Arquivo da categoria Unidade Pastoral

Folha Paroquial nº 55*Ano II* 9.12.2018 — II DOMINGO DO ADVENTO

«O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.»

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«EVANGELHO (Lc 3, 1-6)
No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide e Lisânias tetrarca de Abilene, no pontificado de Anás e Caifás, foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. E ele percorreu toda a zona do rio Jordão, pregando um baptismo de penitência para a remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus’».»

MEDITAÇÃO
ABRIR CAMINHOS NOVOS
Os primeiros cristãos viram na atuação de João Baptista o profeta que preparou decisivamente o caminho para Jesus. Por isso, ao longo dos séculos, as palavras do Baptista converteram-se num apelo urgente a preparar os caminhos que nos permitem acolher a Jesus entre nós. Ele é por isso chamado o precursor do Senhor.
S. Lucas resumiu a sua mensagem com este grito tirado do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor”. Como escutar este grito na Igreja hoje? Como abrir caminhos para que os homens e as mulheres do nosso tempo possam encontrar-se com Ele? Como acolhê-lo nas nossas comunidades? Estas são perguntas fundamentais a que a Igreja tenta dar resposta.
A primeira coisa de que a Igreja se vem consciencializando já desde o Concílio Vaticano II é a de que precisamos de um contacto mais vivo com a pessoa de Jesus. Não é possível aos cristãos alimentarem-se só de doutrina religiosa. Ninguém pode seguir um Jesus abstrato. Precisamos de sintonizar vitalmente com Ele, deixar-nos atrair pelo seu estilo de vida, contagiar-nos pela sua paixão por Deus e pelo ser humano.
No meio do “deserto espiritual” da sociedade moderna, a comunidade cristã deve ser o lugar de acolhimento do Evangelho de Jesus. É nela que nos reunimos como crentes com mais ou menos fé, para escutar os relatos do Seu Evangelho. Acolhendo-os com fé damos-Lhe a Ele a oportunidade de penetrar com a sua força humanizadora os nossos problemas, crises, medos e esperanças. E saímos do encontro mais fortalecidos, mais libertos.
Não podemos esquecer, nos evangelhos não aprendemos a doutrina académica sobre Jesus, destinada a envelhecer ao longo dos séculos. Na Eucaristia em que nos reunimos para estar com Ele e escutar o seu evangelho também não se trata de aprender doutrina. Trata-se de estar com Ele e deixar-nos tocar pela sua graça. Trata-se de continuamente reaprendermos um estilo de viver realizável em todos os tempos e em todas as culturas: O estilo de vida de Jesus. A doutrina não toca o coração, não converte nem enamora. Jesus sim.
Tenho-me encontrado no fim da missa, à semana, com um «buscador da fé” que nos inspira muita simpatia. Não é batizado mas tem uma grande sede espiritual. Já leu muita coisa sobre varias religiões orientais e sobre o islão mas como nasceu num país de tradição cultural cristã é aí que alimenta a sua busca. Nunca se fez catecúmeno para ser batizado porque teme que o queiram dogmatizar ou encurralar num caminho único. Como anunciar o Evangelho a alguém que deseja permanecer neutro em relação a todas as religiões? A questão é que temos estado no nível das ideias…e foi quando percebi isso que lhe perguntei: «Já leste alguma vez os evangelhos de Jesus?» «Ainda não, respondeu». Então ofereci-lhe a Bíblia inteira e disse-lhe: Lê o evangelho de S. Marcos e depois de o leres voltamos a conversar.
Sem nos encontramos com a pessoa de Jesus ficamos nas ideias…e as ideias não nos convertem. É o encontro com Ele que nos faz deixar de ser neutros e fazermos a opção de um caminho. O caminho de Jesus que para nós é o caminho da salvação pois “não existe outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos?” Como diz José Pagola, “a experiência direta e imediata com o relato evangélico faz-nos nascer para uma nova fé, não por via do “endoutrinamento” ou da “aprendizagem teórica”, mas pelo contacto vital com Jesus. Ele ensina-nos a viver a fé não por obrigação, mas por atração. Faz-nos viver a vida crista não como dever, mas como contágio. No contacto com o Evangelho recuperamos a nossa verdadeira identidade de seguidores de Jesus. O segredo de toda a evangelização consiste em pôr-nos em contacto direto e imediato com Jesus. Sem Ele não é possível engendrar uma nova fé.”
O percurso Alpha é isto mesmo. Pôr as pessoas em contacto com a pessoa de Jesus e por isso serve para não crentes e para crentes de há muitos anos que podem ter sido endoutrinados, sacramentalizados mas porventura faltou o encontro vital com Jesus que faz surgir uma nova maneira de crer e de viver.

Oração
“Senhor Jesus, neste Natal
Te pedimos a Graça de preparar os nossos corações
De sarar as nossas feridas, de preencher o vazio
Que sentimos quando estamos longe de Ti!
Aumentai em nós a fé, a esperança e caridade
Preparai os caminhos das nossas familias
Concede-nos a humildade de pedir perdão e o dom da reconciliação
Fazei dos nossos lares a gruta de Belém, cheia de harmonia e paz
Preparai os caminhos da nossa Igreja
Que ela seja testemunho da tua alegria, do teu entusiasmo e da tua entrega
Enchei-a de dinamismo missionário
Promovei Senhor, nós te pedimos, uma profunda comunhão
Entre todos os membros
Preparai os caminhos do mundo
Suscitai líderes com coragem de lutar pela verdade,
Pela justiça e pelo amor
Defendei os pobres, os doentes, os marginalizados
E visitai a todos neste Natal, com o dom do Vosso Amor
Amén.”

