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Folha Paroquial nº 170 *Ano IV* 02.05.2021 — DOMINGO V DA PÁSCOA

Eu Vos louvo, Senhor, na assembleia dos justos.

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“EVANGELHO (Jo 15,1-8)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O MISTÉRIO DA VIDA CRISTÃ

O texto que hoje ouvimos do Evangelho leva-nos ao cerne da vida cristã e do mistério da Igreja. Digo mistério, porque é a parte invisível mas a mais importante. Assim como, num iceberg, o que se vê ao de cima é a menor parte – o resto está escondido, assim na vida cristã o mais importante é a vida de união com Cristo de cada discípulo.

Antes de partir para o Pai, Jesus lembra aos discípulos o principal: que vivam sempre unidos a Ele e nunca se separem d’Ele pois sem Ele nada podem fazer. E para percebermos isto bem, usa uma alegoria, uma imagem bem conhecida: a da videira. “Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto”. E depois Jesus acrescenta: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permaneceres em Mim. (…) Sem Mim nada podeis fazer.» E conclui: “A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos.” De facto, isto é a base de todo o discipulado cristão: Estar com Ele, permanecer n’Ele, cumprir os seus mandamentos, para depois sermos enviados por Ele. O Diretório da Catequese quando fala na finalidade da catequese diz: «A finalidade definitiva da catequese (de qualquer idade) é a de fazer com que alguém se ponha não apenas em contacto, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo». Somente Ele pode levar ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar na vida da Santíssima Trindade.

A Comunhão com Cristo é o centro da vida cristã. Dizer “vida cristã” ou “vida no Espírito”, quer dizer o mesmo: É viver a partir d’Aquele que nos habita e em quem queremos também habitar, Jesus Cristo através do seu Espírito. Esta vida é alimentada pela oração e pelos sacramentos e o teste da sua autenticidade é a observância dos mandamentos, sobretudo do mandamento novo.

Na segunda leitura, S. João diz-nos: “É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou. Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E sabemos que permanece em nós pelo Espírito que nos concedeu. “A espiritualidade cristã não é etérea, nas nuvens. Se vivemos em união com o Senhor e permanecemos n’Ele, Ele não nos fecha em nós mesmos e nas nossas consolações interiores mas envia-nos a praticar o bem, o amor, e a dar a vida pelos irmãos, isto é, a dar fruto. “A glória de meu Pai é que deis muito fruto e assim vos torneis meus discípulos.”

A Igreja crescia com a assistência do Espírito Santo

A vida dos primeiros cristãos dava imenso fruto e, por isso, é-nos dito que crescia com a assistência do Espírito Santo. O que faz crescer a Igreja é a vida interior dos cristãos, o amor fraterno que vivem entre eles e que se torna testemunho credível, o compromisso de todos no trabalho missionário dos apóstolos e esta assistência poderosa do Espírito Santo. O resultado são conversões extraordinárias de tantos, entre as quais sobressai a de Saulo de Tarso.

A primeira leitura conta-nos também um detalhe: Que Saulo, transformado pelo encontro pessoal com Cristo, queria agora juntar-se à Igreja para viver a vida nova dos irmãos e colaborar com eles no ardor missionário – mas todos o temiam pois, como os perseguiu, ainda duvidavam das suas intenções; mas Barnabé, convencido da conversão de Paulo, levou-o aos Apóstolos e deu-lhes a conhecer tudo o que tinha acontecido a Paulo. A partir daí Paulo foi acolhido na comunidade.

Hoje acontece também nalgumas comunidades quando começam a aparecer novas pessoas que fizeram o encontro pessoal com Cristo e querem aderir à comunidade cristã, de não se sentirem muito bem acolhidas pelos que já são membros há muitos anos, pois estes temem que os novos venham pôr em causa o seu status quo. Isto acontece geralmente em comunidades instaladas, envelhecidas pela rotina e falta de fervor missionário. Pelo contrário, uma comunidade quando se torna missionária, acolhe com júbilo os que chegam, interessa-se por eles e fá-los sentirem-se em casa. A forma como acolhemos é a pedra de toque para se perceber se estamos ou não a crescer na dimensão missionária e evangelizadora.

Que Cristo ressuscitado seja a nossa vida e que, vivendo n’Ele, demos frutos que perduram. Que as nossas assembleias dominicais sejam assembleias onde se celebra o entusiasmo da fé e da caridade. Quando isso acontecer, a missa pode durar duas ou três horas que não cansa ninguém, mas quando não há verdadeiro entusiasmo e alegria na fé, até meia hora é enfadonha.

Folha Paroquial nº 169 *Ano IV* 25.04.2021 — DOMINGO IV DA PÁSCOA

A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular.

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“EVANGELHO (Jo 10,11-18)

Naquele tempo, disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

A LIDERANÇA PASTORAL

Há muita gente avessa na igreja ao termo de líder e liderança, pois os remete imaginariamente mais para o mundo das empresas e da eficácia rentável do que para o serviço no amor. E a Igreja não é uma empresa e a eficácia não se mede com os mesmos instrumentos das empresas. No entanto, ela é também uma instituição humana, e pode aprender com as outras organizações humanas a estruturar-se melhor para a missão que lhe é confiada, dando muito fruto, “pois a glória do meu pai é que deis muito fruto e assim vos torneis meus discípulos”. A palavra leader vem do inglês e significa guiar, conduzir, liderar. Ora, o que é um pastor senão aquele que guia, conduz, orienta e lidera as ovelhas para que cheguem sem se perderem às fontes das águas?

Jesus diz de si mesmo que é o bom pastor, aquele que nos guia e dá a vida por nós. E o seu exemplo inspira os líderes cristãos; sejam eles papa, bispos, padres ou fiéis leigos.

No entanto, o dia de hoje lembra-nos que Cristo não entregou a sua Igreja a alguns que escolheu como líderes ou pastores, e foi embora deixando-lhes a eles o encargo de fazerem o melhor que sabiam. Não: Jesus diz-nos, e faz parte da nossa fé, que é Ele que continua a ser o pastor invisível do seu povo, embora tenha escolhido pastores visíveis. Jesus quando, no seu mandato missionário, enviou por todo o mundo os discípulos, disse-lhes: «Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos», e, segundo a fé católica, os ministros ordenados recebem pelo sacramento da ordem uma graça de configuração com Cristo, pastor e chefe da Igreja. São identificados com Ele a nível do ser, para agir em seu nome e, em seu nome, guiarem, conduzirem, governarem o povo de Deus que lhes é confiado. O Evangelho de hoje diz a todos os que são chamados a serem pastores como o devem ser a partir do exemplo de Cristo. Jesus deixa bem claro que o Bom Pastor é aquele que não se serve das ovelhas, mas que dá a vida por elas. Se repararmos bem, a expressão «dar a vida» aparece repetida no texto 5 vezes. O que não dá a vida pelas ovelhas não merece o título de pastor, é mercenário, isto é, não trabalha por amor, mas para se servir delas. Imitar e incarnar o Bom Pastor é missão de todos os ministros ordenados na Igreja, mas as palavras de Jesus servem para todos aqueles e aquelas que são líderes de qualquer pequeno ou grande grupo que têm por missão guiar. O catequista de crianças, de jovens ou de adultos, o líder de uma célula paroquial de evangelização, a equipa de liderança de um percurso Alpha, e aquele ou aquela que lidera um pequeno grupo, no mesmo percurso e ainda qualquer outro responsável de pequenos grupos, é pastor do seu grupo. Mas também o político cristão deve tomar para si estas palavras de Jesus, “O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas”, de contrário é mercenário.

