Folha Paroquial nº 160 *Ano IV* 21.02.2021 — DOMINGO I DA QUARESMA

Folha Paroquial nº 160 *Ano IV* 21.02.2021 — DOMINGO I DA QUARESMA

Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade para os que são fiéis à vossa aliança.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mc 1, 12-15)
Naquele tempo, o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Se vos perguntasse qual a imagem espontânea que ressalta à vossa mente depois de lidas as três leituras, qual seria? Depois de as ler três vezes, a imagem que se foi formando em mim foi a Primavera. Vi a vida a renascer, a água a dar vida nova, depois de ter destruído o que era velho. Vi o deserto, seco e árido, a florir depois que Jesus passou por lá e venceu o demónio, levando a esperança a crescer no seu clamor de vida: «Arrependei-vos e acreditai no evangelho.» Esta foi a frase que na quarta-feira de cinzas dissemos antes de derramar a cinza sobre as nossas cabeças, lembrando-nos a nossa fragilidade e o pó que nós somos. Mas, deste pó e cinza, pode renascer alguma vida pujante? «Meu Senhor, tu é que o sabes. Então profetiza, filho do homem, profetiza sobre estes ossos e diz-lhes: Ossos ressequidos (…) Eis que vou introduzir em vós o sopro da vida para que revivais (…) Então, Profetizei como me era ordenado e, imediatamente, o espírito penetrou neles. Retomando a vida, endireitaram-se sobre os pés; era um exército muito numeroso.” (Ez 37,1-14).

A cinza lembra-nos o que somos sem Deus. Mas com o sopro divino sobre estas cinzas nasce um filho de Deus, um homem novo. Esta é a esperança de cada primavera pascal que a quaresma prepara e anuncia.

O homem velho foi destruído pelas águas abundantes e mortíferas do dilúvio. Mas as mesmas águas que destruíram o que era velho permitiram que surgisse a humanidade nova. E S. Paulo explica-nos na segunda leitura: Esta água é figura do batismo que agora vos salva.» Nós já fomos batizados e salvos, mas como o povo de Israel, por causa da nossa fragilidade, somos tentados a Voltar “às cebolas do Egipto”, isto é, ao homem velho, a viver segundo as inclinações do nosso coração. A quaresma, que foi sempre na Tradição antiga do catecumenado, o tempo imediato de preparação para o batismo dos adultos, tornou-se, para nós já batizados, o tempo da renovação da graça batismal. O tempo do renascimento espiritual. Em cada páscoa é-nos oferecida uma nova primavera a todos os que se querem levantar rejeitando continuar no inverso sem vida. Cada quarta-feira de cinzas, dá início a esse caminho fumo à primavera da vida. E começamos por confessar humildemente que somos pó da terra, mas acreditamos que podemos levantar-nos do pó e ganhar nova vida se nos abrirmos ao Espírito Santo. Não há renovação sem o Espírito Santo. Ele é o Senhor que dá vida, que faz novas todas as coisas. Por isso falar de vida que renasce, é falar do Espírito Santo. S. Paulo lembra-nos o primeiro anúncio que nos levou á fé, a saber, “Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito.” Também nós vamos morrendo por causa do pecado, mas podemos voltar a vida pela ação do Espírito e pela nossa decisão em voltar para o Senhor de todo o coração.

Jesus foi tentado pelo demónio com as grandes tentações com que ele tenta cegar todo o ser humano, mas Cristo escolheu sempre Deus com a força do Espírito que veio sobre Ele no seu batismo e que até o empurra para o deserto para ser fortificado pela provação. Cada quaresma pode tornar-nos mais fortes se nos deixamos conduzir pelo Espírito a renunciar ao homem velho e aderir a Deus de todo o coração. Aderir a Deus é um ato de vontade.

Para fazer qualquer caminho precisamos de exercer a nossa vontade como o filho pródigo quando se deu conta da sua situação: «Levantar-me-ei e irei ter com meu pai.» Sem esta vontade e decisão, ele continuaria sempre naquela vida miserável a guardar porcos. Às vezes a nossa vontade está tão enfraquecida por falta de exercício que nos tornamos escravos dos nossos apetites e tendências. Para sabermos escolher o Senhor com todo o coração e com toda as forças, o caminho quaresmal propõe-nos o meio do jejum e outras formas de temperança para exercitar a nossa capacidade de escolher o bem. O atleta e o desportista para ter vitórias tem de exercitar-se muito e nós para escolher a vida de Deus, também temos de nos exercitar. Mas não estamos sozinhos, O Espírito de Deus é quem nos pode ajudar a sair vencedores pois é Ele que vem sobre as nossas cinzas e nos ergue do caos em que muitas vezes nos deixamos cair. É Ele e nós, com o nosso querer e vontade.

A pandemia vai criando um rasto de deserto e desolação no nosso viver. Vamos passando pela cidade à noite e parece que o mundo acabou. Mas como será nos corações de cada um? Poderemos nós voltar a abraçar-nos? A reunir-nos na alegria e na festa numa mesa de irmãos? Este é um inverno duro que estamos a viver mas preparemo-nos já para a primavera que há-de chegar e pedimos a Deus que a apresse. Deixo-vos com um belo hino da Liturgia das Horas:

Troquemos o instante pelo eterno;
Sigamos o caminho de Jesus
A primavera vem depois do inverno;
A alegria virá depois da cruz.
Passa o tempo e, com ele, as nossas vidas
Tal como passa o bem, passa a desgraça
Passam todas as coisas conhecidas…
Só o nome de Deus é que não passa.
Farei da fé vivida cada dia,
A luz interior que me conduz
À luz de Deus, da paz e da alegria,
À luz da glória eterna à Luz da luz.

 

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