Folha Paroquial nº 54*Ano II* 2.12.2018 — I DOMINGO DO ADVENTO

«Para Vós, Senhor, elevo a minha alma.»

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«EVANGELHO (Lc 21, 25-28.34-36)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».»

MEDITAÇÃO
Começámos o novo ano litúrgico com o 1º Domingo do Advento. Os prefácios das missas do Advento situam-nos nas três dimensões do devir temporal em que o Advento nos coloca: Passado, presente e futuro. Passado: Fazemos memória-atualização da esperança que animou o Povo de Israel durante séculos preparando-se para a vinda do Messias. Diz o prefácio: “Foi Ele que os Profetas anunciaram, a Virgem Mãe esperou com inefável amor, João Baptista proclamou estar para vir e mostrou já presente no meio dos homens.”
Mas o Advento vive-se no concreto do hoje da nossa história, o Presente: Por isso acrescenta a oração da Igreja: “Agora, Ele vem ao nosso encontro, em cada homem e em cada tempo, para que O recebamos na fé e na caridade e dêmos testemunho da gloriosa esperança do seu reino. É Ele que nos dá ( hoje) a graça de nos preparamos com alegria para o mistério do seu nascimento.” Vivendo com Ele na história como Emanuel, Deus connosco, não deixa de nos projetar no futuro onde aguardamos os novos céus e a nova terra. Por isso a oração continua apontando para o futuro; “Pai Santo, Vós nos escondestes o dia e a hora em que Jesus Cristo, vosso Filho, Senhor e juiz da história, aparecerá sobre as nuvens do céu revestido de poder e majestade. Nesse dia tremendo e glorioso, passará o mundo presente e aparecerão os novos céus e a nova terra.” Por isso a atitude do Advento é a da sentinela vigilante e o verbo mais repetido é; “Vigiai”.
Sejamos práticos: O que fazer neste advento para não ficar só nuns bons pensamentos e propósitos: Sugestões: Reunir-se com um pequeno grupo de mais de 3 pessoas para fazer a lectio divina que a Diocese propõe para cada Advento ou fazê-la em família se for difícil reunir com um grupo. Sugestão ainda mais simples; A família quando estiver reunida à hora do jantar, acenda uma vela de advento que se vai consumindo até ao natal. Quando a acende rezem juntos uma pequena oração onde termina por dizer: “Vem Senhor, habita a nossa família, entra em nossa casa e no nosso coração como entraste em casa de Zaqueu levando-lhe a alegria da salvação. Maranatha, vem Senhor Jesus.” A oração para cada semana da lectio pode também servir para ser rezada neste momento na família.
Que cada um encontre os gestos práticos para viver melhor o Advento. O importante é não ficar só nos bons pensamentos mas passar a pô-los em prática.

Oração
Senhor nosso Deus
Nós te damos graças pelo Dom da Tua Palavra
Porque nos permites ver a vida com outros olhos, com um olhar de esperança.
Porque te manifestas justamente quando estamos mais fragilizados
Porque nos renova o ânimo e nos levanta a cabeça em todas as nossas lutas e desilusões
Porque nos fazes acreditar que toda a História se encaminha para Ti
Porque continuas a nascer no nosso coração, em cada Natal, na figura de um menino
Que nos emociona, nos toca e nos faz de novo sonhar
Te pedimos a Graça de estarmos atentos aos sinais dos tempos
De Vigiarmos para que não se torne pesado o nosso coração
Para que o egoísmo, o individualismo não ocupe o lugar que foi e sempre será só Teu
E para que a nossa Oração a Ti, aumente a nossa intimidade contigo
E se transforme em vida e amor concreto para com os nossos irmãos.
Amém

Folha Paroquial nº 53 *Ano I* 25.11.2018 — DOMINGO XXXIV

«O Senhor é rei num trono de luz.»

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«EVANGELHO (Jo 18, 33b-37)
Naquele tempo, disse Pilatos a Jesus: «Tu és o rei dos Judeus?». Jesus respondeu-lhe: «É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?». Disse-Lhe Pilatos: «Porventura eu sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim. Que fizeste?». Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui». Disse-Lhe Pilatos: «Então, Tu és rei?». Jesus respondeu-lhe: «É como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».»

