Arquivo da categoria Visita Pastoral

Folha Paroquial nº 76 *Ano II* 05.05.2019 — DOMINGO III DE PÁSCOA

«Eu vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Jo 21, 1-14)
Naquele tempo, Jesus manifestou-Se outra vez aos seus discípulos, junto ao mar de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar». Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo». Saíram de casa e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Disse-lhes Jesus: «Rapazes, tendes alguma coisa de comer?». Eles responderam: «Não». Disse-lhes Jesus: «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Eles lançaram a rede e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes. O discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro: «É o Senhor». Simão Pedro, quando ouviu dizer que era o Senhor, vestiu a túnica que tinha tirado e lançou-se ao mar. Os outros discípulos, que estavam apenas a uns duzentos côvados da margem, vieram no barco, puxando a rede com os peixes. Quando saltaram em terra, viram brasas acesas com peixe em cima, e pão. Disse-lhes Jesus: «Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora». Simão Pedro subiu ao barco e puxou a rede para terra cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede. Disse-lhes Jesus: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com os peixes. Esta foi a terceira vez que Jesus Se manifestou aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.»

MEDITAÇÃO
A ressurreição de Jesus inaugurou um tempo novo e um mundo novo. Os textos da vigília pascal começam pela criação para depois, na oração que se segue, o presidente dizer que «O sacrifício de Cristo, nosso cordeiro pascal, é obra ainda mais excelente que o ato da criação no princípio do mundo.» E no canto do precónio diz-se: «De nada valeria termos nascido se não tivéssemos sido resgatados». Pela ressurreição de Jesus, Deus entrou na história e agiu, conduzindo a criação para um tempo novo que será consumado no fim dos tempos. A morte foi vencida, O Espírito Santo foi derramado sobre cada homem e agora habita o mundo para o levar à sua plenitude. Diz o Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes: «Deus ensina-nos que se prepara uma nova habitação e uma nova terra na qual reina a justiça e cuja felicidade satisfará e superará todos os desejos de paz que se levantam no coração dos homens. Então, vencida a morte, os filhos de Deus ressuscitarão em Cristo e aquilo que foi semeado na fraqueza e na corrupção, revestir-se-á de incorruptibilidade, permanecendo a caridade e as suas obras, todas as criaturas que Deus criou para o homem serão libertadas da escravidão da vaidade» (GS, 39). E, no número anterior, lembra-nos que este mundo novo é fruto da ressurreição e do envio do Espírito aos corações dos homens e que, este Espírito não só suscita o desejo da vida futura, mas anima, purifica e fortalece também os homens a trabalhar para tornar a vida mais humana, mais segundo o desígnio divino. No entanto, nesta construção do reino de Deus, já a acontecer, temos de contar com um duro combate que se trava na história e nos nossos corações. Na primeira leitura de hoje, vemos esse combate. O Sumo Sacerdote diz aos apóstolos: «Já vos proibimos formalmente de ensinar em nome de Jesus; e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem». Hoje, também, em muitos lugares do mundo, existe a mesma interdição de falar do nome de Jesus, e onde ela não existe, formalmente, como é o caso da Europa ocidental, existe sub-repticiamente, tentando que a comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, não tenha espaço de cidadania. A muitos não lhe importa que a Igreja exista desde que o seu trabalho seja feito dentro das quatro paredes do templo, sem tentar influenciar a sociedade. Ora Jesus convida-nos e envia-nos para o mundo a anunciar a sua palavra para o mundo ser transformado. Jesus disse: «Vós sois o sal da terra , vós sois a luz do mundo”. Não se trata de impor nada a ninguém pois a fé não pode ser imposta, já que tem a ver com uma decisão pessoal da consciência. Mas pode e deve ser proposta a todos os que a quiserem ouvir. Se vejo alguém a morrer de sede não o posso obrigar a beber a água que o salvaria, mas posso e devo dizer-lhe onde está a água que lhe mataria a sede e o restabeleceria. O maligno, que se apresenta de diversas formas, tenta calar a palavra de Deus para que ela não transforme o mundo, e ele age fora da igreja mas também dentro da igreja, o que é ainda pior, pois a desacredita. Mas os discípulos de Jesus não devem deixar-se vencer pois Jesus disse: «No mundo tereis muitas tribulações mas não tenhais medo: Eu venci o mundo.» E aqui mundo quer dizer tudo aquilo que se opõe a Deus e ao seu projeto de salvação. Os discípulos de Jesus, de ontem e de hoje, receberam a missão de, iluminados e fortificados pelo Espírito, colaborarem com Deus para que o mundo novo que já começou, pela sua encarnação, morte, ressurreição e Pentecostes seja levado à plenitude. Mas para isto temos de estar preparados para sofrer pelo nome de Jesus. Encanta-me a forma como os apóstolos encararam os sofrimentos que lhes foram infligidos por causa de pregarem a Palavra: «Os Apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria, por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus.» Para seguir Jesus e ser testemunha dele é preciso estar disposto a sofrer por ele, até ao martírio, se necessário for. Onde a Igreja é mais forte é onde sofre por causa de Jesus. Onde ela vive em liberdade corre sempre o risco de entrar numa frouxidão, numa mornice e tibieza de que nos fala o Apocalipse: «Tenho contra ti que não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente mas és morno e aos mornos vomito-os da minha boca.» É por causa de uma vivência cristã frouxa, débil, que recusa a cruz, que hoje a Igreja sofre humilhações em toda a terra, pois deixámos o mundanismo entrar nela como se vê com os escândalos que vão aparecendo também dentro da igreja e nos clérigos: é a corrupção, a vergonha, o pecado. E aqueles que eram destinados a serem “sal da terra” para preservar o mundo da corrupção tornam-se, eles mesmos, os corruptores. «Mas Deus não desiste da sua Igreja e sobretudo do seu projeto de salvação. Ele procura almas que desejem servi-Lo e amá-Lo para que o mundo seja salvo. Ele está vivo e a força da sua ressurreição é imparável. Felizes os que acreditam e que aceitam colaborar com Ele na construção de uma nova civilização de amor e justiça.