O que faz um líder é a sua visão, e o seu carácter. Pela sua visão e a sua capacidade de a comunicar, ele pode arrastar outros atrás de si que acreditam nela, mas se não tiver um bom carácter, depressa se desiludem e o abandonam. O líder que todos aceitam seguir tem visão, sabe comunicá-la, mas o melhor líder é o que lidera pelo exemplo da vida, que é humilde, respeita os outros, sabe escutá-los, valorizá-los e ser completado pelos outros com o que lhe falta, pois nenhum líder tem os dons todos. Por isso ele rodeia-se de uma equipa em quem confia para juntos, com a mesma visão e os mesmos valores e a mesma paixão produzirem a mudança, pois nada acontece sem um líder empenhado e outros que se juntam a ele, acreditando no projeto. Uma comunidade fica sempre mais enriquecida quando o líder que a orienta não é solitário, mas decide com outros. As hipóteses de errar são muito menores. O livro do Êxodo apresenta-nos um belo episódio em que Moisés aparece como líder solitário, esgotado a fazer justiça ao povo que permanece todo o dia de pé, em fila, à espera da sua vez de ser ouvido. Jetro, seu sogro que vê aquele espetáculo diz-lhe: «Não está bem aquilo que estás a fazer. Com certeza desfalecerás tu e este povo que está contigo porque a tarefa é demasiado pesada para ti; não poderás realizá-la sozinho.» Aconselha-o, depois, a escolher líderes com bom coração, íntegros, que amem a Deus e que o irão ajudar na sua missão: Moisés aceita o conselho e no final o povo está feliz pois está melhor servido.( Ex 18, 13-27)

A Diocese de Coimbra, seguindo uma prática que já dá frutos em muitas Dioceses, determinou no seu último plano pastoral que todas os párocos constituíssem uma equipa de animação pastoral para o ajudar no governo da paróquia. Não é apenas um órgão consultivo, como o Conselho Pastoral, é muito mais do que isso. Dizem as orientações Diocesanas para as EAP’s: «A equipa de animação pastoral é um órgão local de corresponsabilidade eclesial, de âmbito paroquial ou de unidade pastoral, que programa, dinamiza, anima, acompanha e avalia tudo o que diz respeito à vida da respetiva paróquia ou unidade pastoral. Ela tem por missão escutar, observar, reler na fé os acontecimentos que marcam a vida pastoral da comunidade (paróquia, unidade pastoral ou outra), na relação com as orientações diocesanas e com o mundo que a envolve, discernir e dinamizar a ação pastoral local.» (artigo 1º e 2º)

As paróquias de S. José e S. João Baptista tinha cada uma a sua equipa com quem o padre se reunia quinzenalmente, mas agora as duas equipas reuniram-se numa só, o que é uma poupança de tempo para o pároco, embora se tenha tornado muito maior. Assim é mais fácil fazermos um caminho cada vez mais juntos e com uma visão comum. Reunimo-nos às terças-feiras de 15 em 15 dias, e vamos tratando vários assuntos da vida das paróquias. Primeiro, começou-se por trabalhar a visão da paróquia de S. José: entretanto veio a pandemia e não houve tempo para a comunicar aos grupos. Iremos brevemente trabalhar estes aspetos com os diversos grupos.

Os membros de S. José são: Rui Rato, Elisa Serra, Filipe Silva (escuteiro), Filipe Sousa (escuteiro), Natália Costa e Ricardo Mota.

Da EAP de S. João Baptista são: Madalena Sousa, Francisca Eiriz, Isolina Melo, Alexandra Marques (jovem), Beatriz Ferreira (jovem), Jorge Brandão e Paulo Farinha. De ambas fazem parte o pároco, o vigário paroquial e o diácono permanente.

Mas não esqueçamos: em tudo isto que faz parte de uma melhor estruturação do serviço na igreja para que a sua missão se realize, o que interessa não é a estrutura, ela está ao serviço da missão que Deus nos confiou.

Folha Paroquial nº 168 *Ano IV* 18.04.2021 — DOMINGO III DA PÁSCOA

Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz do vosso rosto

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“EVANGELHO (Lc 24,35-48)

Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

TEM DE SE CUMPRIR TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO

Podemos afirmar que a ideia central do texto do Evangelho de hoje é a ideia de “cumprimento do plano divino da salvação”: «Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Aliás, a ideia de cumprimento do plano de Deus percorre toda a Bíblia. Deus pode comparar-se a um artista que concebeu uma obra de arte. Tem essa obra por inteiro na cabeça e no coração, mas só aos poucos vai sendo realizada. Vai convidar muitos a colaborar com Ele naquela obra mas estes têm de confiar no artista e na sua ideia, acreditando que no fim a obra vai ser esplêndida. Quando finalmente a obra se completa depois de muitos esforços e fadigas, dão-se então conta da maravilha em que colaboraram. Então, e só então, poderão dizer: Ah sim, “tinham de cumprir-se” todas aquelas etapas para chegar aqui!

O desígnio amoroso de Deus, a que Paulo chama “Mistério”, e que se realiza «desde antes da criação do mundo», é muito mais grandioso que uma obra de arte, por melhor que ela seja. A Bíblia mostra-nos bem esse projeto de Deus em marcha. A longa paciência de Deus através dos tempos, as etapas e os inícios de realização, os fracassos e os recomeços, as colaborações. Dizer que o desígnio amoroso de Deus se cumpre na história da humanidade, é dizer que a História tem um SENTIDO, isto é, um significado e uma direção. A narrativa do nosso Credo leva-nos do princípio até à consumação dos séculos. Os crentes estão voltados para o futuro, o devir e não para o passado. Dizemos no Pai Nosso “Venha o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”, por outras palavras, Jesus ensinou-nos a rezar para que o plano de Deus se cumpra. E Ele veio para realizar esse plano até à plenitude… Ele está no centro da realização desse plano. Este plano não é limitador da liberdade e da responsabilidade humanas. Não há um cenário escrito de antemão. Pelo contrário, Deus respeita a liberdade do homem e é por isso mesmo que o plano de Deus não avança mais rápido, como diz S. Pedro (2 Pedro 3,9).