MEDITAÇÃO
Na festa de Cristo Rei, que coroa o ano litúrgico, contemplamos nosso Senhor Jesus Cristo, como o centro da história humana, Senhor do Universo e Rei de cada coração que o acolhe. A 1ª leitura diz-nos que «lhe foi entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram e que o seu reino jamais será destruído». A 2ª leitura diz-nos que Ele é o príncipe dos reis da terra, mas que a sua realeza foi conquistada, não pelas armas, mas pela força do amor. Ele libertou-nos do pecado pelo seu sangue derramado. A sua realeza foi-lhe dada pelo Pai que o exaltou à sua direita no céu, porque deu a vida pelos seus irmãos e fez deles um reino de sacerdotes para Deus seu Pai. Agora, sentado à sua direita, Ele, o Cordeiro imolado, recebe o mesmo louvor, veneração, honra e adoração que é devida «ao que está sentado no trono», isto é, a Deus Pai. Ele é o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim de toda a história, porque, como diz a carta aos Colossenses, foi n’Ele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra as visíveis e as invisíveis. Todas foram criadas por Ele e para Ele, pois Ele é anterior a todas as coisas e todas subsistem n’Ele. Em tudo Ele tem o primeiro lugar. Mas o espantoso é que o Evangelho nos mostre este Rei a ser julgado por homens, em tribunal humano, numa situação humilhante. O Rei fez-se servo, como canta o hino aos Filipenses, Ele, que era de condição divina, humilhou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso é que Deus o exaltou e lhe deu um nome acima de todo o nome». Ele próprio tinha dito: quem se humilha, será exaltado. O Dia de Cristo-Rei ajuda-nos a perceber a condição de discípulo de Cristo, pois este não é mais do que o mestre. Chamados a segui-lo em tudo, até à glória no céu, para estar com Ele, primeiro temos de aprender a ser servos da humanidade como Ele foi. E este é um dos belos atributos do discípulo: ser servo. A Igreja é uma comunidade de servidores a quem Jesus ensinou com toda a sua vida e que ficou plasmada no lavar dos pés aos discípulos no fim da última Ceia. «Vistes o que vos fiz?» – pergunta Jesus. Assim também vós deveis lavar os pés uns aos outros, dando-nos, assim, o mandamento do serviço intrinsecamente ligado ao Mandamento novo de «vos amardes uns aos outros, como Eu vos amei». Não são dois mandamentos, é um só. Servir amando e amando servindo. Paulo, que bebeu bem o Evangelho de Cristo, dirá mais tarde na Carta aos Gálatas: «pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros.» (Gal 5, 13). Por isso, este dia serve para nos questionarmos sobre a forma como servimos Cristo no seu Corpo eclesial e no mundo.
Apraz-me manifestar um profundo reconhecimento a todos aqueles que servem a Igreja nas nossas paróquias nos mais diversos campos. Ontem ao falar com uma genersoa paroquiana perguntei-lhe quantas aulas de matemática dava aqui na paróquia àqueles que não tendo dinheiro para pagar explicações recorrem à generosidade dos cristãos. E ela respondeu-me: De segunda a sexta, todos os dias. É assim que entramos na lógica da realeza de Jesus e participamos dela. Na paróquia há serviços mais visíveis outros menos visíveis para os homens, mas Deus não vê como o homem, tem um olhar mais penetrante.
Gostava de os citar a todos, mas ia ser longo. Prefiro dizer aos que ainda não têm qualquer serviço na vida da comunidade que há muito lugar para eles.
Qualquer comunidade cristã será mais resplandecente se for uma comunidade onde todos dão segundo os seus carismas e talentos. Obrigado às equipas Alpha que com paixãp anunciam o evangelho aos seus irmãos, obrigado aos catequesitas que com grande resiliência e amor acolhem em cada semana as crianças da catequese para lhes falar de Jesus. Como não agradecer aos responsáveis das células de evangelização, do escutismo, do ASJ e a todas as que enfeitam com beleza e amor a igreja para a celebraçãpo dominical. Não posso esquecer os que se dedicam aos pobres, as conferências vicentinas em S. José e o gasc em S. João Baptista. Obrigado aos membros dos Conselhos pastorais e económicos das equipas de animação fraterna, que ajudam a pensar a pastoral da paróquia e a tomar as decisões o mais acertadas possível. Comissão para a construção da igreja em S. João baptista e comissão de eventos. Como não estar grato aos membros dos coros que em várias missas animam a liturgia? Quantos ensaios, quanto trabalho e quanta beleza conseguem dar às celebrações? E podemos continuar com os ministros extraordinários da comunhão e todos os outros. Que Cristo Rei porque servo da humanidade nos ajude a fazer o caminho da humildade e do serviço que Ele fez e a Igreja possa ser reconehcida como a comundiade serva da humanidade à imagem do seu mestre. Mas precsiamos de muitos mais servidores. Ponham as vossas competências ao serviço de Deus e da Igreja… A messe é grande e os trabalhadores são tão poucos. Deus conta consigo.

Folha Paroquial nº 52 *Ano I* 18.11.2018 — DOMINGO XXXIII

«Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus.»

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«EVANGELHO (Mc 13, 24-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Naqueles dias, depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória. Ele mandará os Anjos, para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei a parábola da figueira: quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece: nem os Anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai».»

