Colóquio Culto Litúrgico da Imaculada Conceição: 700 anos em Portugal.

Colóquio Culto Litúrgico da Imaculada Conceição: 700 anos em Portugal.

A 17 de outubro de 1320, o bispo de Coimbra, D. Raimundo Evrard, assinou uma constituição diocesana que introduziu o culto mariano da Imaculada Conceição em Portugal; nesse mesmo ano, a 8 de dezembro, foi celebrada pela primeira vez em Portugal a solenidade da Imaculada Conceição, na Sé Velha de Coimbra, que se tornou então o polo irradiador deste dogma mariano.

“Ainda longe de encerradas as discussões teológicas acerca da Imaculada Conceição da Virgem Maria, que durou muitos séculos, estava já, de algum modo, a fazer-se o caminho que culminaria na definição dogmática proclamada pelo Papa Pio IX, em 1854”, assinala D. Virgílio Antunes na sua nota pastoral (transcrita mais abaixo).

Trata-se de um evento celebrativo único que tem início no dia 17 de outubro, dia comemorativo da assinatura do decreto episcopal, e termina no dia 8 de dezembro de 2020.
Na organização do Colóquio destacamos a participação, enquanto membro da Comissão Organizadora, do Investigador Integrado do CECH António Rebelo, bem como das Investigadoras Integradas Maria Margarida Lopes de Miranda e Carlota Maria Lopes de Miranda Urbano, na Comissão Científica.
O Colóquio conta com uma lotação limitada sujeita a inscrição prévia gratuita através de: 700imaculada@gmail.com
Certificado e documentação: 5,00 €.
Transmissão online nos canais das redes sociais da Diocese de Coimbra:
https://www.facebook.com/Diocese.de.Coimbra/
https://www.youtube.com/channel/UCokwn1OEzAJHX2evn4ni2IQ

 

NOTA PASTORAL do Bispo de Coimbra

CELEBRAÇÃO DOS 700 ANOS DO CULTO
DA IMACULADA CONCEIÇÃO EM COIMBRA

A nossa história

No dia 17 de outubro de 1320, o bispo de Coimbra, D. Raimundo Evrard, institui a festividade da Conceição de Maria, isto é “o dia em que a Virgem Gloriosa Santa Maria, foi concebida”, e manda que se celebre todos os anos a 8 de dezembro na Basílica de Santa Maria de Coimbra, hoje, a Sé Velha.

Ainda longe de encerradas as discussões teológicas acerca da Imaculada Conceição da Virgem Maria, que durou muitos séculos, estava já, de algum modo, a fazer-se o caminho que culminaria na definição dogmática proclamada pelo Papa Pio IX, em 1854, e que confessa: “Por uma graça e favor singular de Deus omnipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição” (Catecismo da Igreja Católica, 491).

Portugal, à semelhança de outras nações da Europa, insere-se de tal modo nesse percurso, espontâneo e popular, por um lado, académico e doutrinal, por outro, acerca de Maria que, a proclamação da Imaculada Conceição como sua rainha e padroeira pelo rei D. João IV, em 1646, é ponto de chegada de um caminho já feito e abertura para uma filial história futura. A própria aplicação a Portugal da tradicional expressão “terra de Santa Maria” significa igualmente o carinho que sempre fomos nutrindo pela Virgem Maria.

Também Coimbra faz parte irrenunciável desta história de acolhimento da Virgem Maria pela Igreja, pois, tanto nas manifestações da piedade popular como na reflexão académica de cariz teológico dá passos muito significativos. Nesse sentido, é significativo o Decreto do bispo D. Raimundo Evrard, mas também o seu acolhimento pelo povo e pela própria Universidade, que inclui essa festividade de Maria nos seus mais altos momentos celebrativos e durante vários séculos, a ponto de podermos dizer, com justiça, que Coimbra é a cidade da Imaculada Conceição.

Comemoramos e agradecemos

Neste ano de 2020, e passados setecentos anos da publicação da carta do bispo  D. Raimundo Evrard, que dá um forte impulso ao culto da Virgem Maria entre nós, queremos assinalar esse momento alto, pois, de algum modo, as suas repercussões perpassam toda a história da nossa cidade e diocese de Coimbra.

Nesta comemoração, sentimos o desejo de agradecer aos que nos precederam e lançaram nestas terras e nestas gentes as raízes da nossa cultura de matriz judeo-cristã, fundamentaram a nossa fé em Cristo e alicerçaram a nossa identidade apostólica e eclesial, na qual encontra lugar privilegiado a Virgem Maria.

Sentimos ainda o apelo de dar graças a Deus pelo caminho que nos concedeu percorrer, com alegrias e esperanças, com dores e apreensões; queremos também agradecer a Maria por nos incluir entre o número dos seus filhos, por nos chamar a fazer parte daquelas gerações ditosas que a proclamam bem-aventurada, por estar sempre como Mãe ao nosso lado e por ir como Mestra à nossa frente a indicar Jesus como a Salvação e a Vida.

