Folha Paroquial nº 157 *Ano IV* 31.01.2021 — DOMINGO IV DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 157 *Ano IV* 31.01.2021 — DOMINGO IV DO TEMPO COMUM

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mc 1, 21-28)
Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas. Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!». E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

1.Ela carregava consigo um passado tenebroso de sofrimento e violência. Tinha nascido numa família pobre e sem educação. Tinha sido abusada sexualmente pelo pai, a mãe sabia e não agia, talvez porque não quisesse encarar a verdade. O pai batia-lhe quando ela se recusava ao que ele queria. Não tendo as mesmas oportunidades que os colegas da sua idade, também não conseguia ter os mesmos resultados e a professora disse-lhe um dia que ela nunca sairia da cepa torta e ela acreditou embora, como se veio a ver pelo que conseguiu mais tarde, tinha qualidades intelectuais acima da média. Um dia, já com 30 e tal anos, cai no chão e estrebucha. Dizem-lhe que está possuída de um espírito mau e, no princípio, ela não acreditou, mas depois aquilo volta a acontecer. Pensam que é epilepsia, mas depois de ser vista pelo médico, acaba por se verificar que não é. Como começa a ter sentimentos de agressividade, de revolta, de tristeza, a desejar a morte dela mesma, e dos outros, acaba por concluir que tem mesmo um espírito mau. Procura então um padre para que lhe faça um exorcismo, pois agora está certa que tem um demónio. Apesar de não ser de nenhuma das paróquias de que sou responsável, alguém que me conhecia de outras andanças na igreja, falou-lhe de mim e ela veio. Começou a conversa dizendo: «Vim aqui pois estou possuída pelo demónio e queria que me fizesse um exorcismo». Depois de a ouvir longamente várias vezes, e de a ter convencido que não tinha nenhum demónio, mas isso sim, um grande historial de vítima sofrida de muita violência acumulada que resultou em tristeza profunda, desencanto com a vida, desejos suicidas e agressividade. O primeiro dia em que caiu no chão foi como um vulcão que explodiu pois já não conseguia mais conter o mal-estar profundo. A oração que fazíamos juntos produzia nela paz e alegria e ela deu um grande avanço, mas era claro que precisava de uma ajuda mais técnica para saber lidar com o que lhe aconteceu no passado. Essa ajuda psicológica fez o resto e esta rapariga foi liberta” dos demónios” que a possuíam.

2. Todos nós temos demónios que tentam destrui-nos e precisamos de nos dar conta deles. S. Pedro diz-nos na sua primeira carta: “Sede sóbrios e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar. 9Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a vossa comunidade de irmãos, espalhada pelo mundo, suporta os mesmos padecimentos.” (1 Pd 5, 8-9)
Este momento que estamos a viver, de pandemia, em que todos sofremos os mesmos padecimentos, embora alguns de um modo mais forte, pode ser uma porta de entrada para o mal nos tentar pelo desânimo, pela falta de fé e de esperança, pela tristeza, e desencorajamento. Resisti-lhe firmes na fé. Como resistir-lhe? Pelo louvor de Deus que é um ato de fé e de esperança, pela união com a comunidade, e praticando atos de amor.

3. O grito que brota do homem atormentado do evangelho de hoje, quando é libertado, é como uma palavra informe, sem origem e sem Deus. Jesus não toca este homem, também não tenta convencê-lo. Ele dirige-se diretamente àquela parte dele onde a Palavra está prisioneira no deserto do mal, da violência e de todos os espíritos maus, aí onde em cada um de nós se trava um combate permanente.

Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem».

Este silêncio imposto por Jesus significa que ainda não é o momento certo para confessar o mistério pleno de quem Ele é. Essa plenitude de quem é Jesus, «O Santo de Deus» só pode ser revelada pela morte e ressurreição de Jesus. São Marcos nota assim que Palavra de Deus, só é acolhida por uma relação pessoal de confiança, e não através de um domínio. Jesus não se impõe e não impõe o seu ensino. Ele convida-nos a um ato pessoal, um passo de fé e confiança.

O texto fala-nos hoje repetidamente que Jesus está a ensinar, que as pessoas escutam a sua doutrina e depois de verem o que ele faz, e como ele liberta este homem, exclamam: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!». Os escribas também ensinam mas falta-lhes autoridade pois não vivem o que ensinam, a sua palavra não é performativa, não liberta nem salva. Acerca de Jesus dizem: «Uma nova doutrina, com tal autoridade» Jesus traz consigo o novo. Não será a novidade dos tempos messiânicos? -Perguntam-se. A 1ª leitura diz: ‘Farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar.» E este profeta novo é Jesus de quem as pessoas diziam: “Um grande profeta apareceu no meio de nós, Deus visitou o seu povo.” A Sua Palavra liberta e salva. Estás triste? Desanimado(a)? Descrente? Sem forças? Sem horizonte de futuro? Deixa que por instantes se aproxime de ti este profeta com a Sua Palavra poderosa. Ele pode pegar em ti pela mão e dizer-te: « levanta-te e anda».

 

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