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Folha Paroquial nº 182 *Ano IV* 25.07.2021 — DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM

Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.

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“EVANGELHO ( Jo 6, 1-15 )
Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes. Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Jesus respondeu: «Mandai-os sentar». Havia muita erva naquele lugar, e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido. Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Ao longo do ano B, no tempo comum, vamos ouvindo, de forma continuada, o evangelista S. Marcos. No Domingo passado ouvimos o relato de Jesus que chama os discípulos para um lugar isolado para descansarem um pouco, mas quando desembarcam Jesus depara-se com uma grande multidão e cheio de compaixão começa a ensiná-los demoradamente. As horas foram passando e os discípulos, bem como Jesus, dão-se conta de que as pessoas vão começar a ter fome e não há por ali nada que comer. Mas esta parte já não a ouvimos em S. Marcos, pois a Liturgia da Igreja, de repente, interrompe a leitura do Evangelho deste evangelista para nos dar a ler todo o capítulo VI de S. João que nos fala não só do milagre da multiplicação dos pães como faz S. Marcos, mas acrescenta um longo discurso de Jesus sobre o Pão da Vida sublinhando assim que este discurso forma um todo com o milagre da multiplicação dos pães.

“Seguia-o numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.”

Seguem-no, pois vêm vidas transformadas. Podem ainda ser um bocado interesseiras, mas no princípio é sempre assim. Jesus conhece as necessidades das pessoas e compadece-se delas curando-as e dando-lhes alimento espiritual, através da Sua Palavra, e depois também o alimento corporal.

“Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa dos judeus.”

Junto ao lago da galileia, um monte, só pode ser simbólico, como acontece muitas vezes quando se diz que subiu a um monte para chamar os discípulos, para proclamar a lei nova das bem-aventuranças etc. Aqui subir a um monte para multiplicar os pães, sem dúvida que S. João nos quer fazer entender que chegou a hora do banquete messiânico anunciado pelo profeta Isaías: «No Monte Sião, o Senhor do universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados” (Is 25, 6) A esta multidão faminta do festim de Deus, Jesus vai oferecer o sinal de que esse dia tão esperado já chegou e é agora, pois é Ele que toma a iniciativa dizendo a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?» E S. João acrescenta: “Ele bem sabia o que ia fazer”, como se isso já fizesse parte do seu plano de revelação. S. João diz-nos ainda que estava próxima a Páscoa dos Judeus. E se ele diz isso, é porque está aqui um elemento importante do relato da multiplicação dos pães. Nos próximos domingos em que iremos ouvir o discurso do pão da vida, perceberemos até que ponto o Mistério Pascal de Jesus está subjacente a todo este discurso de Jesus sobre o pão da vida.

«Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Jesus respondeu: «Mandai-os sentar» (…) Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram.»

Jesus quer revelar-nos o rosto de Deus através do seu Filho alimentando a multidão. Mas não o pode fazer sem a participação das pessoas pois Ele quis tornar-nos com eles construtores do mundo e da história. Ele tem necessidade de cada um de nós por mais pequena que essa participação possa ou pareça ser. Jesus não faz o milagre a partir do nada: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Deus não se substitui a nós. Confiou-nos a tarefa de fazer crescer e multiplicar os seus próprios dons, (os talentos que deu a cada um) que se tornam assim dons dos homens. A pessoa reconhece os seus limites humanos ao mesmo tempo que fica admirado com a grandeza desta «colaboração» do seu trabalho unido à obra de Deus.

Quando aceitamos colaborar com Ele, associando-nos a outros, podemos mudar o mundo. O que seria das nossa Unidade Pastoral sem tanta gente que aceitou servir no anúncio do Evangelho no percurso Alpha, na catequese, nas células, na Liturgia na ação sócio caritativa. Em todos estes setores há vidas transformadas pela colaboração de tantos irmãos! O mundo poderia ser muito melhor se cada irmão estivesse pronto a dar os seus pães de cevada e os seus poucos peixes. Mas acreditamos nós na matemática de Deus? Isto é, quando damos ficamos com mais? E quando não damos ficamos com menos? Que Deus nos dê fé e confiança no seu poder, na sua bondade e generosidade.

Folha Paroquial nº 181 *Ano IV* 18.07.2021 — DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

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“EVANGELHO ( Mc 6, 30-34 )
Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Pastores para reunir, fortalecer e orientar

Jesus é o pastor que se compadece das ovelhas que andam dispersas, cansadas e desorientadas, mas é também o mestre que as forma e ensina. O texto diz-nos que os Apóstolos, depois do seu envio missionário por Jesus, voltaram e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Era como se quisessem ser confirmados de que o que tinham ensinado estava conforme àquilo que Ele lhes ensinou a eles. Jesus forma discípulos para que eles se tornem apóstolos, mestres, evangelistas e pastores. Mas só serão bons apóstolos, mestres, evangelistas e pastores se aprenderem a ser bons discípulos.

O que é um discípulo de Jesus? É aquele que encontrou Jesus pessoalmente, no seio da Igreja, que lhe entregou a sua vida, que tomou a decisão de viver segundo o Seu ensino, em todos os aspetos da vida. Um discípulo está, intencional e ativamente, comprometido com um processo contínuo de aprendizagem de Jesus e, inflamado com este encontro, partilha o Seu Caminho, Verdade e Vida com os outros. Podemos perguntar-nos: “Já tomei a decisão de viver segundo o ensino de Jesus em todos os aspetos da minha vida e não só nalguns que me são mais fáceis aceitar? Estou intencionalmente comprometido com um processo de aprendizagem de Jesus?

Feliz a comunidade cristã onde crescem o número de discípulos intencionais! isto é, daqueles que ativamente decidem entrar neste processo de seguimento do Mestre. Como diz Sherry Weddell num célebre livro chamado “Formar discípulos intencionalmente, «A presença de um número significativo de discípulos muda tudo: o tom espiritual da paróquia, o nível de energia, atendimento, objetivos, o que os paroquianos pedem aos seus líderes. Discípulos rezam com paixão. Discípulos adoram. Discípulos dão com generosidade. Discípulos amam a Igreja e servem-na com generosidade e alegria. Discípulos têm fome de aprender mais sobre a sua fé. Discípulos enchem todas as formações na paróquia ou na Diocese. Discípulos manifestam carismas e discernem vocações. Eles pedem para discernir o chamamento de Deus porque anseiam vivê-lo. Discípulos evangelizam porque realmente têm boas notícias para partilhar. Discípulos partilham a sua fé com os seus filhos. Discípulos cuidam dos pobres e preocupam-se com os assuntos da justiça. Discípulos assumem os riscos do Reino de Deus.».( Forming Intentional Disciples, Sherry A. Weddell, P. 80-81), edição em inglês)

