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Folha Paroquial nº 190 *ANO B* 17.10.2021 — DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM

Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.

A folha pode ser descarregada aqui.

EVANGELHO ( Mc 10, 35-45 )
Naquele tempo, Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?». Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o batismo com que Eu vou ser baptizado?». Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser batizado. Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas, e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

APRESENTANDO O PLANO PASTORAL
A TODA A UNIDADE PASTORAL

No sábado, dia 9, esteve reunido o Conselho Pastoral da UP com os Conselhos Económicos e responsáveis de vários grupos onde se apresentou a Visão da UP e o Plano Pastoral. Ficou claro que, se quisermos que o plano tenha impacto nas paróquias, é fundamental que a comunidade toda o conheça, se aproprie dele, e se entusiasme com o que pode acontecer se o pusermos em prática. Por outro lado, quando a comunidade começa a ver coisas novas a acontecer, dá-se conta de que algo se passa e também deseja colaborar com entusiasmo para que a Igreja responda melhor ao que Deus espera dela nos tempos atuais.

Na semana passada dissemos já que o Plano está construído sobre os cinco essenciais da vida cristã. E lembrámos quais eram:

A oração e os sacramentos que nos permitem viver em união com Deus crescendo na alegria e na esperança;

A vida fraterna, que nos leva a juntarmo-nos à família de Deus e a tecer com ela laços de comunhão e de amor fraterno;

A formação do discípulo, que nos transforma e nos torna adultos na fé;

O serviço, que permite exercer os nossos dons e os nossos talentos ao serviço dos outros;

A evangelização, que consiste no anúncio do amor de Deus àqueles com quem nos cruzamos no dia a dia.

Quer isto dizer que, vivendo cada um destes aspetos essenciais para o crescimento de um discípulo ou de uma comunidade de discípulos, tanto cada um particularmente como a comunidade só pode crescer e frutificar.

Para entendermos bem cada um vamos explicá-los durante o ano, à razão de um essencial por mês, terminando em cada mês com um símbolo que permanecerá na igreja.

A ordem que usamos é mais ou menos arbitrária. Mas, como estamos no Dia Mundial das Missões, começamos por aquele essencial que na ordem que expus em cima vem em último lugar.

1º Essencial da vida cristã: A Evangelização
Evangelizar constitui a missão essencial da Igreja (…) a sua graça e vocação própria, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar” (nº 14 da Evangelli Nuntiandi de Paulo VI)

A Igreja evangeliza em primeiro lugar porque o Senhor Jesus a mandou, ou melhor, nos mandou a todos, quando disse antes de partir para o céu: «Ide por todo o mundo, fazei discípulos de todos os povos, batizai-os e ensinai-os a cumprir tudo quanto vos mandei.» Uma outra razão é-nos recordada pelo Papa Francisco na mensagem para o Dia Mundial das Missões que hoje celebramos e que é o tema da semana: «Não podemos deixar de anunciar o que vimos e ouvimos». Isto é, quem já conheceu o Senhor e fez a experiência do seu amor, sabendo que “Ele enche o coração e a vida de todos os que se deixam encontrar por Ele”, seria capaz de não falar dele aos outros? Seria como ver alguém que tivesse conhecido uma fonte num oásis do deserto e não indicasse o caminho dessa fonte a quem encontra a morrer de sede pelo caminho.

Mas, se evangelizar fosse fácil, todos os cristãos seriam evangelizadores e não seria preciso estarmos sempre a lembrar esta nossa missão de cristãos.

Temos de confessar que, mesmo para aqueles que têm uma grande experiência de amizade com o Senhor e que sabem que conhecê-lo, ou não o conhecer, não é a mesma coisa, e faz toda a diferença na vida de alguém, mesmo para esses, a evangelização tem de ser uma decisão forte levada pela obediência à Palavra de Deus e ao desejo de que muitos conheçam a alegria que é o encontro com Cristo.

Quais os obstáculos que sentimos à evangelização?

1º Não fomos formados nisso. Não fez parte, durante muito tempo, da nossa cultura católica o falar de Deus aos outros e comunicá-lo. Isso era para uma elite a que chamávamos «os missionários» que iam para povos distantes levar o Evangelho aos pagãos. Nós sentíamo-nos em território não necessitado de evangelização.

2º O confundirmos evangelização com proselitismo. Evangelizar é um ato de amor que consiste em partilhar àqueles com quem me cruzo uma Boa Notícia que me deu alegria, como fazem os pais quando lhes nasce um filho. Neste caso, a Boa Notícia é Jesus Cristo que o evangelizador encontrou. Trata-se sempre de uma proposta e nunca de uma imposição.

3º: Na nossa cultura laicista, a questão de Deus passou para a esfera íntima, para a opção interior de cada um e, por isso, causa um certo desconforto a alguns crentes que gostariam de transmitir a sua fé a outros e entrar nesse domínio. No entanto, quando ultrapassamos esse desconforto e convidamos alguém para, por exemplo, fazer um percurso Alpha e encontrar-se com Cristo, as pessoas agradecem muito ter-lhes feito o convite. A pessoa permanece sempre livre de aceitar ou rejeitar.

4º Alguns dizem: “Para quê evangelizar?” O melhor cristão não será aquele que vive a sua fé, no seu íntimo, que reza, que faz o bem, sem andar a perturbar ninguém? A pergunta que podemos colocar a quem diz isto é a seguinte: Mas como é que essa pessoa que vive a fé no seu íntimo a obteve? Alguém certamente lhe falou de Deus, pois se isso não tivesse acontecido, ela não teria fé. Sempre que há um crente é porque alguém, uma ou geralmente muitas pessoas, não se calaram, pois se acontecesse um dia nós deixarmos de evangelizar acabaria a fé no mundo, pois a fé nasce da escuta da Palavra de Deus que nos vem através de outros que a escutaram.

Por isso, por amor das pessoas, e por obediência ao mandato do Senhor, devemos vencer as nossas resistências interiores e trabalharmos na Missão de fazer discípulos e ensiná-los a cumprir o que o Senhor nos mandou.

No Dia Mundial das Missões, é importante repetir o que diz o Papa Francisco, que «eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo» (Eg273)

Continuaremos no próximo Domingo.

Folha Paroquial nº 189 *Ano IV* 10.10.2021 — DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM

Enchei-nos da vossa misericórdia: será ela a nossa alegria.

A folha pode ser descarregada aqui.

EVANGELHO ( Mc 10, 17-30 )
Naquele tempo, ia Jesus pôr-Se a caminho, quando um homem se aproximou correndo, ajoelhou diante d’Ele e perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?». Jesus respondeu: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’». O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude». Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. Então Jesus, olhando à sua volta, disse aos discípulos: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!». Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus afirmou-lhes de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro começou a dizer-Lhe: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna».

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

A verdadeira Sabedoria que vem de Deus é aquela que nos ajuda a discernir e a escolher o caminho que nos leva a viver bem a vida dando atenção ao que é realmente importante e não nos deixarmos enganar pelo que, às vezes, pode ser mais sedutor e mais fácil, mas que se torna enganoso e pouco ou nada frutuoso. O homem que se aproxima de Jesus e lhe pede ajuda para saber como alcançar a vida eterna já não tem o coração livre para escolher o melhor bem. Já estava aprisionado pela riqueza como o seu bem maior. Mas foi-se embora triste porque o dinheiro ou as riquezas enchem os bolsos, mas não enchem o coração de ninguém.

A verdadeira felicidade está em amar, em dar e em dar-se. É aí que se encontra a verdadeira sabedoria, bem mais preciosa que todos os bens deste mundo.

A missão da Igreja consiste em apresentar ao mundo o Evangelho de Jesus que nos ajuda a ver os enganos a que somos levados e a escolher o verdadeiro bem.