Quando Jesus ressuscitado, no relato da aparição aos discípulos do evangelho de hoje, lhes diz: «tem de se cumprir tudo o que está escrito», ensina-lhes a reconhecer na passagem dos dias e dos milénios a lenta, mas segura maturação da nova humanidade que será um dia reunida n’Ele. E é isso a inteligência das Escrituras. Não no sentido de «estava escrito», programado, mas está na continuação da obra de Deus. Então, para os discípulos, tudo se tornou luminoso: agora compreendem que o Deus de amor e de perdão queria ir até ao extremo do amor e do perdão. Claro que, para nos levar para além da morte, na luz da ressurreição, seria necessário que Ele próprio atravessasse a morte; claro que, para nos ensinar a ultrapassar o ódio com a força do amor, era preciso que Ele mesmo enfrentasse o ódio e a humilhação; e assim por diante. «Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as escrituras”. Compreender as Escrituras é compreender este plano que as atravessa do princípio ao fim, mas que só à luz da ressurreição e com a ação do Espírito é possível entender. Compreender as Escrituras é entender que a vida tem sentido porque é fruto de um amor imenso, o amor de Deus, e que Ele está comprometido connosco pela Sua aliança até à raiz dos cabelos. Compreender as Escrituras é entrar na exultação, no louvor, na gratidão e na ação de graças a esse Deus que nos amou e tudo fez por nós. É também comprometer-se com o bem da humanidade com quem Deus se comprometeu. A nossa missão de colaboração no plano de Deus é anunciar e viver o melhor possível esse desígnio benevolente de Deus. É o que Paulo chama «completar na minha carne o que falta à obra de Cristo.» Completar na nossa carne quer dizer simplesmente colocar a nossa vida quotidiana ao serviço desse grande plano.

Queres também entrar nesta história de amor sendo colaborador do plano de Deus para a salvação de cada pessoa humana?

Folha Paroquial nº 167 *Ano IV* 11.04.2021 — DOMINGO II DA PÁSCOA

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia.

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“EVANGELHO (Jo 20, 19-31)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

ASSIM COMO O PAI ME ENVIOU, TAMBÉM EU VOS ENVIO A VÓS

S. João dá-nos conta, na narrativa que ouvimos hoje, da razão porque escreveu o seu evangelho: «Para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais vida em seu nome». Todos os evangelistas levaram muito a sério o mandato missionário de Jesus, pois viram que foi muito insistente com eles para não se fecharem no seu grupo, mas para que saíssem até às periferias do mundo inteiro para levar a Boa Nova a todos os povos. Todos os evangelistas terminam o seu evangelho com esse mandato, embora com acentuações diferentes. Em Mateus, evangelizar é fazer discípulos, batizá-los e formá-los na fé: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os (…), ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 19-20); em Marcos, a acentuação é posta na proclamação da Palavra para que acreditem e sejam salvos: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo» (Mc 16, 15); em Lucas, o acento é colocado no testemunho dos Apóstolos com a força do Espírito: «Vós sois as testemunhas destas coisas e eu vou enviar sobre vós o que o meu Pai prometeu» (Lc 24, 48). Finalmente, em S. João, temos o texto de hoje: «Assim como o Pai Me enviou também eu vos envio a vós.» E depois, dá-se o Pentecostes Joanino: «Recebei o Espírito Santo.»

O que todas as passagens têm em comum, é que Jesus dá a certeza a todos da sua presença com eles na obra da evangelização. Nunca estão sozinhos. A evangelização é obra da graça com a colaboração dos apóstolos. No mandato missionário de Mateus diz-se: «Eu estarei sempre convosco»; em Marcos é dito: “O Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam» (Mc 16, 20); em Lucas, «Eu vou enviar sobre vós, o que o meu Pai prometeu»; e, em João, «recebei o Espírito Santo». A evangelização é, pois, a ação prioritária que o Senhor confiou à Sua Igreja. «Ela existe para evangelizar». E sempre que a Igreja realiza esta vontade do Senhor, Deus envia-lhe o seu Espírito em abundância, ela encontra a sua identidade e a sua alegria e cresce interiormente e exteriormente. Quando, ao contrário, se esquece de que esta é a sua missão principal, fica perdida em tarefas que não são as prioritárias e perde o seu entusiasmo, força e identidade. Sempre que houve tempos novos de renovação na igreja, foi quando ela voltou ao dinamismo evangelizador.

Quando falamos em evangelização pensamos em todos, mas Deus manda-nos olhar para aquelas realidades que parecem estar mais nas periferias existenciais. E todos reconhecemos, com alguma preocupação, que os jovens são hoje uma periferia da igreja, no sentido em que estão mais ausentes da sua vida, talvez porque esta não tenha sabido ir ao seu encontro, com uma linguagem que os cative e toque os seus corações e os leve ao encontro do rosto de Cristo. O Alpha jovens tem sido uma forma muito bela de primeiro anúncio evangelizador, que tem levado muitos jovens a abrirem-se à fé, a Cristo, a sentirem-se pertença na comunidade cristã servindo-a com os seus dons juvenis.

Uma paróquia cresce na esperança e na alegria quando é contagiada pelo sonho e entusiasmo juvenil. Temos de reconhecer que há quase tudo para fazer para enchermos as nossas assembleias de entusiasmo, mas eu acredito que se todos os que se preocupam com isto fizerem alguma coisa, tudo pode mudar em poucos anos. Na carta que esta semana enviei a alguns animadores da Unidade Pastoral e que agora publico para todos, indico formas como podemos ajudar. Estou já contente pelas imensas respostas que têm vindo e pelas inscrições que alguns já enviaram para o percurso Alpha jovens. Por isso estou cheio de esperança. As JMJuventude em 2023 e o plano pastoral da Diocese que vai ser sobre os jovens já a partir deste ano irão ajudar-nos a focar-nos nesta visão de evangelização juvenil sem esquecermos também as outras idades.

A 1ª leitura de hoje começa por dizer-nos que “A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma”. Também nós, comunidade cristã de SJosé e SJBaptista, precisamos de ter um só coração e uma só alma para estarmos unidos, juntando esforços neste desejo de evangelização dos jovens para que eles e nós, acreditando, tenhamos a vida em Seu nome.