Quando temos discípulos, começamos a ter pastores ou líderes. A palavra líder constrange algumas pessoas que dizem: “Eu não sou, nem quero ser líder de coisa nenhuma porque colocam na palavra um peso de autoridade e comando que ela não tem. Estou a pensar numa paroquiana que sempre disse que não tinha jeito nenhum para liderar nada, mas aceitou ficar com o serviço de coordenação da adoração eucarística e telefona às pessoas ou manda mensagens e conversa com este e com aquele tentando influenciar para que seja adorador. Fá-lo tão discretamente que é capaz de ver o que faz como um serviço humilde, mas não como uma ação de liderança. Mas o que faz é liderança humilde pois o bom líder é humilde, como Jesus, não se impõe, mas lidera pelo exemplo e pelo testemunho. O líder é alguém que outros estão dispostos a seguir porque confiam nele. Um dia em Fontainebleu, França, num encontro de formação de células fiquei numa que era constituída por advogados, um médico, 2 professores e um investigador dos que me lembro. Sabem quem era a responsável? Uma portuguesa chamada Maria Rosa que era senhora de limpeza. E o pároco disse-me: Eles não querem mudar para outra célula. A Maria é uma excelente líder que pelo seu exemplo os toca, os motiva e os influencia a tornarem-se discípulos-missionários. Quando nos tornamos discípulos, Jesus serve-se de nós e capacita-nos com os seus dons.

No texto de hoje, Jesus convida os Doze depois do seu trabalho missionário, a descansarem um pouco e a terem um momento de partilha daquilo que viveram sem Ele estar presente. Jesus faz o seguinte convite: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». Faço aqui um parêntesis para dizer que agora em tempo de férias podemos acolher o convite de Jesus a descansar um pouco para nos revitalizarmos a nível de todo o nosso ser. Muitas vezes, porém, vamos sozinhos para descansar e não ouvimos o «vinde comigo». Muita gente cristã faz férias sem Deus ou férias pagãs onde apenas há tempo para descansar o corpo se é que não se fica ainda mais cansado. Aqueles que já decidiram intencionalmente ser discípulos que ouçam bem o convite de Jesus, «Vinde comigo descansar».

A segunda leitura, diz que Jesus pela sua cruz. derrubou o muro da inimizade que separava judeus e gregos fazendo deles um só povo. Ao longo da história da humanidade foram-se criando muitos muros de divisão entre os homens: Muros a separar homens e mulheres, escravos e homens livres, pretos e brancos, diferentes religiões, e por aí fora. Pela cruz, Jesus construiu uma ponte de reconciliação de todos os homens com Deus fazendo de todos , um só povo, onde todos são irmãos e se podem aproximar do mesmo Pai num só Espírito. E nós? Somos construtores de muros ou pontes?

Às vezes causa tristeza os muros que algumas pessoas criam dentro da mesma Unidade Pastoral entre as paróquias de S. João Baptista e de S. José. No princípio parecia que o muro era construído só de um lado, mas depois foi-se percebendo que cada lado construía o seu. Mas Deus e a Igreja convidam-nos a um trabalho comum e a criar pontes de grande colaboração. Aos discípulos-missionários o que interessa é a fecundidade e o crescimento da missão. Foi por causa da missão evangelizadora que se construíram as duas paróquias e é por causa da mesma missão que agora são chamadas a trabalharem em Unidade pastoral. Não gastemos as nossas energias em contruir muros, mas em construir pontes de união e de comunhão como o Mestre nos manda. Já temos uma só Equipa de Animação Pastoral, passaremos a ter um único Conselho Pastoral da Unidade pastoral, já é frequente vermos pessoas nas atividades diversas feitas num lado e noutro e a maior parte das pessoas já ultrapassou isso ou nunca teve esse problema. Quanto mais unidos mais fortes na missão.

Folha Paroquial nº 180 *Ano IV* 11.07.2021 — DOMINGO XV DO TEMPO COMUM

Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor
e dai-nos a vossa salvação.

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“EVANGELHO (Mc 6, 7-13)

Naquele tempo, Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Instituição e carisma, dois opostos?

Igreja de Cristo tem uma parte visível e outra invisível. Uma parte humana e organizada hierarquicamente e, outra parte espiritual. Porém não são duas entidades, são a mesma Igreja de Cristo que no credo confessamos una, santa, católica e apostólica. Toda a Igreja nasceu e continua a gerar-se pelo Espírito que a renova constantemente, por isso também a parte institucional ou hierárquica da Igreja também é, na sua génese, carismática já que a estrutura base e duradoura da instituição funda-se no sacramento da Ordem que é um dom, uma efusão do Espírito Santo. Mas a tentação tem sido grande ao longo da história de deixar adormecer o dom e ficar demasiado institucional quer dizer, copiando as outras instituições humanas de poder em vez de serviço. Quando isso acontece precisam de vir os profetas carismáticos sacudir a Igreja para que ela volte de novo à graça, ao dom, à força criativa com que nasceu.

Hoje na primeira leitura, o carismático profeta Amós é expulso de Betel porque aquele é o santuário institucional do rei, nada de ousadias carismáticas que ponham em causa o status quo. É preciso deixar que o santuário real continue a viver a tradição anquilosada, sem vida, petrificada, até que morra por falta de sentido. Ao longo da história da Igreja houve sempre muitos Amós que tentaram trazer de novo a Igreja ao carisma do princípio. S. Francisco de Assis foi uma dessas personagens carismáticas que pela sua vida mostrou o evangelho na sua pureza.

O evangelho de hoje mostra-nos essa fonte inesgotável de vida que Jesus deu à sua Igreja para que ela o comunicasse ao mundo: Disse-lhes que partissem confiados no poder de Deus e não nos bens nem na sabedoria intelectual de cada um. Uma coisa devia ser certa para eles sendo a fonte da sua segurança. Saber que tinham consigo o poder de Jesus para curar, para expulsar os demónios arrancando do caos os que por fraqueza tinham caído nele. E eles partiram e experimentaram que isso era verdade. O poder de Jesus estava com eles.

S. Paulo vai fazer isto, mais tarde, quando implanta as novas igrejas: Diz ele : “Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus.(…) A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.( 1Cor2,1-5)

Como anunciar hoje a novidade do Evangelho a um mundo que acha que a Igreja é do passado, envelhecida e não traz novidade nenhuma? É que durante demasiado tempo refugiámo-nos na instituição, cristalizámos o evangelho, a liturgia e tudo o mais, em vez de nos mantermos sempre abertos à novidade do Espírito Santo. Fomos uma espécie de santuário real de Betel onde os que ousassem apelar á novidade de Deus eram expulsos.