No sábado, várias pessoas da Unidade pastoral estiveram reunidas no aprofundamento da visão das paróquias e no estudo do plano pastoral que apresenta os objetivos pastorais para os próximos três anos.

A definição de uma visão para as paróquias foi um trabalho longo da Equipa de Animação Pastoral.

O que é uma visão?

Podemos defini-la como uma imagem do futuro dada por Deus que produz esperança e paixão nas pessoas. Formar uma visão é uma experiência espiritual e humana.

Uma visão é-nos dada sempre diante da insatisfação dos discípulos-missionários que amam a Igreja e que sentem que «isto podia ser melhor». Quando ouvimos o Papa Francisco, sentimos que ele tem uma imagem do futuro cheia de esperança para a Igreja e trabalha imenso para que ela se torne um dia realidade. S. Francisco de Assis ouviu um dia uma voz que lhe dizia: «Francisco, vai e reconstrói a minha igreja que, como vês, está em ruínas». Pensando que se tratava da igreja de S. Damião, em ruínas, ele põe-se a construí-la, mas a voz de Deus no seu coração continuava a ressoar com o mesmo apelo. Francisco percebe então que a Igreja que está em ruínas não é a de S. Damião- essa seria fácil de reconstruir – mas é a igreja de Cristo. Francisco recebe então de Deus a imagem de uma igreja restaurada pela pureza do evangelho e pelo desprendimento e pela vivência da alegria e da fraternidade. E é a construção dessa imagem do futuro que dará à sua vida uma paixão enorme que outros quiseram seguir. E quanto a Igreja foi restaurada e vivificada pela visão revolucionária de Francisco de Assis!

Na visão das paróquias da Unidade pastoral está a imagem atrativa e que produz entusiasmo em nós ao imaginarmos comunidades fraternas e acolhedoras, que tendo feito a experiência do encontro pessoal com Cristo, na força do Espírito Santo, se dispõem a servir a comunidade colocando ao serviço da mesma os seus dons, talentos e bens, e todos a sentirem-se enviados ao mundo para lhe levar o fermento do evangelho. “O ide e fazei discípulos”, é uma frase central desta imagem.

Na construção desta imagem há a ideia de processo, isto é, de etapas. A conversão pessoal e a mudança dos corações e das comunidades não acontece de repente; é um caminho às vezes lento que conduz de uma etapa à outra.

No enunciado da visão de S. José, esta ideia de processo é bem evidente: Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos, formamos discípulos que dão fruto pelo serviço e pela evangelização.

Mas tanto a visão de S. José como a de S. João Baptista, que no fundo são a mesma, estão construídas sobre os cinco essenciais da vida cristã que são, de uma forma resumida os seguintes:

A oração e os sacramentos que nos permitem viver em união com Deus crescendo na alegria e na esperança;

A vida fraterna, que nos leva a juntarmo-nos à família de Deus e a tecer com ela laços de comunhão e de amor fraterno;

A formação do discípulo, que nos transforma e nos torna adultos na fé;

O serviço, que permite exercer os nossos dons e os nossos talentos ao serviço dos outros;

A missão, que consiste no anúncio do amor de Deus àqueles com quem nos cruzamos no dia a dia.

Um discípulo, ou um grupo de discípulos, ou uma comunidade, para estar em processo de crescimento precisa de vive equilibradamente estes cinco aspetos essenciais da vida cristã e, se deixa para trás algum, o corpo já não funciona bem. Sabemos que no corpo humano basta que um dente nos doa para que já não nos sintamos bem.

Para realizar esta visão, construiu-se um plano, para três anos, estruturado sobre os 5 essenciais e que inclui os grandes objetivos e dinamismos do Plano Diocesano, voltado para os jovens, mas vai além dele e propõe objetivos para o crescimento de todos. É difícil aqui na folha colocar esses objetivos e ações enumeradas, mas o Plano vai estar à disposição de todos online. Neste processo, por etapas, somos convidados a olhar para a situação de cada pessoa no seu caminho de fé e ver como as podemos ajudar a dar um passo em frente, passando para a etapa seguinte, até chegarem a discípulos-missionários. Na próxima semana apresentaremos esse processo.

Estes processos e etapas e tudo o mais que constitui o esforço humano vem tudo em segundo lugar em relação ao primado da graça. Só Deus converte, só Ele pode fazer com que os nossos pobres esforços humanos na construção da Igreja produzam algum fruto, pois, como Ele disse: «Sem Mim nada podeis fazer». Por isso a adoração eucarística permanente nas nossas paróquias é tão importante, bem como todo o tipo de oração que fizermos para que o reino de Deus cresça e os corações se abram à graça de Deus. Oremos uns pelos outros e peçamos a Deus pelos bons frutos da catequese familiar para que Deus abra o coração de pais e filhos e as famílias se tornem verdadeiros lares de amor onde Deus seja amado e reconhecido. Rezemos para que se levante na nossa Unidade Pastoral e em toda a Diocese um grande entusiasmo no trabalho com os adolescentes e jovens, primeiro objetivo do nosso plano, oremos também por todos os que trabalham com o primeiro anúncio da fé, como é o caso do percurso Alpha adultos e Alpha jovens, para que a luz divina ilumine os corações dos que aceitaram fazer essa experiência de fé. Oremos pelos que fazem um caminho de crescimento e enraizamento na fé, nas células paroquiais de evangelização, ou no percurso de catequese de adultos chamado S. José, ou no percurso bíblico que irá começar no Advento.

Oremos pelos que trabalham na Liturgia, servindo a comunidade para que ela celebre bem a glória de Deus e possa «ver o invisível». Oremos pelos que servem no ministério do acolhimento fraterno, para que sejam o rosto de Deus e da comunidade que acolhe à porta da Igreja e dizem a todos a alegria de Deus e dos irmãos em acolhê-los na casa de todos, pois é a casa da família.

Quando nos voltamos para Deus com fé, podemos ver os milagres da graça divina.

Folha Paroquial nº 188 *Ano IV* 03.10.2021 — DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM

O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida.

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EVANGELHO ( Mc 10, 2-16 )
“Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova e perguntaram-Lhe: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério». Apresentaram a Jesus umas crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo as mãos sobre elas”.

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Não separe o homem o que Deus uniu
Estamos a celebrar o 5º aniversário da Exortação Apostólica Amoris Laetitia (a Alegria do Amor) do Papa Francisco e, por causa disso, estamos a viver o ano da família. As leituras deste Domingo ajudam-nos a refletir sobre esta grande instituição de sempre que é a família.

Numa reflexão homilética, não é possível tratar de uma forma abrangente um tema tão importante e por isso farei pouco mais do que a análise dos textos bíblicos.

Uma das situações onde se nota mais a mudança cultural do nosso tempo é na compreensão do casamento como lugar estável da vivência da relação conjugal de um homem com uma mulher. Mesmo nos jovens cristãos que frequentam os grupos das nossas paróquias, muitos deles não vêm a necessidade do casamento como fundamental para a vivência dessa relação ou, se pensam nela, retardam-na para mais tarde, depois de se conhecerem bem. O casamento para toda a vida, já não é uma perspetiva para a esmagadora maioria dos jovens. E penso que muitos deles nem sequer se interrogam sobre o que Deus diz sobre isso, pois o pensamento cultural que os envolve é tão forte e tão avassalador que lhes parece ser a resposta normal. Como diz o Papa na Amoris Laetitia, «Muitos não sentem a mensagem da Igreja sobre o matrimónio e a família como um reflexo claro da pregação e das atitudes de Jesus, o qual, ao mesmo tempo que propunha um ideal exigente, não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera.» Ora, esta deve ser a atitude da Igreja. «Não podemos renunciar a propor o matrimónio, para não contradizer a sensibilidade atual, para estar na moda, ( …) estaríamos a privar o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer» (…) É-nos pedido um esforço mais responsável e generoso que consiste em apresentar as razões e os motivos para se optar pelo matrimónio e pela família, de modo que as pessoas estejam melhor preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece». (AL, 35)
As leituras deste Domingo convidam-nos a ir ao princípio, onde tudo começou, ao projeto divino da criação, ao plano de felicidade que Deus pensou para a humanidade. E nesse plano está o casal humano e a família. Olhemos um pouco para as leituras.

