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Folha Paroquial – Domingo I Domingo da Quaresma

“Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”

A folha pode ser descarregada em: Domingo I Domingo da Quaresma

Se fizéssemos um inquérito perguntado qual seria o tempo litúrgico mais apreciado dos cristãos, poucos certamente responderiam: a Quaresma. Automaticamente, muitos optariam pelo Natal ou pela Páscoa. Apesar desta desafeição, ela não deixa de ser fundamental. Ela é uma espécie de medicamento: não gostamos dele mas tomamo-lo porque é bom para nós.
Este primeiro domingo da Quaresma começa com as primeiras palavras registadas de Jesus: “Cumpriu-se o tempo e está
próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Todos os anos esta frase ressoa nas nossas igrejas, em particular no dia da imposição das cinzas. Nesse dia, longas filas de pessoas se aproximam do sacerdote para receber as cinzas na fronte e ouvir estas primeiras palavras de Jesus. No ano seguinte, novas filas se aproximarão para executar o mesmo rito. O rito será o mesmo, as pessoas serão diferentes. Algumas já lá não estarão porque morreram ou porque, por razões de saúde, já não poderão vir mais à igreja. Para essas, o sentido da expressão: “Cumpriu-se o tempo” teve um significado novo que, se calhar, no ano anterior nem foi percebido na sua urgência. Pensamos sempre que este ano será mais um ano, mas talvez este ano seja o meu ano, o ano da urgência, o ano em que o “arrependei-vos” me é dirigido de forma radical, como uma última chamada.

Eucaristia 09.02.2018 19h00

Eucaristia 09.02.2018 19h00
Paróquia São João Baptista – Coimbra
Informamos que excepcionalmente não haverá Eucaristia dia 09.02.2018 sexta-feira às 19h00 em virtude das Conferências “Enovar 18”.

«Em seu coração
o homem planeia o seu caminho,
mas o Senhor determina
os seus passos.
Provérbios 16:9»

Bênção das Crianças – 4 Fev 2018

Tinha sido feito com alguma antecedência um trabalho de divulgação nas redes sociais, nas missas dos últimos fins-de-semana e junto dos pais da catequese e por isso já se esperava uma grande afluência de famílias neste dia, na sequência da festa litúrgica da apresentação de Jesus no templo e já tradicional bênção das crianças. No entanto, o número superou largamente as expectativas, provando mais uma vez a necessidade de quebrar rotinas e procurando ir ao encontro dos anseios das pessoas. Foi uma celebração muito bonita e sentida: depois da homilia, o Pe Filipe Diniz chamou as crianças, pronunciou uma bênção e, enquanto a assembleia cantava, abençoou as crianças todas, uma por uma.

Evangelização de Rua no Mercado Norton de Matos (3 Fev 2018)

A marcação desta ação de evangelização no mercado do Norton de Matos surgiu de um impulso na sequência das últimas Jornadas de Formação Permanente da nossa diocese: no ano passado tínhamos ido para a rua, durante as festas da Rainha Santa, e éramos para cima de 40 irmãos com o desejo de levar a boa-nova do Evangelho aos transeuntes da nossa cidade. No Natal, pedimos autorização ao Centro Comercial Alma (antigo Dolce Vita) para irmos levar um pouco da alegria de acolher Deus Menino aos milhares de pessoas que por esses dias invadiam esse local, mas a autorização necessária da administração tinha-nos sido recusada.

Já por diversas vezes tinha comentado com o Pe Jorge Santos que havíamos de tentar o Mercado Norton de Matos, aos sábados de manhã, mas a coisa ia ficando em águas de bacalhau e, durante as Jornadas, enquanto ouvia o cardeal e outros intervenientes no local ou a partir do Youtube, onde estavam a ser transmitidas em direto, lembrei-me de alinhavar uma estrutura, escrevia-a num email e uns dias depois mandei-o ao Pe Jorge a pedir autorização para mobilizar as pessoas da paróquia.

Tive algum receio que os paroquianos aderissem pouco e rezei bastante quer pedindo ao Senhor que fosse preparando o coração de quem viéssemos a encontrar durante a evangelização de rua, quer que inspirasse a audácia necessária aos irmãos da comunidade paroquial. No sábado houve quem me confessasse que tinha passado a noite quase em branco com receio do que iria acontecer; houve vários que foram primeiro às compras ao mercado e que acabaram por se juntar a nós, de coração aberto.

Éramos uns 25, havia um grupo a tocar guitarra, pandeireta e a cantar, as crianças ofereciam chá e café, e outro grupo, dois a dois, falava com quem passava: muito simplesmente dizíamos-lhes que éramos cristãos das paróquias ali à volta, que estávamos muito felizes por termos permitido que Deus se revelasse nas nossas vidas e perguntávamos se lhes podíamos falar do que a paróquia tinha para oferecer. Íamos dando o nosso testemunho, apresentámos o percurso Alpha, desafiámos a aparecer na eucaristia, convidámos para o Grupo de Oração, para a Oração de Misericórdia e para o Fórum Cristãos no Mundo, rezámos com quem permitiu ou pediu que o fizéssemos (uma Avé-Maria ou assim), e viemos de lá com uma alegria imensa, apesar do frio. No fim, foram muitos os que manifestaram o desejo de fazer isto mais vezes. Muito mais vezes. E a alegria devia ser mesmo imensa e verdadeira, de tal modo que contagiou outros que não quiseram ou não puderam ir e que entretanto já dizem que da próxima vez também querem participar. Em março, repetimos. E esperamos que seja de agora em diante uma vez por mês.

Paulo Farinha Silva

GRUPO DE ORAÇÃO, porquê? o testemunho da Carla Ribeiro

Por que vou ao grupo de oração? Questiono-me muitas vezes sobre esta minha decisão. Para ser sincera, ao analisar a minha caminhada espiritual, e depois de ter feito uma primeira experiência, senti que este novo percurso fazia todo o sentido na minha vida. Terei de ser sincera ao afirmar que esta decisão é muito pessoal porque senti um apelo interior e uma necessidade de fortalecer a minha relação com Deus.

O que me toca mais nestes encontros é a oração que fazemos uns pelos outros, as palavras de alento, edificantes, que transmitimos uns aos outros e as ações de interajuda, efetuadas de uma forma altruísta. No grupo de oração não ficamos sozinhos na dor, todos intercedem uns pelos outros. Ficamos igualmente unidos na alegria, e quando nos encontramos é sempre um momento de festa.

De uma forma resumida, faz sentido descrever o que fazemos no Grupo de Oração para que se possa perceber as razões da minha alegria em pertencer a este grupo.

