bodas de Caná realmente Jesus não se contenta em multiplicar o vinho como vai fazer, mais tarde, com o pão: ele criou-o. Assim como no princípio de todasas coisas, O Verbo estava voltado para o Pai para criar o mundo, uma nova etapa se inaugura em Caná: a nova criação começou. E trata-se de um banquete de núpcias, de um casamento, de uma aliança esponsal. Na criação inicial Deus completa a sua obra com o casal humano, Adão e Eva, que criou à sua imagem e semelhança; agora, na nova criação, Jesus participa num banquete de núpcias, maneira de dizer que o projeto criador de Deus é um projeto de aliança, um projeto esponsal de amor.
Podemos compreender agora melhor porque é que a Igreja escolheu como primeira leitura deste dia o texto do terceiro Isaías no qual Deus diz ao seu povo: “Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.” ( Is 62) Os padres da Igreja (teólogos dos primeiros 6 séculos) sempre viram no sinal das bodas de Caná a realização da promessa de Deus: A festa das núpcias com a humanidade começa aqui. É por isso que a palavra «Hora» em S. João é tão importante: Trata-se da hora em que o projeto de Deus foi definitivamente realizado em Jesus Cristo. Por isso Jesus diz a Maria, sua Mãe: « Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Mas na altura em que vai ser preso, no Jardim das Oliveiras, vai afirmar solenemente. «Chegou a Hora em que o Filho do homem vai ser entregue.» Aqui, nas bodas de Caná, começa a realizar-se esse projeto de Deus que vai realizar-se definitivamente na Hora da sua entrega na cruz. E por isso dirá antes de expirar: «Tudo está consumado». A obra do pai, o seu plano de salvação, foi plenamente realizado.
Para S. João é claro, o projeto de Deus para a humanidade é uma aliança esponsal de amor em que Deus se entrega purificando o seu povo, perdoando os seus pecados, atraindo-o a si com laços
de ternura e de amor. Diz S. Paulo na carta aos Efésios; “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a, no banho da água, pela palavra. Ele quis apresentá-la esplêndida, como Igreja sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada.” É grande este mistério, este sacramento. Esta união de Cristo com a Igreja. E Paulo serve-se deste modelo para dizer: “Assim devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. De facto, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo; pelo contrário, alimenta-o e cuida dele, como Cristo faz à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo.” O matrimónio é sacramento, mistério, porque é sinal deste amor esponsal com
que Cristo ama a sua igreja e se entregou por ela.
Que missão bela recebem os casais cristãos ! Fazerem resplandecer no mundo o amor esponsal de Cristo pela Igreja.
O seu amor uno, fiel, indestrutível, paciente, resiliente, capaz de perdoar, participa do amor de Cristo, é fortalecido pela graça de Cristo mas é também sinal para o mundo do amor do Senhor
por cada um de nós.

Folha Paroquial nº 60 *Ano II* 13.1.2019 — DOMINGO DO BAPTISMO DO SENHOR

«O Senhor abençoará o seu povo na paz.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 3, 15-16.21-22)
Naquele tempo, o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias. João tomou a palavra e disse-lhes: «Eu baptizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo». Quando todo o povo recebeu o baptismo, Jesus também foi baptizado; e, enquanto orava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».»

