aDeus, Cesário

aDeus, Cesário

Nestes dias, o coração parece demasiado pequeno e impotente para processar tanta dor e emoção. Numa altura em que os jovens tanto escasseiam – ou pelo menos assim parece – na Igreja, em ano e meio é o segundo que a Paróquia de São José vê partir de forma totalmente inesperada. No final de agosto de 2020, o Francisco Rocha num insólito acidente que envolveu o desabar da cobertura de um poço; agora o Cesário Silva num inesperado acidente de viação. O Francisco estava ligado aos escuteiros; o Cesário, ao ASJ. Como não recordar aqui o Evangelho do próximo Domingo?

Na falta de melhores palavras para o homenagear, transcrevemos aqui a forma como o ASJ o recordou no Domingo passado, durante a eucaristia das 19h00.

 

Os amigos tornam-nos herdeiros
13.03.2022

Alguns amigos tornam-nos herdeiros de um lugar, outros de uma morada, outros de uma razão pela qual viver. Certos amigos deixam-nos o mapa depois da viagem, ou o barco em qualquer enseada, oculto ainda na folhagem, ou o azul desamparado e irresistível que lhes serviu de motivo para a demanda. Há amigos que iniciam-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento de nós próprios. Há amigos que nos conduzem ao centro de bosques, à geografia de cidades, ao segredo que ilumina a penumbra do templo, à bondade de Deus.

Pelos amigos descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e, desse modo também, primordial e delicado, escondido e sublime. Dos amigos recebemos o socorro, quando nos faltam palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem sejam palavras) para medir em nós a altura da alegria ou da dor. O olhar deles é uma dádiva confiada à vida; é alento, sopro, energia pura; e tem para nós um inesgotável poder reparador.

Os amigos sustentam connosco, e a nosso lado, o duro e ligeiríssimo mistério da existência. Mesmo quando os dias empalidecem ou se estilhaçam, a amizade tem a capacidade de religar, a partir do fundo, as pontas decepadas e dispersas, os opostos indizíveis da alma: a noite e o dia, a dor e o riso, a ação e a contemplação, a vida e a morte.

Porventura o mais fecundo a perguntar, quando os nossos amigos morrem, não é: «porque é que eles partiram?» O que levaremos o resto da vida e responder, sempre em total gratidão, é antes: «porque é que eles vieram?»

José Tolentino Mendonça

 

Tributo do ASJ ao Cesário
O Cesário é luz, é amor, é jantares no Mc, é papaias e laranjas, é cafés no Samambaia, é a voz da razão, é infinitas reflexões, é “Tu Queres, Tu Tens”, é o sorriso sempre disponível.

É.

Porque o Cesário é a marca que deixou em todos nós, é as memórias que criámos e que vamos sempre levar no coração, pois “Sozinhos vamos onde pudermos, juntos vamos onde quisermos”.

Deixar uma resposta

A não perder nos próximos dias: