Folha Paroquial nº 154 *Ano IV* 10.01.2021 — DOMINGO DO BAPTISMO DO SENHOR

Folha Paroquial nº 154 *Ano IV* 10.01.2021 — DOMINGO DO BAPTISMO DO SENHOR

O Senhor abençoará o seu povo na paz.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mc 1, 7-11)
Naquele tempo, João começou a pregar, dizendo: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». Sucedeu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no rio Jordão. Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele. E dos céus ouviu-se uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O Batismo de Jesus, por João Baptista, é um facto histórico bem atestado por todos os evangelistas. Diz a segunda leitura: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele».

“Vós sabeis…”. Era um facto histórico bem conhecido por todos. No seu batismo, Jesus tinha feito uma experiência admirável e sensível de ser o Filho eterno a quem o Pai manifesta toda sua ternura, e o Espírito repousava sobre Ele. Depois desta experiência luminosa e refrescante, o Espírito empurra-o para o deserto onde vai viver uma experiência contrária; de secura e aridez. O demónio tenta pôr em causa tudo aquilo que Ele experimentou para que duvide e desista de ser Messias sofredor que vem para dar a vida de forma humilde e abnegada, colocando-se ao lado dos pobres, dos humildes e de todos aqueles que julgam que Deus os abandonou. Que seja Messias, sim, mas um Messias a impor-se pela força, pelo poder e pelo prestígio. É a essa tentação a que Jesus resiste. Saindo dali, Jesus vai de novo para a Galileia e, entrando na sinagoga de Nazaré, lê o profeta Isaías que diz: «O Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu e me enviou para levar a Boa nova aos pobres…» Depois acrescenta: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura» (Lc 4,14-21). Neste texto, Jesus diz claramente a marca que o seu batismo Lhe deixou. Ele sabe que foi ungido pelo Pai no seu batismo, que está cheio do Espírito Santo, e que recebeu a missão pela qual veio ao mundo: ser Messias salvador dos pobres, dos pecadores, dos oprimidos.

A citação dos Atos dos Apóstolos a que fiz referência no início do texto, faz parte da pregação de Pedro em casa de Cornélio para preparar o seu coração e o da sua família para o batismo que irão receber por vontade de Deus. Aqui, trata-se do batismo cristão; mas o batismo de João não é ainda este batismo. É apenas um rito de purificação para o perdão dos pecados. Para Jesus, no entanto, foi algo muito mais profundo que os evangelistas conseguem transmitir muito bem, servindo-se da experiência vivida pelos cristãos da igreja primitiva quando recebiam o batismo.

O batismo cristão é uma participação misteriosa na morte e ressurreição de Cristo. Mergulhados na água e no Espírito Santo, nós somos de tal forma unidos a Cristo que passamos a ser Um, com Ele, e assim, fruto desta união com o Filho Unigénito de Deus, recebemos a sua vida imortal, a sua vida divina, tornamo-nos filhos no Filho e, recebendo o seu Espírito, somos conduzidos e inspirados a chamar a Deus, Abbá, Pai, como Jesus, pois é O Espírito de Jesus que vive em nós e que em nós reza.

O Batismo de Jesus no Jordão é, pois, já um relato que tem como pano de fundo a experiência do batismo cristão: «Os céus abriram-se, e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba sobre Ele».

«Os céus abriram-se». A grande espera de Israel é realizada. Isaías tinha-o exprimido desta forma: «Ah, se rasgásseis os céus e descêsseis…» E os céus rasgaram-se e Deus desceu. (Is 63, 19-64, 1). Quanto à pomba, para um Judeu, representa o Espírito de Deus, aquele que pairava sobre as águas na criação, aquele que um dia repousaria sobre o Messias quando Ele finalmente viesse para salvar o seu povo e a humanidade inteira. Já no dilúvio, sinal do batismo, em que o homem velho é destruído para surgir o homem novo, salvo das águas, uma pomba aparece trazendo um ramo de oliveira no bico.

A presença do Espírito nas águas do batismo mostra que se trata de uma nova criação. «O Espírito de Deus pairava sobre as águas, diz-nos o Génesis.

Mateus oferece-nos aqui uma magnífica representação da Trindade: Jesus é declarado Filho, o Espírito reconhecido sob a forma de pomba, e o pai invisível, mas presente, manifesta-se pela sua Palavra. João Batista tinha predito: “Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo”. Pelo nosso batismo, somos realmente mergulhados no fogo do amor trinitário. Pelo nosso Batismo, é uma nova criação que acontece. É um mundo novo que se abre para nós. Os céus abrem-se para nós e a graça de Deus nos inunda, fazendo-nos mergulhar totalmente na vida de Cristo, na sua morte e ressurreição, e tornamo-nos também participantes, segundo os nossos dons, na missão de Jesus de «anunciar a Boa Nova aos pobres», tornando-nos discípulos-missionários e, sempre que o não somos, não estamos a corresponder bem ao dom do batismo.

Precisamos de redescobrir a graça do nosso batismo, donde nos vem toda a possibilidade de haurir da fonte da salvação que brota da cruz do Senhor.

Os sacramentos são dons gratuitos de Deus, mas para serem eficazes em nós, precisam de ser acolhidos na fé. Sem fé, falta a resposta humana ao dom de Deus e Este não nos dá dons que não queiramos receber. Por isso o batismo precisa de ser assumido, ao longo da vida. Aquilo que Paulo diz ao seu discípulo Timóteo, a propósito da Ordenação, pode ser dito em relação ao batismo ou qualquer outro sacramento: «Recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos».

Seria bom que todos conhecêssemos bem a data do nosso batismo, assim como conhecemos a data do nosso nascimento e, nesse dia, nos expuséssemos mais à graça divina, reacendendo em nós o dom de Deus para sermos luz no mundo e sal da terra.

 

PROPOSTA DE LEITURA DO ÍCONE DO BAPTISMO DO SENHOR

A terra está rasgada em dois, tal como os Céus de onde Deus envia o Espírito Santo. No centro vemos Jesus, despido, como quando foi crucificado, ao mesmo tempo que aceita a vontade de Deus e assume a sua vocação de messias, que se deixa submergir pelas águas de um rio que jorra dos túmulos em terra estéril; João segura na mão esquerda a antiga aliança e inclina-se para aquele de quem não é digno de desatar as sandálias; Jesus submete-se a João “para que se cumpra”, como mais tarde “não se faça a minha vontade”, e o Pai responde, dizendo “Este é o meu Filho bem-amado, sobre o qual ponho todo o meu agrado”, enviando seu Espírito Santo – é isso que indicam o semi-círculo que vemos na parte superior e o raio que desce dele sobre Jesus; as águas, o mar, são sempre símbolo das trevas, do obscuro e tenebroso; a cena remete para o mistério pascal; Jesus, despido do homem velho, ao contrário de João que está ainda vestido, abençoa as águas com ambas as mãos, tornando-as doravante fonte de vida nova. Dessa vida nova beneficia Adão, que deixa esvaziar as suas bilhas de água ainda não renovada e que ainda receoso troca o olhar com um dos anjos, preparado para o acolher. Dos outros 3 anjos, dois têm o olhar fixo em Jesus e o outro na pomba. A árvore tem já lançado o machado à raiz: doravante, só dará fruto o ramo que vier a ser enxertado em Cristo. Toda a criação sente esta renovação: temos os peixes e os pequenos arbustos junto à margem.

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