Sempre que os profetas do Antigo Testamento querem anunciar o Grande Dia de Deus, a sua vitória definitiva contra todas as forças do mal, encontramos a mesma linguagem, estas mesmas imagens, já presentes na 1ª leitura de hoje, do livro de Daniel. Nesta altura em que o profeta escreve, o povo de Israel vivia um dos tempos mais terríveis da sua história. Depois das conquistas de Alexandre Magno, e com a sua morte, a Palestina fica sob a ocupação grega. Alexandre foi bastante liberal com os povos ocupados, mas nesta época, cerca do ano 170 antes de Cristo, quem governava era um tal Antíoco Epifanes, de triste memória para o povo de Israel. Ele quer ser o verdadeiro Deus do povo e pretende ser adorado como tal. Todos os que não obedecem são torturados e mortos. Uma grande maioria cederá, mas outros resistem e morrem. Com esta mensagem que não podia ser dita senão de uma forma codificada e posta no futuro, Daniel diz-lhes: «Miguel, o chefe dos anjos, vela por vós… aparentemente, vós experimentais a derrota e o fracasso, a morte dos vossos melhores heróis, o horror… vedes a vitória dos que semeiam o mal e o terror. Mas, no final, vós sois os grandes vencedores! O combate dá-se na terra e no céu: vós só vedes o que se passa na terra, mas no céu, ficai a sabê-lo, os exércitos celestes já ganharam a vitória por vós.» E o povo percebia bem que esta mensagem era para eles, agora, no presente, em que as suas vidas se jogavam.
Também o evangelho de hoje é a Boa Nova da esperança, em linguagem apocalíptica. Era uma linguagem codificada: à primeira vista, trata-se do sol, das estrelas, da lua e tudo isso vai ser terrificante, mas, na realidade, trata-se de algo bem diferente! Trata-se da vitória de Deus e dos seus filhos no grande combate que travam contra o mal desde o princípio do mundo. Está aqui a especificidade da fé judaico-cristã. É por isso um contrassenso empregar a palavra Apocalipse a propósito de acontecimentos terríveis, pois na linguagem crente, judia ou cristã, é precisamente o contrário. A revelação do mistério de Deus não visa nunca causar terror aos homens, mas, ao contrário, permitir-lhes viver todas as revoluções da história «levantando o véu» para manter viva a esperança.
Será que esta esperança anunciada na 1ª leitura e no Evangelho poderá servir para nós hoje também? Olhando para a situação do mundo de hoje e mesmo para a situação da Igreja no Ocidente, em que não havendo perseguição física, há outro tipo de perseguição mais insidiosa e encoberta, estas leituras dizem-nos: Deus está connosco em todas as situações da história, sejam elas pessoais ou coletivas e tem sempre para nós uma Palavra em que nos revela o seu desígnio de amor para nós. E essa palavra realizar-se-á. Podem passar o Céu e a Terra, mas as minhas palavras não hão de passar, diz o Senhor.
Estamos na semana dos Seminários e sabemos que muitos deles tiveram que fechar por causa da falta de vocações. Alguns vêm isso como um sinal de que a Igreja e o cristianismo estão a definhar, pelo menos na Europa ocidental. Ainda por cima o escândalo que atravessou muitos países em relação a vários sacerdotes foi mais uma machadada forte na confiança na Igreja. Tudo isto pode levar muita gente a ter uma sensação de desânimo e até falta de fé. Mas Deus é maior que os nossos pecados e Ele sabe o combate espiritual em que estamos todos metidos. As perseguições e os sofrimentos da Igreja vêm de fora e de dentro mas os mais perigosos são quando vêm de dentro. E o demónio sabe que se conseguir que o escândalo e a perseguição venha de dentro obtém melhores resultados. O papa Francisco sabe discernir a presença misteriosa do mal e do tentador e por isso pede à Igreja que reze a S. Miguel Arcanjo para que Ele continue a estar ao nosso lado neste combate. Diz-nos a primeira leitura: “ Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus”.
A Igreja é do Senhor e Ele vela por ela. Deus ama-nos e nunca nos abandona ainda que aparentemente as coisas pareçam más e angustiantes. Mas Deus espera que nós saibamos aprender com tudo o que vivemos. Os momentos de crise foram sempre momentos de crescimento e de renovação. Eu acredito que os sofrimentos da Igreja no tempo presente estão já a ser tempos de purificação para que a Igreja entre numa nova e mais bela etapa de identificação com o seu Senhor. Como olho para os acontecimentos do mundo e para a vida da Igreja? Com esperança ou angústia? Acredito que Deus está connosco ou penso que estamos sozinhos nesta caminhada?

Folha Paroquial nº 51 *Ano I* 11.11.2018 — DOMINGO XXXII

«Ó minha alma, louva o Senhor.»

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«EVANGELHO (Mc 12, 38-44)
Naquele tempo, Jesus ensinava a multidão, dizendo: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa». Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro, a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas. Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante. Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».»

MEDITAÇÃO
A audácia da generosidade
Uma viúva apresenta-se no templo, enquanto Jesus falava, para fazer a sua oferta. Ela é pobre, Marcos repete-o três vezes (v.42,43) «uma pobre viúva» Era caso geral na época, pois as viúvas não tinham direito a herdar dos maridos e a sua sorte dependia em grande parte da caridade pública: Por isso a Lei de Moisés insiste muito no amparo que se deve dar à viúva e ao órfão. A viúva avança então para depositar duas pequenas moedas; e é ela que Jesus dá como exemplo aos seus discípulos: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver». O evangelho não diz mais, mas a reflexão de Jesus deixa perceber que a sua confiança será recompensada…a aproximação com a primeira leitura (a viúva de Sarepta) é sugestiva: Como a viúva de Sarepta tinha dado as suas últimas provisões ao profeta Elias, o homem de Deus, colocando toda a sua confiança em Deus, assim a viúva no Templo de Jerusalém, dá os seus últimos recursos. A sua confiança em Deus vai até correr o máximo de riscos, o despojamento completo. Nunca faremos a experiência se Deus é digno de confiança, se não tivermos gestos de entrega e de confiança n’Ele.
Estes últimos conselhos de Jesus aos seus discípulos tomarão um relevo particular algum tempo mais tarde depois da Sua morte e ressurreição: Também eles, discípulos, deverão escolher a atitude da viúva do Templo e da viúva de Sarepta na Igreja nascente. O modelo que o Senhor lhes deu não é o da ostentação de certos escribas, a sua procura de honras…mas a generosidade discreta da viúva e a audácia de arriscar tudo.
A diferença entre a dádiva da viúva pobre e o dar dos ricos no Templo é que enquanto aquela se ofereceu a si mesma, entregando-se confiante nas mãos de Deus, estes deram algo que não os implicou por dentro para fazer um ato de confiança em Deus, pois deram do que lhes sobrava sem terem necessidade de se entregar a eles mesmos. O que deram era exterior a eles, pois não precisavam do que deram para continuar a sua vida confortável.
Ora a generosidade que Deus nos pede é a entrega de nós mesmos em tudo aquilo que fazemos: Deus não procura coisas, procura o nosso coração, o nosso amor, a nossa confiança n’Ele a nossa entrega generosa. E isto não tem só a ver com o dinheiro, tem a ver com toda a nossa vida.
Às vezes na Igreja tem-se medo de correr riscos, pois estamos tão habituados a fazer as coisas da mesma maneira ao longo de tantos anos, que a perspetiva de ousar caminhos novos, quando vemos que é isso que Deus nos pede, mete-nos medo. É preciso arriscar com confiança.
Estive de segunda a quarta- feira em Milão num encontro de responsáveis nacionais pelas células paroquiais de evangelização. Estávamos uns 15 países diferentes. Em todo o lado se procuram caminhos novos e, graças a Deus, os frutos da ousadia de muitas paróquias em terem encetado novas opções pastorais estão a dar abundantes frutos transformando-as em paróquias vivas e renovadas, em vocações sacerdotais, religiosas e missionárias. Paróquias cujos fiéis perceberam que o Senhor lhes pede que se tornem evangelizadores vão descobrindo a alegria de se entregarem ao Senhor e Deus recompensa abundantemente quando nos damos a Ele. Em que me toca este texto? Que tem ele a ver comigo? Que atos de confiança em Deus me lembro de ter feito na vida? Confio realmente n’Ele, ou prefiro estar seguro nas seguranças humanas?

