Folha Paroquial nº 137 *Ano III* 13.09.2020 — DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 137 *Ano III* 13.09.2020 — DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 18, 21-35)
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».”

REFLEXÃO

“Toca-nos a bondade misericordiosa do rei que quis ajustar contas com os servos. O castigo para a falta de pagamento era que o devedor fosse vendido com a mulher, os filhos e todas as suas posses. Seriam eles mesmos, com a sua vida escravizada, o pagamento da dívida. O que o devedor pede com humildade é apenas um prazo para arranjar o dinheiro necessário para pagar tudo, mas o rei estende o seu perdão muito mais longe… Não lhe dá um prazo para que pague, perdoa a dívida toda. Por isso é que é tão chocante que quem foi objeto de tanta misericórdia, logo depois, não tenha coração para agir da mesma forma. Vemos bem que Jesus fala do Pai e da razão porque Ele enviou o Filho ao mundo. Recordemos que toda a obra redentora de Cristo na Cruz é uma obra de perdão e reconciliação: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito, para que todo o que n’Ele crer não pereça no peso dos seus pecados e da sua separação de Deus mas encontre a vida eterna”.

“Que havemos de fazer irmãos?” -perguntavam os ouvintes da primeira homilia de Pedro, depois da ressurreição e do Pentecostes. A resposta foi: “Convertei-vos e peça cada um de vós o batismo para perdão dos vossos pecados. Recebereis então uma vida Nova”, isto é, sereis justificados, libertados, reconciliados com Deus. Com a morte de Jesus na Cruz, tudo vos foi perdoado, estais justificados diante de Deus que, gratuitamente, sem mérito vosso, veio ao vosso encontro oferecendo-vos o perdão. A única coisa que tendes de fazer é aceitá-lo livremente. O batismo é o primeiro e fundamental ato através do qual aderimos ao perdão e à justificação divina. Para quem já é batizado, e voltou a cair no pecado, tem o sacramento da penitência ou reconciliação para acolher de novo o perdão dos pecados cometidos. Quanto precisamos de redescobrir este sacramento de cura e libertação interior, gerador de alegria, de paz, e fonte de um novo e esperançoso recomeço! Para experimentarmos os seus efeitos em nós, precisa de ser bem preparado através de um bom exame de consciência feito na oração e na escuta da Palavra de Deus. Necessitamos pedir a Deus o dom de um verdadeiro arrependimento. Não é suficiente reconhecer o meu pecado, é necessário estar arrependido e ver crescer em mim o desejo e a determinação de me emendar. Preparo bem o encontro com a misericórdia de Cristo na pessoa visível do sacerdote? Confesso humildemente os meus pecados assumindo a verdade das minhas faltas e culpa? Ouço as palavras do sacerdote que me falam do amor maravilhoso de Deus que se alegra em perdoar e recebo em ação de graças a absolvição dos pecados? Quando saio de junto do sacerdote a minha alma está leve, a minha alegria foi revivificada, reencontrei a vida de Deus em mim que o pecado tinha escondido? Posso cantar eternamente as misericórdias do Senhor.

Se nós experimentámos profundamente o perdão de Deus como poderemos ficar de coração endurecido diante daquele que nos pede perdão de coisas tão pequenas? O perdão é qualquer coisa muito querida por Deus. Às vezes temos a tentação de pensar que o mundo seria mais humano se tudo estivesse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo dos que atuam mal. Mas não construiríamos assim um mundo tenebroso? Que seria de uma sociedade onde fosse suprimido de raiz o perdão? Que seria de nós se Deus não soubesse perdoar?

Só há pouco tempo a psicoterapia começou a interessar-se pelo perdão como caminho de cura psicológica e afetiva. Durante muito tempo foi entendido apenas como um passo religioso. No entanto, o perdão é necessário para conviver de maneira sã. As relações humanas estão cheias de tensões, conflitos, humilhações, enganos, infidelidades, agressões, atentados à vida dos outros, injustiças clamorosas e abusos destruidores. Quem não sabe perdoar, pode ficar com uma ferida interior permanente da qual sofre sempre e que traz outros males consigo levando à tristeza, ao desejo crescente de vingança, ao ódio, e a todos os males. Torna-se uma espiral que não acaba. Mas há algo que convém aclarar. Muitos pensam-se incapazes de perdoar porque confundem cólera com vingança. A cólera controlada é uma reação sã de irritação diante da injustiça sofrida, diante da agressão. O indivíduo revolta-se quase instintivamente para defender a sua vida e dignidade. Pelo contrário, o ódio, o ressentimento e a vingança vão mais além desta primeira reação. A pessoa vingativa procura fazer mal, humilhar e até destruir a quem lhe fez mal. Perdoar não quer dizer reprimir a cólera. Pelo contrário, nem convém nada reprimir. Nós precisamos da cólera diante do mal. Quem não se encoleriza nunca, não é normal. Nós deveríamos ser capazes de nos amar a nós mesmos, e amar os outros de tal forma que isso nos levasse a detestar como insuportável a violência, o egoísmo, o racismo, a discriminação e toda a injustiça. A cólera dá-nos a energia para mudarmos o que deve ser mudado, para podermos viver num ambiente são.

Reprimir pode acumular sentimentos de ira que mais tarde vão explodir para pessoas inocentes ou contra si mesmo. É mais são reconhecer e aceitar a cólera, a revolta, e falar do que se sente a alguém sem nada reprimir. Depois há um caminho a fazer. O texto da primeira leitura é traduzido pela Bíblia ecuménica de uma forma diferente e diz assim: “Lembra-te da aliança do Altíssimo e passa por cima da ofensa”. Parece-me ser uma bela definição do perdão. A realidade não pode apagar uma ofensa. As coisas não se apagam com uma esponja. Mas podemos passar por cima. Depois de uma ferida física, ficamos com uma cicatriz, a pele não voltará ao que era totalmente, nenhuma esponja poderá apagar aquela ferida já curada, mas que deixou uma marca na pele. Para uma ferida moral é a mesma coisa. Não podemos dizer que não aconteceu. E em casos graves podemos ficar marcados para toda a vida. Nada pode apagar a calúnia já feita, o gesto de desprezo, a infidelidade grave, os gestos de violência, as nossas palavras e atos produzem frutos venenosos. Depois do mal feito já não se pode voltar atrás, nem para o culpado nem para a vítima. No entanto, como diz Ben Sirá (1ª leitura) podemos passar por cima. O perdão não consiste em esquecer ou ignorar algo que não conseguimos esquecer, mas em passar por cima e tentar renovar a relação que foi cortada pela ofensa; trata-se de repropor a sua amizade, a sua confiança. É isso que quer dizer Perdão: etimologicamente são duas palavras: Perdão, quer dizer o dom perfeito, o dom dado para lá da ofensa. Ele só pode ser obra do Espírito Santo. Que Ele nos dê sempre a graça do perdão para nos sentirmos mais próximos do coração misericordioso do nosso Deus.”

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