Hoje uma comunidade cristã que quer ser significativa, deve encher-se do Espírito Santo. Deve pedi-lo continuamente em comunidade, orando uns pelos outros, e aceitar os dons que Ele lhes dá para a missão. E a comunidade recebe de Deus o dom de curar, de expulsar o mal, de tirar do caos aqueles que se sentem a viver nele recuperando a harmonia de uma vida renascida com Deus. O Espírito Santo faz-nos sair da caixa, ser ousados, criativos, tentar caminhos novos. Dá-nos sonhos e visões do futuro que nos enchem de esperança e nos entusiasmam. Dá-nos novas línguas para o louvor de Deus por manifestar o seu poder entre os crentes. Sonho com uma Comunidade significativa que louva a Deus e adora porque vê todos os dias a sua ação. Sonho com uma comunidade mais ousada a sair de si para e ir ao encontro dos outros para lhes levar a esperança e a paz. Precisamos de criar grupos que saiam ao encontro dos pobres, (já há alguns), ao encontro dos doentes para orar por eles transmitir-lhes confiança e esperança, e ao encontro dos que não conhecem a Deus para escutar as suas dúvidas, interrogações e frustrações e lhes anunciar que Deus os ama. Aquilo de bom que já se faz é um prenúncio do que poderia ser melhor se formos mais ousados. Que O Espírito Santo não se canse de nos desinstalar e de nos empurrar para a frente.

Na paróquia de S. João Baptista são várias dezenas de famílias que estão a receber uma refeição quente que lhes s é levada pela Caritas paroquial. E há um paroquiano que, sozinho, oferece uma refeição a todas as famílias por semana. Deus quando nos toca, leva-nos a ser generosos, dando-nos e colocando os nossos bens e as nossas pessoas ao serviço dos outros. Há tanta coisa bela e significativa que Deus tem feito no meio de nós! Quantas vidas transformadas pelo encontro com Ele! quanta esperança renascida nos corações daqueles que andavam de coração vazio! quantas relações restauradas na família! Bendito seja Deus pela sua fidelidade e pelo seu amor para connosco.

Folha Paroquial nº 179 *Ano IV* 04.07.2021 — DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM

Os nossos olhos estão postos no Senhor,
até que Se compadeça de nós.

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“EVANGELHO (Mc 6, 1-6)

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se à sua terra, e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?». E ficavam perplexos a seu respeito. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

NÃO PODIA FAZER ALI QUALQUER MILAGRE

A narração do evangelho, hoje escutado, vem no seguimento direto da narração dos milagres proclamados no Domingo passado, em que Jesus ergue da morte a filha de Jairo, uma menina de doze anos, e cura a mulher com um fluxo de sangue que já tinha gastado todo o seu dinheiro nos médicos e nada tinha conseguido. Esta, não podendo chegar à fala com Jesus, toca-lhe no manto, pensando que isso será suficiente para ser curada. E foi-o imediatamente. Ao terminar a jornada, Jesus devia estar contente e até, como noutras ocasiões aconteceu, a exultar de alegria sob a ação do Espírito Santo pelo desígnio do Pai de revelar aos pequeninos o mistério do seu amor salvífico. Mas a vida missionária de Jesus também teve reveses, insucessos e tristezas. Hoje, o evangelho fala-nos de um desses dias nada feliz.

Jesus partiu dali para a sua terra, Nazaré, e entrou na Sinagoga, pondo-se a ensinar. S. Marcos não nos diz o conteúdo do ensino, ao contrário de Lucas que nos informa que Ele pegou no rolo do livro do profeta Isaías e leu a passagem em que estava escrito: “O Espírito de Deus está sobre mim porque Ele me ungiu e me enviou…”, e depois termina dizendo: «Esta passagem da Escritura cumpriu-se hoje.» A sabedoria com que Jesus fala deixa toda a gente da sua terra espantada. Era imbatível. Mas uma pergunta se levanta: – Donde Lhe vem esta sabedoria e a capacidade de realizar maravilhas? Não O conhecemos nós de ginjeira? Não é Ele o Filho de Maria? – pergunta anormal no tempo de Jesus, pois um filho nunca era conhecido pelo nome da mãe, mas do pai – S. Marcos, ao escrever “Filho de Maria”, quer fazer referência ao seu nascimento virginal, isto é, ao facto de Ele ter sido gerado pelo poder do Espírito Santo.

O núcleo da mensagem do texto está, porém, na incredulidade dos seus conterrâneos, mostrando-nos o contraste com os milagres feitos anteriormente com a filha de Jairo e a mulher com fluxo de sangue e, agora, não conseguir ali fazer nenhum milagre. “Estava admirado com a falta de fé daquela gente.”

Esta passagem contém um tema sempre presente no evangelho de S. Marcos: Quem é Jesus? Qual a sua profunda identidade? Os seus conterrâneos e parentes, em Nazaré, podem conhecer o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago e de José, de Judas e Simão e de todo o outro parentesco, mas não conhecem Jesus, o Filho de Deus. Ontem, como hoje, muitos podem dizer muita coisa acerca de Jesus, mas só pela fé poderemos ser capazes de chegar à identidade profunda de Jesus que Pedro dirá em nome de todos quando Jesus lhes pergunta: «E vós, quem dizeis que eu sou?» – «Tu és o Messias, o Filho de Deus». Jesus dirá, então, que afirmar aquilo não lhe vem das suas faculdades naturais (da carne e do sangue) mas da revelação do Pai que está nos céus.

Nesta recusa dos conterrâneos de Jesus em abrir-se à fé, S. Marcos prenuncia já a rejeição que o seu povo fará de Jesus, mas reflete também e tenta explicar a situação da comunidade para a qual escreve. Enquanto muitos dos primeiros cristãos eram judeus, o crescimento e florescimento do cristianismo deu-se entre os povos pagãos que aceitaram Jesus. A comunidade de Marcos era constituída maioritariamente por gente vinda do paganismo, que vinha fazendo a experiência da perseguição. S. Marcos, mostrando que o próprio Jesus foi rejeitado, tenta consolar e fortalecer os seus primeiros leitores. Mas, através desta palavra, o Espírito que a inspirou prepara-nos também a nós, evangelizadores de hoje, a que aceitemos estas possíveis consequências de ser discípulos de Jesus, isto é, estarmos preparados para a rejeição, para a recusa em acreditar, para corações que se fecham.