A Igreja começa o tempo comum, depois da celebração do batismo do Senhor que corresponde ao 1º Domingo do tempo comum. Na vida de Jesus como também na nossa vida de discípulos d’Ele, tudo começa com o batismo. Diz-nos a 2ª leitura de hoje tirada dos Actos dos Apóstolos: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele”.
O Batismo de Jesus no rio Jordão é um facto histórico, bem atestado por todos os evangelistas. Mas estes não nos dão só o facto, relatam-nos também a experiência interior que Jesus viveu neste momento. S. Lucas diz-nos que enquanto Jesus orava, durante o baptismo, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E ouviu-se então a voz do Pai: « Tu és o meu Filho muito amado: Em tu pus toda a minha complacência.»
Mas como é que S. Lucas, que não foi apóstolo, e portanto não estava lá com Jesus, pode ter acesso à experiência que Jesus viveu neste momento e que reorientou a sua atividade de, até aí escondida, para uma vida pública? S. Lucas tem um termo de comparação: É a experiência que a comunidade cristã do seu tempo fazia do batismo. Este sacramento era vivido na assembleia cristã em ambiente de profunda oração e louvor de Deus. Os batizados eram mergulhados na água de uma piscina, diante de toda a comunidade, sinal do seu mergulho no amor Trinitário do Pai , do Filho e do Espírito Santo, através do dom pascal de Jesus. O Espírito Santo, vinha e fazia-os sentir o amor do Pai testemunhando ao seu espírito humano que que eram filhos de Deus no Filho a cujo mistério de morte e ressurreiçaõ se uniam. O mesmo Espírito Santo derramado nos seus corações fazia-os dizer, à maneira de Jesus: « Abbá, Pai». Esta envolvência tão profunda no amor trinitário era o início da vida dos crentes que doravante são chamados a viverem como homens novos, “fazendo o bem” e anunciando as maravilhas de Deus.
S. Lucas não se refere portanto apenas a um saber teológico do que acontece no baptismo mas a uma experiência sensível, de tal forma que usa termos que revelam a dificudade em traduzir a experiência: Diz que o Espírito veio em forma corporal. Mas que quer isto dizer? Se é Espírito, como pode vir em forma corporal? E depois acrescenta, como uma pomba. Não diz que é uma pomba, mas “como uma pomba”. Parece-se com aqueles pintores ou artistas que representam o irrepresentável dando-lhes um estilo etéreo e estilizado. O que S. Lucas quer transmitir é que a experiência de Jesus foi profundamente sensível levando-o ao «estremecimento do coração» como mais tarde nos é contado pelo mesmo evangelista dizendo que “Jesus estremeceu sob a ação do Espírito Santo e rezou: « Bendigo-te ó Pai, Senhor do céu e da terra porque escondeste estas coisas aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos». O batismo terá sido um dos grandes momentos do estremecimento de alegria filial de Jesus. Por isso aqui começa a sua atividade messiânica, para anunciar a Boa nova aos pobres e a libertação aos oprimidos, como dirá na sinagoga de Nazaré.”
Com a cristianização do império, o baptismo começou a ser realizado cada vez mais na idade infantil desligando-o desta experiência sensível, pois a criança não tem consciência do que está a fazer. No baptismo das crianças testemunha-se que tudo é graça já que só Deus se dá sem que possa receber a adesão da fé do baptizado. Por agora esta adesão é dos pais que umas vezes é verdadeira e sincera outras nem tanto. Adia-se assim para mais tarde a experiência do encontro com Jesus que o batizado possa fazer quando aderir pela fé ao Senhor e receber o Espírito Santo.
No entanto também no crisma muitas vezes a preparação consiste mais em receber conhecimentos do que em abrir-se ao dom do Espírito e acontece frequentemente que os crismados também não fizeram nenhuma experiência sensível de encontro com Deus pela ação do Espírito. E por isso também aqui não é o início de nada. Por isso dou tanta importância ao percurso Alpha e a todos os grupos que ajudam o crente a fazer esta experiência sensível do amor de Deus, despertando neles o dom que já os habita desde o batismo mas que tem estado adormecido. Quando se faz, começa então a vida em Cristo e no Espírito. Relembro as palavras de Bento XVI: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e com ele, um novo rumo”.
Uma comunidade cristã missionária é uma comunidade que faz a experiência do dom da graça que recebeu e responde entregando-se na missão de anunciar o evangelho aos pobres. Por isso ajudar os cristãos a fazer este encontro com Deus. assumindo o dom do batismo é o grande desafio.