Folha Paroquial nº 142 *Ano III* 18.10.2020 — DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 142 *Ano III* 18.10.2020 — DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM

Aclamai a glória e o poder do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 22, 15-21)
Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse. Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes acepção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-Lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

JESUS CRISTO É O SENHOR

Esta afirmação do kerigma cristão, proclamado depois da ressurreição do Senhor, diz a identidade de Cristo e de como devemos relacionar-nos com Ele. Proclamar que Jesus Cristo “é o Senhor” reenvia-nos à afirmação da primeira leitura, «Eu sou o Senhor e mais ninguém», e tem consequências enormes na nossa maneira de viver: em primeiro lugar, é um antídoto contra todas as idolatrias deste mundo, de ontem e de hoje. Por isso, os primeiros cristãos, que proclamavam Jesus como “o Senhor”, não podiam dobrar o joelho diante do imperador romano nem de qualquer poder terrestre por maior que ele fosse. E morriam por causa disso. Nós só nos inclinamos e nos ajoelhamos diante de Deus: do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em atitude de adoração como criaturas diante do criador. Quando nos ajoelhamos diante da imagem de um santo ou mesmo de Nossa Senhora, temos de ter o cuidado de fazer a diferença: aí é uma atitude de veneração, de respeito e de humildade mas não de adoração. Ajoelhamo-nos e prostramo-nos sim, diante da Eucaristia, do Santíssimo Sacramento, porque Ele « É o Senhor».

Jesus Cristo, pela sua morte e ressurreição, foi constituído Senhor dos vivos e dos mortos. Por isso é vã toda a tentativa dos senhores deste mundo, quando se sentem com poder, de se arrogarem em senhores da história como se tivessem na mão os destinos do mundo. Um hino cristão dos primeiros séculos diz: «Ele é a imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura. N’Ele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis (…) Ele é anterior a todas as coisas e por Ele tudo subsiste. (…) Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude.» ( Col 1,12-20)

Dizer que Jesus é o Senhor, Adonai (hebraico), Kyrios(em grego), significa dizer que Ele é o criador e Aquele por quem tudo subsiste e sem Ele nada pode existir.

Mas Deus, que é grande e Senhor, criador de tudo e de todos e sem o qual nada existe, criou o mundo e todos os seres levado pelo do seu amor eterno. Ele fez-se humilde e abaixou-se à pequenez da sua criatura. Ele não nos quer dominar como os senhores deste mundo, mas quer libertar-nos de todas as dominações que nos escravizam. Quis criar-nos livres e autónomos, capazes até de nos voltarmos contra Ele e de usarmos o nosso livre arbítrio para o negarmos e usarmos as capacidades que Ele nos deu, para vivermos sem Ele. Ciro, rei pagão da Pérsia, que tinha invadido a Babilónia, libertou o povo de Israel cativo neste império e enviou-o para o seu país; e Isaías afirma que, embora tenha sido visivelmente Ciro quem fez aquilo, foi Deus, condutor da história, que conduziu Ciro àquela ação boa, pois tudo está nas mãos de Deus. Para que Israel fosse liberto, Deus deu a Ciro poder sobre as nações. Foi Ele quem o “tomou pela mão direita, para subjugar diante dele as nações e fazer cair as armas da cintura dos reis, para abrir as portas à sua frente, sem que nenhuma lhe seja fechada: «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias»”.

No Evangelho, Jesus diz que se respeite o senhorio de César pois também César está nas mãos de Deus, ainda que não o saiba. Mas só Deus é Senhor. É na sua mão que está o destino do mundo e da história.

Sobretudo desde a revolução francesa para cá, a humanidade tem tentado livrar-se de Deus como se Ele fosse aquele que nos impede de sermos livres – e tem sido uma autêntica cegueira. São Paulo chama a isso “a impiedade”, que é a raíz de todo o pecado, a recusa de reconhecer a Deus, de lhe dar glória ou, dito de outro modo, a recusa de Deus como criador de todas as coisas e a recusa de si mesmo enquanto criatura. Mas sem Deus, em quem tudo subsiste, o homem fica perdido e errante no nada infinito. É a queda eterna, a impiedade.

«Dar a César o que é de César» significa reconhecer a autonomia das realidades terrestres proclamada pelo Concílio Vaticano II. Significa aceitar a lei da incarnação e das mediações humanas. É aceitar o caminho que nos permite, num justo comportamento em relação a César, de poder dar a Deus o que é de Deus, quer dizer, a totalidade do homem. Isto é, o homem só pertence a Deus, pois Ele é o seu criador e Senhor; mas o seu serviço a Deus passa pela construção do mundo como cidadãos, cumprindo todas as leis estabelecidas, como aliás Jesus fez. Jesus deu a Deus tudo, mas obedeceu aos poderes instituídos em tudo o que não ia contra a vontade do Pai. Jesus não contesta o poder de César, cuja sorte, como a de Ciro, está nas mãos de Deus. Em conclusão, o cristão que adora a Deus como único Senhor e que só se ajoelha diante dele, deve ser também o primeiro na linha da frente na construção de um mundo mais justo, em obediência a todas as leis humanas que não estejam em contradição com a sua fé e sua adoração ao único Deus.”

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