Na nossa vida, como na de Jesus, há dias felizes em que vemos a ação da graça de Deus e da semente da palavra a produzir abundante fruto nos corações e, outros dias muito áridos, em que «ficamos admirados com a falta de fé daquela gente».

Mas porque é que Jesus não conseguiu ali fazer milagres? Sendo esta obra do poder de Deus, supõe a nossa colaboração, a nossa fé. «Foi a tua fé que te salvou», diz Jesus muitas vezes. Ali, ao contrário, os seus conterrâneos não eram capazes de ver em Jesus mais do que o seu vizinho, igual a eles em tudo, mas que aparecia com uma sabedoria maior e que os tornava até invejosos por pretender ser maior do que eles. Sem fé e confiança em Deus, não podemos ver a sua glória na nossa vida. Nós é que possibilitamos a graça de Deus quando nos dirigimos a Ele cheios de humidade e confiança. Se não esperamos nada de Jesus porque não acreditamos no seu poder, não receberemos nada.
Jesus disse um dia a Marta, irmã de Lázaro: «Se tu crês, verás a glória de Deus.» Que Ele dê a cada um de nós esta fé viva no seu poder divino que lhe permita fazer em nós todas as maravilhas do seu amor.

Folha Paroquial nº 178 *Ano IV* 27.06.2021 — DOMINGO XIII DO TEMPO COMUM

Louvar-vos-ei, Senhor, porque me salvastes.

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“EVANGELHO (Mc 5, 21-43)

Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Ora, certa mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-Lhe por detrás no manto, dizendo consigo: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». No mesmo instante estancou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo que estava curada da doença. Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo. Voltou-Se para a multidão e perguntou: «Quem tocou nas minhas vestes?». Os discípulos responderam-Lhe: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’». Mas Jesus olhou em volta, para ver quem O tinha tocado. A mulher, assustada e a tremer, por saber o que lhe tinha acontecido, veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade. Jesus respondeu-lhe: «Minha filha, a tua fé te salvou». Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

MAS RIRAM-SE DELE

Parece ser um pormenor no texto do evangelho de hoje, a afirmação «Mas riram-se dele», feita pelos que ouviram as palavras de Jesus, dizendo: «A menina não morreu, está a dormir». No entanto, é muito importante darmo-nos conta de que, à medida que a sociedade se afasta da fé cristã, as reações desta, ao testemunho dos cristãos, é «rirem-se deles». A tentação de muitos crentes, para que não se riam deles, pode ser a deriva de apresentar um cristianismo sem mistério, sem o poder da fé, limitando-o às possibilidades da inteligência humana e ao pensamento e à aceitação dos homens de hoje. S. Paulo, para evangelizar os Atenienses, também preparou um discurso cheio de sabedoria humana no Areópago de Atenas, mas os resultados foram quase nulos. Por isso, quando escreve aos Coríntios, diz-lhes: “Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da linguagem ou da sabedoria, para vos anunciar o mistério de Deus. Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. Estive no meio de vós cheio de fraqueza, de receio e de grande temor. A minha palavra e a minha pregação nada tinham dos argumentos persuasivos da sabedoria humana, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.”

D. Pigi, o fundador das Células Paroquiais de Evangelização, em Itália, testemunhou que, antes da sua conversão, se refugiava em homilias intelectuais, muito bem preparadas, mas que não convertiam ninguém. Não eram um anúncio do poder de Deus, mas uma rendição ao mundo para ter aceitação deste. Não nos admiremos, pois, que se riam de nós, quando falamos do mistério de Deus, mas anunciemo-lo com ousadia.

A 1ª leitura de hoje, diz-nos que não foi Deus quem fez a morte e que tudo quanto Ele criou destina-se ao bem. O desígnio de Deus para com o mundo e a humanidade é de amor e de vida, e não de mal. No relato da criação, vai sendo dito repetidamente: «E Deus viu que era bom….».

Como diz a revelação cristã, foi o pecado que espalhou o caos sobre a terra e introduziu a inveja e o mal com todas as suas consequências. Como diz o Papa Francisco, na encíclica Laudato si, sobre a ecologia, “o pecado, rompendo a relação do homem com Deus, rompe também a relação dos homens entre si e a relação destes com a terra em que habitam. Mas Deus não abandona o homem e em Jesus Cristo vem salvá-lo, reconciliando-o novamente com Deus pela sua morte na cruz. Aqueles que aceitam Cristo, pela fé, experimentam esta harmonia com Deus, com os outros e com a natureza.” Na Evangelii Gaudium ele tinha escrito: “Aqueles que se deixam encontrar por Cristo são salvos do pecado, da tristeza e do vazio interior.” Cristo cura salvando e salva curando.

As curas físicas realizadas por Deus, ontem e hoje, são sinal de uma cura maior que Deus veio realizar no homem, restaurando-o no seu ser de filho de Deus. Por isso, Jesus diz à mulher que perdia sangue: «A tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada do teu mal». Ela foi muito mais do que curada. A cura podia atingir só o seu corpo, mas, ao abrir o coração pela fé a Jesus, recebeu muito mais que uma cura física, tendo sido curada no seu coração. Encontrou o sentido da sua vida. Nasceu de novo.

A cena que nos apresenta S. Marcos é comovente. A única coisa que nos é dito desta mulher é que tem uma doença secreta, tipicamente feminina, que a impede de viver de maneira sã a sua vida de mulher, esposa e mãe. Sofre muito, física e moralmente. Quantas mulheres (e homens) não sofrem física e moralmente situações que estão no segredo da sua consciência e não são capazes de contar a ninguém?! Esta já tinha ido aos médicos, mas não tinham conseguido curá-la. Mas esta mulher não desiste de procurar. Ninguém a ajuda a acercar-se de Jesus, mas ela saberá encontrar-se com Ele. Jesus responderá ao seu desejo de uma vida sã e salva. Naquele toque delicado no manto de Jesus, ela manifesta toda a confiança e esperança que tem nele. No fundo, S. Marcos apresenta esta mulher desconhecida como modelo de fé para as comunidades cristãs. Dela poderão aprender como encontrar nele a força para iniciar uma vida nova cheia de paz e saúde.

Hoje, em S. João Baptista, estão presentes na missa das 11h00 algumas dezenas de pessoas que participaram no Fórum das Células Paroquiais de Evangelização. As células têm como objetivo levar às pessoas Jesus Cristo, para que cada homem e mulher seja curado e salvo pelo encontro com Ele. E, sempre que isto acontece, temos um homem e uma mulher novos. Como ouvíamos Paulo, no Domingo passado: “Quem está em Cristo é uma nova criatura. O que era velho passou. Tudo foi renovado.”