«Mãe de Deus, Nossa Senhora, intercede
por todas as mães nas suas mais diversas necessidades.
Que o amor e a generosidade de todas elas sejam exemplo sempre presente no coração de todos os filhos.
Mãe querida, ajuda todas as mães que geraram os seus filhos para a vida, a gerarem-nos também para a graça.
Virgem Maria, faz com que todas as mulheres saibam ser no mundo um sinal da presença materna de Deus.
Ámen.»

Folha Paroquial nº 75 *Ano II* 28.04.2019 — DOMINGO II DE PÁSCOA

«Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Jo 20, 19-31 )
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.»

MEDITAÇÃO
Para os apóstolos e a comunidade cristã primitiva, a Ressurreição de Cristo é «o Acontecimento» que mudou tudo. Cristo ressuscitou e o seu Espírito, o seu poder de amar, habita-os doravante. O poder da graça estava sobre eles: a graça é a presença de Deus em nós, é o amor de Deus em nós. Apóstolos e todos os batizados são habitados pelo amor, um amor de tal forma poderoso que os transforma completamente, a ponto de os fazer ver de um modo totalmente novo as realidades materiais. Há acontecimentos na nossa vida, felizes ou infelizes, que mudam completamente as nossas prioridades. Coisas que nos apareciam até aí insignificantes tomam, de repente, um grande valor; outras às quais dávamos muita importância, aparecem de repente secundárias. Um filho que nasce a um jovem casal muda-lhe as prioridades… de bom grado, eles agora sacrificam a sua liberdade por causa daquele filho que lhes trouxe tanto deslumbramento. E ouvimos muitas vezes os que foram salvos num grande acidente, ou de uma grande doença, dizer que nada mais será como dantes. Para os primeiros cristãos, diz-nos Lucas, a posse dos bens materiais deixou de ser uma prioridade. «A multidão dos que tinham abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma, ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum.» A primeira insistência neste sumário de Lucas é a unidade e depois vem então a partilha. Esta é consequência daquela. A frase central é: «Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia.» No fundo, a unidade e a partilha era uma das formas de dar testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Uma igreja que quer dar testemunho não pode ser desunida e desinteressada da sorte uns dos outros.
A Igreja é a comunidade daqueles que experimentaram a graça da presença do ressuscitado nas suas vidas e isso foi um acontecimento tão maravilhoso que mudou as prioridades da vida. Agora somos chamados a dar testemunho de que Ele está vivo através da unidade que vivemos, da alegria da união fraterna, na alegria da partilha, na alegria de celebrarmos juntos a Eucaristia e de trabalharmos juntos pela missão.
É esta missão que Jesus nos confiou quando aparecendo aos discípulos no primeiro dia da semana lhes diz: “«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»”. Somos enviados em missão para o mundo onde vivemos, mas não sozinhos: «Recebei o Espírito Santo». No princípio dos Atos dos Apóstolos, Ele tinha dito: «Ireis receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas.»
Mas só pode ser testemunha quem viveu a alegria dos Apóstolos por terem encontrado ou reencontrado o senhor. «Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor». Depois dizem a Tomé quando ele chega: «Vimos o senhor». Mas… isso a nós não nos aconteceu. «Não vimos o Senhor». É verdade que não tivemos as aparições como os apóstolos, mas recebemos as bem-aventuranças que Jesus anuncia: «Felizes aqueles que acreditam sem terem visto». Sem terem visto, sim, mas não acreditamos sem nada a ajudar-nos a acreditar. Não acreditamos no vazio, sem nada. O que pode substituir em nós aquilo que os apóstolos viveram? É a própria Palavra viva de Deus que é anunciada pela Igreja. Logo no dia da ressurreição, os apóstolos vêm para a rua, em Jerusalém, e Pedro faz a sua primeira pregação da Palavra. Os ouvintes ficam «de coração trespassado pela emoção» e perguntam: «Que havemos de fazer, irmãos?» Nesse dia, converteram-se ao Senhor mais de 5000 pessoas que pediram o batismo em nome de Jesus. Eles já não tiveram as aparições, mas isso não os impediu de fazer uma experiência semelhante à dos apóstolos, de se sentirem renascer pela fé no Filho de Deus, como se tivessem «visto» o ressuscitado. Por isso, S. João termina o Evangelho de hoje dizendo: «Estas coisas foram escritas para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.» A palavra de Deus acolhida desperta em nós a fé e a presença do ressuscitado. Tem sido assim ao longo de mais de 2000 anos, homens e mulheres têm mudado as suas vidas e prioridades porque, através do anúncio da palavra que chegou até Eles, descobriram Cristo vivo e ressuscitado, e entregaram-se a Ele e assim a Igreja foi crescendo e irradiando. Também nós o acolhemos assim e somos chamados a anunciá-lo para que outros creiam.

irs 2019
CONSIGNAÇÃO IRS A FAVOR DO CENTRO SOCIAL S. JOSÉ — lembramos que, à semelhança de anos anteriores, sugerimos que assinale o Centro Social de S. José como beneficiário de 0,5% do seu IRS. Basta para isso assinalar no quadro 11 da sua declaração o NIF 501 427 848 e isso não afetará em nada aquilo que irá pagar ou receber: a lei fiscal portuguesa permite que o contribuinte destine meio por cento dos seus impostos a favor de uma obra de cariz social à sua escolha.

Folha Paroquial nº 74 *Ano II* 21.04.2019 — DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

«Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Jo 20, 1-9)
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.»

