Folha Paroquial – 29º TC – 22 Out

Folha Paroquial – 29º TC – 22 Out

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A máxima que o Evangelho de hoje nos apresenta, «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», deve ser a mais conhecida e repetida por toda a gente, mas sem lhe perceber o significado profundo e, muitas vezes, tentando manipulá-la a seu proveito.

A 1ª leitura ajuda-nos a compreender melhor o significado da resposta de Jesus no evangelho. Entremos na questão posta a Jesus pelos fariseus: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas». Jesus percebe bem aquele elogio, que é verdadeiro, mas vai, porém, cheio de malícia. Pretendem lançar-Lhe uma cilada. Por isso, começa por lhes chamar: «hipócritas». «É lícito ou não pagar tributo a César?» É permitido ou proibido? Esperavam uma resposta ao «permitido-proibido», na qual muitas vezes nos fechamos. Ora, nós vivemos na fé e no amor e, quando se vive assim, não há respostas rígidas medidas a metro. Não há medida para quem ama. Esse tipo de perguntas é próprio de quem procura os mínimos para cumprir a lei.

Mas Jesus aproveita a pergunta para os obrigar a refletir. «Dar a César o que é de César» significa reconhecer a autonomia das realidades terrestres proclamada pelo Concílio Vaticano II. Significa aceitar a lei da incarnação e das mediações humanas. É aceitar o caminho que nos permite, num justo comportamento em relação a César, de poder dar a Deus o que é de Deus, quer dizer, a totalidade do homem. Isto é, o homem só pertence a Deus, pois Ele é o seu criador e Senhor; mas o seu serviço a Deus passa pela construção do mundo como cidadãos, cumprindo todas as leis estabelecidas, como aliás Jesus fez. Jesus deu a Deus tudo, mas obedeceu aos poderes instituídos em tudo o que não ia contra a vontade do Pai. Jesus não contesta o poder de César, cuja sorte, como a de Ciro, está nas mãos de Deus.

A máxima «dai a César o que é de César» fundamenta, pois, o comportamento leal do cristão para com a autoridade civil e a sua obrigação moral de participar ativamente na construção da cidade dos homens e na vida política, lugar excelente do exercício da caridade e do bem comum.

O problema para o crente surge quando os poderes humanos, cedendo à grande tentação, têm a pretensão de sujeitar o homem e exigir deste uma obediência que vá contra Deus e contra a sua consciência. Ora, só Deus é Senhor e só Ele é digno da nossa entrega total. O homem não pertence a nenhum poder terreno. O imperador não pode impor-lhe opções e comportamentos contrários a Deus e à exigência de observar os Seus mandamentos. Quando isto acontece, o crente não só pode, mas deve desobedecer à autoridade civil. Um trabalhador da saúde não deve obedecer a quem lhe manda fazer um aborto, ou a quem, em nome da lei, o obrigasse a praticar a eutanásia. Um trabalhador de uma empresa não pode aceitar colaborar numa mentira que o patrão lhe exija fazer para ganhar mais dinheiro.

«Dar a Deus o que é de Deus» significa dar-Lhe tudo, o nosso coração, o nosso tempo, o nosso louvor e a nossa adoração. Não damos a Deus o que Lhe pertence quando não o honramos com a missa dominical, com um tempo de oração, e com tudo que nos ajude a conhecer a palavra de Deus, para lhe sermos mais fiéis. Mas «dar a Deus o que é de Deus» consiste também «em dar a César o que é de César», pois servir a Deus é servir os homens na caridade e na justiça.

Em conclusão, todas as leituras de hoje são um convite a não nos deixarmos escravizar por nenhum poder humano, pois só Deus é o Senhor. A adoração do único Deus permite-nos permanecer de coração livre em relação a todos os poderes que nos pretendem escravizar.

Com o salmo de hoje cantamos «Dai ao Senhor, ó família dos povos, dai ao Senhor glória e poder. Dai ao Senhor a glória do seu nome» e, com o profeta Isaías, afirmamos toda a solenidade: «Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu sou o Senhor e mais ninguém». «Eu sou o Alpha e o Ómega, o Princípio e o Fim de todas as coisas». Os primeiros cristãos eram mortos por recusar dobrar o joelho diante da imagem do imperador que tinha pretensão de ser Deus. E nós? Quais são os ídolos diante de quem nos dobramos? Quem ocupa o lugar central no nosso coração? Demos a Deus a glória, a honra, e a adoração que Lhe pertence, para que possamos livremente servir o mundo que também é de Deus e não de César?

Oração

Pai Santo, estava a pensar que cumprir os meus deveres cívicos na retidão e na honestidade é tão difícil como cumprir os meus deveres religiosos, mas depois pus-me a pensar se havia «dois deveres» ou se afinal o dever era só um! Se és Tu que me dizes que «devo dar a César o que é de César», então esse dever é religioso porque és Tu que mo mandas.

Pai, todas as criaturas Vos obedecem no misterioso enredo das vontades livres dos homens; 
Fazei que nenhum de nós abuse do seu poder,
Mas que toda a autoridade sirva para o bem de todos, conforme o Espírito e a Palavra do Vosso Filho e a humanidade inteira Vos reconheça como o único Deus.

Amen.

 

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