Folha Paroquial nº 50 *Ano I* 04.11.2018 — DOMINGO XXXI

«Eu Vos amo, Senhor: Vós sois a minha força.»

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«EVANGELHO (Mc 12, 28b-34)
Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?». Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-l’O.»

Meditação
Na 1ª leitura de hoje, está contida a oração que o judeu piedoso, ainda hoje, reza três vezes ao dia, e que tem por nome “Shema” por causa da palavra com que começa «Escuta». Trata-se de uma profissão de fé no Deus único que mantém com todo o povo e com cada um dos seus membros uma relação particular e pessoal. «O Senhor é o nosso Deus, o Senhor é único». Daqui nasce a exigência de corresponder a este sagrado vínculo com um amor indiviso. Todas as faculdades e as atividades do homem hão de estar orientadas integralmente para corresponder com amor ao Bem que é o Senhor, que é para nós e que age em nosso favor, querendo que sejamos felizes para sempre. Esta eleição gratuita por parte de Deus, é um dom imenso do qual o povo nunca deve perder a consciência: a memória contínua d’Ele, dos seus benefícios e dos seus preceitos é para todo o Israel – também para nós hoje, filhos de Abraão segundo a promessa – compromisso de uma vida conforme à sua vontade e fonte de toda a bênção.
No Evangelho, o escriba que se aproxima de Jesus faz uma pergunta muito pertinente. Entre tantos preceitos que a lei contém e cuja multiplicidade nos pode desorientar e tirar a esperança, precisamos de voltar a encontrar um centro de gravidade, um fio condutor para o caminho da vida. Jesus leva-o simplesmente àquele que unifica tudo, ao Uno, aquele que é (Yaveh) e envolve cada ser num abraço vivificante. Ele é o Amor e é o nosso Deus. Como, então, não nos oferecermos totalmente a Ele? A multiplicidade fica unificada pelo amor de Deus que pede todo o amor do homem, porque Ele nos amou primeiro. São muitos os nossos afetos, amizades, relações interpessoais; às vezes, sentimo-nos «triturados»…
“Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração”. Se lhe damos tudo, por outro lado, já o que vem d’Ele, será o Espírito de amor que virá a nós e amará em nós. São muitas, demasiadas, as coisas que temos que fazer, os compromissos a que temos que responder, as atividades que temos de levar por diante: Amemos o Senhor com todas as nossas forças e Ele será a força que nos sustenta na vertiginosa corrida da nossa vida quotidiana. Aliás, Ele mesmo nos segredará o que é essencial e a sermos capazes de deixar o acessório, a escolher a melhor parte. Se tendemos para esta única direção, seremos impulsionados pelo mesmo Senhor para a direção dos irmãos. O mandamento do Senhor é uno, mas tem dois aspetos, porque aprender a amar de todo o coração a Deus significa fazer-se próximo de cada homem. Aliás, o teste de verdade de que amamos realmente a Deus é o amor aos irmãos, de modo particular àqueles de quem não esperamos receber a recompensa. Foi assim que amou Jesus. “Sim, o amor vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios”.

Folha Paroquial nº 48 *Ano I* 21.10.2018 — DOMINGO XXIX

«Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.»

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«EVANGELHO (Mc 10, 35-45)
Naquele tempo, Jesus chamou os Doze e disse-lhes: Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».»