Folha Paroquial nº 166 *Ano IV* 04.04.2021 — DOMINGO DE PÁSCOA

Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

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“EVANGELHO (Jo 20, 1-9)

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O anúncio da ressurreição continua pelos séculos fora a ser o maior anúncio de todos os tempos. E este é um anúncio que transforma a vida para sempre. A primeira leitura que ouvimos nesta noite, da grande vigília pascal, foi o relato da criação, do livro do Génesis, e a Santa Liturgia quer-nos dizer que a ressurreição de Cristo é uma nova criação. Tudo o que era antigo passou e tudo se fez novo. O que foi para o universo físico, segundo a teoria do big bang do padre Lemaitre, a grande explosão inicial, quando um pouco de matéria se começou a transformar em energia dando início a todo o movimento de expansão do universo que continua ainda depois de milhões de anos, é a ressurreição de Cristo para o universo do espírito. De facto, tudo o que existe e vive na Igreja, sacramentos, palavras e instituições – vão haurir a sua existência, força e sentido na ressurreição de Cristo. Sem a ressurreição de Cristo não haveria sacramentos, nem Igreja nem cristianismo. Estaríamos no Antigo Testamento.

O Evangelho deste Domingo de Páscoa coloca-nos nesse momento original em que Maria Madalena se encontra com o túmulo vazio. Podemos imaginar como aconteceu o anúncio de Maria Madalena aos discípulos, logo depois. Maria corre, quase sem respirar, ao encontro de Pedro e de João, entra ofegante no Cenáculo, sem conseguir mesmo pronunciar nenhuma palavra que se entenda. Antes que diga alguma coisa, cada um dos discípulos, olhando para ela, nota que se passou alguma coisa de inaudito e, enquanto a miram, ela tenta dizer algumas palavras que não lhe saem facilmente: «O Mestre, o Mestre…! Ressuscitado, Ressuscitado! O túmulo, o túmulo… vazio, vazio, está vazio…» A Boa Nova era demasiado explosiva para poder ser dita em ordem e com serenidade por esta mulher. Os apóstolos devem ter-lhe feito sinal e gritado para que tivesse calma, que respirasse e tentasse dizer com clareza do que se tratava. Mas, entretanto, um estremecimento se produziu neles: a presença do sobrenatural tinha enchido a sala e todos os que aí estavam.

A partir deste momento o mundo não foi mais o mesmo. A Boa nova da ressurreição de Cristo começava o seu curso através da história, como uma onda calma e majestosa, que nada nem ninguém pode ou poderá jamais parar.

É este anúncio de Cristo ressuscitado que hoje a Igreja, em tempos de pandemia, proclama com a mesma vivacidade: Cristo está vivo. É o Vivente. Já não pode mais morrer. Ele é a nossa alegria e a nossa esperança. E esta palavra “Esperança”, que aqui escrevo com maiúscula, ganha uma tal densidade com a ressurreição de Cristo que podemos dizer que a páscoa de Jesus é a fonte da Esperança cristã.

A ressurreição de Cristo é feita de dois elementos: o facto – “Ressuscitou” – e a significação para nós do próprio facto, «Para nossa justificação»: Jesus morreu para nos perdoar de todos os pecados e nos tornar justos diante de Deus. É sobre esta palavra justificação que conclui o capítulo 4 da Carta aos Romanos, abre-se depois o capítulo V onde o Apóstolo Paulo mostra como é que do mistério pascal jorram as três virtudes teologais da fé, esperança e caridade. Diz ele: «Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus …e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus…E a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom5,1-5). Destas três virtudes teologais é a esperança que Pedro coloca em relação com a Ressurreição dizendo: “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na sua grande misericórdia nos gerou de novo através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva”( Pd 1,3). Assim, a ressurreição de Cristo é a força, o dinamismo que alimenta, a partir de dentro, a esperança cristã. E porquê? Porque Cristo, pela sua ressurreição, abriu-nos a possibilidade de uma vida com Deus mesmo para além da morte. Cristo abriu uma brecha no muro terrível e fatal da morte através da qual todos podem segui-Lo. A esperança não começou a existir com Cristo; o que ganhou foi uma dimensão concreta com alicerces firmes. Explico usando as palavras do Papa Francisco: “Quando falamos de Esperança, às vezes entendemo-la como um sentimento bom mas sem fundamento. Referimo-nos a algo que esperamos que aconteça, mas que pode realizar-se ou não. É como um desejo”. Por exemplo, quando começou a pandemia espalhou-se por aí uma frase que era uma esperança deste tipo de bons desejos: «Vai tudo correr bem». Sabemos que esta esperança não se realizou em imensos casos em que correu tudo mal. Ora, a Esperança cristã não é assim. Continua o Papa Francisco: “Nós esperamos algo que já se cumpriu. (…) Tenho a certeza de que estou a caminho de algo que existe, não de algo que eu desejo que exista. A Esperança cristã é a expetativa de algo que já se cumpriu em Jesus de Nazaré e que certamente se há-de realizar para todos nós». Por isso Paulo afirma: «A Esperança (cristã) não engana porque o amor de Deus (O Espírito Santo, dom do ressuscitado) já foi derramado nos nossos corações». É por causa desta esperança, diz S. Pedro, «que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações». E, mais à frente, acrescenta: «Não temais as ameaças daqueles que vos fazem mal nem vos deixeis perturbar, mas, no íntimo dos vossos corações, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça». Os cristãos que vivem desta esperança fundamentada mudam a sua perspetiva de vida, pois passam a viver orientados por um horizonte de eternidade. A morte já não é um muro fatal e inultrapassável: Jesus destrui esse muro e faz-nos passar com Ele para a Vida que não tem fim. E assim ajuda-nos a viver todas as dificuldades do mundo presente.

No entanto, para que esta Esperança se torne a nossa bússola, é preciso que tenhamos experimentado o encontro pessoal com Cristo ressuscitado pois, sem este encontro, a ressurreição pode tornar-se mais uma ideia do que um facto real. E quanto mais vivemos uma união profunda com Jesus, mais a certeza da nossa ressurreição no seguimento de Cristo se torna uma experiência de vida gloriosa. Nós vemos nos Evangelhos que, cada vez que alguém se encontra com Jesus de Nazaré, sai transformado desse encontro. Ele deu-lhes uma esperança nova. Pensemos em Maria Madalena, em Mateus, em Zaqueu, na Samaritana e em tantos outros. Hoje, esse encontro é com Jesus ressuscitado que nos faz participantes da sua ressurreição quando aceitamos segui-lo, aprendendo com Ele a morrer para o que é velho.

Mas alguém poderia perguntar: “Mas como viver esse encontro pessoal com Ele?” Diz a escritura: «Como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar se não houver quem O anuncie? E como hão-de anunciar, se não forem enviados? (…) Portanto a fé surge da pregação da palavra de Cristo.» (Rom 10, 14-17).

