Folha Paroquial nº 143 *Ano III* 25.10.2020 — DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 143 *Ano III* 25.10.2020 — DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

Eu Vos amo, Senhor: sois a minha força.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 22, 34-40)
Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O MANDAMENTO DO AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO

Há uma frase bíblica que ao mesmo tempo que me dá alegria me levanta questões. É a seguinte: “Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Paulo diz que a esperança cristã é fundada em algo que já existe em nós. Assim como a esperança da mulher grávida que traz um filho no ventre não é uma esperança sem fundamento, assim a esperança cristã tem um poderoso fundamento: o amor de Deus já derramado nos nossos corações, pelo Espírito Santo. O amor de Deus infinito e eterno manifestou-se de modo supremo na morte de cruz do Filho unigénito e a sua ressurreição criou uma explosão do amor trinitário em nós. As barreiras que nos separavam de Deus foram aniquiladas com a cruz do Senhor e nós, agora, podemos experimentar todo o amor que Deus é, através do Espírito Santo. Jesus já o tinha dito: “Aquele que me ama será amado por meu Pai, nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada.” Então, esse amor eterno, infinito, inefável, que criou o mundo, foi-nos dado e vive em nós. Nós já não apenas sabemos que Deus nos ama, como a Bíblia no-lo repete tantas vezes e que constitui o primeiro anúncio da Igreja: “Deus ama-te, Deus ama-nos, Somos amados por Deus”; mas, mais do que isso, experimentamos em nós o seu amor, pois foi derramado abundantemente em nossos corações. Isso é para mim fonte de admiração e de gratidão para com Deus, mas levanta-me também algumas perguntas: Porque é que então, nós, cristãos, não amamos mais? Porque é que tantas vezes tenho de pedir a Deus a graça de saber amar, de saber dar-me, de vencer o meu desejo de comodismo? Porque é que o amor a todos não é assim tão natural e temos ainda tendência para nos fecharmos no nosso egoísmo? Para que precisamos nós, depois de Cristo, no Novo Testamento, de um mandamento que nos mande amar a Deus e ao próximo? Não devia ser natural em nós? Às vezes, chegamos a sentir mesmo por algumas pessoas aquilo que um cristão nunca devia sentir: sentimentos negativos. E isso causa-nos tristeza, pois desejamos amar. O papa Bento XVI, na bela e memorável encíclica que vale a pena ler muitas vezes, «Deus caritas est», diz : “Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos, agora o amor já não é apenas um mandamento, mas é a resposta ao dom com que Deus vem ao nosso encontro” (nº 1 da DCE). Compreendemos estas palavras, mas sentimos que muitas vezes a nossa resposta a este dom é muito fraca quando amamos pouco os irmãos à maneira de Deus. E o papa acrescenta como, em Cristo, devemos amar o próximo: “Eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspetiva de Jesus Cristo.” Ah, aqui já há uma resposta mais concreta e tranquilizadora à minha (nossa?) questão. E depois Bento XVI acrescenta: “Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser «piedoso» e cumprir os meus deveres religiosos, então definha também a relação com Deus. (…) Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus.”

Em conclusão, o papa explica-nos que para amarmos os irmãos com o amor de Deus e à maneira de Deus, só é possível se vivermos em intimidade com Deus, deixando-nos conduzir pelo seu amor derramado nos nossos corações; mas, para isso, não nos podemos fechar numa religiosidade intimista e individualista mas numa comunhão amorosa com Deus aberta ao cumprimento da sua vontade e sempre questionando-nos se estamos a aderir à vontade de Deus. Porque estamos marcados pelos efeitos em nós do pecado original, o amor ao próximo, sobretudo àquele para quem não me sinto inclinado pelos laços de sangue ou de empatia, deve ser uma decisão amorosa e livre da nossa vontade. Eu tenho de decidir amar por um ato livre e não estar à espera que me venha a vontade de amar. Esta minha disponibilidade interior para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor vai curando o meu coração das feridas do egoísmo e vai-o alargando a uma dimensão da caridade cada vez maior. Foi assim que começaram os santos, como Teresa de Calcutá. Um jornalista americano que um dia acompanhou Madre Teresa viu-a tratar uma pessoa com feridas em tão grande putrefação que exclamou alto: «Eu não fazia este trabalho por dinheiro nenhum do mundo». Madre Teresa ergue-se, olha para ele, e agarrando o crucifico pendurado no seu sari, exclama decididamente: “E eu também não, sr. Jornalista. Não fazia isto por dinheiro nenhum do mundo. Faço-o gratuitamente porque Este mo mandou e me dá forças e amor para o fazer.” O amor cristão vai muito para além de um humanismo. Como diz Bento XVI, “Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina”.

Às vezes, quando se fala de caridade na igreja, muitos pensam logo só, e apenas, naquelas formas tradicionais de ajuda aos pobres que não têm que comer e vivem em situações miseráveis. E assim, quando pelo desenvolvimento da sociedade já não se vêm muito ou são sempre os mesmos, já não precisamos de praticar a caridade. Mas o amor é para viver em todas as circunstâncias. Se quando temos um idoso em tempo de covid, na nossa família, a ficar isolado e com medo e não o visitamos nem lhe damos afeto, onde está a nossa caridade? Neste tempo de covid, pensemos mais nesta faixa de população que está a viver situações dramáticas de solidão. Inventemos formas de manifestar o nosso amor, pois o amor é criativo. E perguntemo-nos todos os dias, ao fim de cada dia: «Hoje pratiquei a caridade com alguém?» Interessei-me pelos outros, para além daqueles que tenho de cuidar pelos laços do sangue? E, no início do dia, que a nossa oração possa conter um pedido e uma lembrança: «Ajuda-me a não passar ao lado de alguém que precise de uma palavra amiga, de um gesto de ternura, de um olhar de compreensão e que eu, pela minha distração ou pressa, lho negue. Que eu seja manifestação do teu amor eterno para os irmãos que eu encontrar.»
Felizes os que se disponibilizam para amar quotidianamente! Salvam a sua vida do vazio e do inferno, e abrem para si mesmos e para os outros as portas do Céu.”

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