Nos dias do nosso encontro, quando esperamos uns pelos outros, o ambiente alegre de acolhimento e muito fraterno faz o meu coração aquecer imediatamente. De seguida, damos inicio a estes encontros com cânticos de louvor. Louvamos muito a Deus com cânticos e ações de graças, e somos desafiados a encontrar razões na nossa vida para o fazer. Quando faço alguma partilha, sinto o meu coração aumentar, bater mais forte e isso revigora-me. Temos um momento de escuta da Palavra, meditamos e partilhamos o que nos tocou especialmente.  Em muitos momentos, senão sempre, a palavra de Deus que foi meditada vai ao encontro dos meus anseios.

Segue-se o momento de pedir, suplicar, interceder pelas intenções pessoais de cada membro. É um momento muito significativo, pois sei que a voz de um grupo clama mais forte… a força da união em Jesus. Para mim, faz toda a diferença alegrar-me com os irmãos e partilhar as tristezas com eles. Chego muitas vezes com um problema de saúde e saio regenerada. É verdade, aconteceu no último encontro. Durante os dias que se seguem continuamos em oração uns pelos outros.

Resumindo, vou ao grupo de oração porque me sinto bem! Saio dos encontros sempre fortalecida, animada, com esperança e mais energia, e isso repercute-se em todos os que me rodeiam. É por todas estas razões e muito mais que pertenço a este grupo. Faço-lhe um convite: venha ver e experimentar, gostaria muito de o(a) ver um dia destes…

Carla Ribeiro

Porquê adorar?

No dia 4 e 5 de março um missionário da Santíssima Eucaristia estará em S. José numa missão de lançamento da adoração eucarística de uma forma o mais permanente possível. Colocar a adoração eucarística como atividade central é ter como princípio pastoral o primado da graça. Quer dizer que reconhecemos que a Igreja é do Senhor e é d’Ele que esperamos a pesca abundante para não corrermos o risco de «pescar toda a noite e não apanharmos nada” segundo a expressão de S. Pedro.

O magistério da Igreja tem pedido muito esta adoração nas paróquias. Porquê adorar?

O que diz o magistério da Igreja:

  1. Um doce dever : «É para nós um doce dever honrar e adorar na hóstia sagrada, que os nossos olhos veem, o Verbo incarnado que eles não podem ver e que, sem deixar o céu, tornou-se presente diante de nós…» (Profissão de fé católica Paulo VI, 1968). Adorar, é responder ao primeiro mandamento : « Só ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto » (Mt4, 10)
  2. Fazer a experiência da ternura de Deus «É bom estar com Ele e, inclinados sobre o seu peito como o discípulo amado, ser tocados pelo amor infinito do seu coração…» (Ecclesia de Eucharistia”, João Paulo II, 2003)
  3. Tornar-se evangelizador «Para evangelizar o mundo, é preciso apóstolos “peritos em celebração, em adoração e em contemplação da Eucaristia…» (Missão e Eucaristia, João Paulo II, 2004)
  4. Um eminente serviço à humanidade «Pela adoração, o cristão contribui misteriosamente na transformação radical do mundo. Toda a pessoa que ora ao salvador eucarístico leva consigo o mundo inteiro e eleva-o a Deus. Aqueles que se põem diante do Senhor realizam pois um enorme serviço…» (João Paulo II carta a Mons.Houssiau, Junho 1969)
  5. Reparar as grandes faltas do mundo «A Igreja e o mundo têm uma grande necessidade do culto eucarístico. Jesus nos espera neste sacramento de amor. Não regateemos o nosso tempo para ir estar com Ele na adoração, na contemplação cheia de fé e decidido a reparar as grandes faltas do mundo. Que a nossa adoração não cesse nunca…» (Dominicae Cenae », João Paulo II, 1980)
  6. Prolongar a Missa : O acto de adoração fora da missa prolonga e intensifica o que foi realizado durante a própria celebração litúrgica. De facto só na adoração eucarística pode amadurecer um acolhimento profundo e verdadeiro. E é por este acto pessoal de encontro com o Senhor que amadurece em seguida a missão social que está contida na Eucaristia e que pode quebrar as barreiras não somente entre o Senhor e nós, mas também as barreiras que nos separam uns dos outros… ( Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 2007)
  7. Melhor remédio contra as idolatrias: ” Adorar o Deus de Jesus Cristo, que se fez pão partido por amor, é o remédio mais válido e radical contra as idolatrias de ontem e de hoje. Ajoelhar-se diante da Eucaristia é uma profissão de liberdade : Aquele que se inclina diante de Jesus não pode, e não deve, prostrar-se diante de nenhum poder terrestre, por mais forte que seja. Nós, cristãos, só nos ajoelhamos diante de Deus, diante do Santíssimo Sacramento, porque n’Ele nós sabemos e cremos que está presente o Deus verdadeiro, que criou o mundo e que o amou tanto ao ponto de lhe dar o seu Filho unigénito ( Cf Jo3,16)…” ( Bento XVI, homilia na Festa do Corpo de Deus, 2008).

Adoração eucarística – testemunho da Maria do Rosário

Há 5 anos que a paróquia de S. João Baptista fez o lançamento da adoração eucarística. Cerca de 100 pessoas fizeram um compromisso de amor, de dar uma hora por semana, para estar diante do Senhor, em adoração, permitindo assim que Jesus-Eucaristia esteja solenemente exposto e que muitos outros irmãos possam passar à hora que mais lhes der jeito, para estar com o Senhor. Tem sido um caudal de graça para os que adoram e para toda a paróquia, este tempo de adoração de 40 horas semanais. Gostávamos que fosse já adoração perpétua, mas a paróquia ainda não tem assim tanta gente capaz de assumir tanta hora, pois seria necessário cerca de 250 pessoas a comprometer-se uma hora por semana.

Esta semana, deixamos o testemunho da Maria do Rosário:

Aprende-se a rezar, rezando. Aprende-se a estar diante do Santíssimo Sacramento, estando.

Quando me inscrevi para semanalmente fazer uma hora de adoração, senti interiormente que Jesus me batia à porta, porque eu precisava de dar mais um passo para me conhecer e O conhecer melhor. Não foi de todo fácil passar uma hora meditando, procurando esvaziar-me de preocupações. No entanto, com o passar das semanas, meses e já anos, sinto que é uma bênção pois uma hora parece-me minutos.

Sinto no mais fundo do meu ser que Jesus tem sede do meu amor e sinto sede dessas horas.

Vou aprendendo passo a passo aquele encontro inexplicável desta sede do divino partilhada.

Maria do Rosário

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2018

«Porque se multiplicará a iniquidade,
vai resfriar o amor de muitos» (
Mt 24, 12)

 

Amados irmãos e irmãs!

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12).

Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?

Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

Um coração frio

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?