A Palavra que anunciamos é a própria Palavra de Cristo que, quando é escutada e acolhida, transmite-nos o dom da fé e faz-nos encontrar o ressuscitado que já nos habita pelo seu Espírito e nos abre a uma Esperança viva. É por isso que pregamos, que organizamos percursos Alpha, células de evangelização, catequese de adultos e tudo o mais, para dar a possibilidade a todos de se encontrar com o ressuscitado e ser habitado por esta Esperança que não engana.

“Bendito seja Deus porque nos gerou de novo através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva” (Pd 1,3). A Ele, o Vivente, seja dada glória e honra pelos séculos dos séculos. Amen.

Folha Paroquial nº 165 *Ano IV* 28.03.2021 — DOMINGO DE RAMOS

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

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“EVANGELHO (Mc 14,1-15, 47)
Devido à sua extensão, o evangelho da paixão não pode ir hoje na folha. Deverá ser ouvido em atitude reverente e contemplativa. «Contemplarão Aquele que trespassaram».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

SEMANA SANTA

Começa hoje a Semana Santa ou Semana Maior, como também é conhecida, por nela se desenrolarem os maiores acontecimentos da fé cristã.

Hoje, Domingo de Ramos e da Paixão, a Liturgia reveste dois aspetos à primeira vista contraditórios. Fala-nos do triunfo e glória, para, logo a seguir, nos falar em sofrimento e paixão.

Reunindo acontecimentos tão contrastantes, a Liturgia não tem outro intento senão apresentar-nos a figura de Jesus, no seu aspeto de Rei messiânico e, ao mesmo tempo, «Servo do Senhor».

Mas o núcleo da Semana Santa (e que é também a síntese de todo o ano litúrgico) situa-se no Tríduo Pascal de Quinta-feira Santa à tarde, Sexta-feira Santa e Vigília Pascal no Sábado à noite. Nestes três dias, vivem-se os grandes mistérios da fé cristã.

Quinta-feira Santa: misteriosamente antecipando o Sacrifício que iria oferecer, dentro de algumas horas, Jesus põe fim a todas as «figuras» do Antigo Testamento, converte o pão e o vinho no Seu Corpo e Sangue, apresentando-se como o verdadeiro Cordeiro Pascal – o Cordeiro de Deus. O sacrifício da Cruz, com o qual estabelecerá a Nova Aliança, não ficará, pois, limitado a um ponto geográfico ou a um momento da história: pelo sacrifício Eucarístico, perpetuar-se-á pelo decorrer dos séculos até que Ele volte. Comendo o Seu corpo imolado e bebendo o Seu sangue, os discípulos de Jesus farão sua a oferenda de amor de Jesus e beneficiarão da graça por ela alcançada. Para que este mistério de amor se pudesse realizar, Jesus ordena aos apóstolos que, até ao Seu regresso, operem esta transformação, ficando, assim, participantes do Seu mesmo sacerdócio. Nascido da Eucaristia, o Sacerdócio tornará, portanto, actual, até ao fim dos tempos, a obra redentora de Cristo. Sendo a Eucaristia a prova suprema do amor de Jesus pelos homens, compreende-se porque é que Ele escolheu a última Ceia para fazer a proclamação solene do «Seu mandamento», o de «nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou.»

Sexta-feira Santa: na sexta-feira, à tarde, comemoramos a Paixão e morte do Senhor na Cruz. Neste dia não há Eucaristia nem outros sacramentos, a não ser a penitência e unção dos doentes. No entanto, não deixa de ser um dia de oração e celebração da Liturgia. A Igreja reúne-se neste dia para escutar a narração da Paixão, para orar por todos, para adorar a Cruz e para comungar Cristo, mergulhando, assim, na Sua morte.

Sábado Santo: este dia é de silêncio expectante. A Igreja está vigilante à espera do seu esposo. As igrejas estão vazias. Não há sacramentos porque Aquele de cujo coração eles nascem dorme no sepulcro. Mas a Igreja está vigilante na oração à espera do esposo. Alimenta-se dos escritos dos profetas e dos salmos na Liturgia das Horas.

Vigília Pascal: esta celebração é o cume de todas as celebrações e de todo o mistério pascal. É tão denso que explicá-lo aqui é impossível por falta de espaço. Direi apenas que a celebração consta de várias partes:

Liturgia da Luz, em que se benze o lume novo, se acende o círio pascal, os fiéis acendem as velas e todos entram na igreja às escuras com velas acesas na mão e o círio atrás. Depois do canto exultativo do precónio pascal, acendem-se as luzes da igreja e começa a:

Liturgia da Palavra: durante este tempo, escutam-se as maravilhas que Deus realizou pela nossa salvação desde a criação do mundo até à sua recriação em Cristo. Tudo isto alternado com salmos e cânticos de júbilo, até ao Glória, em que se tocam as campainhas e nos preparamos para escutar as leituras do Novo Testamento e o Evangelho. Depois da homilia segue-se a:

Liturgia Batismal: nesta liturgia, preparamo-nos para celebrar o batismo dos que houver para batizar. Cantam-se as ladainhas, benze-se a água batismal, renova-se a fé, de velas acesas na mão, confessando-a com entusiasmo. Depois somos aspergidos com água, sinal do batismo que recebemos e cujos compromissos renovamos.

Liturgia eucarística: terminada a liturgia batismal, preparamos a mesa para celebrar o banquete da Nova Aliança em Cristo Ressuscitado. Aquele que por nós morreu e ressuscitou está vivo e dá-se em alimento aos que n’Ele creem para partilhar com eles a Sua vida imortal.

Folha Paroquial nº 164 *Ano IV* 21.03.2021 — DOMINGO V DA QUARESMA

Dai-me, Senhor, um coração puro.

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“EVANGELHO (Jo 12, 20-33)
Naquele tempo, alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Filipe foi dizê-lo a André; e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

SENHOR, NÓS QUERÍAMOS VER JESUS.

Jesus tinha feito uma entrada triunfal em Jerusalém antes da festa da Páscoa e os chefes dos judeus estão preocupados. A multidão aclama-O como Messias e eles já não sabem o que fazer. Na altura em que falam entre eles sobre isso, chegam uns judeus da diáspora (os gregos), que, dirigindo-se aos discípulos de Jesus, à vista dos fariseus, lhes dizem: «Nós queríamos ver Jesus». Não somente vê-lo de longe, mas aproximar-se, falar com ele, conhecê-lo. Os discípulos vão dizê-lo a Jesus e este responde «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado.» O que quer isto dizer? Glorificar não tem nada a ver aqui com o sentido de vaidade que damos hoje a esta palavra nas nossas línguas. Dar prestígio e reconhecimento, elogiar. Na Bíblia, a glória de Deus é a força e o poder da sua presença resplandecente e transformante como na sarça ardente ou na luz gloriosa do Tabor. Quando Jesus diz: «Pai, glorifica o teu nome», podemos traduzir: “Pai, dá-te a conhecer tal como és. Revela-te como Pai cheio de amor que concluiu com os homens uma aliança eterna de amor.”

