Folha Paroquial nº 135 *Ano III* 26.07.2020 — DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 135 *Ano III* 26.07.2020 — DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM

Quanto amo, Senhor, a vossa lei!

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 13, 44-52)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».”

REFLEXÃO

O VERDADEIRO TESOURO QUE ENCHE DE ALEGRIA

Na parábola de Jesus, o homem que encontrou um tesouro escondido no campo ficou tão contente, que foi vender tudo o que possuía para adquirir aquele campo. Ele foi sábio, como Salomão, que podendo pedir riquezas e poder sobre os inimigos, pede o tesouro da sabedoria para bem governar o seu povo. Mas muitas vezes o nosso tesouro é mesmo o material, como era o caso do jovem rico. Não conseguiu vender o que tinha para adquirir o tesouro. Isto é tão importante para o nosso crescimento na fé que dou início a alguns ensinamentos sobre o dinheiro. Muitos padres, eu incluído, sentimo-nos pouco confortáveis a falar sobre dinheiro nas missas. Até porque basta falar uma vez, ou duas, para se ouvir dizer que “o padre está sempre a falar em dinheiro.” E não há padre que escape a este rótulo, pois todos têm de falar de dinheiro, uma vez o outra, e, se levassem a sério a formação dos cristãos, falariam mais vezes – pois Jesus foi isso que fez. Mas o desconforto é maior ainda nos fiéis e, por isso, se sentem tão mal quando ouvem falar de dinheiro na missa. É mais ou menos como se o padre estivesse a falar de uma coisa suja, má, que tem mais a ver com o demónio. Isso tem como resultado em que não vemos o dinheiro como algo que faça parte da nossa vida espiritual. Muita gente tem a vida toda compartimentada à imagem dos cartões que traz na carteira. Ora se usa um, ora se usa outro conforme o lugar onde estamos. Assim, quando vamos à missa, ou quando rezamos, estamos a cuidar da nossa vida espiritual; quando vamos todos os dias para o trabalho cuidamos da vida profissional; quando investimos dinheiro em qualquer coisa cuidamos da nossa vida financeira; quando chegamos a casa, à noite, cuidamos da vida familiar, e assim por diante. Ora uma vida assim dividida não é vida cristã. Nós devemos amar a Deus com toda a nossa vida e nada fica fora da nossa relação com Deus. Por isso, a forma como vivo a vida profissional faz parte da minha vida espiritual bem como a forma como eu lido com o dinheiro também é a minha vida espiritual. Se não, teríamos uma parte em nós luminosa, a vida espiritual, e depois as outras seriam trevas, onde Deus não entrava. Por isso é tão importante e evangélico falar do dinheiro na igreja, pois o dinheiro faz parte da nossa vida e das nossas preocupações. Lidar bem com o dinheiro é uma realidade salutar e por isso não podemos dizer: «Não, dinheiro é algo que só falo com o meu gestor de conta bancária ou planeador de finanças.» Mas a verdade é que o dinheiro tem um grande impacto na nossa vida espiritual, na nossa relação com Deus. O rico do evangelho foi para o lugar dos tormentos porque usou mal a sua riqueza e Jesus dá-nos muitos outros exemplos. Porque é que Jesus falou tantas vezes sobre o dinheiro? Pelo menos 2.300 versículos falam sobre o dinheiro na sagrada Escritura, e isto porque no caminho da formação do discípulo é um assunto muito importante que tem a ver com a nossa salvação ou condenação. Na raiz da posse do dinheiro está o controlp de nós mesmos, a questão da segurança. O ser humano tem a tendência de juntar tesouros. E fazemo-lo por causa do nosso medo do futuro e da insegurança sobre a continuidade da vida. Desde que abandonámos a segurança do paraíso original, nunca mais nos sentimos realmente seguros em parte nenhuma. Os tesouros dão-nos uma sensação de segurança.

Jesus contou uma história que ilustra isso, e deu um exemplo: “Certo homem rico possuía uma propriedade fértil que dava boas colheitas. Assim os seus celeiros ficaram a transbordar, e não podia guardar tudo lá dentro. O homem pôs-se a pensar no problema. Por fim, exclamou: ‘Já sei, vou deitar abaixo os celeiros e construir outros maiores. Assim terei espaço suficiente. Depois direi a mim mesmo: ‘Amigo, armazenaste o bastante para o futuro. Agora, repousa e come, bebe e diverte-te.’ (Lucas 12: 16-19 ). O Senhor Jesus sabe como é a nossa nossa natureza humana desde que, com o pecado original, nos afastámos de Deus. Tornámo-nos pessoas inseguras que precisam de um tesouro para se sentirem seguras. De forma misericordiosa, e reconhecendo as nossas limitações, Ele forma os seus amigos dizendo-lhes:

“Não junteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas juntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Jesus quer que os seus amigos aprendam a confiar em Deus e a saber fazer boas escolhas na sua vida. Trabalhar para ter mais dinheiro, para sustentar a sua família e dar-lhe uma vida mais digna não é mal nenhum. Também, se alguém trabalhou honestamente e produziu riqueza, não fez nenhum mal porque ter dinheiro não é mal. O que pode ser mal é deixar o nosso coração apegado ao dinheiro. Na epístola de S. Tiago é dito: «O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.» Nem sempre estas palavras foram bem lidas: Não é o dinheiro que é a raiz de todos os males, é o amor, o apego a ele que faz mal, pois faz com que o dinheiro ocupe o lugar de Deus no nosso coração. A melhor forma de exercer a liberdade perante o apego do coração é dar generosamente. Quando o fazemos estamos a construir o tesouro no céu, como disse Jesus. E é uma sensação de grande liberdade quando nos desapossamos e fazemos gestos de liberdade, generosidade e amor. Ficamos mais ricos, empobrecendo-nos um pouco. E Deus não deixa de enriquecer com os seus dons os que n’Ele confiam.

O pedido de Salomão agradou a Deus porque ele, podendo pedir riquezas e poder, pediu a sabedoria para governar bem e, depois, com ela, lhe vieram também outros bens porque Deus o abençoou com riquezas que ele não pediu. A parábola do Evangelho de hoje mostra também a sabedoria do homem que investe no tesouro escondido no campo. E ele diz que tesouro é esse, o reino. Ou seja, ele mesmo. E esse tesouro é eterno, não se destrói e ainda por cima nos dá uma alegria que não passa. Então, como usar bem o nosso dinheiro? Deixamos isso para a próxima ocasião.”

Deixar uma resposta