NÃO DEVE SER ASSIM ENTRE VÓS
No Domingo passado, as leituras falavam-nos do perigo das riquezas para o seguimento de Jesus. Dissemos que o dinheiro não é mau pois é necessário, mas que temos de prestar atenção para que ele não nos transforme de tal modo que nós sejamos servos dele em vez de senhores.
Hoje Jesus apresenta-nos um outro perigo bem real para o seu seguimento: o desejo de poder. Aliás, dinheiro e poder andam muitas vezes ligados. O texto de hoje segue-se ao terceiro anúncio da paixão. S. Marcos deixa-nos ver o grotesco da situação: Jesus acaba de fazer o terceiro anúncio da paixão dizendo “O filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e eles condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos gentios. Hão de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas três dias depois ressuscitará.” E o espanto é que é nesta altura que os filhos de Zebedeu se aproximam para lhe fazer o tal pedido de poder, metendo uma cunhazita.
Mas os outros dez indignaram-se com eles, não por acharem mal o que eles estavam a pedir, mas por se terem antecipado, e eles poderem ficar só com os cargos mais baixos na hierarquia do poder… É interessante que, mais tarde, quando se tratar de pôr o Evangelho por escrito- nenhum dos evangelistas vai deixar no esquecimento esta passagem- S. Mateus não vai ter coragem de mostrar esta fraqueza de Tiago e de João, por pudor, e coloca a mãe deles a fazer o pedido a Jesus. (Cf Mt 20, 20).
Jesus já tinha falado muitas vezes com os discípulos sobre a humildade e o serviço e sobretudo o seu exemplo era muito forte, mas, apesar de já andarem com Jesus há cerca de três anos, a sua renúncia ao poder e a opção pelo serviço não estava ainda feita.
Jesus chama-os de lado e diz-lhes com solenidade: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»
Disse há pouco que nenhum evangelista deixa em branco esta cena, pois consideram que a dimensão do serviço humilde e a renúncia às grandezas e ao poder bem como o desapego do dinheiro, faz parte essencial da mensagem do Reino que Jesus pregou, mas, S. João, em vez de contar o acontecimento como os outros Sinópticos, conta-o através do gesto do lava-pés que a Igreja mimetiza na Quinta-feira santa. O que Jesus diz aos discípulos no fim de lhes lavar os pés é, no essencial, o mesmo que é dito pelos outros evangelistas.
«Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.» (Jo 13, 13-17)
Marcados pelo pecado original, nós trazemos connosco uma tendência quase inata para o poder, para o domínio de uns sobre os outros bem como para possuir bens ou riquezas que nos possam obter esse poder. Ninguém está isento desta tentação visceral por mais espiritual que pareça ser. Aliás, é um pecado ainda maior quando se aproveita o espiritual para conquistar o poder. Foi um dos grandes pecados dos discípulos de Cristo de todos os tempos, apesar de Ele os ter prevenido desde o início. Dissemos no domingo passado, a propósito do dinheiro, que o antídoto para este apego era o dar com frequência e como hábito. O desejo do poder tem também um antídoto que o serviço humilde. Quem serve, transforma o poder que tem em serviço e constrói o mundo livre de cadeias que o aprisionam. Jesus diz aos discípulos: “vós chamais-me Mestre e Senhor e dizeis bem, pois o sou.” Jesus não nega que tem poder sobre os discípulos. Aliás na Ascensão Ele diz: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra”. O papa tem poder, o professor na aula tem poder, aliás o problema é quando o desautorizam e ele perde a capacidade de ter poder para servir melhor. O pai e a mãe têm poder na família e é preciso que lho reconheçam. Quando elegemos alguém para estar à frente de uma associação ou de um grupo qualquer o que estamos a fazer é conferir-lhe poder para ele realizar essa função e servir os outros, mas se não tiver poder também não pode servir. Só que aquilo que Jesus nos previne é que todo o poder tem de ser visto como serviço e vivido como tal. A pessoa a quem é confiado o poder não fica mais importante, mas mais serva dos seus irmãos. «Aquele de entre vós que quiser ser o maior… faça-se, o servo de todos. Jesus diz, depois do lava-pés: Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.» (Jo 13, 13-17). É feliz aquele que, como Jesus, serve por amor, porque se torna verdadeiro discípulo do Mestre. Que a nossa paróquia apareça como serva e que os cristãos deem testemunho de que querem ser discípulos de Jesus o servo da humanidade que veio para servir e dar a vida por todos.

Folha Paroquial nº 47 *Ano I* 14.10.2018 — DOMINGO XXVIII

«Enchei-nos da vossa misericórdia: será ela a nossa alegria.»

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«Naquele tempo, ia Jesus pôr-Se a caminho, quando um homem se aproximou correndo, ajoelhou diante d’Ele e perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?». Jesus respondeu: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: ‘Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’». O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude». Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. Então Jesus, olhando à sua volta, disse aos discípulos: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!» Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus afirmou-lhes de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível».»