Jesus disse a Pilatos que “veio ao mundo para dar testemunho da verdade”. E esta verdade é dizer e mostrar quem é Deus, pois, como Ele disse, “a vida eterna consiste em que te conheçam a ti único Deus verdadeiro e ao teu Filho a quem enviaste”. Ele veio para nos dar a vida eterna que vem pelo conhecimento íntimo de Deus, pela experiência da relação com Ele. É na medida em que nos encontramos com Jesus, que O vamos conhecendo intimamente, que vamos experimentando em nós a Vida Eterna. Conhecer a Deus, através de Jesus e no Espírito Santo, viver uma relação íntima com Ele, é a fonte de todos os bens. O desejo dos gregos é o desejo gritante de muita gente hoje. Uns sabem-no, outros sentem a insatisfação, como se lhes faltasse alguma coisa que não sabem o que é, mas quando O encontram compreendem então o que lhes faltava. A relação com Deus para o qual fomos feitos.

“Dias virão, em que estabelecerei…uma aliança nova”. Essa é a promessa do Antigo Testamento. E porque é que Deus quer constituir uma Aliança nova? Porque o povo tem fracassado constantemente no cumprimento da Primeira Aliança, feita entre Deus e o povo que constitui o paradigma da fé de Israel. Aliança Nova não significa outra aliança, mas uma nova etapa da mesma Aliança. Deus, ao ver que o povo não é capaz de ser fiel ao que lhe deu, promete que irá fazer algo novo: irá inscrever a sua lei, já não em tábuas de pedra, mas no coração de cada pessoa. «Dar-lhes-ei um coração novo e um espírito novo.» E em Ezequiel Deus acrescenta: “Dar-vos-ei um coração novo e um espírito novo, arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne, infundirei em vós o meu Espírito, e vivereis segundo as minhas leis e andareis nos meus caminhos» (Ez 36,26-27) Como é que Deus fará isso? Enviará o dom do Espírito, que é o amor de Deus derramado nos nossos corações. Não é por acaso que o Pentecostes aconteceu no dia do Pentecostes judaico que celebrava o dom da lei a Moisés escrito nas tábuas. No Pentecostes cristão, Deus escreve a sua lei no íntimo do coração, enviando o seu Espírito. Quem recebe este dom conhecerá a Deus. “Todos me conhecerão desde o maior ao mais pequeno”. É porque todos conhecerão Deus, não de forma superficial, mas a partir de dentro, como Ele é, Deus de amor e de perdão, e porque experimentarão o seu eterno amor, que agora todos seguirão os seus caminhos e obedecerão às suas leis. Só aquele que se encontra com Jesus e recebe o dom do Espírito Santo percebe que está a viver a Nova Aliança realizada pelo dom da vida de Jesus como grão de trigo lançado na terra para dar muito fruto. Conhecendo e experimentando o seu amor, sentem-se atraídos para Ele por laços de amor, como Ele disse: “Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». A sua morte na cruz provocará a explosão do Espírito naqueles que acreditarão n’Ele. É a nova aliança no seu sangue que Jeremias e Ezequiel tinham anunciado.

Folha Paroquial nº 163 *Ano IV* 14.03.2021 — DOMINGO IV DA QUARESMA

Se eu me não lembrar de ti, Jerusalém, fique presa a minha língua.

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“EVANGELHO (Jo 3, 14-21)
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más acções odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

BENDITO SEJA DEUS, RICO EM MISERICÓRDIA,
PELA CARIDADE COM QUE NOS AMOU.

O que têm estas 3 leituras em comum para tirarmos delas um fio condutor, uma ideia central?

E eu diria que é a afirmação repetida, a partir da ação de Deus, de que Ele realmente nos ama excessivamente, é de uma misericórdia sem fim e de uma fidelidade inquebrantável. Acerca da forma que Deus usou para se revelar, isto é, para se dar a conhecer, diz a Dei Verbum, do Concílio Vaticano II: «Esta economia da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras.” Isto é, Deus faz acontecer a história (ações de Deus), e os profetas, inspirados pelo Espírito, interpretam a história (palavras), ajudando o povo a ver a presença de Deus (ações e palavras relacionadas intimamente revelam o rosto de Deus).

Vamos à primeira leitura: trata-se de uma página dramática da história do povo da primeira aliança. O exílio para a Babilónia promovido por Nabucodonosor, rei dos caldeus. Mas, como vemos, o autor não conta só a história, interpreta-a. Começa por dizer: “Todos os príncipes dos sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades, imitando os costumes abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha consagrado para Si em Jerusalém.” Deus avisou-os, enviando-lhes profetas, mas eles não os ouviam e escarneciam deles. Chegou-se a um ponto em que Deus parecia não encontrar outro remédio para acordar o povo da sua infidelidade à aliança, que permitir que ele passasse por uma dura provação e se voltasse de novo para o seu Deus. O povo foi para o exílio durante 70 anos (o número é simbólico, na verdade o exílio durou cerca de 50 anos). Mas, durante estes anos, o povo foi humilhado, reconheceu os seus pecados, e Deus mais uma vez se compadece, pois Ele quer salvar o seu povo. Por isso aparece um novo império, o persa, atual Irão, com Ciro à frente, que invade a Babilónia e reenvia o povo para a sua terra libertando-o do exílio.

Com esta história real o autor do livro das Crónicas afirma três coisas:

1º A desobediência a Deus é causa da infelicidade do povo e Deus tinha-os prevenido quando lhes disse: “Ponho diante de ti a felicidade e a infelicidade, a vida e a morte, escolhe a vida obedecendo aos mandamentos do Senhor, andando nos seus caminhos”(Dt 30,15).

2º Deus continua fielmente a ser o Deus dos Pais Abraão, Isaac e Jacob, seja qual for a infidelidade do seu povo, e fará tudo para o impedir de cair no precipício.

3º Quando, apesar de todas as tentativas de Deus, o povo não O escuta e cai no precipício, Ele encontrará sempre o meio de o fazer sair, pois nada é impossível a Deus.