Deus criou o ser humano à sua imagem; homem e mulher o criou

A 1ª leitura situa-nos nos primeiros capítulos do 1º livro da Bíblia, o Génesis, um livro que faz parte daquilo a que se chama «sabedoria», quer dizer, não é história, mas reflexão. No 2º século antes de Cristo, provavelmente na corte de Salomão, um teólogo sentia-se inundado de questões: «Porquê a morte? Porquê o sofrimento? Porquê as dificuldades no casal? E todas as dificuldades com as quais nos enfrentamos tantas vezes – Para responder, ele contou uma história como Jesus contava parábolas. O autor não é um cientista, é um crente. Ele não pretende responder-nos ao quando e ao como da criação: Ele diz o sentido, o projeto de Deus. A parábola de hoje tenta compreender e situar a relação conjugal no plano de Deus. E como todas as histórias e parábolas, ele emprega imagens: o jardim, o sono, o lado. Sob estas imagens prefigura-se uma mensagem para todos os tempos e para toda a humanidade em geral. A expressão Adão quer dizer terreno, feito do pó, não é um nome pessoal.

E qual a mensagem teológica deste texto?

Resumo-a em 4 pontos:

1º: A mulher faz parte da criação desde a origem (o que na Mesopotâmia não era evidente). Ela é um dom de Deus e o homem não pode ser feliz sem ela nem a humanidade ser completa.

2º: O projeto de Deus é a felicidade do homem. A expressão: “não é bom que o homem esteja só”, significa que Deus procura a alegria e felicidade de cada pessoa.

3º: É uma afirmação muito importante e inovadora na Bíblia: a sexualidade é boa pois faz parte do projeto de Deus. É um dado muito importante para a felicidade do homem e da mulher.

4º: O ideal proposto ao casal humano não é o domínio de um sobre o outro, mas a igualdade no diálogo; e quem diz diálogo, diz ao mesmo tempo distância e intimidade.

No evangelho colocam uma pergunta a Jesus sobre o divórcio e Jesus condu-los ao plano original de Deus que é narrado na 1ª leitura: «Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou.» A verdadeira vocação do casal é ser imagem de Deus e é porque são imagem de Deus que «o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serem um só». Se o casal humano é imagem de Deus deve ser indivisível e indissolúvel e Jesus tira a conclusão lógica: «O que Deus concebeu na unidade não o separe o homem».

O divórcio é, pois, contra a vontade de Deus. Este é o ideal irrenunciável, mas quando se vive na realidade concreta, por causa da dureza do nosso coração e da nossa fragilidade, muitas vezes não se consegue o ideal. Não podemos condenar ninguém por não conseguir viver esse ideal, que noutros campos, nós também não conseguimos. Daí o Papa Francisco com a publicação da Amoris Laetitia ter aberto a porta à possibilidade de uma plena integração na comunidade cristã, incluída a comunhão eucarística, a casais que tendo falhado o primeiro casamento e contraindo um segundo pelo civil, testemunham uma estabilidade na sua relação conjugal da qual nasceram filhos, e tudo parece que este casamento é para durar. Na nossa UP já vários casais têm feito com o sacerdote um tempo de acompanhamento e discernimento até ao dia em que começam a comungar.

Mas, é verdade que viver uma relação a dois não é fácil. Por isso, os discípulos dizem a Jesus: “Se é assim tão difícil o casamento, vale mais nem se casar”- é a conclusão de muitos jovens e, por isso, optam por não se comprometerem no casamento. Vão vivendo a prazo, até que der, em vez do clássico «até que a morte nos separe». Mas pode o amor conceber a sua existência a prazo? Carolina Deslandes, na sua canção «a vida toda», canta como refrão: “Ali, eu soube que era amor para a vida toda, que era contigo a minha vida toda, que era um amor para a vida toda”. Mas, como disse, mesmo se esse é o desejo dos amantes, se a realidade da construção da unidade num casal fosse fácil a questão do divórcio não se colocava. E se sempre foi difícil, hoje, por causa da mentalidade de hoje, é mais difícil. Vivemos numa cultura que se centrou no indivíduo, e o casal são dois. Isso dificulta logo a convivência. Só pela graça de Deus se pode entrar no mistério do amor e das suas exigências. Entregues às nossas forças, não conseguimos responder ao desígnio do criador. A palavra mistério (grega) diz-se em latim sacramento. O sacramento do matrimónio é o dom da graça de Deus para o casal se amar com o amor vitorioso de Deus que é maior do que a morte. O matrimónio é infinitamente mais do que um casamento civil na igreja, é um dom extraordinário da graça que os habilita a amarem-se de um amor que tudo vence em Cristo, mas, para que o sacramento do matrimónio seja eficaz, tem de ser celebrado e vivido na fé. Sem fé, o sacramento não funciona.

Como é belo quando presidimos a uma celebração do matrimónio de um casal com fé!

Quanto ainda temos de caminhar na preparação dos noivos para o casamento! E no acompanhamento nos primeiros anos.

Na Unidade pastoral estamos a formar uma nova equipa de pastoral familiar para ir acompanhando a situação das famílias e proporcionar alguns instrumentos para ajuda dos casais nas diversas fases da sua caminhada: temos agendado um novo percurso de casamento conhecido por “ela e ele”, embora o nome tenha mudado para «curso de casamento», e queremos começar, ainda este ano, o percurso para noivos que dura 8 semanas.

Com o percurso para noivos, queremos ajudá-los a prepararem-se para o matrimónio. Com o curso de casamento, desejamos acompanhar os casais, casados, há pelo menos 5 anos. Com o curso “Amor e Verdade”, desejamos apontar o caminho sólido do enraizamento em Cristo do casal cristão para viverem a santidade na família.

Que a comunidade cristã toda se empenhe na oração e na ajuda que puderem ao casal e à família, tarefa difícil mas da qual não devemos desistir pela importância que tem para a felicidade de cada um, para a Igreja e para o bem da sociedade.

Folha Paroquial nº 187 *Ano IV* 26.09.2021 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Os preceitos do Senhor alegram o coração.

A folha pode ser descarregada aqui.

EVANGELHO ( Mc 9, 38-43.45.47-48 )
Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Quem de nós já não se deu conta que um dia, a ouvir falar do sucesso de outra pessoa amiga, do reconhecimento que lhe foi dado na escola, na empresa, na Igreja, em vez de ficar contente e feliz por ela, paradoxalmente, não sentiu a alegria que era razoável que sentisse e, por vezes ficar mesmo irritado e deixar de ver naquela pessoa uma amiga? Às vezes a própria pessoa pode saber que é um sentimento que não devia ter mas não consegue evitá-lo. Enquanto for só um sentimento não há um grande mal pois os sentimentos não os podemos evitar. O pior é que, por vezes, não contrariamos os sentimentos e agimos conforme sentimos. Quando assim é, entramos numa espiral de tristeza, revolta, inimizades, vingança e rancor.

A inveja é um sentimento vivido na relação com outra pessoa e que traduz uma incompletude. É um sentimento de falta experimentado na comparação com a outra pessoa. Ela sente um forte desejo de possuir os atributos dessa outra pessoa; A sua beleza, a sua inteligência, os seus dons, o seu reconhecimento, o facto de ser respeitada, amada querida etc. Quando nos deixamos possuir pela inveja depois há uma torrente imparável de outros pecados que vêm juntos, é como um demónio que traz consigo uma legião. Por isso é que é chamado pecado capital, mas também podia ser chamado pecado-raíz, pois está na génese, na raíz de outros.

