Folha Paroquial nº 139 *Ano III* 27.09.2020 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 139 *Ano III* 27.09.2020 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 21, 28-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Vivei as mesmas disposições que havia em Cristo Jesus

Na reflexão de hoje vou centrar-me na segunda leitura, o que não é habitual, mas que os tempos que estamos a viver me sugerem que aprofundemos.

Começo por sublinhar a expressão usada por Paulo, «Em Cristo Jesus». “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”. Não se trata de sentimentalismo, mas de viver as mesmas disposições interiores da vontade e do coração que orientavam a vida de Jesus. A expressão é utilizada duas vezes: no princípio do texto, onde é dito: “Se há em Cristo alguma consolação”…e depois, no fim, “tende entre vós os mesmos sentimentos que há em Cristo Jesus”. Entre uma e outra, Paulo enumera uma série destas disposições. Esta fórmula «Em Cristo Jesus» deve ser lida no sentido forte e profundo que ela tem na fé cristã. Desde o nosso batismo, nós pertencemos a Cristo, fazemos parte d’Ele; e esta nova identidade que é comum a todos os batizados ultrapassa todas as nossas diversidades. Desde o batismo levamos connosco o mesmo nome de família: este nome é «CRISTÃO». E quando encontramos «Cristãos», é este sentimento de pertença comum que ultrapassa (ou deveria ultrapassar) todos os outros. Pode comparar-se a uma grande reunião de família alargada onde sabemos que cada um daqueles que ali encontramos são nossos primos, tios ou outro qualquer parentesco. Todos aqueles que já estiveram nestas reuniões familiares onde se experimenta o mesmo sentimento de pertença comum, podem ter uma ideia do que Paulo quer dizer: consolação, amor, ternura, comunhão. Ora, foi neste mistério de amor e de comunhão que fomos mergulhados no dia do batismo. Agora é preciso vivê-lo no quotidiano. «Completai a minha alegria, tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração», mais ou menos como se dissesse: «Honrai a vossa família, honrai o Nome de Cristão que levais convosco». E se Paulo faz referência ao «em Cristo Jesus», quer dizer que não se situa no domínio do ter mas do ser: «Vós que fostes batizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo» (Gál 3,27). Como quem diz: “Sempre que encontreis um outro batizado, não olheis senão para o que ele é em profundidade. Ele é membro do Corpo de Cristo”.

As nossas reuniões dominicais estão pensadas para que experimentemos esta fraternidade e a alimentemos: cantamos juntos, rezamos juntos, dizemos juntos: “Pai Nosso que estais nos céus”. dirigimo-nos juntos, ao mesmo tempo, em procissão, para comungar o mesmo pão, formando um só corpo. Antes disso, olhamos uns para os outros e damo-nos o abraço da fraternidade e da paz. Para que conscientizemos mais a nossa comunhão em Cristo começou-se há vários anos em SJBaptista e há 3 anos em SJosé o ministério do acolhimento à entrada da igreja e também à saída para que nos saudemos e aprofundemos mais os laços de comunhão… pois não basta que esses laços que nos unem sejam apenas de carácter teológico, isto é a partir do ser. É preciso que passem para o percetível do quotidiano, que a Igreja seja esse mistério de comunhão que evangeliza.

Mas os tempos da pandemia estão a levar-nos por um caminho que pode tornar-se perigoso a partir daquilo que podemos ir encarnando sem nos darmos conta. Agora existe um acolhimento para se respeitarem as normas de saúde, mas é mais um serviço de ordem. As pessoas são convidadas ao afastamento umas das outras quando tudo o que a Igreja tem feito e deve continuar a fazer, é convidar à aproximação. O anterior provincial dos jesuítas portugueses P. José Frazão Correia, escrevia um artigo em que abordava esta problemática e punha o dedo na ferida. Dizia ele: «As medidas sanitárias, por enquanto, não as poderemos evitar nem dispensar. No essencial, este ponto está assumido. O que me parece menos claro é o grau de consciência reflexa que teremos, pastores e comunidades cristãs, do significado e do alcance, a meu ver problemático, que um conjunto de práticas sanitárias e afins, aplicadas na liturgia e a partir da liturgia, poderão ir gerando na compreensão que temos da Igreja e do seu modo de estar no mundo, sobretudo se essas práticas vierem a prolongar-se no tempo. Por serem essencialmente linguagem não-verbal, têm força simbólica e performativa. Sem recorrer a linguagem verbal e sem que se tenha imediata consciência do processo, há práticas higiénico-sanitárias, seguidas no âmbito litúrgico e sacramental, que vão deixando a sua marca e modelando identidade. À força de repetição no tempo, enquanto formas externas, vão conduzindo a alterações internas, exercendo influência sobre sentimentos, pensamentos, disposições. Geram, por isso, determinados modos de ser e de estar em Igreja, dos quais poderemos não nos aperceber imediatamente, mas que, de facto, têm efeitos na realidade eclesial e, em muitos casos, estão manifestamente em contradição com o que se professa. Declara-se implicitamente uma coisa, mas atua-se efetivamente uma outra. A título de exemplo, fala-se de comunhão – supõe-se, evoca-se, invoca-se, apela-se – mas inúmeras práticas higiénicas e de segurança introduzidas são de desconfiança, de proteção e de isolamento; canta-se que “formamos um só corpo”, ao mesmo tempo que se pede e se evita qualquer proximidade e contacto corpóreo. (…)No momento presente, muito especialmente na celebração da Eucaristia, a linguagem não-verbal assume particular relevo, dizendo bem mais do que a linguagem verbal: rostos tapados; mãos higienizadas em vários momentos – por vezes, revestidas por luvas protetoras; limitação de qualquer gesto de proximidade; contínua distância de segurança; lugares marcados e separados o mais possível uns dos outros, quando não previamente reservados; deslocações limitadas ao mínimo indispensável; proibição do gesto da paz e inibição de algumas respostas; canto ainda mais limitado do que o habitual a solistas ou ao pequeno coro; etc. O acolhimento no espaço litúrgico tende a ser funcional e inexpressivo, já que a tónica é toda posta na segurança e na proteção. Conduz-se impessoalmente cada um ao seu lugar, como numa qualquer sala de espetáculos. Repetem-se informações técnicas sem empatia nem emoção, como num qualquer outro lugar público onde se reúnam várias pessoas para usufruir de um serviço. Sem querer, obviamente, a liturgia poderá estar a dar o seu contributo significativo para a “globalização da indiferença” e para o “relativismo” que, justamente, a Igreja tanto contesta. Assim, dificilmente terá lugar e expressão a comunidade viva de batizados que se reconhecem mutuamente e que, na alegria, celebra festivamente um dom surpreendente e imerecido que alimenta a vida e gera corpo eclesial.»

Mas isto pode mudar alguma coisa? A nível exterior, enquanto durar a pandemia não podemos mudar quase nada, mas se consciencializamos que o que estamos a fazer não é o correto, não é o que nos identifica como Igreja, isso pode ajudar-nos.”

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