MEDITAÇÃO
Em Cristo a história humana chega à plenitude. Cria um antes e um depois. Já o facto de Jesus ter incarnado no seio da Virgem Maria, pela ação do Espírito Santo, cria um ponto de mudança na história. Deus interveio no seu curso, fazendo-se homem. Agora, a sua ressurreição, é um outro dado do mistério do desígnio divino da nossa salvação. Ninguém podia imaginar isto senão Deus! Para os discípulos de Jesus a ressurreição foi tão inesperada que levaram tempo a digerir os acontecimentos de que são testemunhas. Este mistério da ressurreição não se capta de repente. É um processo. E este processo passa-se com todos nós até chegarmos à fé.
As leituras de hoje apresentam-nos o acontecimento inaudito da ressurreição do Senhor tal como os primeiros discípulos o viveram (evangelho), apresenta-nos esse anúncio feito aos pagãos, neste caso, Cornélio, o centurião romano, e o fruto do acolhimento da fé em Jesus: ( 1ª leitura) «quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados e uma vida nova.» Na segunda leitura, Paulo explica as implicações que tem para os que aceitaram, pela fé, o Senhor ressuscitado e foram batizados n’Ele. Hoje quero deter-me mais neste ponto.
Se não estivermos familiarizados com o vocabulário Paulino, encontramos expressões estranhas. Exemplos: «Irmãos vós ressuscitastes com Cristo…morrestes com Cristo.» O que quer isto dizer? Nós não morremos, estamos vivos. E porque não morremos também não ressuscitámos ainda. Isto quer dizer que as palavras não têm o mesmo sentido para Paulo que têm para nós, pois, para ele, depois desta inaudita manhã de Páscoa, nada é como antes. Tudo é novo. Outro problema de vocabulário: «afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra».
Não se trata, de facto, de coisas (sejam elas do alto ou de baixo), trata-se de condutas, de maneiras de viver… o que Paulo chama de realidades do alto», ele di-lo nos versículos seguintes que não vêm no texto de hoje, é a misericórdia, a humildade, a bondade, a mansidão, a paciência e o perdão mútuo… o que ele chama de coisas da terra são a impureza, as paixões, os maus desejos, a ganância, a ira, a raiva, a maldade, as injúrias, as palavras grosseiras… A nossa vida inteira vive-se nesta tensão: a nossa transformação, a nossa ressurreição, foi já realizada em Cristo, mas falta-nos assumir esta realidade profunda ao longo da nossa vida. Se continuássemos a leitura encontraríamos esta bela expressão: «Vós revestistes-vos do homem novo» e, um pouco mais além, «acima de tudo, revesti-vos do amor que é o laço da perfeição.» Assim, Paulo usa o verbo revestir no passado contínuo, revestistes-vos… continuais revestidos. É aquilo que já está feito por Cristo em vós, e, depois, no imperativo, Revesti-vos do amor, aquilo que é ainda a fazer por nós com a ajuda d’Ele. Não se trata, pois, de viver outra vida diferente da nossa vida normal, mas de viver de outra forma a vida quotidiana, sabendo que este «de outra forma» é agora possível pois o Espírito do ressuscitado nos torna capazes. O