Queremos ainda nesta comemoração olhar para o presente e o futuro da nossa Diocese de Coimbra e renovar nela a esperança de Maria, que esteve presente no nascimento da Igreja de Cristo no Pentecostes e acompanhou a dolorosa gestação das comunidades cristãs das origens. Sentimo-nos herdeiros de uma longa história, mas igualmente chamados a voltar continuamente à frescura do Evangelho de Jesus Cristo, à novidade da força impulsionadora do Espírito Santo, à alegria de ser Povo de Deus e Igreja que vê em Maria a sua imagem e o seu modelo de realização.

Na tradição da Igreja

A Igreja procura continuamente voltar às fontes bíblicas e à Tradição para encontrar as raízes da fé que professa. A propósito do lugar de Maria, a Lumen Gentium afirma: “A sagrada Escritura do Antigo e do Novo Testamento e a Tradição que veneramos, revelam a uma luz cada vez mais clara o papel da Mãe do Salvador na economia da salvação” (LG 55). Maria tem um lugar insubstituível no plano de revelação e ação de Deus que quer salvar toda a humanidade por meio de Jesus Cristo.

Já alguns textos do Antigo Testamento apontam para a leitura mariológica do Novo Testamento e este, embora de forma muito contida nos ajuda a compreender como os apóstolos foram descobrindo progressivamente o mistério de Maria, sempre em ligação estreita com o mistério de Jesus e com o mistério da sua Igreja.

A Tradição contínua da Igreja alicerçada na revelação bíblica foi descobrindo progressivamente o mesmo mistério de Maria e formulou as definições dogmáticas, que acolhemos de todo o coração: a maternidade divina, a virgindade perpétua, a conceição imaculada, a assunção à glória celeste. Antes, durante e depois, o Povo de Deus foi sempre exprimindo a sua devoção mariana, que era, ao mesmo tempo, consciência teológica e doutrinal acerca do lugar de Maria na relação com Cristo e com a Igreja. Deste modo, as definições dogmáticas não foram simplesmente uma formulação verbal, académica e teórica acerca de Maria, mas sobretudo uma expressão do sentir e crer dos fiéis, iluminados pela Espírito Santo.

Passo decisivo foi dado pelo Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, no capítulo VIII, intitulado: “A Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja”. Apesar de não trazer nenhuma nova doutrina acerca da Virgem Maria, ajudou-nos a vê-la melhor como figura humana e marcada pela fé, dotada, sem dúvida, de singulares privilégios, mas sobretudo cheia de virtudes simples e acessíveis que podemos imitar.

O Concílio Vaticano II e o Magistério Pontifício posterior trazem, de facto, um novo olhar sobre a Virgem Maria e sobre o seu lugar na Igreja, acentuando alguns pontos relevantes: ela é vista dentro do contexto da História da Salvação, inserida no projeto de Deus que quer salvar a humanidade por meio de Jesus Cristo, seu Filho e incarnado no seio da Virgem Maria; ela tem um lugar ímpar dentro do Povo de Deus e acompanha toda a sua caminhada histórica, apontando para a dimensão escatológica expressa no livro do Apocalipse; a figura de Maria não é vista como uma figura isolada, mas encontra o seu verdadeiro sentido na ligação com Cristo e com a Igreja.

Ao propormos a revitalização de um caminho de acolhimento, compreensão e progresso na espiritualidade mariana, estamos a inserir-nos no caminho contínuo do Povo de Deus que sempre quis preservar a fé revelada e acreditada. Queremos continuar por esta via para sermos fiéis à nossa vocação cristã e à Tradição que recebemos, pois como afirmou o teólogo von Balthasar, toda a Igreja é mariana e é preciso continuar a descobrir o seu rosto mariano.

Pela via mariana

A celebração desta efeméride constitui ocasião para lançarmos alguns desafios à Igreja Diocesana, que quer prosseguir, na fidelidade à fé, pela via mariana

Maria, imagem da esperança

Como figura de mulher, Maria acolhe todas as esperanças proféticas do Antigo Testamento, enquanto aguarda a chegada do Messias e Filho de Deus, que há de incarnar no seu seio virginal.

Ela vê em Jesus o sinal da esperança divina e transmite essa esperança a toda a Igreja cujo nascimento acompanha, partilha-a com os apóstolos e com as primeiras comunidades cristãs. Na sua maternidade espiritual Maria comunica a esperança a todo o Povo de Deus de quem se torna Mãe da santa esperança.

Presente na Igreja de hoje, Maria continua a ser para a multidão dos fiéis refúgio, consolação, sinal de misericórdia e de amor, portadora da esperança de Deus. Por essa via, a humanidade tem acesso à esperança que tem por nome Jesus Cristo, morto e ressuscitado, Aquele que ultrapassa todas as barreiras, mesmo a da morte, pelo poder de Deus. Particularmente neste tempo de debilidade face à pandemia, Maria, enquanto mulher e Igreja, tem uma palavra e um testemunho a face às apreensões d e toda a humanidade.