O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos. Tudo isto se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas «certezas»: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.

Que fazer?

Se porventura detetamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.

Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: «Isto é o que vos convém» (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem coletas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.

Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

O fogo da Páscoa

Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar.

Ocasião propícia será, também este ano, a iniciativa «24 horas para o Senhor», que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de março – uma sexta-feira e um sábado –, inspirando -se nestas palavras do Salmo 130: «Em Ti, encontramos o perdão» (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental.

Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do «lume novo», pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. «A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito», para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.

Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.

Vaticano, 1 de Novembro de 2017
Solenidade de Todos os Santos

Francisco

Folha Paroquial – Domingo V do Tempo Comum

Louvai o Senhor, que salva os corações atribulados.

A folha pode ser descarregada em: Domingo 5 Tempo Comum

O texto do evangelho de hoje mostra-nos um dia da atividade messiânica de Jesus. Começa, pela manhã, em casa da sogra de Pedro que está com febre e prostrada na cama. Jesus aproxima-se, – Jesus sempre se faz próximo – tomou-a pela mão, (a força do gesto) e levantou-a, como fez à menina de 12 anos que estava já morta e a quem disse: “Talitha kum, menina levanta-te.” Curada por Jesus, a sogra de Pedro pode começar a servi-los. O discípulo de Cristo serve como expressão da sua fé e do seu ser de discípulo. Quem experimentou o poder do amor de Jesus que sendo de condição divina se fez servo, obediente até à morte e morte de cruz, só pode fazer da sua vida um serviço. Jesus foi o servo da humanidade que lhe lavou os pés e que disse: “Aquele que quiser ser meu discípulo, será como o filho do Homem que não veio para ser servido mas para servir e dar a vida”. Cristão que não esteja disponível para servir com amor e humildade, pode acreditar em Jesus, mas ainda não é seu seguidor. Pelo menos falta-lhe este grande pilar do discípulo, o serviço aos outros, nomeadamente à comunidade.
“Ao cair da tarde, já depois do sol posto”- Começámos de manhã e já vamos no final do dia – trouxeram-lhe todos os doentes da cidade que ficaram reunidos junto da porta. A pobre casa de Simão nunca terá visto tanta gente, se bem que é preciso pensar que cidade era um ajuntamento relativamente pequeno, como sabemos hoje. Cafarnaum não devia ter mais de 250 pessoas.
Jesus cura os doentes que lhe trazem, ensina e expulsa os demónios. Jesus não cura só por curar, mas aproveita para ensinar, para formar, para levar à conversão. Outro pilar importante da vida do discípulo é a formação, deixar-se ensinar pela Palavra de Deus, procurar solidificar a sua fé para se enraizar em Cristo e na sua doutrina.
Entretanto vem a noite e o descanso. O texto continua: « De manhã muito cedo, levantou-se e saiu. Para onde? “ Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar”. Outro dado da atividade de Jesus. Um grande tempo do seu dia é dedicado à oração. Os evangelhos mostram-nos Jesus a rezar longamente, de manhãzinha, à tarde, ao cair do sol, pela noite dentro. Todas as horas servem para Jesus se retirar para estar a sós com o Pai. Outro pilar da vida do discípulo a dar uma importância capital é a vida de oração onde nos abrimos à graça salvadora de Deus.
Sem oração vivemos exclusivamente das nossas forças naturais e não vamos longe, mas pela oração e pela frequência dos sacramentos acolhemos em nós a vida divina, a vida do Espírito que nos fortalece, nos anima, nos cura e nos ajuda a viver as virtude teologais de fé, esperança e caridade. Mas como acontece a quem está na vida ativa, muitas vezes o orante é interrompido pelo grito dos que estão impacientes para serem ajudados. Desta vez são os discípulos que interrompem a oração de Jesus para Lhe dizerem: “Todos Te procuram.”
Como que a quererem dizer-Lhe: «Como consegues estar aqui na calma e na paz quando tanta gente clama por ti?» E a resposta de Jesus pode confundir-nos. Quando tantos O procuram, Ele diz aos discípulos: “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas afim de pregar aí também”. Jesus não se deixa levar pelo sucesso, que é uma armadilha. Isso tinha sido a tentação do demónio no deserto à qual Jesus resistiu. As pessoas curadas, falavam d’Ele e a sua fama espalhou-se à volta e agora todos queriam vê-l’O. Mas já tinham os sinais suficientes para acreditarem n’Ele e se converterem. Jesus não é um curandeiro ou um milagreiro. Ele veio chamar os homens à conversão apresentando-lhes os sinais do Reino, mas não satisfaz a curiosidade de quem procura ver o maravilhoso. «Vamos, pois para outras aldeias para aí pregar pois foi para isso que Eu vim.»
O que Jesus procura é levar os homens à conversão da vida pelo anúncio do Evangelho, para que eles se abram a Deus e sejam salvos. Este é outro pilar da vida do discípulo, a evangelização que leva à fé.
Assim, no texto de hoje vemos Jesus que evangeliza, curando e ensinando, que reza, que serve e leva outros a servir. Que tempo damos à oração na nossa vida? Encontramos alegria e disponibilidade para o serviço com humildade e amor? Que tempo dedicamos a aprofundar a nossa fé, deixando-nos ensinar pela palavra de Deus e participando em encontros de formação espiritual e doutrinal? Vivemos o zelo pela missão que Jesus nos confiou de ir e ser testemunha d’ Ele?

A beleza desarmada – Se não acha que Francisco seja a cura, não entendeu qual é a doença

O Papa e o caminho da Igreja nesta “mudança de época” que vivemos. Na sequência da publicação em Inglês de “A beleza desarmada”, publicamos a entrevista do vaticanista americano John Allen, em Crux, com o responsável de CL

Ainda que muitos católicos, especialmente os mais conservadores, achem muitas vezes o Papa Francisco um pouco provocador para o sistema, o responsável do influente movimento eclesial de Comunhão e Libertação afirma que, se você não acha que o Papa seja a cura, então você não entendeu a natureza da doença que estamos enfrentando num mundo secularizado e pós-moderno.

MILÃO – Provavelmente melhor do que muitos outros, o padre Julián Carrón, sucessor do carismático sacerdote italiano Dom Luigi Giussani na condução do influente movimento de Comunhão e Libertação, cuja base natural está entre os católicos mais conservadores, entende que o Papa Francisco pode ser um choque para o sistema.

Ainda assim é um firme defensor de Francisco, e insiste em afirmar que, se você não acha que este Papa seja a cura, então não entendeu a natureza da doença que estamos enfrentando num mundo secularizado e pós-moderno.
“Às vezes podemos não entender certos gestos do Papa, porque não entendemos totalmente as implicações do que ele define como uma ‘mudança de época’”, disse Carrón a Crux na última segunda-feira.