mesmo Paulo dirá um pouco mais longe: Tudo o que podeis dizer ou faze, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai. Trata-se de semear neste mundo a semente do reino novo que Jesus veio plantar para que o mundo velho seja transformado. Mas o mundo novo só se faz com homens novos. Por isso Paulo diz: «Não mintais uns aos outros, já que despistes o homem velho, com as suas ações e vos revestistes do homem novo…» Sem homens novos não pode haver mundo novo. Se o reino de Deus não é acolhido no coração de cada homem como pode ele ser instaurado no mundo?
Encontramos esta tensão entre aquilo que Jesus já fez e o que falta fazer por nós em toda a pregação de Paulo em particular nesta mesma carta ao Colossenses: Vós que outrora andáveis afastados com sentimentos expressos em ações perversas, agora Cristo reconciliou-vos no seu corpo de carne, mas é preciso que vos mantenhais sólidos e firmes na fé, sem vos deixardes afastar da esperança do Evangelho. Continuai a caminhar n’Ele, enraizados e edificados nele, firmes na fé, tal como fostes instruídos, transbordando de ação de graças. Olhai que não haja ninguém a enredar-vos com a filosofia, o que é vazio e enganador, fundado na tradição humana ou nos elementos do mundo, e não em Cristo. Porque é n’Ele que habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Vós fostes sepultados com Ele e com Ele ressuscitastes.
Hoje, como no tempo de Paulo, há muita gente pouco formada na fé que dizendo-se cristão vive ainda cheio de prisões escravi-zantes: Dizem que creem em Cristo mas acreditam também nou-tras coisas, como a reencarnação, o espiritismo, praticam reiki e vivem dependentes das energias, da consulta das cartas, do tarot, dos astros e sei lá mais o quê. Fazem uma salada do religioso. Quem conheceu Cristo não precisa nada dessas coisas. Foi para a liberdade que Ele nos libertou. O encontro com Cristo ressuscitado traz uma alegria maravilhosa à vida do que o encontra mas não está tudo feito.. Agora ele espera que, unidos a Ele, que vive em nós, aceitemos ser cooperadores da sua graça para instaurar o seu reino de luz no mundo. E essa parte é difícil, pois o mundo recusa a luz do Senhor e a novidade que Ele traz. O papa Bento XVI diz que no princípio, a igreja quando quis formar na fé os convertidos ao cristianismo, teve que criar um habitat onde eles pudessem aprender a viver de outra maneira, e instituiu o catecumenado. Hoje, num mundo de novo tão adverso, os cristãos só vivendo num habitat cristão podem aprender a viver valores diferentes. Por isso os diversos grupos da paróquia como o Alpha, as células, o grupo de oração, os grupos de jovens, e, pouco a pouco a comunidade inteira deve ser esse habitat onde os cristãos respiram as primícias do mundo novo que deve testemunhar com esperança. Se alguém no meu local de trabalho me perguntasse: Onde haverá um local onde aprenderemos a conhecer Jesus e um grupo que viva o que ele ensinou? Devíamos poder dizer: «Vem e vê»
Que Cristo ressuscitado se sinta no meio de nós. Aleluia.