Precisamos de apontar às mulheres e homens do nosso tempo, pois todos temos feridas, o único que salva, Jesus Cristo. Indicar o caminho para Ele. É que há tantas que, enganosamente, procuram a salvação em reikis, em espiritismo, em esoterismos de toda a espécie! Por esses caminhos nunca experimentarão a voz suave a dizer-lhes: «Minha filha, a tua fé te salvou.». Compete-nos a nós dá-Lo a conhecer, pois muitos já o não sabem.

Folha Paroquial nº 177 *Ano IV* 20.06.2021 — DOMINGO XII DO TEMPO COMUM

Cantai ao Senhor, porque é eterno o seu amor.

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“EVANGELHO (Mc 4, 35-41)
Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

PASSEMOS PARA A OUTRA MARGEM

Jesus é quem tem a iniciativa de fazer embarcar os discípulos para atravessar o lago para a outra margem. Em Marcos, não se explica a razão daquela mudança de lugar mas, em Mateus, a narrativa explica que a partida é devida à presença de “numerosas multidões” (Mt 8,18). Depois de acalmar a tempestade, Jesus e os discípulos devem chegar à região dos Gadarenos ou dos Gerasenos, ou seja, uma região pagã da Decápole.

Há uma solução simples e eficaz para evitar a tempestade: ficar na margem onde se está. Ficar na mesma margem é mais seguro, não se assumem riscos. Na margem que conhecemos bem, os dias sucedem-se e assemelham-se. É verdade que há altos e baixos, mas ao menos dominamos os acontecimentos, sabemos como os enfrentar porque os fazemos desde sempre. Por isso tanta gente tem tanta dificuldade em aceitar as mudanças na Igreja. Mas aí, nessa barca, não estamos seguros de nada. O tempo muda rapidamente e não sabemos nunca o que vai acontecer, não podemos nada prever e programar e isso cria-nos desconforto e insegurança. O que é seguro e certo é que a vida não é a mesma na margem onde estou e na barca! E Cristo diz-nos: abandonemos o território familiar para nos dirigirmos a lugares que não conhecemos ou que não nos são habituais e nos fazem sentir inseguros. Mas não estaremos sós, iremos com Cristo que está na nossa barca.

ELE DORME
Jesus durante o tempo da tempestade que faz? Dorme. Mas não está ausente. Ele é plenamente homem com os seus limites e necessidades humanas. Depois de um dia de pregação, logo que chegou a noite, Jesus quer afastar-se a multidão. Fatigado, procura repouso sobre uma almofada na parte de trás do barco. As vagas que sacodem o barco, e a tempestade que cresce, não são capazes de o acordar, de tal forma o seu sono é pesado e repousante. São os seus discípulos que têm de gritar-lhe aos ouvidos: “-Acorda.” Também para nós o silêncio de Deus não é nem um abandono nem uma rejeição, mas um mistério que conduz a contemplar Cristo para nos deixarmos transformar por Ele.

NÓS PERECEMOS
Desde sempre a tradição cristã viu nesta barca agitada pela tempestade uma imagem da Igreja. Quando Marcos escreve o seu evangelho, Pedro já tinha sido martirizado e a perseguição tinha dizimado a jovem comunidade romana. O «passemos para o outro lado» tinha sentido. Apesar da tempestade, a Igreja deve viver e crescer neste mundo pagão e deixar de pensar no mundo judeu-cristão tranquilizante. Século após século, depois de alguma bonança, a tempestade volta a exigir-lhe que passe para o outro lado. E este tempo que estamos a viver é um convite forte a abrirmo-nos a paisagens novas, sonharmos uma igreja a viver de forma muito diferente de há 50 anos atrás. E todo o nosso esforço está em que as comunidades cristãs se desinstalem e criem uma cultura missionária de serviço, de proximidade, de amor fraterno, de compromisso na transformação do mundo.

O AMOR DE CRISTO NOS IMPELE
Felizmente, desde há dois mil anos, são imensos os que deixam a margem da sua zona de conforto para embarcarem com Jesus. Não são aventureiros curiosos para descobrir o novo mundo. São discípulos que embarcam, não porque sejam corajosos e seguros de si mesmos, mas somente porque Jesus está na barca e lhes diz: «Ide por todo o mundo», para a outra margem. Mas também porque “o amor de Cristo os impele” quando contemplam o seu amor manifestado na sua morte na cruz. E nada nem ninguém os pode separar desse amor que Ele um dia lhes manifestou. Diz Paulo na segunda leitura: “Se alguém está em Cristo é uma nova criatura”. O mundo antigo passou, um mundo novo nasceu. Doravante já não estamos na primeira Criação. Falta-nos talvez compreender a medida da transformação que foi introduzida no mundo pela ressurreição de Cristo. O Cristão é alguém que diz: «Doravante»! Doravante nada é como antes. Há uma nova humanidade. Agora somos chamados a viver da vida do Ressuscitado, que é uma vida feita de solidariedade, de justiça e de partilha; doravante podemos viver como Cristo, tornar-nos uma imagem sua, vivendo uma vida ao serviço dos outros, como Ele fez. Somos capazes, doravante, de chorar com os que choram e de enfrentar os mesmos combates que Jesus e dominar todas as tempestades que nos assaltam, venham donde vierem, pois Ele está connosco tal como na manhã de Páscoa. Todo o cristão pode dizer como Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» Basta que, como diz a carta aos Hebreus, mantenhamos o nosso olhar fixo em Jesus, o autor da nossa fé.

A palavra “impossível” não é cristã, pois nada é impossível a Deus e a quem crê no seu amor poderoso.

Folha Paroquial nº 176 *Ano IV* 13.06.2021 — DOMINGO XI DO TEMPO COMUM

É bom louvar-Vos, Senhor.

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“EVANGELHO (Mc 4, 26-34)

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

UMA VISÃO DE CRESCIMENTO

Em todo o Novo Testamento e particularmente nas parábolas de Jesus, a ideia de crescimento do reino é uma constante: a primeira parábola de hoje, a da semente do trigo, acentua a ideia do espanto do agricultor que vê a planta desenvolver-se, passando pelas várias etapas da sua maturação sem ele saber como. Ele sabe que semeou a semente, mas reconhece que o que fez é quase nada diante do mistério daquele desenvolvimento que começa por dar, primeiro, a planta, depois, a espiga e, por fim, o trigo maduro na espiga. O agricultor não nos dá a ideia de ser alguém ansioso e perturbado; pelo contrário, ele dorme descansado, pois levantando-se pela manhã, e olhando a planta, depara-se sempre com a alegria de ver a planta a crescer e a desenvolver-se. Este agricultor parece mais um contemplativo do poder daquela semente que traz consigo uma força misteriosa, uma graça de crescimento.