“É como pensar num tumor como um simples caso de gripe, e assim a ideia de tratá-lo com quimioterapia poderia parecer drástica demais” acrescentou. “Mas, uma vez que tivermos entendido a natureza da doença, percebemos que não vamos conseguir vencê-la com aspirina”.

Em sua casa em Milão, entre outros assuntos, Carrón falou com Crux da edição em língua inglesa do seu livro A beleza desarmada (Desarming beauty) sobre a natureza do “acontecimento” cristão.
“As mudanças que estamos atravessando são tão radicais, tão sem precedentes, que entendo por que tantas pessoas não compreendem ainda o que está acontecendo, ou os gestos do Papa Francisco”, afirmou. “Mas, se não compreendermos estes gestos agora, vamos compreendê-los no dia em que virmos as consequências que estão produzindo”.

Carrón defende que o que aconteceu na modernidade foi o fato de as pessoas terem perdido de vista o que significa ser homem; a crise, portanto, é muito mais profunda do que a simples recusa deste ou daquele preceito moral, e o que hoje é necessário não são apelos morais ou argumentos teológicos, mas o poder de atração que tem uma vida cristã vivida em sua plenitude. 

“Vejo que muitas pessoas estão perturbadas e embaraçadas com o Papa, assim como as pessoas estavam com Jesus na sua época – e em particular, recordemos, as pessoas mais ‘religiosas’”, declara. “Por exemplo os Fariseus, que não enxergavam todo o drama da situação dos homens que tinham à sua frente, queriam um pregador que simplesmente dissesse aos homens o que deviam fazer, impondo-lhes pesados fardos”. 

“Tudo isto não era suficiente para fazer a humanidade recomeçar, depois veio Jesus, que entrou ns casa de Zaqueu sem chamá-lo de ladrão e pecador; isso poderia ter parecido uma fraqueza. Pelo contrário, ninguém desafiou Zaqueu como Jesus”, disse Carrón. apenas entrando na casa dele. 

“Todos os que tinham condenado a sua conduta de vida não moveram um único milímetro da sua posição. Foi aquele gesto totalmente gratuito de Jesus que teve sucesso onde os outros tinham falhado”, declarou.

Fundado por Giussani em 1954, Comunhão e Libertação é um movimento eclesial laico na Igreja Católica; está particularmente difundido em Itália, mas hoje está presente em cerca de oitenta países do mundo. Teve ilustres apreciadores ao longo dos anos, entre os quais o Papa Emérito Bento XVI, que celebrou as exéquias de Giussani e tem para seus serviços domésticos algumas mulheres do grupo de CL dos Memores Domini.

Nascido na Espanha, e durante muito tempo ao lado de Giussani, Carrón assumiu a condução de Comunhão e Libertação em 2005, depois da morte do fundador.
Longe de considerar que há uma fratura entre Francisco e seus predecessores, João Paulo II e Bento XVI, Carrón insiste em afirmar que Francisco encarna hoje a “radicalização” de Bento.

“Diz as mesmas coisas, mas de uma forma que se transmite a qualquer um, simplesmente através dos gestos, sem com isso reduzir de modo algum a profundidade do que disse Bento”, afirmou.

Substancialmente, o livro de Carrón é uma síntese da visão da vida cristã proposta por Giussani, tal como foi amplificada por cada um dos três últimos Pontífices. A ideia chave é a de que o Cristianismo é uma “beleza desarmada”, ou seja, uma forma de viver que não se impõe por nenhum outro poder que não seja o da atração que ela tem em si mesma.

“Queria mostrar que o poder da fé está em sua beleza, em sua atratividade. Não precisa de nenhum outro poder, de nenhum outro instrumento, ou de circunstâncias particulares para resplandecer, assim como as montanhas não precisam de mais nada para nos cortar a respiração”.

A seguir, a primeira parte da conversa de Crux com Carrón: 

Crux: O título A beleza desarmada é uma resposta explícita ao terrorismo e à violência de matriz religiosa? 
Carrón: É uma resposta explícita a uma forma diferente de ver a fé, a partir daquilo que a torna única. São Paulo uma vez definiu o que Deus realizou ao fazer-se homem como um “despojar-se” de sua divindade, de seu poder divino. Jesus apareceu na história despojado de qualquer forma de poder, unicamente com o esplendor de sua verdade que emanava da sua pessoa, da sua forma de agir, de olhar, de entrar em relação com os outros, sua misericórdia, sua capacidade de abraçar as pessoas e compartilhar sua vida, de compartilhar as feridas dos outros. Toda a força do seu amor por nós passou pela sua “humanidade desarmada”.

Um dos ensaios do livro foi escrito logo após o ataque ao Charlie Hebdo em Paris; nele o senhor afirma que o desafio é criar um espaço para “um encontro real entre propostas de significado, ainda que diferentes e múltiplas”. Pode explicar-nos a que se refere?
Muitas pessoas estão à procura de um significado para sua vida, de uma razão para ir trabalhar, para criar uma família, para enfrentar a realidade, e muitas vezes não a encontram e tentam fugir de várias maneiras. A questão fundamental é esta: num momento em que o valor absoluto para nós, modernos, é a liberdade, a única possibilidade de não voltarmos a cair na força para limitar a liberdade dos outros é que exista um espaço onde as pessoas possam encontrar-se livremente, para compartilhar o significado da vida, daquilo que cada um acha que significa viver plenamente. Se isto não acontece, então o vazio que permanece acaba por gerar conflitos.
As pessoas não podem viver sem um significado, e se o vazio permanecer acabaremos por gerar pessoas que, mais cedo ou mais tarde, sofrerão a tentação da violência… em casa, no trabalho, e de algum modo acabarão no terrorismo. O problema é como responder à falta de significado que muitas vezes vemos na sociedade hoje. Só podemos sair disso numa sociedade livre, num espaço livre, no qual as pessoas possam encontrar-se e confrontar-se a respeito das formas com que cada um escolhe viver, e sobre como é possível fazer escolhas diferentes.

O senhor diz que estamos experimentando uma “profunda crise do humano”. Acredita que o Papa Francisco tenha também a mesma percepção, e como lhe parece que ele está tentando responder a isso?
Ele tem plena consciência de que a primeira questão diz respeito à natureza da crise, porque ela é muitas vezes reduzida simplesmente a uma crise econômica, ou a um problema de valores, enquanto é muito mais profunda. Diz respeito ao que nos torna homens, com a passividade que vemos em muitos jovens, que parecem não ter motivações nem sequer para sair de casa…

É o que Giussani chamava de “o efeito Chernobyl”, não é? É como se uma espécie de radiação tivesse esvaziado as pessoas de significado.
Exato, este esvaziamento da humanidade que deixa as pessoas incapazes de sentir um verdadeiro interesse por alguma coisa. É um problema que tem sua raiz na indiferença, na apatia. Muitas vezes, tentamos responder a isso com regras, com procedimentos, para tentar ao menos limitar a violência que muitas vezes nasce desta indiferença. Mas tudo isto responde às consequências, não vai à raiz do problema. Enquanto não respondermos às necessidades reais das pessoas, revelando a sua capacidade de encontrar um significado que torne a vida vivível, não responderemos inevitavelmente à real natureza da crise, cujas raízes estão nesta redução do que significa ser homem.
E este é o motivo por que estou otimista, porque estou convencido de que o cristianismo pode oferecer sua maior contribuição precisamente nesta situação. Cristo começou tudo encontrando pessoas que, olhando para ele, deram por si dizendo: “Nunca vimos coisa igual”, e o seguiram. Não havia alternativa à sua presença, e aquele encontro deu início à maior revolução da história. A única questão é se somos conscientes da incrível graça que recebemos como cristãos.

Como é que, na sua opinião, o Papa Francisco leva adiante esta ideia da fé como uma experiência que se enraíza num encontro?
Ele é capaz de apresentá-la da forma mais simples, através dos gestos que faz, da sua atenção às pessoas, da forma como fala com todo o mundo. Leva as pessoas a entender da maneira mais simples, com os gestos, da mesma forma com que Jesus se fazia compreensível por meio dos gestos.
É difícil ajudar as pessoas a compreender todas as dimensões de fenômenos como a imigração, por exemplo, mas quando ele foi a Lampedusa tornou tudo visível num instante, era impossível não entender o que estava dizendo. Ele nos fez sentir o desejo de entender de onde vinha tudo isto. O mesmo acontece quando se aproxima de alguém que tem problemas no trabalho, ou que precisa de perdão. É como Jesus, que deparava com todas as feridas do seu tempo e respondia a essas feridas.

E, no entanto, parece que alguns não entendem o Papa, ou talvez não concordem com ele. Citou Lampedusa… o Presidente da Câmara, que era famoso em todo o mundo por sua ação de acolhimento aos refugiados, acabou de ser derrotado nas eleições, ficando em terceiro.
As mudanças que estamos atravessando são tão radicais, tão sem precedentes, que entendo por que tantas pessoas não compreendem ainda o que está acontecendo, ou os gestos do Papa Francisco. Mas, se não compreendermos estes gestos agora, vamos compreendê-los no dia em que virmos as consequências que estão produzindo. 
Se começarmos a levar a sério o problema da imigração, o problema da pobreza, as dificuldades de tantas pessoas feridas, sozinhas, necessitadas de misericórdia, isso conduzirá a um determinado clima social e então veremos as consequências de uma forma que nem sequer imaginamos. Por exemplo, quando o Papa usa o termo “muros”, está se referindo a situações que teriam sido inimagináveis apenas dez ou quinze anos atrás. Quero dizer, um muro no coração da Europa mais de vinte anos depois da queda do muro de Berlim?
Nossa capacidade de entender [o Papa] depende da nossa capacidade de compreender a natureza do desafio que temos à frente. Às vezes não entendemos certos gestos do Papa porque não entendemos a fundo as implicações do que ele define como uma “mudança de época”. É como pensar num tumor como um simples caso de gripe, e assim a ideia de tratá-lo com quimioterapia poderia parecer drástica demais. Mas, uma vez que tivermos entendido a natureza da doença, percebemos que não vamos conseguir vencê-la com aspirina.

No livro, o senhor passa de maneira desenvolta das citações de João Paulo II a Bento XVI e a Francisco. Muitas vezes esses três papas são postos em contraposição uns com os outros, mas o senhor parece ver uma grande continuidade entre eles.
Vejo uma grande harmonia, ainda que cada um deles tenha tido de enfrentar tempos diferentes. É o que o cristianismo sempre fez. Cada um enfrentou um conjunto de condições históricas nas quais a vida cristã era chamada a desenvolver-se, e cada época reúne um conjunto de desafios diferentes aos quais o cristianismo é chamado a responder de forma concreta. João Paulo II surpreendeu toda o mundo com sua capacidade de comunicação. Parecia difícil encontrar outro como ele, e depois chegou Bento, que impressionou todo o mundo com sua inteligência, sua capacidade de discernimento e de esclarecer certos temas de um modo que mais ninguém teria conseguido fazer.
Depois de Bento, mais uma vez parecia que não poderia haver mais ninguém como ele. Porém chegou um papa que, a meu ver, é a radicalização de Bento. Diz as mesmas coisas, mas de uma forma que se transmite a qualquer um, simplesmente através dos gestos, sem com isso reduzir de modo algum a profundidade do que disse Bento. Parece-me que os três foram à raiz das coisas, não ficaram na superfície, mas foram ao coração do que estava acontecendo concretamente em sua época.
Neste sentido, há uma harmonia que impressiona também a muitos leigos, e é a capacidade que a Igreja parece ter de dar uma contribuição nova e original para enfrentar os novos desafios que tem pela frente. Temos nestes três papas um exemplo claríssimo: cada um deles, no seu momento histórico, soube responder aos desafios desse momento.

O senhor não gosta dos rótulos políticos, mas sabe bem que Comunhão e Libertação goza de uma grande reputação na Igreja, especialmente entre os católicos mais “conservadores”. Alguns destes estão hoje preocupados em relação ao Papa Francisco, acham que ele está, de alguma maneira, “reduzindo” as coisas, deixando de lado ou minimizando a doutrina tradicional. O que diria a eles para tranquilizá-los?
A primeira coisa que eu diria é que devemos começar pelo reconhecimento da natureza real do desafio que temos pela frente. Não podemos compreender plenamente a ação do Papa Francisco se não compreendermos a natureza do que está acontecendo, desta “mudança de época”. Se o nosso diagnóstico não levar isto em conta, não poderemos entender a importância de certos gestos deste Papa. Se, pelo contrário, começarmos a entender a profundidade da crise, alargaremos os nossos horizontes e começaremos a ver certos gestos como uma resposta profética a esta nova situação.
Vejo que muitas pessoas estão perturbadas e embaraçadas com o Papa, assim como as pessoas estavam com Jesus na sua época – e em particular, recordemos, as pessoas mais “religiosas”. Por exemplo os Fariseus, que não viam todo o drama da situação dos homens que tinham à sua frente, queriam um pregador que simplesmente dissesse aos homens o que deviam fazer, impondo-lhes pesados fardos. Tudo isto não era suficiente para fazer a humanidade recomeçar, depois vem Jesus, que entrou ns casa de Zaqueu sem chamá-lo de ladrão e pecador; isso poderia ter parecido uma fraqueza. Pelo contrário, ninguém desafiou Zaqueu como Jesus fez, apenas entrando na casa dele. Todos os que tinham condenado a sua conduta de vida não moveram um único milímetro da sua posição. Foi aquele gesto totalmente gratuito de Jesus que teve sucesso onde os outros tinham falhado.
O que é necessário para mudar uma sociedade como aquela em que vivemos? O método usado por Jesus com Zaqueu. [Com o Papa Francisco] temos de nos lembrar do modo com que muitas pessoas de bem, sinceramente religiosas, reagiram a Jesus. Para elas, a forma como Jesus agia era uma espécie de escândalo, no sentido mais forte do termo, um obstáculo para crer.

