Anunciar a ressurreição

Anunciar a ressurreição

O anúncio da ressurreição continua pelos séculos fora a ser o maior anúncio de todos os tempos. E este é um anúncio que transforma a vida para sempre. A primeira leitura que ouvimos na noite da grande vigília pascal, foi o relato da criação, do livro do Génesis, e a Santa Liturgia quer-nos dizer que a ressurreição de Cristo é uma nova criação. Tudo o que era antigo passou e tudo se fez novo. O que foi para o universo físico, segundo a teoria do Big Bang do padre Lemaitre, a grande explosão inicial, quando um pouco de matéria se começou a transformar em energia dando início a todo o movimento de expansão do universo que continua ainda depois de milhões de anos, é a ressurreição de Cristo para o universo do espírito. De facto, tudo o que existe e vive na Igreja, sacramentos, palavras e instituições – vão haurir a sua existência, força e sentido na ressurreição de Cristo. Sem a ressurreição de Cristo não haveria sacramentos, nem Igreja nem cristianismo. Estaríamos no Antigo Testamento.

O Evangelho deste Domingo de Páscoa colocou-nos nesse momento original em que Maria Madalena se encontra com o túmulo vazio. Podemos imaginar como aconteceu o anúncio de Maria Madalena aos discípulos, logo depois. Maria corre, quase sem respirar, ao encontro de Pedro e de João, entra ofegante no Cenáculo, sem conseguir mesmo pronunciar nenhuma palavra que se entenda. Antes que diga alguma coisa, cada um dos discípulos, olhando para ela, nota que se passou alguma coisa de inaudito e, enquanto a miram, ela tenta dizer algumas palavras que não lhe saem facilmente: «O Mestre, o Mestre…! Ressuscitado, Ressuscitado! O túmulo, o túmulo… vazio, vazio, está vazio…» A Boa Nova era demasiado explosiva para poder ser dita em ordem e com serenidade por esta mulher. Os apóstolos devem ter-lhe feito sinal e gritado para que tivesse calma, que respirasse e tentasse dizer com clareza do que se tratava. Mas, entretanto, um estremecimento se produziu neles: a presença do sobrenatural tinha enchido a sala e todos os que aí estavam.

A partir deste momento o mundo não foi mais o mesmo. A Boa nova da ressurreição de Cristo começava o seu curso através da história, como uma onda calma e majestosa, que nada nem ninguém pode ou poderá jamais parar.

É este anúncio de Cristo ressuscitado que hoje a Igreja, em tempos de pandemia, proclama com a mesma vivacidade: Cristo está vivo. É o Vivente. Já não pode mais morrer. Ele é a nossa alegria e a nossa esperança. E esta palavra “Esperança”, que aqui escrevo com maiúscula, ganha uma tal densidade com a ressurreição de Cristo que podemos dizer que a páscoa de Jesus é a fonte da Esperança cristã.

A ressurreição de Cristo é feita de dois elementos: o facto – “Ressuscitou” – e a significação para nós do próprio facto, «Para nossa justificação»: Jesus morreu para nos perdoar de todos os pecados e nos tornar justos diante de Deus. É sobre esta palavra justificação que conclui o capítulo 4 da Carta aos Romanos, abre-se depois o capítulo V onde o Apóstolo Paulo mostra como é que do mistério pascal jorram as três virtudes teologais da fé, esperança e caridade. Diz ele: «Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus …e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus…E a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom5,1-5). Destas três virtudes teologais é a esperança que Pedro coloca em relação com a Ressurreição dizendo: “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na sua grande misericórdia nos gerou de novo através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva”( Pd 1,3).

Assim, a ressurreição de Cristo é a força, o dinamismo que alimenta, a partir de dentro, a esperança cristã. E porquê? Porque Cristo, pela sua ressurreição, abriu-nos a possibilidade de uma vida com Deus mesmo para além da morte. Cristo abriu uma brecha no muro terrível e fatal da morte através da qual todos podem segui-Lo. A esperança não começou a existir com Cristo; o que ganhou foi uma dimensão concreta com alicerces firmes. Explico usando as palavras do Papa Francisco: “Quando falamos de Esperança, às vezes entendemo-la como um sentimento bom mas sem fundamento. Referimo-nos a algo que esperamos que aconteça, mas que pode realizar-se ou não. É como um desejo”. Por exemplo, quando começou a pandemia espalhou-se por aí uma frase que era uma esperança deste tipo de bons desejos: «Vai tudo correr bem». Sabemos que esta esperança não se realizou em imensos casos em que correu tudo mal. Ora, a Esperança cristã não é assim. Continua o Papa Francisco: “Nós esperamos algo que já se cumpriu. (…) Tenho a certeza de que estou a caminho de algo que existe, não de algo que eu desejo que exista. A Esperança cristã é a expetativa de algo que já se cumpriu em Jesus de Nazaré e que certamente se há de realizar para todos nós». Por isso Paulo afirma: «A Esperança (cristã) não engana porque o amor de Deus (O Espírito Santo, dom do ressuscitado) já foi derramado nos nossos corações». É por causa desta esperança, diz S. Pedro, «que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações». E, mais à frente, acrescenta: «Não temais as ameaças daqueles que vos fazem mal nem vos deixeis perturbar, mas, no íntimo dos vossos corações, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça». Os cristãos que vivem desta esperança fundamentada mudam a sua perspetiva de vida, pois passam a viver orientados por um horizonte de eternidade. A morte já não é um muro fatal e inultrapassável: Jesus destrui esse muro e faz-nos passar com Ele para a Vida que não tem fim. E assim ajuda-nos a viver todas as dificuldades do mundo presente.

No entanto, para que esta Esperança se torne a nossa bússola, é preciso que tenhamos experimentado o encontro pessoal com Cristo ressuscitado pois, sem este encontro, a ressurreição pode tornar-se mais uma ideia do que um facto real. E quanto mais vivemos uma união profunda com Jesus, mais a certeza da nossa ressurreição no seguimento de Cristo se torna uma experiência de vida gloriosa. Nós vemos nos Evangelhos que, cada vez que alguém se encontra com Jesus de Nazaré, sai transformado desse encontro. Ele deu-lhes uma esperança nova. Pensemos em Maria Madalena, em Mateus, em Zaqueu, na Samaritana e em tantos outros. Hoje, esse encontro é com Jesus ressuscitado que nos faz participantes da sua ressurreição quando aceitamos segui-lo, aprendendo com Ele a morrer para o que é velho.

Mas alguém poderia perguntar: “Mas como viver esse encontro pessoal com Ele?” Diz a escritura: «Como hão de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão de ouvir falar se não houver quem O anuncie? E como hão de anunciar, se não forem enviados? (…) Portanto a fé surge da pregação da palavra de Cristo.» (Rom 10, 14-17).

A Palavra que anunciamos é a própria Palavra de Cristo que, quando é escutada e acolhida, transmite-nos o dom da fé e faz-nos encontrar o ressuscitado que já nos habita pelo seu Espírito e nos abre a uma Esperança viva. É por isso que pregamos, que organizamos percursos Alpha, células de evangelização, catequese de adultos e tudo o mais, para dar a possibilidade a todos de se encontrar com o ressuscitado e ser habitado por esta Esperança que não engana.
“Bendito seja Deus porque nos gerou de novo através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva” (Pd 1,3). A Ele, o Vivente, seja dada glória e honra pelos séculos dos séculos. Amen.

Pe Jorge Santos

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