Hoje as leituras, particularmente o evangelho, tratam uma questão difícil para muita gente; a do dinheiro e do perigo que ele pode ser como usurpador do nosso coração. Nem sempre a conversão a Jesus leva o convertido a ser capaz de se tornar generoso como Zaqueu que depois que Jesus entrou em sua casa e disse: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e àqueles a quem roubei vou dar quatro vezes mais». Tenho visto pessoas com vida cristã bem regular e com posses acima da média, mas quando se trata em dar dinheiro, têm uma dificuldade enorme e até o reconhecem. O rico do evangelho de hoje, era boa pessoa e Jesus sentiu simpatia por ele mas estava apegado ao dinheiro. Jesus conclui que o apego às riquezas ou ao dinheiro é um dos maiores obstáculos ao seu seguimento e a entrar no Reino de Deus.
Jesus ou dinheiro? Quem será o Senhor? Em Lucas 16,13 quando Jesus afirma: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro», usa palavras de relação como “ódio” e “amor”. A questão essencial colocada por Jesus é a seguinte: Com quem queremos ter relação, com Deus ou com o dinheiro?
Na Bíblia encontramos uma série de ensinamentos acerca de como lidar com o dinheiro. Ter dinheiro não é uma coisa má, mas precisamos de pedir a graça e ajuda de Deus para garantir que ele não se transforme no nosso guia pois a carta a Timóteo diz que «o amor ao dinheiro é a raíz de todos os males». As parábolas e discursos sobre o dinheiro no Novo Testamento são muitos. No entanto, hoje na igreja, fala-se pouco disso porque os cristãos, sobretudo os católicos, sentem-se incomodados com o tema como se fosse tabú. E se algum padre o faz dizem: «está sempre a falar em dinheiro», o que revela bem o incómodo.
Para completar esta reflexão cito Ken Costa, cristão leigo, quadro da bolsa da city de Londres, do seu livro, God at work:.
“A melhor forma de nos exercitarmos na liberdade em relação ao dinheiro é a dádiva alegre e feliz.
Damos por várias razões:
Primeiro, porque o Senhor nos manda ser agradecidos pelos bens e dádivas materiais e espirituais que Ele nos dá
Segundo, damos porque dar é uma bênção. Dar regularmente de uma forma generosa é um dos modos que temos de demonstrar que confiamos em Deus. O dinheiro pode tornar-se um obstáculo ou um aceso às bênçãos de Deus (materiais e espirituais)
Jesus disse: “Há mais alegria em dar do que em receber” ( Act 20,35). Por isso dar deve ser uma das grandes alegrias do discípulo de Jesus. Ele nunca deve dar receoso ou triste porque como também diz a Bíblia, «Deus ama quem dá com alegria.» Quando somos generosos a resposta de Jesus é esta: «Ponham-me à prova e vereis se não vos abro o reservatório do céu e não espalho em vosso favor a bênção em abundância (Malaquias 3,10)
Como se deve dar?
1.Liberdade: Sempre que damos lançamos um desafio às forças do dinheiro dizendo realmente: «Não tens poder sobre mim» Dar é o antídoto do materialismo.
2.Investimento: Dar é uma parte do processo pelo qual nos tornamos mais semelhantes a Cristo. Dar é a nossa forma de semear e os frutos são a nossa justiça (2 Cor 9,10).
3.Como um hábito: Há sempre boas razões para adiar e pôr de lado por isso o importante é começar a dar. Mesmo que se comece por pouco, começa-se e o hábito crescerá porque vamos descobrindo quanto nos faz bem. Jesus disse: «Dai e dar-se- vos- á. A medida que usardes com os outros será usada convosco” (Lc 6,38).
A quem se deve dar? Há muitas pessoas não cristãs que dão para obras sociais e humanitárias e os cristãos estão também entre os primeiros a dar para tudo isto, mas só os cristãos dão para a Igreja. Investir na igreja é uma forma de investir na vida espiritual futura das nações. É importante, porém, construir uma relação com a instituição para quem se dá. Assim podemos saber como o dinheiro está a ser usado e garantir-nos que está a ser bem administrado.

Folha Paroquial nº 46 *Ano I* 07.10.2018 — DOMINGO XXVII

«O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida»

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«EVANGELHO (Mc 10, 2-16)
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus uns fariseus, que, para O porem à prova, perguntaram-Lhe: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério».

Meditação
Deus criou o ser humano à sua imagem; homem e mulher o criou.
A 1ª leitura situa-nos nos primeiros capítulos do 1º livro da Bíblia, o Génesis, um livro que faz parte daquilo que se chama «sabedoria» quer dizer não é história mas reflexão: No 2º século antes de Cristo, provavelmente na corte de Salomão, um teólogo sentia-se inundado de questões: « Porquê a morte? Porquê o sofrimento? Porquê as dificuldades no casal? E todas as dificuldades com as quais nos enfrentamos tantas vezes—Para responder, ele contou uma história como Jesus contava parábolas. O autor não é um cientista, é um crente: Ele não pretende responder-nos ao quando e ao como da criação: Ele diz o sentido, o projeto de Deus. A parábola de hoje tenta compreender e situar a relação conjugal no plano de Deus. E como todas as histórias e parábolas ele emprega imagens; o jardim, o sono, o lado : Sob estas imagens prefigura-se uma mensagem para todos os tempos e para toda a humanidade em geral. A expressão Adão quer dizer terreno, feito do pó, não é um nome pessoal.
E qual a mensagem teológica deste texto?
Resumo-a em 4 pontos mas infelizmente por falta de espaço tem de ser mesmo resumida:
1ª A mulher faz parte da criação desde a origem. ( o que na Mesopotâmia não era evidente) E que ela é um dom de Deus e que o homem não pode ser feliz sem ela nem a humanidade ser completa.
2ª O projeto de Deus é a felicidade do homem. A expressão: “não é bom que o homem esteja só” significa que Deus procura a alegria e felicidade de cada pessoa.
3ª É uma afirmação muito importante e inovadora na Bíblia : A sexualidade é boa pois faz parte do projeto de Deus; É um dado muito importante para a felicidade do homem e da mulher.
4ª O ideal proposto ao casal humano não é o domínio de um sobre o outro mas a igualdade no diálogo: e quem diz diálogo diz ao mesmo tempo distancia e intimidade.
No evangelho colocam uma pergunta a Jesus sobre o divórcio e Jesus conduzi-os ao plano original de Deus que é narrado na 1ª leitura embora não tivesse dito a frase toda pois qualquer judeu a sabia de cor e que dizia:« Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou.” A verdadeira vocação do casal é ser imagem de Deus e é porque são imagem de Deus que « o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serem um só» Se o casal humano é imagem de Deus deve ser indivisível e indissolúvel e Jesus tira a conclusão lógica: « O que Deus concebeu na unidade não o separe o homem».
O divórcio é pois contra a vontade de Deus. Mas quando se vive na realidade concreta há muitas areias nas engrenagens pois o endurecimento do nosso coração continua a estar presente por causa do pecado. Em S. Mateus os discípulos dizem a Jesus; “Se é assim tão difícil o casamento não é muito interessante”- hoje muitos jovens dizem a mesma coisa e por isso não se casam. E Jesus mais uma vez os conduziu ao nível do mistério e do projeto de Deus. Se a realidade da construção da unidade num casal fosse fácil a questão do divórcio não se colocava, não podemos fugir ás dificuldades reais, ainda por cima com uma cultura que se centrou no indivíduo, e o casal são dois. Só pela graça de Deus se pode entrar no mistério do amor e das suas exigências. Entregues às nossas forças, não conseguimos responder ao desígnio do criador. A palavra mistério (grega) diz-se em latim sacramentum. O matrimónio é o dom da graça de Deus para o casal se amar com o amor vitorioso de Deus que é maior do que a morte. O matrimónio é infinitamente mais do que um casamento civil na igreja, é um dom extraordinário da graça que os habilita a amarem-se de um amor que tudo vence em Cristo. E perdeu-se tanto na vida dos casais e das famílias!!!
Fechámos a fonte donde brotava a água que nos fazia viver. E os casais não beberam não poderão vivera no amor pleno.
Que pena o sacramento do Matrimónio estar tão desvalorizado. É como se tivéssemos encerrado uma fonte.