Folha Paroquial nº 73 *Ano II* 14.04.2019 — DOMINGO DE RAMOS

«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Lc 23, 1-49)»

MEDITAÇÃO
Meditemos o eterno amor de Deus que se revelou na paixão
e morte de seu Filho
A ressurreição de Jesus vai manifestar de uma forma luminosa quem era aquele homem, Jesus de Nazaré, que tinha passado fazendo bem e falado como nunca alguém jamais falara, tocando tantos corações e reacendo-lhes a esperança. Ressuscitando-o dos mortos, Deus testemunha que Aquele é o seu Messias, o seu eleito, o seu Filho amado. Mas se assim é porque é que Ele permitiu que fosse morto daquela maneira tão humilhante e dolorosa? Não esqueçamos que a morte na cruz era dada apenas aos criminosos, aos bandidos, e que um romano não podia ser crucificado, só os estrangeiros. Para a mentalidade judia alguém que recebesse tal castigo era um abandonado pelo próprio Deus, alguém de quem Deus também tinha desistido. Por isso Jesus grita na cruz: «Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?» Não foi fácil para as comunidades cristãs dos primeiros tempos compreenderem o sentido da morte de Jesus na cruz e falar dela. Paulo, que tentou por outras vias anunciar Cristo sem falar da cruz, conclui, depois do seu insucesso no areópago de Atenas, que «doravante falará de Cristo crucificado escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para os que creem é poder e sabedoria de Deus». Foi um trabalho de releitura grandioso à luz do Espírito e do acontecimento da ressurreição. No relato dos discípulos de Emaús, S. Lucas apresenta-nos já essa releitura que o próprio Jesus ressuscitado ajuda os apóstolos a fazerem. «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito, para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória? Depois, começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes em todas as escrituras o que lhe dizia respeito.» (Lc 24, 13-35). O profeta Isaías e sobretudo a bela narrativa do servo de Yavé que ouviremos na sexta feira santa ajudaram a Igreja nascente a entender o desígnio de salvação de Deus. «Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre Ele o castigo que nos salva: Pelas suas chagas fomos curados.» Nos Atos dos Apóstolos o eunuco etíope, alto funcionário da rainha de Candace, vai a ler a passagem do profeta Isaías que fala da morte do justo, como cordeiro levado ao matadouro, mas não entende nada daquilo que lê. Então, o apóstolo Filipe aproxima-se do seu carro e, convidado a subir, fala-lhe de Jesus a partir daquela passagem do Antigo Testamento. Anuncia-lhe o Kerigma, o anúncio fundamental da fé que leva à salvação. Jesus, a sua morte e ressurreição, é a chave interpretativa de toda a Sagrada Escritura pois toda ela aponta para Jesus.
Sigamos Jesus na sua paixão e morte na cruz e deixemo-nos tocar por Ele e pela luz que dela irradia. Nós estamos todos lá, nessa paixão e nesse julgamento.

«Sábado
O sábado santo é um dia de silêncio e oração. O rei dorme aguardando em esperança o dia novo da ressurreição. Neste dia, como no anterior, não há eucaristia nem outros sacramentos. Só pode haver o da unção dos doentes. Mas não é um dia sem alimento. A Igreja nutre-se da liturgia das horas e da Palavra de Deus.»

Folha Paroquial nº 72 *Ano II* 07.04.2019 — DOMINGO V DA QUARESMA

«O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.»

A folha pode ser descarregada aqui.

«EVANGELHO (Jo 8, 1-11)
Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em interrogá-l’O, ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».»