Podíamos já ficar por aqui, mas falta ainda a forma mais audaciosa que Deus encontrou para nos salvar para sempre, e essa é a novidade do Novo testamento. Todos estes atos salvíficos eram figura do grande mistério salvífico que Deus preparava na plenitude dos tempos em Jesus, pois “Deus amou tanto o mundo que lhe enviou o seu Filho unigénito para que todo aquele que se volte para Ele, com fé e confiança, não pereça, mas tenha a vida eterna.” E Paulo afirma assombrosa e jubilosamente:

“Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo. É pela graça que fostes salvos.” Nós não tivemos que ir para o exílio por causa dos nossos pecados, mas o Filho foi exilado para longe do Pai e na cruz gritou: «Meu Deus, meu Deus: porque me abandonastes?» Ele assumiu em si as consequências da nossa desobediência e do nosso pecado, Ele sofreu por nós. Mas, “ressuscitado de entre os mortos, com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus”. Quer dizer, fez-nos participantes da Sua glória, da sua vida imortal e da sua glorificação. E que fizemos nós para merecermos tudo isto? Nada, a não ser acolher o dom pela fé. Mas atenção, este acolher o dom pela fé é fundamental. O Evangelho de hoje afirma: “Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus.” A recusa deste dom pela descrença voluntária não permite a salvação. E como se eu fosse ao médico com uma doença mortal e ele me dissesse: “É grave a sua doença e conduzi-lo-á à morte, mas existe um medicamento que o pode salvar, se o tomar” – e é-lhe oferecido gratuitamente. Se a pessoa disser: “Eu recuso esse comprimido” – então o médico não pode fazer nada por mim. Sou eu que me condeno à morte porque recusei a salvação que me era oferecida. E infelizmente há muita gente a recusar a fé voluntariamente. Todas as ideologias ateias, partir do século XIX, e que tanto têm influenciado a nossa cultura ocidental, levando-a a esquecer a Deus e a fechar-Lhe o coração, são algo que deve ferir o coração de Deus, pois anulam o gesto salvífico de Deus que quer salvar todos os homens que se abrem a Ele pela fé. Por isso é tão importante a evangelização! Para que os homens acreditem a Deus e se salvem: “É pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar.” Que maravilha! Não estremeces quando pensas no dom que recebeste? A nossa vida não devia ser uma contínua ação de graças pela sua misericórdia e fidelidade, pelo seu eterno amor? Sim, louvor, ação de graças, que não devem ser apenas uma questão de palavras, mas de vida. Por isso, Paulo continua: “Nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir”. O homem novo, ressuscitado com Cristo, é chamado agora a viver uma vida nova que é como um cântico novo, vindo de um coração novo cheio de ação de graças. Bendito seja Deus, rico em misericórdia pela caridade com que nos amou.

Folha Paroquial nº 162 *Ano IV* 07.03.2021 — DOMINGO III DA QUARESMA

Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna.

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“EVANGELHO (Jo 2, 13-22)
Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus. Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

DESTRUÍ ESTE TEMPLO E EM TRÊS DIAS O LEVANTAREI

Neste terceiro Domingo da Quaresma, a Sagrada Liturgia vai-nos preparando para a páscoa de Jesus através da escuta deste evangelho em que Jesus, devorado pela casa de Deus, expulsa os vendilhões do templo e afirma que o sinal que Ele lhes dará, de que tem autoridade para fazer aquilo, será com a destruição daquele templo e a sua reedificação em três dias. E o evangelista acrescenta: «Ele falava do Templo do seu corpo». Para os judeus, o lugar por excelência do encontro com Deus era o Templo em Jerusalém. Jesus vem estabelecer uma nova ordem: já não é em Jerusalém nem em Garizim o lugar da verdadeira adoração; Ele é que é o verdadeiro lugar do encontro com Deus, pois Ele mesmo é o Filho de Deus. O Templo deixou de ser uma casa para ser uma Pessoa. E essa pessoa vão matá-la, mas Deus ressuscitá-la-á. E quando Ele ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que Ele tinha dito e acreditaram na sua palavra.

A expulsão dos vendilhões do templo revela o amor zeloso que Jesus tem pela santidade do nome de Deus, e para que Ele não seja invocado em vão. Quando os discípulos lhe pedem para que os ensine a rezar como Ele reza, as primeiras palavras que lhes ensinou foi: “Pai nosso, que estás nos céus, que o Teu nome seja santificado”. Dizer que estás nos céus, é dizer que não se confunde com a criação, com a terra, pois Ele é o criador. E santificado, quer dizer mais ou menos a mesma coisa: a santidade, em Deus, indica o que Ele tem de único, de inefável, de estar acima de tudo e de todos e de não fazer parte da nossa realidade quotidiana. Ele é o totalmente outro. Diante dele o homem é convidado ao santo temor de Deus e, aqui, «temor» não indica medo, mas veneração, respeito, espanto, assombro diante da santidade do seu nome. E é porque o seu nome deve ser santificado que não deve ser invocado em vão. Vemos assim quanto os mandamentos dados por Deus ao povo durante o Êxodo estão presentes nas atitudes de Jesus. Ele não veio para abolir a lei antiga dada a Moisés, mas para a levar à perfeição do amor.

Olhando para os dez mandamentos (os judeus chamam-lhe as dez palavras), é a primeira frase que é como o fundamento de todas as outras que se lhes seguem. “Eu sou o Senhor teu Deus que te fez sair da terra do Egipto.” O que significa: eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da escravidão para fazer de ti um povo livre. É este preâmbulo que justifica todo o resto. A originalidade da Lei, em Israel, não é o seu conteúdo, é em primeiro lugar o seu fundamento: A libertação do Egipto. A Lei serve como caminho de aprendizagem da liberdade. Podemos ler cada um dos mandamentos como um empreendimento de libertação do homem, da parte de Deus, ou um método de aprendizagem da liberdade do homem. E a nossa quaresma é também um êxodo da escravidão dos ídolos que querem dominar-nos. Por isso ouvimos Deus dizer a Moisés, a Israel e também a nós hoje: “Não terás outros deuses perante Mim”. Os profetas ao longo de todo o Antigo Testamento serão campeões na luta contra a idolatria e não lhes foi nada fácil este combate que teve muitos insucessos. E hoje é a mesma coisa, porque a definição de um ídolo é aquilo que ocupa no nosso coração o lugar de Deus e acaba por fazer de nós escravos. Pode ser uma seita, mas também o dinheiro, o sexo, uma droga, as redes sociais, a internet, ou tudo aquilo que pode ocupar os nossos pensamentos, ao ponto de nos fazer esquecer o que é importante.

“Não farás nenhum ídolo, nenhuma imagem”: todas as imagens são interditas porque falsas; Deus é o totalmente outro, o inacessível. É por pura graça que se faz próximo de nós. Então como se compreende que nós, católicos, tenhamos imagens? Em primeiro lugar não temos, nem podemos ter, imagens de Deus que seriam falsas pois «jamais alguém viu a Deus». Como o poria em imagem? Mas, se hoje colocamos diante dos nossos olhos imagens de Jesus, é porque o Mistério da Incarnação tornou possível o acesso ao mistério divino numa pessoa viva, com um corpo através do qual Deus feito homem pode exprimir-nos o seu amor, até à morte e morte de cruz. Quanto às imagens dos santos, e de modo particular da Virgem Maria, são postas diante de nós não para os adorar, mas porque são exemplos para nós e eles podem representar-se pois foram homens e mulheres que viveram connosco. Estas imagens não são ídolos. Elas não nos desviam de Cristo, elas conduzem-nos para Ele apesar de alguns excessos de certos cultos populares.