Está dizendo que os fiéis católicos que criticam o Papa Francisco, por exemplo em relação à Amoris Laetitia, não entenderam o que está em jogo na cultura de hoje?
Acho que sim. Acredito que o que falta hoje é uma compreensão profunda do desafio que temos de enfrentar no plano humano. Às vezes os críticos queriam que o Papa repetisse certas frases, certos conceitos, mas eles são vazios para muitas pessoas, e o são há muito tempo. Ou querem ter regras para seguir, como se isso pudesse curar as pessoas, ou pudesse levar alguém a “verificar” a fé na própria experiência. O mesmo problema que temos todos, inclusive nós, que muitas vezes não somos capazes de transmitir a confiança no futuro aos nossos colegas de trabalho, aos nossos amigos. Só se formos corajosos para reconhecer a situação, sem sentirmos sempre a necessidade de nos defender, é que talvez aprendamos alguma coisa.

É óbvio que o que preocupa algumas pessoas é o fato de que Jesus, quando foi ao encontro de Zaqueu, tinha o objetivo de fazer com que ele mudasse o seu coração. Hoje, para alguns, parece que o Papa, e com ele certos padres e bispos, se empenham num “encontro” sem a mesma expectativa de que seja para uma conversão dos erros.
A conversão não depende do gesto, depende de nós. Quando vamos ao encontro de um ladrão, levamos a nós mesmos a esse encontro. Jesus não teve problemas em ir à casa de Zaqueu, sem precisar explicar-lhe toda a sua teologia ou as regras morais. Foi porque a verdade se encarnava na sua pessoa. O problema que se põe é: que pessoa encontra quem nos encontra? Se o que encontram em nós é simplesmente um manual de coisas para fazer, já as conhecem e não são capazes de pô-las em prática. Mas, se se encontrarem diante de uma pessoa que lhes oferece amor, começarão a desejar ir atrás daquela pessoa e ser como ela, que foi o que aconteceu com Jesus.

Creio que muitos estariam de acordo sobre o fato de não ser preciso partir das regras, mas o que preocupa as pessoas é se chegaremos alguma vez a ter regras.
Se uma pessoa se apaixona, a um certo ponto isto acontece naturalmente. Quando uma pessoa se casa, e está realmente apaixonada, é natural que deseje limpar a casa, cozinhar um bom almoço, e por aí afora. O problema hoje é que as pessoas não estão encontrando ninguém por quem faça sentido empenhar-se a este ponto. Este gênero de encontro não é um código ético.

Concretamente, muitíssimas pessoas, inspirando-se no Papa Francisco, afirmam hoje que a Igreja deve acompanhar o mundo LGBT, por exemplo, ou os fiéis divorciados recasados civilmente, e nós o fazemos regularmente. Mas o que os críticos dizem é: tudo isto não deveria evoluir até o ponto de dizer que a conduta deles deve mudar?
Vou responder com um exemplo. Achamos muitas vezes que a alternativa é não dizer nada ou ser ambíguo. Eu conheci um grupo de casais, famílias, que reunia entre 18 e 20 famílias; nenhum desses casais era casado, por diversas razões, às vezes até compreensíveis. Algumas famílias pertencentes a Comunhão e Libertação começaram a passar um tempo com eles, sem lhes dizer nada a respeito da sua situação “irregular”. Com o passar do tempo, todos se casaram! Encontraram-se na frente de pessoas que viviam a vida de família de uma forma que não podia deixá-los indiferentes. No fim, casaram-se todos, não porque alguém lhes explicou as regras ou a doutrina cristã sobre o casamento, mas porque não queriam perder aquilo que viam na casa daquelas outras famílias.
No cristianismo, a verdade se fez carne. A única maneira que temos para compreender a fundo esta verdade feita carne é encontrando e olhando para uma testemunha. Toda a liturgia do Natal diz respeito à plenitude de Deus que se torna visível. Se não se tivesse tornado visível, nunca o teríamos compreendido… este é o grande desafio.
É inútil perguntar aos outros se eles são tudo o que deveriam ser. A verdadeira questão é: nós somos testemunhas convictas da fé? Ainda acreditamos na beleza desarmada da fé? Uma pessoa apaixonada sabe o que fazer, e uma pessoa apaixona-se encontrando alguém. Isto é o que faz da experiência de Jesus uma “revolução copernicana” para a humanidade.

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Recentemente, Rod Dreher defendeu que nós, cristãos, deveríamos abandonar as guerras culturais no Ocidente porque já as perdemos, e o máximo que podemos esperar é a “opção beneditina”, ou seja, a conservação de pequenas ilhas de fé num contexto de uma cultura hostil e decadente. O senhor parece defender que deveríamos deixar para trás as guerras culturais, sem renunciar àquelas posições, mas por um motivo diferente. 
Sim, com certeza. Sempre me impressionou a contraposição entre tentar transformar o cristianismo numa religião civil e tentar transformá-lo em algo exclusivo do foro privado. Para mim, é como tentar corrigir o desígnio de Deus. Pergunto-me, quem jamais apostaria que Deus começaria a comunicar-Se ao mundo com o apelo de Abraão? Era a forma de proceder mais inverosímil e desconcertante que se poderia imaginar. 
A escolha não pode reduzir-se a uma opção entre as guerras entre culturas e um cristianismo esvaziado de conteúdo, porque nenhuma destas duas hipóteses tem a ver com Abraão e a história da salvação. Abraão foi escolhido por Deus para começar a introduzir na história uma nova forma de viver, que com o tempo pudesse gerar uma realidade visível em condições de tornar a vida digna, plena. 
Se Abraão estivesse aqui hoje, na nossa situação de minoria, e fosse falar com Deus para dizer: “Ninguém me deu ouvidos”, o que Deus lhe diria? Sabemos muito bem o que lhe diria: “Foi por isso que o escolhi, para começar a pôr na realidade uma presença capaz de mostrar – ainda que ninguém acredite em vocês – que eu farei de você um povo tão numeroso que a sua descendência será numerosa como as estrelas do céu”. 
Quando Ele enviou seu filho ao mundo, despojado de seu poder divino para se fazer homem, fez a mesma coisa. Como disse São Paulo, ele veio para nos dar a capacidade de viver a vida de um modo novo. É isto o que gera uma cultura. A pergunta para nós é se a situação em que estamos hoje nos oferece a oportunidade de reencontrar a origem do desígnio de Deus. 