Maria, exemplo da obediência da fé

Ela acreditou em Deus e em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor, mesmo no que humanamente lhe parecia impossível, pois a Deus, pelo poder do Espírito, nada é impossível.

Acolher a fé como um dom e obedecer à vontade do Pai até à morte, aprendeu-o com Jesus, o Filho obediente até à morte de cruz. Agora ensina-nos o caminho da fé e testemunha que nos traz a felicidade que desejamos, tal como a tornou feliz a ela, apesar de ser a Senhora das Dores.

Depois das figuras do Antigo Testamento, nomeadamente Abraão, que acreditou, escutou a Palavra do Altíssimo e se pôs a caminho, encontramos em Maria a realização mais perfeita da fé, que significa submissão à Palavra de Deus, que é a verdade.

Diante da incredulidade reinante e de todas as dúvidas acerca da verdade, Maria ensina-nos a buscar em Deus as seguranças de que precisamos para viver. Ela encontrou-as no Evangelho anunciado e comunicado, convidando-nos a acolhê-lo e a anunciá-lo com a linguagem, o fervor e o testemunho adequados ao nosso tempo., tornando-se como se lhe tem chamado a Estrela da Evangelização.

Maria, exemplo de oração e de louvor

No seu “sim” e no seu “magnificat”, pronunciados com amor, Maria mostra a sua total dependência de Deus e da Sua vontade; louva o Senhor de todo o coração, como tinha aprendido da fé do seu povo de Israel. Em Caná, intercede pelo povo junto de Jesus e alcança a graça de uma resposta poderosa. No Cenáculo, ora com os discípulos amedrontados e recebe o dom do Espírito Santo esperado.

Com ela, a comunidade cristã reza, louva, suplica, escuta a Palavra e recebe o Espírito Santo prometido. Maria torna-se a mestra e a escola da espiritualidade fundada no Espírito que connosco reza ao Pai.

O seu “sim” é ainda a correspondência humana a uma vocação, que vem de Deus. Torna-se para nós a Mãe de todas as vocações, porque nos ensina a responder à voz que nos chama a ser filhos de Deus, mas também a seguir a vocação pessoal que o Espírito nos dá.

Maria, exemplo de santidade

A Escritura proclamou sempre o nosso desígnio mais alto quando nos convocou à santidade: “sede santos!”.

A Igreja insistiu sempre com os fiéis no sentido de corresponderem ao apelo de santidade que Deus lhes dirige e, no Concílio Vaticano II, recordou-o de modo peremptório: “todos na Igreja, quer pertençam à hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4)” (LG 39.

Como imagem mais perfeita da Igreja, a Virgem Maria é também a figura mais perfeita da santidade e torna-se para nós a Mãe e a Mestra dos caminhos da santidade enquanto acolhimento da graça que o Espírito Santo produz em nós.

Num contexto de tanto materialismo, egoísmo e relativismo moral, somos chamados a ir com a Virgem Maria às fontes do Espírito, havemos de abrir-nos no serviço desinteressado da caridade para com os irmãos e havemos de tornar-nos sinceros buscadores da Verdade.

Maria, modelo de união e comunhão com Cristo e com a Igreja

Da anunciação ao calvário, passando por todos os momentos em que acompanhou física ou espiritualmente Jesus, Maria manteve-se unida a Ele. Fortalecida pelo dom do Espírito, permaneceu junto aos Apóstolos e a toda a Igreja, que havia de permanecer unida a Cristo e na verdadeira comunhão.

Em tempos de tantas divisões no Corpo de Cristo, que põem em causa o testemunho da Igreja e fragilizam a comunicação da fé e do Evangelho, somos chamados a voltar a Maria, modelo fiel e puro da união com Cristo e de toda a Igreja.

Celebremos a Imaculada Conceição com mais amor

Em momento tão significativo  e festivo para a nossa cidade e diocese de Coimbra, peço a toda a comunidade diocesana que tudo faça para revigorar o culto devido à Mãe de Deus e nossa Mãe, invocada sob o título de Imaculada Conceição.

Celebremos festivamente e aproveitemos este tempo de graça para colher tudo o que Maria tem para nos ensinar como Mestra da fé, Estrela da Evangelização, Testemunha de Santidade no Seu amor a Cristo e à Palavra de Deus, Serva Fiel do Senhor, Modelo e Imagem da Igreja, que acolhe o Espírito Santo.

O programa diocesano inclui como pontos centrais um Colóquio teológico e histórico, no dia 17 de outubro, e a Missa, na Sé Velha, no dia 8 de Dezembro. Às diversas comunidades cristãs, paróquias e unidades pastorais, pedimos que acompanhem com as suas celebrações litúrgicas, catequeses e momentos de piedade, segundo a riqueza legada pelas tradições locais.

Que a Imaculada Conceição interceda pela nossa Diocese de Coimbra, pela sua santificação, unidade e comunhão na fé e na missão.

Coimbra, 17 de setembro de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

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