Esta introdução tem a ver com o que os textos de hoje nos apresentam sobre Moisés e Jesus. Moisés está numa situação de crise. O povo está farto do Maná e tem saudades das panelas de carne e das cebolas que comia à vontade no Egipto. E todos choram à entrada da sua tenda. Por outro lado, Deus, na expressão do livro dos Números, fica encolerizado com o povo. E Moisés tem o povo que chora e Deus que está triste com o povo que não quer lutar para ser livre. Moisés queixa-se então a Deus do fardo que Ele lhe Pós ás costas que é demasiado pesado para Ele e pede que o tire da terra dos vivos.

Deus pensa então em dar-lhe uma equipa de homens que leve com Moisés o peso da responsabilidade pastoral de uma forma partilhada. Podíamos chamar-lhe hoje uma equipa de liderança. Moisés escolhe 70 homens com dons e competências diversas para o ajudar na responsabilidade do povo, não apenas como tarefeiros, mas com uma responsabilidade partilhada. No dia marcado os homens estão reunidos na Tenda e Deus vem dar-lhes o Espírito que até aí habitava só em Moisés. Mas houve dois deles que não compareceram ficando no acampamento. Quando o Espírito foi derramado não só os que estavam na tenda o receberam, mas também os outros dois que ficaram no acampamento. Então Josué pede a Moisés para os proibir de fazer parte da equipa escolhida por Deus para liderança do povo. O mais encantador é que Moisés sabe discernir a inveja no coração de Josué e diz-lhe: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!»
Nesta resposta vemos o coração grande de Moisés! Ele não está nada preocupado consigo, com a sua grandeza, com o seu estatuto ou com a sua glória. Ele só quer o bem do povo! Que seja bem servido.

Mais ainda! Ele não exclui ninguém no seu coração. Muito antes de se ter um conceito de democracia já Moisés parece exprimir o desejo de que todo o povo, sem exceção, beneficie dos dons de Deus.

O profeta Joel, mais tarde virá afirmar que isso se irá realizar n’Aquele dia em que todo serão cheios do Espírito Santo. A Igreja viu no Pentecostes a realização deste desejo de Moisés e da profecia de Joel.

Moisés manifesta-se como um verdadeiro líder e pastor do seu povo. Alguns versículos mais em baixo, no mesmo livro dos Números é dito: «Moisés era um homem muito humilde, mais do que nenhum homem sobre a face da terra»(Num 12,3) E a prova é que ele se alegra sinceramente de não ser mais o único a suportar o peso da responsabilidade e ter outros consigo para partilhar o governo do povo e de não ter mais o monopólio da liderança. Ele sabe que agora, além de escutar a voz e Deus, deve ouvir os outros e decidir solidariamente e não sozinho. Aceita com humildade não controlar tudo pois o povo não lhe pertence, mas pertence a Deus. Imaginemos, por instantes, que Moisés caía na tentação de ver os outros como concorrentes e que lhe poderiam tirar a sua liderança e apreço junto do povo! Adivinhamos os problemas, as divisões, as discussões e contendas que daí adviriam? Muitas guerras que acontecem hoje vêm daqui: Uma questão de poder ameaçado.

No evangelho temos uma atitude semelhante à de Josué da parte de João que fala em nome dos outros discípulos: «Mestre nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». E Jesus responde de forma semelhante a Moisés:” Não o proibais; (…) Quem não é contra nós é por nós» Jesus reprova o espírito exclusivista dos discípulos.

Muitas vezes os líderes têm receio de partilhar a sua liderança porque temem perder o controle das coisas. A razão é que podemos ter a tentação de sermos proprietários do povo e não servidores. O medo pode paralisar-nos quando nos sentimos ameaçados e então pode haver a tentação de continuar numa liderança a sós onde todos perdem e as coisas não avançam.

Na Diocese de Coimbra já há alguns anos foi pedido aos párocos que se rodeassem de uma equipa de liderança a que se chamou de «equipa fraterna de animação pastoral». As orientações diocesanas explicam que se trata de “um órgão local de corresponsabilidade eclesial, de âmbito paroquial ou de unidade pastoral, que programa, dinamiza, anima, acompanha e avalia tudo o que diz respeito à vida da respetiva paróquia ou unidade pastoral.” As suas competências são: “escutar, observar, reler na fé os acontecimentos que marcam a vida pastoral da comunidade (paróquia, unidade pastoral ou outra), na relação com as orientações diocesanas e com o mundo que a envolve, discernir e dinamizar a ação pastoral local.”

A equipa de animação pastoral de S. José-S. João Baptista, formada por 9 pessoas, reúne com o pároco todas as terças-feiras e tem sido uma bênção para este que se sente muito apoiado nas competências diversas dos seus membros que trazem para a equipa “maneiras diversas de ver as coisas” que só podem enriquecer o serviço das comunidades.

Mas existem na paróquia muitas equipas de liderança dos diversos grupos com um responsável à frente. A equipa Alpha de cada paróquia, a equipa de catequistas, a equipa dos líderes de células, a equipa de casais, a equipa dos líderes do escutismo, do ASJ e outras. O exemplo de Moisés pode fazer-nos refletir a todos pois ninguém está isento das tentações de poder que criam agendas escondidas, críticas silenciosas e depois abertas, geram tristeza e desalento e matam relações que eram de amizade e fraternidade.

Folha Paroquial nº 186 *Ano IV* 19.09.2021 — DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

O Senhor sustenta a minha vida.

A folha pode ser descarregada aqui.

EVANGELHO ( Mc 9, 30-37 )
Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia. Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?». Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

A liderança na igreja
Estamos a começar um novo ano pastoral e muitos cristãos, nas paróquias, estão a assumir, uns pela primeira vez, outros na continuidade do que já faziam, ministérios de corresponsabilidade na missão da Igreja. É uma missão de liderança cristã. São catequistas de crianças, animadores de adolescentes, de jovens, de pais da catequese familiar; São os membros das equipas de animação dos percursos Alpha, os líderes das várias células da Unidade Pastoral e são os animadores do percurso de casais. São ainda os membros do Conselho pastoral em formação, são os membros dos Conselhos para os assuntos económicos, são os responsáveis dos coros, animadores da ação social e ainda os membros da equipa de animação pastoral que bem podia ser chamada equipa de liderança. E não esgotei a lista.

Há quem não goste muito da palavra liderança associada à missão da Igreja, pois ligam-na mais ao mundo empresarial. No entanto, as palavras que usamos têm a sua evolução e algumas entram no vocabulário de todos os dias sendo difícil fugir a elas para nos entendermos melhor.

O que é um líder? Podemos dizer que líder é todo aquele ou aquela que tem capacidade de exercer alguma influência na vida de outros. Essa influência pode vir do cargo de responsabilidade que ocupa, mas pode vir também apenas do exemplo que dá, da aceitação que tem nos outros e que faz com que os outros o sigam e o escutem. Há pessoas que dizem genuinamente que não querem ser líderes e recusam assumir uma responsabilidade formal de estar à frente de um grupo de pessoas, mas, provavelmente, sem se darem conta, influenciam pessoas à sua volta e, nesse sentido, estão a liderar.

Jesus foi o maior e o melhor líder de todos os tempos. Ele disse que era o bom pastor, que conhece as ovelhas e a quem elas seguem com amor. No evangelho de hoje, como tantas outras vezes, vemo-lo a formar os discípulos para que eles venham a exercer uma boa missão de liderança à escala global. No final da sua formação ele dir-lhes-á: «Ide por todo o mundo, fazei discípulos em todas as nações, batizai-os e ensinai-os a cumprir tudo quanto vos mandei.» Mas estes futuros líderes têm ainda muito que aprender com o Mestre. Eles têm na mente desejos de poder e não de serviço, eles vivem ainda daquele desejo que habita no coração do homem marcado pelo pecado e que Camões, nos Lusíadas, coloca na boca do velho do Restelo: «Ó glória de mandar! ó vã cobiça desta vaidade, a quem chamamos Fama»(canto IV, estrofe 95). Os discípulos de Jesus também tinham essa cobiça lá no fundo do seu coração pois ela nasce connosco.