O senhor parece bastante otimista sobre o fato de isso ser possível. 
Com certeza. Sou totalmente otimista, por causa da própria natureza da fé. Meu otimismo se baseia na natureza da experiência cristã. Não depende da minha capacidade de leitura da realidade, do meu diagnóstico da situação sociológica. O problema é que, para sermos capazes de recomeçar deste ponto de partida absolutamente original, temos de voltar às origens da fé em si, ao que Jesus disse e fez. 
Se há um motivo de pessimismo, está no fato de que muitas vezes reduzimos o cristianismo ou a uma série de valores, a uma ética, ou simplesmente a um discurso filosófico. Isto não é atraente, não tem o poder de fascinar ninguém. As pessoas não sentem a força de atração do cristianismo. Mas, justamente porque a situação que estamos vivendo hoje é tão dramática, de qualquer ponto de vista, paradoxalmente é mais fácil propor a novidade do cristianismo. 

Se olharmos para a Europa hoje, está crescendo uma nova geração que de fato não esteve envolvida nas velhas batalhas que assistiram à contraposição entre religião e secularismo; são pessoas que cresceram numa cultura abundantemente pós-religiosa e, consequentemente, muitas vezes olham para este fenômeno não com animosidade, mas antes com curiosidade. Tudo isto configura uma nova fase para a evangelização? 
Sim, há uma nova fase. A pergunta é se nós, cristãos, vamos saber tirar proveito desta oportunidade para entender, nós em primeiro lugar, o que é de verdade a fé, o que significa ser cristão, por que ser cristão deve ser interessante para nós e para os outros. Temos de aprofundar este ponto, independentemente da preocupação com os números, e projetar-nos unicamente na plenitude da experiência que Cristo põe na nossa vida. 
Estou pensando numa expressão que Giussani usava muitas vezes, falando da fé; dizia: “A fé é uma experiência presente, onde encontro na minha experiência pessoal a confirmação de sua conveniência humana”. Sem isso, a fé não será capaz de resistir num mundo em que tudo diz o contrário de nós. 

Portanto a sua estratégia para a evangelização no início do século XXI é viver a fé de uma maneira em que essa “experiência de confirmação” possa verificar-se, e depois, gradualmente, introduzir os outros a esta forma de vida? 
Quando um cristão vive a fé com este tipo de alegria, com esta plenitude, é evidente que quando vai para o trabalho, ou quando está com os amigos, ou quando está no aeroporto, os outros vão ver essa novidade nele. Se você chega ao trabalho às 8 da manhã, e no seu local de trabalho encontra um colega que está cantando, que o abraça e divide com você suas fraquezas e dificuldades, você acaba por perguntar: “O que é que faz você chegar ao trabalho cantando às 8 da manhã?”. 
Isto comunica o cristianismo muito mais do que muitas outras coisas, mais do que todas as motivações éticas, porque, quando uma pessoa vê uma coisa deste gênero, acaba naturalmente por perguntar: “De onde vem essa alegria? De onde vem essa plenitude de vida?”. Pode não pensar imediatamente que a origem dessa felicidade se chama Jesus Cristo, que se chama fé. Mas, quando começa a perceber que essa maneira surpreendente de viver no mundo real, tão feliz, tão alegre, tem sua raiz na fé, então se torna interessante. 
O cristianismo, em resumo, se comunica vivendo-o. T. S. Eliot uma vez perguntou: “Onde está a vida que perdemos vivendo?”. Para nós é o contrário; nós ganhamos a vida vivendo na fé. Se não for assim, não seremos interessantes para ninguém, nem mesmo para nós. Em outras palavras, foi a Igreja que abandonou a humanidade, ou foi a humanidade que abandonou a Igreja? 

Propor não uma série de teorias, mas uma forma de vida? 
É uma experiência de vida. 

O Papa Francisco fala muito de criar uma “cultura do encontro”, e o conceito de encontro também era fundamental para Giussani. Olhando para a Igreja hoje, quais são os exemplos de uma “cultura do encontro” que mais o impressionam? 
Sempre fico impressionado com exemplos de criação de espaços para o encontro entre pessoas totalmente diferentes entre si. Por exemplo, aqui em Milão nós [Comunhão e Libertação] mantemos um reforço escolar, um centro, no qual grupos de professores – alguns membros do Movimento, outros não – oferecem seu tempo livre para ajudar jovens que têm problemas na escola. Entre os jovens há italianos, imigrantes, fiéis de várias religiões, na maioria católicos ou muçulmanos e lá se assiste um espaço de encontro. Provêm de situações muito diferentes, e encontram ali um lugar onde a sua humanidade renasce. Uma vez, um rapaz veio com uma barra de ferro na mochila; em circunstâncias diferentes teria sido tratado como um terrorista. Mas estando com aquelas pessoas, libertou-se de toda a sua agressividade, e acabou por se tornar um dos responsáveis daquela iniciativa. Este é o poder do encontro. 

Conhece também exemplos fora do Movimento? 
Bem, obviamente não conheço o mundo todo, mas posso dar alguns exemplos. Às vezes frequento paróquias de Roma e Milão, e é possível ver como esse espírito de encontro está vivo nelas. Conheço um sacerdote aqui em Milão que tem uma relação com alguns reclusos. Tem uma capacidade impressionante de se envolver com eles, de uma forma que os ajuda a reconstruir suas vidas. 
Depois há a experiência da APAC no Brasil, aquela rede de prisões sem guardas e sem armas, cuja taxa de reincidência, que nas prisões normais gira em torno dos 80%, cai para 15%. Pode-se achar que é uma ilusão, que na verdade só estão encorajando a criminalidade. Muito pelo contrário, é um exemplo do que acontece quando há um encontro real. Tudo o que vai contra a verdadeira humanidade, cedo ou tarde desaparece. 
Por exemplo, havia um recluso que tinha fugido de um determinado número de prisões, e que por acaso foi parar numa dessas APACs, e nunca mais tentou fugir. Um juiz ficou tão impressionado com esta história que quis ir à prisão para lhe perguntar: “Por que você não tentou fugir?”. E o recluso respondeu: “Porque do amor ninguém foge”. 
Às vezes o nosso problema é que já não acreditamos em certas coisas. De fato, pensamos que qualquer outra solução, ainda que violenta, é mais eficaz do que o poder do amor. 