A segunda parábola, do grão de mostarda, acentua a ideia do crescimento. Começa por sublinhar a pequenez e a modéstia da semente: “Ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra”, para depois mostrar como a pequenez não é nenhum problema e que pode ser mesmo um bem. “Depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra”.

Na Carta aos Efésios, Paulo medita sobre o mistério da Igreja que formamos e diz que «Em Cristo qualquer construção bem ajustada, cresce para formar um templo santo no Senhor.» E mais à frente diz: «É por Ele que o corpo inteiro, coordenado e unido, por meio de todas as junturas, opera o seu crescimento orgânico segundo a atividade de cada uma das partes, a fim de se edificar na caridade» (Ef 4,16): Quer dizer que o crescimento é de todo o corpo e não só de uma das partes.

S. Lucas diz-nos, nos Atos dos Apóstolos, que «O Senhor aumentava todos os dias os que entravam no caminho da salvação”. E podíamos continuar….

Jesus na sua ação de bom pastor e Mestre tinha uma visão de crescimento do reino a longo prazo. Durante os seus três anos de vida pública como Messias dedicou-se intensamente à formação do grupo dos doze discípulos. Ensinou-lhes tudo o que recebeu do Pai e, depois de ressuscitado, enviou-os por todo o mundo com a força do Espírito Santo, para que também eles fizessem discípulos em toda a parte. O crescimento tornou-se então exponencial e imparável gerando uma nova civilização.

E entre nós? O reino de Deus cresce? Se fossemos a julgar pelo número de pessoas que vêm à missa, diríamos que não, mas além de ainda estarmos em pandemia, esse não é o critério maior para nos darmos conta do crescimento do reino de Deus. Cresce quando alguém experimenta em si a novidade do encontro com Deus que a transforma e lhe dá uma nova vida e uma nova esperança no futuro. A partir desse encontro a pessoa reorganiza-se e reinventa-se para viver ao jeito de Jesus e ao estilo das bem-aventuranças que Ele pregou.

Com o coração agradecido ao semeador, parece-me que, durante este ano que estivemos em pandemia, o reino de Deus cresceu no meio de nós. Temos sido testemunhas de um grande crescimento na fé de muitas pessoas e na sua inserção na Igreja. A pandemia não foi um obstáculo, mas uma oportunidade de lançar a semente do Evangelho em muitos corações através dos percursos Alpha online de adultos e jovens. As células aumentaram muito com pessoas que sentiram vontade de fazer um caminho novo com Cristo e com os irmãos. Foram mais de 50 pessoas novas que decidiram inserir-se nas células, que são pequenos grupos de dimensão familiar que se encontram semanalmente para orarem juntos, partilharem a Palavra de Deus, viverem a dimensão fraterna e servirem os irmãos. Já são mais de 150 pessoas que nas nossas paróquias se reúnem, nas suas casas, uma vez por semana. Mas sonhamos em alcançar as 500, dentro de 3 anos, se for essa a vontade de Deus. Por isso começamos um fórum aberto a todos, online, amanhã, segunda-feira, às 21:30.

Há ainda outros irmãos que ingressaram no percurso de S. José que é um caminho de catequese de adultos. Também umas dezenas de irmãos aceitaram servir nas equipas de animação do percurso Alpha onde continuam o seu crescimento na fé e no serviço. Novos irmãos entraram como catequistas e outros sentiram o apelo a servir em equipas de acolhimento aos seus irmãos à entrada da igreja para que tudo fosse feito em segurança. E podíamos continuar a celebrar a graça operante de Deus que faz crescer entre nós o seu reino. O que interessa, em primeiro lugar, é o crescimento na vida da graça ou na santidade, mas se este crescimento interior existir, vai provocando, por atração, o crescimento numérico, a não ser que haja forças exteriores que o impeçam.

A visão que nos orienta e produz paixão em nós, é de crescimento e, em S. José, é descrita com o seguinte enunciado: Paróquia de S. José é uma comunidade que nasce do encontro pessoal com Cristo, cresce pela comunhão com Deus e com os irmãos, forma discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.

Tudo começa com o encontro pessoal com Cristo que transforma a vida, mas depois vem o crescimento que se opera na união com o Senhor e na construção de relações fraternas, na formação de discípulos que evangelizam e servem.

A Visão de S. João Batista tem outro enunciado, mas baseia-se no mesmo, pois é o mesmo pároco que não pode ter duas visões. Paróquia de S. João Baptista é uma comunidade orante e acolhedora, enraizada em Cristo, que serve e anuncia o evangelho para a transformação do mundo. Estão presentes os mesmos 5 pontos essenciais que operam o crescimento; a evangelização como prioridade intencional, a vida orante e sacramental, a construção de laços fraternos para vivermos como irmãos, o crescimento ou enraizamento na vida de Cristo e o serviço na comunidade e aos pobres.

Que nós continuemos a preparar o campo e a lançar a semente e Ele faça germinar e crescer a planta sem sabermos bem como. Mas estamos-lhe muito gratos pela sua obra.

Folha Paroquial nº 175 *Ano IV* 06.06.2021 — DOMINGO X DO TEMPO COMUM

No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

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“EVANGELHO (Mc 3, 20-35)

Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, que eles nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois diziam: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode durar. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?». E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe»”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

As leituras de hoje abordam o problema do mal com o qual nos deparamos todos os dias e do qual somos vítimas, mas também fazedores.

Desde o princípio, o homem traz consigo uma inclinação para o mal: tende para o egoísmo, para o orgulho, para o domínio sobre os outros, para a intemperança dos sentidos. Quando dá livre curso aos seus instintos naturais temos as guerras, os abusos da natureza, a força destruidora da poluição, os abusos sexuais, o tráfico de seres humanos, a desigualdade crescente entre ricos e pobres e nunca mais acaba o novelo do pecado que nos destrói. E perguntamo-nos, como o fazem os bispos portugueses, numa nota sobre a pandemia: «Onde foi parar o ser humano?»

Todo o mal feito por uma pessoa a si mesma, ao ambiente e aos outros, atinge a todos, pois «tudo está conectado», diz o Papa Francisco. Somos solidários também no mal, ainda que o não queiramos. O governo, que não acautelou a final do campeonato no campo de Alvalade, ou no Porto, e as pessoas que num lado e noutro, se juntaram, sem máscara, e sem qualquer responsabilidade social, não fizeram um mal só a si mesmos, feriram todo o país que, entretanto, passou para risco amarelo na abordagem do Reino Unido o que vai diminuir em muito o fluxo de turistas empobrecendo o país.