Iam a discutir entre eles sobre qual era o maior. A atitude de Jesus para com eles, mostra a solenidade do momento. Diz o texto:” Jesus sentou-se, chamou os Doze e disse-lhes.” Quando Jesus se senta para falar, é como o Mestre que ensina da sua cátedra aquilo que não pode ser esquecido pela sua importância. «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E Jesus não lhes diz nada que não lhes tenha mostrado já pelo seu exemplo e vai continuar a mostrar até ao fim.

O bom líder cristão é o que imita Jesus na sua liderança.

Há várias características do líder cristão que encontramos todas bem presentes em Jesus. Não posso aqui falar de todas e, por isso, aponto apenas duas que ressaltam do evangelho de hoje.

Liderança pelo exemplo:
“Vistes o que eu fiz? Chamais-me mestre e Senhor e dizeis bem, pois o sou. Se eu vos lavei os pés, deveis vós fazer o mesmo.” As pessoas diziam acerca de Jesus: «Ele diz e faz». Liderar através do exemplo, é saber viver de acordo com a verdade do evangelho. Imaginemos um líder a falar da importância da oração, mas que não reza, um catequista a falar às crianças e pais sobre a importância da Eucaristia, mas que depois falta a ela com regularidade, a falar aos outros sobre a unidade do casamento mas depois vive uma vida dupla, ou a trocar constantemente de parceiro, a apontar aos outros o caminho da caridade e do serviço aos pobres e aos desprotegidos mas depois recusa-se a tratar dos pais que estão dependentes e a precisar de cuidados básicos abandonando-os e fugindo covardemente às suas responsabilidades. No tempo de Jesus, os fariseus eram líderes, mas pela sua falta de exemplo, impediam as pessoas de se aproximarem de Deus e é por isso que Jesus desmascara a sua hipocrisia porque «eles dizem mas não fazem.»
O bom exemplo de Jesus ficou tão gravado nos apóstolos que eles imitaram-no e tornaram-se também eles exemplares para outros que os conheceram. O exemplo gera exemplo e atitudes verdadeiras geram vidas autênticas.

Liderar pelo serviço:
O líder é o primeiro servo de todos. Ele tem responsabilidade e poder de influência e de ação que lhe foi dado para exercer um serviço aos outros e não para controlar a vida dos outros ou exercer um autoritarismo desligado do serviço. O perigo para alguns líderes que assumem responsabilidades pode ser deixar que «o poder» lhes suba à cabeça. É uma verdadeira tentação que Jesus também sentiu, mas que rejeitou. Mas torna-se pecado quando nos deixamos levar pela tentação. O mais belo ícon de um líder é Jesus a lavar os pés aos discípulos. Jesus tinha o poder que lhe vinha de ser o Filho de Deus, mas transformou esse poder na capacidade de servir com amor.

Ser servo é aprender a ouvir os outros, a não decidir só por si, a ser capaz de se rodear de pessoas diversas e diferentes que deve escutar com atenção para não se deixar guiar só por aquilo que pensa. Servir exige coragem e determinação, mas exercida na humildade e na escuta. Líderes que não sabem ouvir correm o risco de afastar as pessoas que estão à sua volta e que querem ajudá-lo. No fim ele tem de decidir, mas a decisão pode e deve ser uma decisão partilhada, fruto do trabalho em conjunto e não decisões contra tudo e contra todos, a não ser nalgum caso de consciência que pode acontecer muito raramente.

Nenhum de nós é um líder perfeito como Jesus. Todos temos falhas, mas é bom sabermos o caminho e tentarmos ser cada dia melhores líderes por causa da missão que Deus nos confia.

A segunda leitura, tirada da carta de S. Tiago, previne-nos contra as paixões que lutam nos nossos membros; Diz ele que essas paixões são a causa de muitos dos nossas males, desordens, invejas, divisões e guerras. Ele afirma mesmo que pedimos a Deus coisas que não obtemos porque pedimos mal levados apenas pelos nossos interesses egoístas e pelas nossas paixões.

O homem novo é chamado a crucificar as paixões do homem velho e uma delas bem forte é o desejo de poder e de domínio. Por isso o bom líder está sempre atento para exercer o serviço de liderança com humildade.

Que ninguém se afaste de Deus por causa do abuso da minha liderança. Mas atenção: Pode ser também uma tentação pensar: É melhor não aceitar servir como líder pois sei que nunca serei um líder perfeito Se todos pensassem assim, não havia ninguém para servir a missão que Jesus confiou aos seus discípulos. Jesus procura corações bem-intencionados e retos; depois, Ele mesmo vem em nosso auxílio e nos ajuda no caminho da liderança

«Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos».

Que Deus suscite cada vez mais no seio da comunidade uma multidão de pessoas que desejam servir os outros pondo os seus talentos a render com humildade. Esse bom exemplo influenciará outros e transformará a comunidade.

Folha Paroquial nº 185 *Ano IV* 12.09.2021 — DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor.

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EVANGELHO ( Mc 8, 27-35 )
Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O servo de Deus que oferece a sua vida, sinal de Jesus
A 1ª leitura apresenta o retrato de uma figura enigmática e espantosa chamada «servo de Deus». É uma verdadeira testemunha de Deus, leva uma vida exemplar, mas é perseguido; Depois da sua morte, é que reconhecem nele o porta-voz de Deus e misteriosamente é através dele que a humanidade inteira é salva. Depois de 2000 anos de cristianismo, é natural que pensemos imediatamente que se trata de Jesus Cristo!

Mas o profeta Isaías, com toda a certeza, não pensava em Jesus quando por volta do século VI antes de Cristo, escreveu este texto durante o exílio na Babilónia. Ele dirigia-se aos exilados e dava um sentido ao seu sofrimento lembrando a esta comunidade a sua missão de serva, pois o povo Judeu sabia que tinha a missão de dar a conhecer o projeto de salvação de Deus no mundo. Para isso era preciso permanecer forte no meio de muitas tribulações.

Tudo isto Jesus viveu. E no evangelho de hoje, convida-nos a segui-Lo aconteça o que acontecer: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

A primeira negação de Pedro
Pedro acaba de dizer a declaração mais extraordinária que se podia dizer, nesta altura, sobre Jesus: «Tu és o Messias.» E ficamos surpreendidos pela reação de Jesus. Não recusa o título, mas pede um rigoroso silêncio sobre o assunto. É que o título era ambíguo e podia ser mal-entendido, como aliás vemos logo a seguir na reação de Pedro. Jesus é realmente o Messias esperado pelo povo Judeu, mas não é o Messias como eles esperam. E Jesus explica-o logo a seguir: “Começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois”. Vemos a profunda ligação com o servo sofredor de Isaías?

Ora para os ouvidos de um Judeu isto era paradoxal e dificilmente aceitável. Eles tinham na memória o que dizia o profeta Daniel acerca do “filho do homem”, uma expressão equivalente a Messias. Vale a pena citar esses versículos: «Vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho do homem. Avançou até ao ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas soberanias, glória e realeza. Todos os povos, nações e línguas o serviam: O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.” Era um Messias assim, cheio de poder, de glória e de triunfo que eles esperavam. Por isso entendemos a reação de Pedro. Podemos mesmo afirmar que esta é a primeira negação de Pedro, a primeira recusa em seguir um Messias no sofrimento.

Jesus enfrenta esta recusa espontânea de Pedro como uma verdadeira tentação para ele mesmo e di-lo com veemência: Os teus pensamentos não são os de Deus, mas apenas os dos homens.

