Folha Paroquial 146 *Ano III* 15.11.2020 — DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial 146 *Ano III* 15.11.2020 — DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM

Ditoso o que segue o caminho do Senhor.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 25, 14-30)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:«Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas o que recebera um só talento foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles.   que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem,  ervo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence’. O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu. Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes’».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

TIVE MEDO E ESCONDI O TEU TALENTO NA TERRA 

Andaram de volta do pai a pedir-lhe dinheiro mas não podiam dizer para o que era. O pai confiou neles mas também tinha lá um dedo que adivinhava o que andavam a tramar. E sabia que era coisa que valia a pena. Compraram o que precisaram e pintaram, recortaram, fizeram arranjos e mais arranjos. No dia em que a mãe fez anos, não tinham comprado nenhuma prenda nas lojas, mas tinham posto todos os seus talentos a render com criatividade e ofereceram à mãe a prenda mais bela do mundo. A mãe estava desenhada de muitas formas e sobretudo em muitas situações de que eles se lembravam. A fazer as refeições na cozinha, a pôr a mesa, a ir às compras, a deitar os filhos, a dar-lhes um beijo de boas noites e várias outras. Em cada foto ia uma frase encantadora e de imensa gratidão por ela ser o que era; simplesmente uma mãe genial. E havia poesia de iniciantes sobre a melhor mãe do mundo.

Sei que foi o melhor aniversário desta mãe apesar das muitas lágrimas de sentida alegria. Não sei quais foram as palavras que os filhos lhe disseram quando lhe entregaram a prenda mas podiam ser mais ou menos a dos primeiros dois servos do evangelho de hoje: « Recebemos de ti tanto para nos fazer felizes que quisemos também fazer apelo aos nossos dons para te dizer o nosso amor e gratidão. Recebe a expressão do nosso reconhecimento. E se transportássemos este caso para o que nos diz o Senhor nesta parábola? Nós só colocamos alegre e ousadamente os nossos dons a render se amamos Aquele que distribuiu por nós os seus bens e partiu, prometendo que um dia voltaria.

Percebemos que a parábola faz alusão à segunda vinda do Senhor que é uma certeza da fé, como confessamos no credo: «De novo há-de vir no esplendor da sua glória». Este tempo de «ausência» é só aparente, pois Ele disse: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Quem ama o Senhor, vive na ansiosa expectativa do encontro amoroso com Ele e faz do tempo da espera, não algo estático, cristalizado e imutável, mas algo dinâmico onde todos os dons que Ele nos deu são postos a render para que, quando Ele vier, tenhamos a alegria de lhe apresentar o fruto do bom uso que fizemos de tudo o que Ele, com tanta prodigalidade, nos confiou.

Na Liturgia da Igreja rezamos: «Dos próprios bens que nos destes oferecemos à vossa divina majestade o sacrifício perfeito, santo e imaculado.» Nada temos que não tenhamos recebido como dom. Tudo nos vem do Senhor. Por isso, quem ama a Deus, põe toda a alegria em servi-lo com todos os dons que Ele lhe dá, e esforça-se por ser criativo, dinâmico e não acomodado.

O terceiro servo da parábola não tinha uma relação de amor com o Mestre, mas de medo. Que diferença em relação aos outros! “Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence.” É uma resposta que deve ter gerado um calafrio no coração do Mestre. Medo? Medo de mim que te dei tudo e a quem confiei uma parte dos meus bens? O que está por detrás desta atitude é uma imagem falsa que o servo tem acerca do Senhor que lhe confiou os talentos. Imagina-o alguém severo, incompreensivo, injusto e avarento, que não admite erros e incapaz de dar uma segunda oportunidade. E é porque o imagina assim que fica paralisado pelo medo de não errar e não arrisca fazer nada com o seu talento. Talvez valha a pena neste momento perguntar-nos: Como é a minha relação com o Senhor que me confiou tantos bens: É de confiança e de amor ou de medo? Quando a fé cristã se vive, não a partir do amor confiante e até entusiasmado, mas do medo, torna-se uma fé que não aquece a vida, uma fé fria centrada nos mínimos, sem criatividade e ousadia. «Eu cá tenho a minha fé”, dizem alguns, mas é algo que não motiva o próprio e não contagia ninguém. Quem tem esta fé baseada no medo, ou pelo menos fé sem amor, vive centrado no cumprimento dos preceitos, esquece o evangelho para conhecer sobretudo as regras que deve cumprir. Quando lhe falam de ser evangelizador ou de pôr os seus dons a render ao serviço dos outros na comunidade, ele acha isso ridículo. Ele já cumpre o que está mandado.

Ora o Pai, tal como no-lo revela Jesus, é um Pai cujo amor tem por desígnio de nos convidar a partilhar a alegria do seu reino. Ele convida-nos a pôr em prática toda a nossa energia para pôr a render com toda a confiança, e em plena liberdade, os dons que nos confiou. Que alegria Ele tem em poder dizer-nos: «Muito bem, servo bom e fiel, vem tomar parte na alegria do teu Senhor.»

Caros cristãos que amais o Senhor e não vos poupais no serviço da Sua Igreja e do Seu reino dando tempo, dinheiro, aptidões e tudo o mais para fazer crescer o seu reino, tudo vale a pena para poderdes ouvir o Senhor dizer-vos: “Muito bem, servo bom e fiel, vem tomar parte na alegria do teu Senhor.”

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