É possível esperar uma vitória sobre o mal? É possível esperar uma vitória sobre o imenso sofrimento causado pelos homens com as suas ações injustas? O cristão dá uma resposta positiva a estas perguntas, e não porque disponha de respostas «racionais» ao problema do mal (que é e continua a ser um problema sem sentido e sem resposta, a que a tradição chamou o mistério da iniquidade), nem dispõe de receitas fáceis para o eliminar, mas porque pode referir-se como modelo a Cristo e à sua resposta: só é possível vencer o mal, contrapondo-o ao bem. Dito de outra maneira: o poder destruidor do mal pode ser vencido, substituindo-o pelo «Reino de Deus». Quem em Jesus e através de Jesus tenha reconhecido em ação a força do amor de Deus aos homens, será também capaz de sentir paixão pelo homem e realizar obras, talvez pequenas em aparência, mas que deixam, no entanto, vislumbrar um mundo mais justo. Quase todos conhecemos pessoas que levadas pelo desejo de mudar as situações de injustiça, de pobreza, de exploração, de agressão ao meio ambiente arregaçaram as mangas e, associando-se a outros, começaram a fazer a diferença. Isto não é ainda o combate contra a raiz do mal, mas é muito necessário pois trata-se do combate contra os sintomas e as consequências do mal. O mal-organizado vai criando estruturas de pecado que são difíceis de combater e que é preciso muita luta para conseguir algumas pequenas vitórias. A escravatura, como sistema, foi e continua a ser, uma poderosa estrutura de pecado. A corrupção endémica em alguns países e também no nosso, é uma poderosa teia de pecado.

Sem deixar de lutar acerrimamente contra estas cadeias destruidoras não podemos esquecer que a luta contra o mal é mais profunda, trava-se no coração de cada um de nós. Não nos damos conta ainda suficientemente da importância do anúncio do Reino de Deus que leva à conversão e transforma as trevas em luz. Mas o que permite que muitos se dediquem ao serviço dos seus irmãos destruindo as consequências do pecado na luta contra as injustiças é o facto de terem conhecido Jesus e a Luz que vem d’Ele e se puseram a combater o mal. Quando Jesus enviou os 72 discípulos à sua frente a todas as cidades e lugares aonde ele devia ir, dando-lhes as instruções de como deviam anunciar o evangelho, eles voltaram cheios de alegria ao verem que, pelo anúncio do evangelho, até os demónios se lhes sujeitavam. Ouçamos o texto: “Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome.» Disse-lhes Ele: «Eu via satanás cair do céu como um relâmpago.» O anúncio do Evangelho faz que Satanás entre em retirada. O seu campo é vencido.

A história dos homens apresenta-se como uma história de ruturas, de egoísmos, como negação da comunhão, como ausência de salvação. As relações que constrói estão frequentemente marcadas pelo ódio, pela violência, pelas divisões. Deus, conhecendo o coração humano e a sua divisão, enviou-nos um salvador para libertar o nosso coração da escravatura do pecado. Ele revela-nos o sentido último da vida humana. Sempre que o homem acolhe Jesus, encontra nele força para sair das cadeias do mal e do pecado. Quanto os homens precisam de o acolher no seu coração para termos um mundo novo!!! Dizia Tony Blair: “sem Cristo, este mundo vai para a ruína”

O Bem vence o mal, sempre que o evangelho entra profundamente no coração de alguém. E essa é a missão principal que Jesus nos confiou.

Folha Paroquial nº 174 *Ano IV* 30.05.2021 — DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança.

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“EVANGELHO (Mt 28,16-20)

Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

A forma como a Liturgia nos propõe a celebração dos mistérios da fé revela a pedagogia de uma mãe cheia de sabedoria que nos quer iniciar no conhecimento de Deus e na relação filial com Ele. Durante o tempo do Advento e do Natal, o Pai envia o Seu Filho que se faz em tudo igual a nós exceto no pecado. Durante o tempo de quaresma e Páscoa, seguimos Jesus, o Filho, que passou fazendo o bem, que os homens mataram e o Pai ressuscitou dos mortos. No Pentecostes, corolário do mistério pascal, o Espírito Santo é-nos apresentado e oferecido como Aquele que continua a obra de Cristo na Igreja e no mundo. Chegados aqui, supõe-se estarmos mais bem preparados para saber quem é o nosso Deus e quanto Ele nos ama. A Festa da Santíssima Trindade, resumindo toda a história da salvação, convida-nos a uma vibrante sinfonia de louvor, glória e ação de graças a este Deus uno e trino por tudo o que fez e faz por nós.

A mensagem central que ressalta da festa da Santíssima Trindade é que o nosso Deus não é um Deus longínquo, abstrato, mas um Deus próximo, que vem partilhar as nossas dores e alegrias e nos convida, também a nós, a estarmos atentos às dores e alegrias dos nossos irmãos, comprometendo-nos com eles como Ele se comprometeu connosco, em Cristo, até à morte na cruz.

Um rabino judeu, chamado Elie Jean Marie Setbon, converteu-se há tempos ao catolicismo e fez-se batizar. Escreveu um livro chamado “do Kippa à cruz”. Numa entrevista, fizeram-lhe a seguinte pergunta: Os cristãos têm o mesmo Deus que os judeus ou os Muçulmanos? Ele respondeu: «Sim e não». «Sim» porque há um só Deus e, portanto, só pode ser o mesmo; «não», se confrontamos as imagens que temos de Deus. Para um judeu, é impensável ter relações pessoais com Deus, chamando-O «Pai»; nem se deve sequer dizer o seu nome, por respeito.» Ora Jesus diz-nos: «Quando rezardes dizei: “Pai Nosso”. Para o cristão, é mesmo essencial fazer a experiência do encontro pessoal com Jesus, no Espírito Santo, e quando isto acontece fazemos a experiência mais admirável que se pode fazer nesta terra: a experiência de sermos filhos de Deus e de sussurrarmos interiormente a relação filial que temos com ele dizendo «Abba, Pai», ao jeito de Jesus, porque é o Espírito de Jesus que nos inunda e «dá testemunho ao nosso espírito que somos, de facto, filhos de Deus».

O facto de Deus ser Trindade de amor, ser relação, ser família, tem implicações profundas para nós, seus discípulos. Sendo criados por um Deus que é relação de pessoas, também em nós existe o apelo à comunhão. «Não é bom que o homem esteja só». Por isso, “aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente” (LG,9). A Igreja só testemunha o mistério de Deus quando, no seu seio, se vivem relações de comunhão e ela se torna sinal e sacramento de unidade para todo o género humano. A encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, é um grande serviço da Igreja ao mundo, pois a sua missão é ser sinal, mas também instrumento da unidade de todos os homens.