Os pensamentos de Deus não são os dos homens
Que a nossa maneira de ver as coisas seja humana é o mais natural! Mas precisamos, como discípulos de Jesus, deixar o Espírito transformar a nossa visão e às vezes convertê-la completamente, se queremos ser fiéis ao plano de Deus. Ao contrário de Mateus e Lucas, Marcos não nos narra as tentações de Jesus no deserto, mas não há dúvida que ele nos conta uma dessas tentações neste episódio, e uma particularmente grave e que suscita uma reação muito viva de Jesus, sinal de que deve ter travado aqui um verdadeiro combate: “olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Passa para trás de mim, Satanás», é esta a verdadeira tradução literal. Com o significado de: «Faz-te meu discípulo e deixa-te conduzir por mim, em vez de quereres ser tu a apontar-me o caminho.»

Como o servo sofredor de Isaías, Jesus está decidido a escutar o Seu Pai, a deixar-se instruir por Ele, e a cumprir até ao fim a sua missão, ainda que tenha de sofrer todos os ultrajes e humilhações que vierem. O plano de salvação de Deus não se coaduna com um Messias triunfante: Para que as pessoas cheguem ao conhecimento da verdade, é preciso que descubram o Deus de ternura e de perdão, de misericórdia e compaixão; Isso não se descobrirá em atos de poder, mas no dom supremo da vida do Filho. «Não há maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15,3) E convida a fazerem o mesmo que Ele todos os que O escutam, multidão e discípulos: «Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á». Mesmo alguém que não seja ainda um discípulo de Jesus pode compreender, por experiência, que a vida ganha todo o sentido quando é oferecida. E que se perde no vazio quando se fecha no egoísmo. No fundo este evangelho é um ensinamento sobre o sentido da vida.

Como nos fala este texto à nossa vida concreta? Quantas vezes sofremos a mesma tentação de viver só para nós, de só pensarmos em nós? Quanta dificuldade encontramos quando somos convidados a servir gratuitamente na comunidade, a oferecer-nos para o voluntariado ou a renunciar a algo a que temos direito por causa dos outros?

Folha Paroquial nº 184 *Ano IV* 05.09.2021 — DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM

Ó minha alma, louva o Senhor.

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“EVANGELHO ( Mc 7, 31-37 )
Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar correctamente. Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém. Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam. Cheios de assombro, diziam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

No início da fé cristã está um encontro com Jesus. Por isso só há fé cristã se houver encontro pessoal do crente com Jesus de Nazaré morto e ressuscitado. Hoje esse encontro acontece pela ação do Espírito que nos revela o «rosto» de Jesus e nos leva a abrir-nos à sua graça.

A narrativa de hoje, segue-se depois da discussão com os judeus acerca das regras da pureza como escutámos no evangelho de Domingo passado. Jesus partiu para território pagão, na Decápole, uma confederação de dez cidades de cultura grega e não judaica. É aqui que se dá o encontro com o surdo. Hoje já não se diz surdo-mudo, pois a mudez é uma consequência natural da surdez. De qualquer forma, trata-se de uma enfermidade dupla. Não ouve e, por consequência, também não fala. Levam-lhe o surdo e pedem-lhe para impor as mãos sobre ele. Jesus faz então alguns gestos que nunca tinha feito até agora. Conduz o enfermo à parte, longe da multidão e faz gestos sobre ele que os curandeiros faziam habitualmente; «meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua.» Não muda os gestos habituais dos curandeiros, mas dá-lhes um sentido novo: «Erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». O gesto de erguer os olhos ao céu não deixa nenhuma ambiguidade: Jesus só cura graças ao poder que lhe vem do Pai. O suspiro, que é mais um gemido, indica a impaciência pela libertação do sofrimento em que aquele surdo tem vivido por não poder ouvir nem falar. E eis o surdo curado: “Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente”. A resposta do povo, (não esqueçamos que se trata de pagãos) é uma proclamação das maravilhas de Deus: “Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem”. E com esta frase nos reenvia à 1ª leitura, do profeta Isaías, que anuncia a era da felicidade para os dias da vinda do Messias: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria.” As promessas messiânicas são então para todos, judeus e pagãos. E curiosamente, são os pagãos quem melhor decifram os sinais. Eles «proclamam», diz-nos Marcos e não é por acaso que ele escolhe este verbo, pois é ele que aparece sempre para dizer o anúncio de algo novo que Deus fez: “Será a ordem de Jesus aos seus apóstolos depois da sua ressurreição. «Ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova»

Neste texto não chegamos a saber como reage o surdo e o que lhe aconteceu. Só nos é dito o que este encontro produziu na vida das testemunhas que diziam: “Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

Jesus quando faz os gestos humanos do toque no surdo, diz-lhe: Efatá, quer dizer: Abre-te. Na celebração do batismo dos adultos, o sacerdote lê sempre esta passagem do evangelho de Marcos, depois toca os ouvidos e os lábios do batizado dizendo: «Efatá», quer dizer: “Abre-te, para proclamares, pelo louvor e pela glória de Deus, a fé que Ele vos transmitiu”. Parece-nos ouvir aqui a oração do salmo: «Senhor abri os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.

A cura do surdo-mudo, tem um alto valor simbólico no Novo Testamento. O discípulo é Aquele que ouve a palavra de Deus e transformado por ela, proclama o que Deus fez por Ele num louvor incessante. A sua boca abre-se para falar d’Ele porque o seu coração está cheio da alegria da sua presença. Como escreveu o Papa Francisco, “a alegria do evangelho enche o coração e a vida d’Aquele que se encontrou com Cristo.”

Muitas vezes, nas missas à semana, onde muitas pessoas vão para mandar rezar missas pelos defuntos, poucos abrem a boca para responder às orações e menos ainda para cantar. Não é fácil presidir a uma missa onde não há resposta da assembleia. No entanto, estes irmãos merecem-nos todo o respeito, pois se ainda não se abriu a sua boca para testemunhar com ousadia a sua fé, talvez por falta deste encontro pessoal com Jesus que salva, no entanto, “a torcida ainda fumega,” pois têm a religiosidade suficiente para irem à missa pelos seus ente-queridos como o povo da Decápole teve a religiosidade suficiente para levar até Jesus o surdo-mudo e, assim, puderam ver a glória de Deus e proclamá-la. Eles dizem-nos, sem palavras, que a missão é grande até que todos possam abrir-se ao encontro com Jesus e proclamar com a boca as suas maravilhas.
Que Jesus cure as nossas comunidades da surdez e da mudez para que sejam comunidades missionárias prontas para escutar a Deus e proclamar as suas maravilhas.

Folha Paroquial nº 183 *Ano IV* 01.08.2021 — DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM

O Senhor deu-lhes o pão do céu.

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“EVANGELHO ( Jo 6, 24-35 )
Naquele tempo, quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago, subiram todos para as barcas e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?». Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou». Disseram-Lhe eles: «Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti? Que obra realizas? No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito: ‘Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu’». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Iniciámos o capítulo VI de S. João, com o milagre da multiplicação dos pães, como ouvimos no Domingo passado. Na continuação, a multidão contente, porque foi saciada, anda atrás de Jesus quase que em perseguição dos seus passos. Jesus aproveita para lhes dizer, de modo solene, algo muito importante com o qual inicia o seu discurso na Sinagoga de Cafarnaum, sobre o pão da vida. “Em verdade em verdade vos digo:” Sempre que Jesus começa com esta fórmula é porque vai dizer algo muito importante que deve ser ouvido muito atentamente. Tem o significado oficial da fórmula dos profetas no Antigo Testamento quando dizem: “Oráculo do Senhor» ou ainda: «assim fala o Senhor». E Jesus diz isso, porque vai fazer um discurso dos mais difíceis de entender. É um discurso revelador da sua Pessoa como Filho de Deus que vem para salvar e dar a vida. Nele ouvimos ressoar o início do evangelho de S. João: Ele é o Verbo, veio ao mundo, àqueles que creem no seu nome, dá-lhes a vida. Mas Jesus vai passo a passo.

