Folha Paroquial nº 161 *Ano IV* 28.02.2021 — DOMINGO II DA QUARESMA

Folha Paroquial nº 161 *Ano IV* 28.02.2021 — DOMINGO II DA QUARESMA

Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mc 9, 2-10)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

MOSTRAI-NOS O VOSSO ROSTO E SEREMOS SALVOS

A história de Abraão é a história de um crente que decidiu colocar a sua vida inteiramente nas mãos de Deus. A sua vocação começa por um chamamento a abrir-se à novidade de Deus, a não temer o risco, o desconhecido, a aventura, o novo. «Abraão, deixa a tua terra e a casa de teu pai e parte para a terra que eu te indicar. Farei de ti um grande povo (…) Abraão partiu como o Senhor lhe dissera» (Gen 12,1-4). E foi toda a vida um peregrino na busca do rosto de Deus e do cumprimento da sua promessa. O dom do filho Isaac foi um belo oásis, um grande ponto de apoio para a sua fé, no meio de todas as dúvidas e incertezas da aridez do deserto e dos escolhos do caminho. Mas eis que, depois deste oásis, vem uma ordem divina que deixa o coração de Abraão imerso na dor. “Abraão, toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar.” Sem nada entender deste Deus desconhecido que se atravessou no seu caminho, com o coração rasgado e ferido, obedece. Mas quando se prepara para cumprir a ordem divina, novamente a voz de Deus se faz ouvir: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal”. E diante de tanta confiança, Deus reitera e fortalece as suas promessas. Abraão aprende que o Deus que Ele segue não o deixa viver confortavelmente nas suas seguranças pois é um Deus imprevisível, misterioso, e sempre a apontar-lhe caminhos novos. Quem o quer seguir deve estar preparado para uma aventura permanente. No entanto descobre também que Ele é digno de confiança e que segui-lo faz da vida uma permanente novidade. Tem a figura de Abraão alguma coisa a ensinar-nos?

Em primeiro lugar, nesta quaresma, Deus vem bater à nossa porta como à da tenda de Abraão para nos dizer, dentro do chamamento que já nos fez outrora, a não nos deixarmos instalar naquilo que já conhecemos, a pormo-nos a caminho ao encontro do rosto de Deus, a libertarmo-nos daqueles pesos que impedem a caminhada ágil e firme. De vez em quando, para nos animar na dureza da caminhada, Ele levanta o véu do seu mistério de amor, e dá-nos um tal gozo interior que nos dissipa todas as dúvidas e gera novo entusiasmo para a caminhada. A Abraão foi o Filho, na sua velhice, as primícias da realização da promessa que estava ainda longe de ser realizada. Aos discípulos, acabrunhados na perspetiva da cruz, foi a transfiguração no Tabor, primícias do dia novo da sua ressurreição e Ascensão. E a nós? Que momentos de alegria profunda, que oásis no meio do deserto, Deus tem plantado para nos refrescar e nos fortalecer no caminho?

Os que querem seguir este Deus imprevisível têm de estar abertos à mudança, à aventura, a partir. Estávamos num mundo em permanente mudança e dentro dela, apareceu agora uma, a pandemia, que a todos interroga. Aqueles que já estão depois dos 60 anos julgavam que já tinham visto quase tudo, mas ninguém se lembra de uma pandemia assim. Igrejas fechadas, sem culto público, não podemos reunir-nos para celebrar o sacrifício pascal, e não nos lembramos disto ter acontecido alguma vez. Como vai ser o nosso amanhã? Vamos esperar que isto passe para voltarmos à nossa vida habitual? Era desperdiçar toda a aprendizagem do caminho. A Igreja já passou por crises muito maiores e de todas elas saiu mais fortalecida. Não devemos estar à espera que a pandemia passe para voltarmos aos tempos que conhecíamos antes e nos fazia sentir seguros. A pandemia já nos abriu horizontes novos de evangelização através do online que nunca tínhamos experimentado assim. Um retiro diocesano de advento ou quaresma, poderia ter 20 pessoas, no máximo, e agora teve 130 e vindos das latitudes mais diversas. Um percurso Alpha podia chegar a 50 ou 60 pessoas, mas este que estamos a fazer, chega aos 150, e muita gente que não tinha oportunidades de outra forma agora está muito agradecida pois pode participar naquilo que até aqui não podia. O online não é algo subalterno, passageiro, à espera de que a pandemia passe para voltarmos ao habitual. Claro que precisamos da vida real, dos irmãos, das celebrações presenciais, da comunidade física que, se Deus quiser havemos de voltar a ter, mas o online ficará como um enorme meio de evangelização e de construção de pontes que possibilitarão a muitos irmãos ser tocados pelo Evangelho. E isto será um bom fruto que a pandemia provocou.
A Encíclica do Papa «Vós sois todos irmãos», publicada durante a pandemia, é também um grito de Deus ao mundo para vivermos de uma forma mais solidária e fraterna. Mas o eco da encíclica é potenciado pela experiência da pandemia que nos faz descobrir que «estamos todos no mesmo barco». O passado já passou e estou em crer que na pandemia, Deus diz à Igreja o que disse a Abraão. «Deixa a tua terra, as tuas seguranças e parte para o novo que eu te vou indicar».

E faz-nos uma promessa de que, se nos pusermos a caminho e nos abrirmos ao novo, enviar-nos-á uma chuva de bênçãos. Jesus, mostrando aos discípulos o seu rosto cheio da luz divina, apresenta-lhes também a promessa da ressurreição e da vida gloriosa com Deus no céu, mas ainda não é tempo de «implantar ali as tendas»: é preciso descer e continuar o caminho do deserto, da conversão e da cruz.

Sentimo-nos a caminho, abertos à novidade de Deus, ou já plantámos as nossas tendas com estacas tão profundas como quem conta já não sair dali?

Quais são os auxílios, os oásis a que estamos a recorrer para nos fortalecer no caminho da quaresma?

Que chamamento Deus nos tem feito? E como temos respondido? Quais são os pesos que nos atrapalham e impedem o caminho?

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