MEDITAÇÃO
«Povo que formei para Mim
e que proclamará os meus louvores».
No Domingo passado o pai do filho pródigo afirmava para o filho mais velho de coração empedernido: “Nós tínhamos de fazer festa porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se.” Deus, porque ama, tem necessidade de fazer festa quando reencontra uma das suas ovelhas perdidas porque há mais festa no céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento. Mas, ao mesmo tempo, aqueles que experimentam o amor do Pai, que se sentem amados, perdoados e salvos, que percebem o Pai que têm e como é grande a sua fidelidade, sentem também o mesmo dever de entrar no louvor e na ação de graça e de fazer isso, não uma só vez, mas para sempre, porque é eterno o Seu amor.. O louvor é a resposta agradecida de um povo que reconhece o seu Deus, que é feliz por ser o povo que Ele escolheu para sua herança. Na primeira leitura de hoje, Deus chama ao povo que escolheu para si, “o povo que proclamará os meus louvores”. Quem não sente necessidade de louvar a Deus ou ainda não experimentou a sua bondade ou é injusto e mal agradecido.
A mulher que podia ter sido morta por apedrejamento, se Jesus não lhe tivesse perdoado e salvo, como não haveria de o amar e de cantar eternamente a sua misericórdia? Mas o louvor de Deus não é só uma questão de palavras, é um compromisso de vida de honrar o Senhor com uma vida que irradie. Por isso Jesus diz à pecadora: « doravante não tornes a pecar» que é o mesmo que dizer: «Doravante glorifica a Deus com uma vida nova”. Deus lamenta-se através do profeta Isaías: «Este povo honra-me com os lábios mas o seu coração está longe de mim e é vão o culto que me prestam”. Paulo, na segunda leitura, exprime bem o seu reconhecimento a Deus quando afirma que «considera tudo como lixo diante do conhecimento de Cristo.» Ele tem bem claro quais são as suas novas prioridades depois que encontrou Cristo. Diante ‘Ele todas as outras coisas que constituem a sua vida não são nada comparadas com esta prioridade. No fundo, a sua vida é um hino de louvor a Deus que o salvou e o chamou das trevas para a Sua luz. O louvor de Deus não é pois apenas um momento em que estamos juntos como filhos de Deus para lhe dar glória com cânticos e hinos. Isso faz-nos bem, porque nos dá alegria, nos liberta, nos irmana na mesma fé , mas se não fazemos do louvor uma atitude constante da nossa vida, se ele não habita o nosso coração dia e noite, dificilmente irromperá nos nossos lábios como algo genuíno, sentido e verdadeiro. Podemos dizer acerca do louvor o mesmo que Jesus diz acerca dos verdadeiros adoradores: “Deus procura adoradores que o adorem em espírito e verdade.”
Dito isto, é verdade que o louvor comunitário é profundamente evangelizador. Quando se louva a Deus com entusiasmo e com Uma celebração do louvor de Deus onde não entram as emoções, onde tudo é frio e racional, não toca o homem pós-moderno. Por isso hoje as assembleias de louvor evangélicas traem tanta gente! Muitas vezes nas nossas celebrações cantam-se hinos sobre Deus em vez de hinos a Deus. O glória que cantamos na missa é um bom exemplo de um hino a Deus: «Só Vós sois santo só vós o Senhor, só vós o altíssimo Jesus Cristo…»É a linguagem de intimidade dos amantes. É por meio do louvor de Deus que passamos da ideia sobre Deus à experiência de Deus. Por exemplo quando cantamos na entrada da missa cânticos como: Nós somos o povo do Senhor, ou nós somos as pedras vivas, são cânticos que exprimem a doutrina cristã, que expressam a nossa fé, mas não são cânticos a Deus. Mas quando cantamos: Toda a terra vos adore, Senhor e entoe hinos ao vosso nome…estamos a dirigir-nos a Deus. Estes cânticos são mais orantes pois são louvor a Deus. Numa celebração nota-se bem se o louvor brota dos corações ou apenas da cabeça. O louvor deve ser belo mas não chega ser tecnicamente perfeito, é necessário que brote do coração e gere entusiasmo, gere fé, eleve a alma até Deus. Que cada um de nós se deixe renovar pelo poder do louvor, que se sinta membro do povo chamado a proclamar os louvores d’Aquele que nos chamou das trevas para a Sua luz admirável. Para louvarmos a Deus com o coração é preciso estarmos atentos ao que Ele fez e continua a fazer por nós. Nas células paroquiais de evangelização partilha-se em cada semana Aquilo que cada um experimentou durante a semana como ação de Deus na sua vida. No princípio vemos que as pessoas têm dificuldade em ver a obra de Deus no presente das suas vidas, mas depois vão aprendendo a estar atentas e, pouco a pouco, vão descobrindo que afinal Deus está sempre a proporcionar-lhes imensos benefícios só que vivemos distraídos e não vemos Deus que nos visita em cada dia. Quando descobrimos essa presença no nosso quotidiano então o louvor é a resposta.