Primeiro começa por dizer-lhes que as suas motivações para andarem atrás dele são ainda muito insuficientes. Estão focados no imediato, na comida que passa, nos seus interesses pessoais. Jesus sabe que isso é normal por agora, mas deseja que eles vão mais longe. Todos nós começamos com motivações insuficientes, mas depois, pela escuta da Palavra de Deus, podemos ir purificando o nosso coração bem como as motivações que nos orientam. Os próprios discípulos, no início, não seguiram Jesus com motivações muito puras. Eles queriam era um bom lugar ao pé daquele que julgavam que viria a ser o seu rei e messias temporal. Pouco a pouco, iluminados por Cristo, vão purificando as suas motivações para o seguirem. Deve ter ficado bem gravado no seu coração aquele dia em que Jesus, reunindo-os à sua volta lhes diz, solenemente, depois de os ouvir a conversar entre eles sobre qual seria o maior: “Escutai bem: Aquele que quiser ser o maior faça-se o servo de todos”. Palavras como estas e o exemplo de humildade e serviço de Jesus, foram transformando os discípulos para os amadurecer no seguimento. As motivações que os levam a segui-lo no início, não são nada as mesmas que eles têm no fim do caminho de discípulos com Jesus. Foram-se convertendo.

Todos nós, por vezes através de uma linguagem muito santa, dizemos coisas bonitas acerca das nossas motivações para o seguirmos e o servirmos nos diversos ministérios da Igreja, mas a verdade é que todas as boas motivações que temos não existem em estado puro, são como o trigo e o joio, caminham juntas com motivações de interesses pessoais e isso é humano e quase inevitável. O arranque do joio, ao contrário da parábola de Jesus, que só se arranca no fim, tem de ser um trabalho do próprio ao longo da vida. Precisamos todos de nos ir convertendo e despojando dos nossos egoísmos e interesses pessoais, e nos irmos abrindo a uma entrega e doação cada vez mais despojada do nosso eu para sermos capazes de chegar àquela situação a que chegou S. Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim». Quando não fazemos este trabalho chegamos ao fim da nossa vida egoísta, azedos, mal -dispostos e insuportáveis. Ao contrário, quando fazemos o nosso trabalho interior de despojamento, tornamo-nos simpáticos, serenos, reconciliados, felizes.

E Jesus continua: “Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará.”

Eu dei-vos um alimento terrestre, mas era sinal de outra coisa muito mais importante: Naquele sinal vós devíeis ter reconhecido o Pai agindo através de mim. Ele é que me enviou para vos oferecer o alimento que dura até à vida eterna. Esta distinção entre alimento terreste e alimento espiritual era um tema favorito da religião judaica: Todos conheciam de cor a passagem do livro do Deuteronómio em que está escrito: “Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que vem da boca de Deus” ( Dt 8,3)

Vê-se que os auditores de Jesus perceberam esta distinção entre alimento terrestre e celeste pois logo a seguir perguntam: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?». E a resposta foi muito simples. “A obra de Deus é que acrediteis naquele que Ele enviou.” E eles perguntam: Porque devem acreditar nele, quais as suas referências? Moisés, deu-lhes o maná que veio do céu e dizia-se que o messias seria aquele que lhes traria maná dos tempos futuros. Então eles insistem, então e tu? Que obras realizas, qual e o teu maná? E sabemos a resposta de Jesus: O verdadeiro maná não vem de Moisés, Meu pai é que vos dá o pão do céu e depois introduz e anuncia a Eucaristia: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

Quando vivemos à superfície de nós mesmos nem damos conta da fome que temos de algo mais que não sejam os bens materiais, mas basta pararmos um pouco e começarmos a meditar no que vivemos em profundidade e damos logo conta que há qualquer coisa que nos falta, que a vida tem de ser mais qualquer coisa do que isto. Tantas vezes ouvimos dizer em testemunhos: “Eu tinha tudo materialmente falando e, no entanto, sentia um vazio, faltava-me algo essencial e não sabia o que era.” Agora que encontrei Jesus, já sei o que me faltava. Jesus é esse pão da vida que nos sacia.

Há uns anos atrás uns missionários portugueses que tinham seminário na Guiné, trouxeram para a sua casa alguns seminaristas guineenses para estudarem cá. Ao fim de 3 ou 4 dias foram ao gabinete do superior para lhes dizer, envergonhadamente, que sentiam fome. O Superior abismado, perguntou-lhes: – Fome? Mas vocês comem connosco à mesa e tem sobrado sempre comida, porque não comem mais? E eles responderam: – Sabe, nós estamos habituados a comer arroz em todas as refeições. O nosso estômago está tão habituado que, quando não comemos arroz, não nos sentimos saciados, sentimos fome.

Quando ouvi esta história pensei que se Jesus fosse guineense teria dito: «Eu sou o arroz da vida, quem vem a Mim nunca mais terá fome. Quem acredita em Mim nunca mais terá sede.

Folha Paroquial nº 182 *Ano IV* 25.07.2021 — DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM

Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.

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“EVANGELHO ( Jo 6, 1-15 )
Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes. Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Jesus respondeu: «Mandai-os sentar». Havia muita erva naquele lugar, e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido. Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Ao longo do ano B, no tempo comum, vamos ouvindo, de forma continuada, o evangelista S. Marcos. No Domingo passado ouvimos o relato de Jesus que chama os discípulos para um lugar isolado para descansarem um pouco, mas quando desembarcam Jesus depara-se com uma grande multidão e cheio de compaixão começa a ensiná-los demoradamente. As horas foram passando e os discípulos, bem como Jesus, dão-se conta de que as pessoas vão começar a ter fome e não há por ali nada que comer. Mas esta parte já não a ouvimos em S. Marcos, pois a Liturgia da Igreja, de repente, interrompe a leitura do Evangelho deste evangelista para nos dar a ler todo o capítulo VI de S. João que nos fala não só do milagre da multiplicação dos pães como faz S. Marcos, mas acrescenta um longo discurso de Jesus sobre o Pão da Vida sublinhando assim que este discurso forma um todo com o milagre da multiplicação dos pães.

“Seguia-o numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.”

Seguem-no, pois vêm vidas transformadas. Podem ainda ser um bocado interesseiras, mas no princípio é sempre assim. Jesus conhece as necessidades das pessoas e compadece-se delas curando-as e dando-lhes alimento espiritual, através da Sua Palavra, e depois também o alimento corporal.

“Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa dos judeus.”

Junto ao lago da galileia, um monte, só pode ser simbólico, como acontece muitas vezes quando se diz que subiu a um monte para chamar os discípulos, para proclamar a lei nova das bem-aventuranças etc. Aqui subir a um monte para multiplicar os pães, sem dúvida que S. João nos quer fazer entender que chegou a hora do banquete messiânico anunciado pelo profeta Isaías: «No Monte Sião, o Senhor do universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados” (Is 25, 6) A esta multidão faminta do festim de Deus, Jesus vai oferecer o sinal de que esse dia tão esperado já chegou e é agora, pois é Ele que toma a iniciativa dizendo a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?» E S. João acrescenta: “Ele bem sabia o que ia fazer”, como se isso já fizesse parte do seu plano de revelação. S. João diz-nos ainda que estava próxima a Páscoa dos Judeus. E se ele diz isso, é porque está aqui um elemento importante do relato da multiplicação dos pães. Nos próximos domingos em que iremos ouvir o discurso do pão da vida, perceberemos até que ponto o Mistério Pascal de Jesus está subjacente a todo este discurso de Jesus sobre o pão da vida.

«Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Jesus respondeu: «Mandai-os sentar» (…) Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram.»

Jesus quer revelar-nos o rosto de Deus através do seu Filho alimentando a multidão. Mas não o pode fazer sem a participação das pessoas pois Ele quis tornar-nos com eles construtores do mundo e da história. Ele tem necessidade de cada um de nós por mais pequena que essa participação possa ou pareça ser. Jesus não faz o milagre a partir do nada: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Deus não se substitui a nós. Confiou-nos a tarefa de fazer crescer e multiplicar os seus próprios dons, (os talentos que deu a cada um) que se tornam assim dons dos homens. A pessoa reconhece os seus limites humanos ao mesmo tempo que fica admirado com a grandeza desta «colaboração» do seu trabalho unido à obra de Deus.

Quando aceitamos colaborar com Ele, associando-nos a outros, podemos mudar o mundo. O que seria das nossa Unidade Pastoral sem tanta gente que aceitou servir no anúncio do Evangelho no percurso Alpha, na catequese, nas células, na Liturgia na ação sócio caritativa. Em todos estes setores há vidas transformadas pela colaboração de tantos irmãos! O mundo poderia ser muito melhor se cada irmão estivesse pronto a dar os seus pães de cevada e os seus poucos peixes. Mas acreditamos nós na matemática de Deus? Isto é, quando damos ficamos com mais? E quando não damos ficamos com menos? Que Deus nos dê fé e confiança no seu poder, na sua bondade e generosidade.

Folha Paroquial nº 181 *Ano IV* 18.07.2021 — DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO ( Mc 6, 30-34 )
Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Pastores para reunir, fortalecer e orientar

Jesus é o pastor que se compadece das ovelhas que andam dispersas, cansadas e desorientadas, mas é também o mestre que as forma e ensina. O texto diz-nos que os Apóstolos, depois do seu envio missionário por Jesus, voltaram e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Era como se quisessem ser confirmados de que o que tinham ensinado estava conforme àquilo que Ele lhes ensinou a eles. Jesus forma discípulos para que eles se tornem apóstolos, mestres, evangelistas e pastores. Mas só serão bons apóstolos, mestres, evangelistas e pastores se aprenderem a ser bons discípulos.

O que é um discípulo de Jesus? É aquele que encontrou Jesus pessoalmente, no seio da Igreja, que lhe entregou a sua vida, que tomou a decisão de viver segundo o Seu ensino, em todos os aspetos da vida. Um discípulo está, intencional e ativamente, comprometido com um processo contínuo de aprendizagem de Jesus e, inflamado com este encontro, partilha o Seu Caminho, Verdade e Vida com os outros. Podemos perguntar-nos: “Já tomei a decisão de viver segundo o ensino de Jesus em todos os aspetos da minha vida e não só nalguns que me são mais fáceis aceitar? Estou intencionalmente comprometido com um processo de aprendizagem de Jesus?

Feliz a comunidade cristã onde crescem o número de discípulos intencionais! isto é, daqueles que ativamente decidem entrar neste processo de seguimento do Mestre. Como diz Sherry Weddell num célebre livro chamado “Formar discípulos intencionalmente, «A presença de um número significativo de discípulos muda tudo: o tom espiritual da paróquia, o nível de energia, atendimento, objetivos, o que os paroquianos pedem aos seus líderes. Discípulos rezam com paixão. Discípulos adoram. Discípulos dão com generosidade. Discípulos amam a Igreja e servem-na com generosidade e alegria. Discípulos têm fome de aprender mais sobre a sua fé. Discípulos enchem todas as formações na paróquia ou na Diocese. Discípulos manifestam carismas e discernem vocações. Eles pedem para discernir o chamamento de Deus porque anseiam vivê-lo. Discípulos evangelizam porque realmente têm boas notícias para partilhar. Discípulos partilham a sua fé com os seus filhos. Discípulos cuidam dos pobres e preocupam-se com os assuntos da justiça. Discípulos assumem os riscos do Reino de Deus.».( Forming Intentional Disciples, Sherry A. Weddell, P. 80-81), edição em inglês)

Quando temos discípulos, começamos a ter pastores ou líderes. A palavra líder constrange algumas pessoas que dizem: “Eu não sou, nem quero ser líder de coisa nenhuma porque colocam na palavra um peso de autoridade e comando que ela não tem. Estou a pensar numa paroquiana que sempre disse que não tinha jeito nenhum para liderar nada, mas aceitou ficar com o serviço de coordenação da adoração eucarística e telefona às pessoas ou manda mensagens e conversa com este e com aquele tentando influenciar para que seja adorador. Fá-lo tão discretamente que é capaz de ver o que faz como um serviço humilde, mas não como uma ação de liderança. Mas o que faz é liderança humilde pois o bom líder é humilde, como Jesus, não se impõe, mas lidera pelo exemplo e pelo testemunho. O líder é alguém que outros estão dispostos a seguir porque confiam nele. Um dia em Fontainebleu, França, num encontro de formação de células fiquei numa que era constituída por advogados, um médico, 2 professores e um investigador dos que me lembro. Sabem quem era a responsável? Uma portuguesa chamada Maria Rosa que era senhora de limpeza. E o pároco disse-me: Eles não querem mudar para outra célula. A Maria é uma excelente líder que pelo seu exemplo os toca, os motiva e os influencia a tornarem-se discípulos-missionários. Quando nos tornamos discípulos, Jesus serve-se de nós e capacita-nos com os seus dons.

No texto de hoje, Jesus convida os Doze depois do seu trabalho missionário, a descansarem um pouco e a terem um momento de partilha daquilo que viveram sem Ele estar presente. Jesus faz o seguinte convite: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». Faço aqui um parêntesis para dizer que agora em tempo de férias podemos acolher o convite de Jesus a descansar um pouco para nos revitalizarmos a nível de todo o nosso ser. Muitas vezes, porém, vamos sozinhos para descansar e não ouvimos o «vinde comigo». Muita gente cristã faz férias sem Deus ou férias pagãs onde apenas há tempo para descansar o corpo se é que não se fica ainda mais cansado. Aqueles que já decidiram intencionalmente ser discípulos que ouçam bem o convite de Jesus, «Vinde comigo descansar».

A segunda leitura, diz que Jesus pela sua cruz. derrubou o muro da inimizade que separava judeus e gregos fazendo deles um só povo. Ao longo da história da humanidade foram-se criando muitos muros de divisão entre os homens: Muros a separar homens e mulheres, escravos e homens livres, pretos e brancos, diferentes religiões, e por aí fora. Pela cruz, Jesus construiu uma ponte de reconciliação de todos os homens com Deus fazendo de todos , um só povo, onde todos são irmãos e se podem aproximar do mesmo Pai num só Espírito. E nós? Somos construtores de muros ou pontes?

Às vezes causa tristeza os muros que algumas pessoas criam dentro da mesma Unidade Pastoral entre as paróquias de S. João Baptista e de S. José. No princípio parecia que o muro era construído só de um lado, mas depois foi-se percebendo que cada lado construía o seu. Mas Deus e a Igreja convidam-nos a um trabalho comum e a criar pontes de grande colaboração. Aos discípulos-missionários o que interessa é a fecundidade e o crescimento da missão. Foi por causa da missão evangelizadora que se construíram as duas paróquias e é por causa da mesma missão que agora são chamadas a trabalharem em Unidade pastoral. Não gastemos as nossas energias em contruir muros, mas em construir pontes de união e de comunhão como o Mestre nos manda. Já temos uma só Equipa de Animação Pastoral, passaremos a ter um único Conselho Pastoral da Unidade pastoral, já é frequente vermos pessoas nas atividades diversas feitas num lado e noutro e a maior parte das pessoas já ultrapassou isso ou nunca teve esse problema. Quanto mais unidos mais fortes na missão.