Para uma nova evangelização, é fundamental que as paróquias se estruturem para uma maior vivência da comunhão fraterna. O acolhimento a todos os que chegam à porta da igreja e em todos os lugares onde se acolhe, a construção de grupos de dimensão familiar que se reúnem quinzenal ou mensalmente para orar, partilhar a palavra e viver a dimensão fraterna, o serviço em grupo aos pobres, as ações comuns de evangelização, a liturgia participativa – mudará, pouco a pouco, o rosto da igreja vista tantas vezes como uma instituição que oferece serviços religiosos para passar a ser vista e experimentada como uma família espiritual onde todos são entusiasticamente acolhidos e encontram o seu lugar de pertença. Mas, ao mesmo tempo, somos chamados a trabalhar com todos os que não se sentem parte da igreja para com eles construir a unidade e a paz.

Neste dia da Santíssima Trindade celebramos, na Igreja de Coimbra, o dia da Igreja Diocesana, pois a Igreja é a melhor imagem da Santíssima Trindade. O tema deste dia é: Diocese de Coimbra, jovem com os jovens. A Igreja, embora fundada há mais de dois mil anos, é constantemente rejuvenescida pelo Espírito que lhe deu o impulso inicial e que continuamente a impele a deixar-se renovar. Os jovens dão à igreja esse rosto juvenil, sonhador, cheio de esperança no futuro que a provoca continuamente a ir mais além. Por isso uma comunidade cristã, sem jovens, fica empobrecida e corre o risco de deixar de sonhar e se instalar. Que o Plano Pastoral que vai ser dado à Diocese, sobre os jovens, desperte todas as comunidades para uma pastoral que os integre tornando-os corresponsáveis na sua missão evangelizadora.

Folha Paroquial nº 173 *Ano IV* 23.05.2021 — DOMINGO DE PENTECOSTES

Mandai, Senhor o vosso Espírito, e renovai a terra.

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“EVANGELHO (Mc 20,19-23)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

No Domingo passado, na Ascensão, a propósito do mandato missionário do final do evangelho de Marcos, lembrámos que os outros evangelistas Sinópticos, Mateus e Lucas, terminam todos com o mesmo mandato evangelizador, e em todos Jesus promete a sua presença. Em Mateus, Jesus diz que estará com eles todos os dias até ao fim dos tempos (Mt 28,20); em Marcos, é dito que o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam (Mc 16,20); e em Lucas, Jesus afirma-lhes que «Vou mandar sobre vós o que o meu Pai prometeu. Entretanto permanecei na cidade até serdes revestidos da força do Alto.» (Lc 24,49). Hoje, Domingo de Pentecostes, ouvimos o mandato missionário em S. João: «“Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”».

Nunca será demais dizê-lo: Evangelizar é a missão fundamental da Igreja. Ela existe para evangelizar. Não é uma insistência do nosso tempo, é um mandato bem explícito de Jesus que nenhum evangelista esqueceu de transmitir, pois era demasiado importante. Mas, ao mesmo tempo, é preciso nunca esquecer que o primeiro agente da evangelização é o Espírito Santo. Sem Ele, a evangelização seria uma propaganda. «Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo».

O Espírito impele-nos a «fazer-nos ao largo», a sairmos ao encontro do mundo, a irmos de casa em casa, a proclamarmos de todas as formas possíveis que Jesus está vivo, que, quando lhe abrimos o coração, uma nova vida acontece. Deus ama os homens e quer o seu bem e a sua salvação. O Espírito leva-nos a não nos fecharmos nos nossos interesses pessoais, mas a acreditarmos que vale a pena sermos generosos com a nossa vida, o nosso tempo e o nosso dinheiro na missão que Ele nos confia de chamar as pessoas à relação com Ele, pois quer que todos saibam que são amados infinitamente. Ao mesmo tempo, chama-nos a sermos construtores da Igreja como casa de comunhão onde todos aprendemos a amar e a servir com humildade. Quando o decidimos fazer, Ele vem em nosso auxílio e desenvolve em nós capacidades espirituais e humanas que desconhecíamos a que chamamos «dons» ou «carismas», como fala a segunda leitura. Esses dons são para o crescimento do Corpo que é a Igreja e, embora possam estar ligados a talentos naturais, vão muito mais além do que eles. São uma graça específica de Deus para a edificação da comunidade. Esses dons já se notam em muitos irmãos e precisam de ser valorizados e agradecidos. Os versículos que hoje ouvimos na segunda leitura fazem parte dos capítulos 12 a 14 da Carta aos Coríntios onde Paulo faz uma reflexão alargada sobre os dons e carismas para a edificação do Corpo de Cristo, dizendo que a distribuição destes dons é diversificada e que nem todos possuem este ou aquele carisma mas que Deus distribui-os a cada um conforme quer. Aquele que os recebe e que são confirmados pelos irmãos, deve recebê-los com gratidão e humildade colocando-se generosamente ao serviço da comunidade, pois foi para isso que lhe foram dados. Por conseguinte, os carismas são concedidos pelo Espírito Santo a determinados fiéis, a fim de os tornar capazes de contribuir para o bem comum da Igreja. A variedade dos carismas corresponde à variedade de serviços, que podem ser momentâneos ou duradouros, privados ou públicos. Quando um serviço se torna duradouro e recebe uma chancela de reconhecimento público da Igreja, chama-se ministério. Em primeiro lugar vêm os ministérios ordenados e depois os ministérios laicais. O Papa Francisco abriu à igreja a possibilidade de os leigos serem instituídos em novos ministérios reconhecidos. Entre os ministérios laicais recordamos aqueles instituídos com rito litúrgico: o leitorado e o acolitado. Depois, vêm os ministros extraordinários da comunhão eucarística e, recentemente, o Papa Francisco abriu a possibilidade de novos ministérios como o de catequista e de vários outros. Imagino uma Igreja ministerial em que cada um vive de uma forma entusiasmada o mandato que o Senhor nos deu de evangelizarmos e servirmos com alegria e amor. Na visão da paróquia de S. José, é dito: «Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos, fazemos discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.» E na de S. João Baptista está escrito: «Somos uma comunidade orante e acolhedora, enraizada em Cristo, que serve e anuncia o evangelho para a transformação do mundo.» Em cada visão está bem patente a negrito esta imagem do futuro de uma igreja que serve e evangeliza. Que o Espírito Santo nos inunde e o sonho se torne realidade concreta, pouco a pouco.