Está dizendo que no fim o nosso “realismo” não é assim tão realista. 
Isso é certo. Demos por óbvio que certas coisas são uma ilusão, e perdemos a única oportunidade de ir realmente ao fundo do coração de cada um. Uma vez mais, isto é o que me torna otimista – a fé é eficaz!
Como disse o Papa Bento XVI há alguns anos, ainda existe uma oportunidade para o cristianismo hoje, neste mundo? Respondeu que sim, porque o coração do homem precisa de algo que só Cristo pode dar. A capacidade de corresponder ao verdadeiro desejo último do homem é o que tornará o cristianismo atraente. 

O senhor parece dizer que devemos ter coragem também neste sentido, não ter medo de desafiar a opinião comum desta maneira. 
Aquilo com que não podemos nos contentar é um cristianismo reduzido, um tanto ambíguo, achando que esse seja o caminho para encontrar a todos. Não, temos de vivê-lo de forma corajosa, plenamente, devemos estar convencidos, com a mesma audácia com que Jesus entrou na casa de Zaqueu, sem de modo algum censurar as coisas que ele tinha feito, mas desarmado, respondendo ao que ele tinha no coração. Historicamente, este é um método absolutamente novo. Jesus impressiona São Paulo da mesma forma com que impressiona a nós. Não há nada que desafie mais o coração de um homem do que um gesto como este, um gesto absolutamente surpreendente. 

Um conceito chave de Giussani, que o senhor repete em todo o livro, é que a fé é um “acontecimento”. Pode explicar o que significa isso, e por que é tão importante? 
A fé ser um acontecimento significa que a vida de uma pessoa muda quando ela encontra um fato, como aconteceu a João e André quando encontraram Jesus. Não se pode evitar a realidade de um fato que ocorreu, não se pode eliminá-lo. Pensemos em São Paulo, que era um perseguidor dos cristãos, tentava eliminá-los; o encontro com Cristo vivo revolucionou seu modo de pensar. 
É como a cena descrita por Manzoni em Os noivos… a experiência do encontro com alguém tão capaz de perdão foi tão surpreendente, que era impossível não se abandonar à sua força fascinante. Quando o cardeal cumprimenta o Inominado e este lhe diz: “Se vou voltar? Quando o senhor me recusar, vou ficar obstinado à sua porta, como o pobre. Preciso falar-lhe! preciso ouvi-lo, vê-lo! preciso do senhor!”.
Este é o tipo de experiência arrebatadora que muda a vida, isto é a fé. [A personagem do cardeal em Os noivos é inspirada na figura do cardeal Frederico Borromeo, de Milão, 1564-1631]. 
O Papa Bento sempre disse que na origem do cristianismo não está uma doutrina, um ensinamento, mas o encontro com Cristo. A forma do “acontecimento” cristão é esse encontro, não de forma virtual ou apenas como uma proposta que qualquer um faz. Não, é um encontro tão forte, que você não quer perdê-lo pelo resto da vida. 

O objetivo de seu livro é despertar a consciência deste acontecimento? 
Exatamente. O problema é como comunicar este acontecimento às pessoas. É como a experiência do amor, de se apaixonar… não acontece porque se fala disso, acontece porque uma pessoa se apaixona. 

Num dado momento, o senhor escreve que o objetivo da comunidade – referindo-se talvez a Comunhão e Libertação, mas também de forma mais geral à Igreja – é o de gerar “adultos na fé”. O que quer dizer? 
Quero dizer pessoas que fiquem regeneradas pela participação na comunidade cristã, no sentido de que adquiram uma nova capacidade de enfrentar o real, uma nova capacidade de ser livres de uma maneira diferente de antes. E uma nova capacidade de transmitir um sentimento de maravilhamento ao outros. Se o cristianismo não for capaz de gerar um novo tipo de pessoas, então ficará separado das suas vidas. 
Não há nada de mais decisivo, no momento presente, do que a capacidade de gerar adultos na fé, adultos que vivam com liberdade entre os outros e possam testemunhar a fé, não só quando vão à igreja ou participam de qualquer “outra” atividade diferente da vida quotidiana, mas no concreto do seu trabalho e da sua vida. 
São necessárias pessoas que possam levar a novidade da fé ao coração do mundo, que suscitem a pergunta: “Onde será que foram buscar essa novidade, esse frescor? O que está por trás?”. A capacidade de responder a esta pergunta vai conduzir naturalmente as pessoas a algo maior e melhor. 
Este é um testemunho real da fé… ainda que os outros não cheguem a identificar o nome de Cristo, só o olhar por aquela pessoa já torna impossível não querer perceber o que a faz ser assim. Vão querer saber quem é o “terceiro”, e este é um testemunho. 
Só um verdadeiro testemunho pode tornar visível e tangível o acontecimento da fé… a capacidade de tornar a fé algo razoável para os homens só pode vir de uma experiência concreta dela, de um “acontecimento”. É isto o que permite que uma pessoa não tenha medo de não ser entendida, e que possa resistir à tentação de reduzir o cristianismo a algo diferente. 
Pergunto-lhe uma coisa: por que às vezes nós achamos que, para tornar compreensível um gesto gratuito, ele tenha de ser reduzido a outra coisa, tenha de ser menos gratuito? Quanto mais gratuito é, tanto mais deveria ser surpreendente e atraente, não? Não devemos reduzir as coisas para que elas sejam entendidas.
Às vezes achamos que, se uma pessoa não tem fé, devemos reduzir as coisas para que as entenda. Mas o contrário é que é verdade – quanto mais um gesto é gratuito, como perdoar alguém por uma ofensa em vez de lhe responder do mesmo modo, tanto mais surpreenderá radicalmente aquela pessoa. Não é que tenhamos de reduzir, para evitar o escândalo… ninguém nunca se escandalizou por ser perdoado. 

Na última página do livro, o senhor escreve que a letícia é como a flor do cacto. O que quer dizer? 
A fé introduz na vida uma atração que, ao mesmo tempo em que nos atrai para si, não nos deixa sozinhos. Nada desafia mais uma pessoa do que algo que responde em total plenitude a todas as suas expectativas. Nada transforma radicalmente a vida como a realização de todas as suas promessas! Eis por que a fé é como o cacto… é lindíssimo e nos atrai, mas ao mesmo tempo espeta. Podemos aceitá-la ou recusá-la, mas nada transforma e perturba a vida com a mesma força. 

Poderíamos dizer que este livro é uma tentativa de expressar a visão da evangelização que nasce de Giussani e que foi amplificada pelos três últimos pontífices? 
Para mim, a resposta é sim.

Texto original em inglês: cruxnow.com