Folha Paroquial nº 45 *Ano I* 30.09.2018 — DOMINGO XXVI

«Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco»

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«Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».»

A crise do pastor Moisés
Situemos este texto. O povo já está farto do Maná que é uma comida monótona e sente saudades das cebolas do Egipto: É daqui que vem o desânimo de Moisés; quando viu o povo pobre e mal agradecido, com boca de fidalgo, é tentado a deixar cair tudo por terra. E desejou morrer. «Moisés ouviu o povo que chorava, agrupado por clãs, cada um à entrada da sua tenda. O Senhor inflamou-se de uma cólera ardente e Moisés desorientou-se. …Porque colocas sobre mim o fardo de todo este povo? Fui eu que concebi todo este povo? Fui eu que o trouxe ao mundo? Queres que eu leve este povo no meu coração, como uma mãe leva ao colo o seu bébé? Onde encontrarei eu carne para toda esta gente? Já não posso mais, sozinho, conduzir todo este povo, é demasiado pesado para mim….dá-me antes a morte…(Núm 11,10-15)
E a resposta de Deus a Moisés é dupla: por um lado manda-o escolher uma lista de 70 colaboradores, para ser ajudado com um senado e, por outro, promete-lhe carne para todo o povo. Depois da escolha dos 70 homens, Moisés condu-los à tenda onde estava a arca da Aliança e aí Deus transmite a estes homens o Espírito que estava n’Ele, isto é, a graça de governo, associado a Moisés. O governo pastoral não é só uma questão de competências humanas, que também são precisas, e por isso Deus dá orientações a Moisés sobre quem ele deve escolher; mas é, em primeiro lugar, um deixar-se habitar pelo Espírito de Deus, aprender a depender d’Ele e a obedecer-Lhe. Hoje há leigos na Igreja que têm competências em várias matérias muito superiores às do pastor, seja ele padre ou bispo. Por isso, estes devem pedir a sua ajuda e aprender na humildade a escutá-los e a confiar-lhes responsabilidades na Igreja, sem que isso diminua o seu papel de ministro ordenado. Dá-me grande alegria nas reuniões do Conselho Pastoral Diocesano, órgão que aconselha o bispo a nível pastoral, ver a riqueza de um laicado competente e cheio de amor à Igreja que discute serenamente os temas levados à discussão e dão ao bispo a sua opinião avalizada sobre as questões. O mesmo se passa em muitos conselhos pastorais paroquiais como é o caso do de S. José que esteve reunido todo o sábado passado a debater o plano pastoral da paróquia e o de S. João Baptista que reuniu há um mês atrás.
Cientes desta riqueza dos membros do povo de Deus e sabendo que muitos sacerdotes estão esgotados, como Moisés, é pena não serem mais aproveitados para a liderança partilhada nas paróquias. Por isso a 5 e 6 de Outubro nas Jornadas de Pastoral, foram convidados muitos leigos para aprofundarem a sua forma de exercer melhor a liderança partilhada. Não está em causa substituir o Moisés (o padre) que é o ministro ordenado, mas juntos, em comunhão, cada um segundo o seu carisma, realizarem a Missão para bem do povo de Deus. Mas há um lado humano que o líder que delega responsabilidades tem de aceitar humildemente: deixar de controlar tudo. E esse é o problema que Moisés e Jesus aceitaram com facilidade, pois não queriam controlar tudo, mas que Josué e João no evangelho quiseram bloquear. Josué diz a Moisés: «Moisés, proíbe-o.» Mas este, ao contrário, continua fiel aos 70 que escolheu. Ele sabia bem que aceitando rodear-se de 70 co-responsáveis com ele, escolhia deixar de controlar tudo e alegra-se com isso dando uma resposta admirável: estás com ciúmes por minha causa? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e todos fossem cheios do Espírito. Um desejo que fica a aguardar até ao Pentecostes. Hoje já não é só alguns que recebem o Espírito para certas missões e em ocasiões especiais. Deus deseja que todo o povo do Senhor viva sempre cheio do Espírito Santo.
Feliz a comunidade onde pastores e povo vivem habitados pelo Espírito e isso se vê pelos seus frutos: alegria, comunhão, caridade, serviço, evangelização, paz .
Peçamos a Deus para que as nossas comunidades paroquiais sejam cheias do Espírito Santo abertas aos diversos carismas que este distribui para crescimento da Igreja.