Todos os mandamentos são para nos tornarmos mais livres. Por exemplo, o respeito pelo sábado foi muito importante, pois essa Lei divina permitia às pessoas, pelo menos num dia por semana, descansarem o corpo e levantarem os olhos para o alto de onde lhes vinha a salvação. E até os escravos deviam descansar em dia de sábado. Se no trabalho não se introduz o descanso, o homem fica escravo do trabalho. Mas o sábado não é só o dia do descanso, é o dia da santificação do Senhor, o dia em que o homem celebra a sua libertação. Por mandato de Cristo, o homem novo recebe um dia novo, o dia do Senhor, o Domingo. E este dia, sendo também de repouso, é fundamentalmente o dia da ressurreição, o dia da Eucaristia. Pelo afastamento de Deus e da sua palavra muita gente hoje anulou o Domingo, fazendo dele apenas um dia feriado para fazer outra coisa qualquer, mas não dia de se lembrar donde vem e para onde vai e quem são, como seres humanos e filhos de Deus. Que toda esta quaresma nos ajude a chegar ao dia novo da Vigília pascal em que, de vela acesa na mão, renunciaremos aos ídolos, à injustiça, ao reino das trevas, para aderir ao novo reino da liberdade e da graça que Cristo nos oferece pela sua morte e ressurreição.

Folha Paroquial nº 161 *Ano IV* 28.02.2021 — DOMINGO II DA QUARESMA

Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos.

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“EVANGELHO (Mc 9, 2-10)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

MOSTRAI-NOS O VOSSO ROSTO E SEREMOS SALVOS

A história de Abraão é a história de um crente que decidiu colocar a sua vida inteiramente nas mãos de Deus. A sua vocação começa por um chamamento a abrir-se à novidade de Deus, a não temer o risco, o desconhecido, a aventura, o novo. «Abraão, deixa a tua terra e a casa de teu pai e parte para a terra que eu te indicar. Farei de ti um grande povo (…) Abraão partiu como o Senhor lhe dissera» (Gen 12,1-4). E foi toda a vida um peregrino na busca do rosto de Deus e do cumprimento da sua promessa. O dom do filho Isaac foi um belo oásis, um grande ponto de apoio para a sua fé, no meio de todas as dúvidas e incertezas da aridez do deserto e dos escolhos do caminho. Mas eis que, depois deste oásis, vem uma ordem divina que deixa o coração de Abraão imerso na dor. “Abraão, toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar.” Sem nada entender deste Deus desconhecido que se atravessou no seu caminho, com o coração rasgado e ferido, obedece. Mas quando se prepara para cumprir a ordem divina, novamente a voz de Deus se faz ouvir: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal”. E diante de tanta confiança, Deus reitera e fortalece as suas promessas. Abraão aprende que o Deus que Ele segue não o deixa viver confortavelmente nas suas seguranças pois é um Deus imprevisível, misterioso, e sempre a apontar-lhe caminhos novos. Quem o quer seguir deve estar preparado para uma aventura permanente. No entanto descobre também que Ele é digno de confiança e que segui-lo faz da vida uma permanente novidade. Tem a figura de Abraão alguma coisa a ensinar-nos?

Em primeiro lugar, nesta quaresma, Deus vem bater à nossa porta como à da tenda de Abraão para nos dizer, dentro do chamamento que já nos fez outrora, a não nos deixarmos instalar naquilo que já conhecemos, a pormo-nos a caminho ao encontro do rosto de Deus, a libertarmo-nos daqueles pesos que impedem a caminhada ágil e firme. De vez em quando, para nos animar na dureza da caminhada, Ele levanta o véu do seu mistério de amor, e dá-nos um tal gozo interior que nos dissipa todas as dúvidas e gera novo entusiasmo para a caminhada. A Abraão foi o Filho, na sua velhice, as primícias da realização da promessa que estava ainda longe de ser realizada. Aos discípulos, acabrunhados na perspetiva da cruz, foi a transfiguração no Tabor, primícias do dia novo da sua ressurreição e Ascensão. E a nós? Que momentos de alegria profunda, que oásis no meio do deserto, Deus tem plantado para nos refrescar e nos fortalecer no caminho?

Os que querem seguir este Deus imprevisível têm de estar abertos à mudança, à aventura, a partir. Estávamos num mundo em permanente mudança e dentro dela, apareceu agora uma, a pandemia, que a todos interroga. Aqueles que já estão depois dos 60 anos julgavam que já tinham visto quase tudo, mas ninguém se lembra de uma pandemia assim. Igrejas fechadas, sem culto público, não podemos reunir-nos para celebrar o sacrifício pascal, e não nos lembramos disto ter acontecido alguma vez. Como vai ser o nosso amanhã? Vamos esperar que isto passe para voltarmos à nossa vida habitual? Era desperdiçar toda a aprendizagem do caminho. A Igreja já passou por crises muito maiores e de todas elas saiu mais fortalecida. Não devemos estar à espera que a pandemia passe para voltarmos aos tempos que conhecíamos antes e nos fazia sentir seguros. A pandemia já nos abriu horizontes novos de evangelização através do online que nunca tínhamos experimentado assim. Um retiro diocesano de advento ou quaresma, poderia ter 20 pessoas, no máximo, e agora teve 130 e vindos das latitudes mais diversas. Um percurso Alpha podia chegar a 50 ou 60 pessoas, mas este que estamos a fazer, chega aos 150, e muita gente que não tinha oportunidades de outra forma agora está muito agradecida pois pode participar naquilo que até aqui não podia. O online não é algo subalterno, passageiro, à espera de que a pandemia passe para voltarmos ao habitual. Claro que precisamos da vida real, dos irmãos, das celebrações presenciais, da comunidade física que, se Deus quiser havemos de voltar a ter, mas o online ficará como um enorme meio de evangelização e de construção de pontes que possibilitarão a muitos irmãos ser tocados pelo Evangelho. E isto será um bom fruto que a pandemia provocou.
A Encíclica do Papa «Vós sois todos irmãos», publicada durante a pandemia, é também um grito de Deus ao mundo para vivermos de uma forma mais solidária e fraterna. Mas o eco da encíclica é potenciado pela experiência da pandemia que nos faz descobrir que «estamos todos no mesmo barco». O passado já passou e estou em crer que na pandemia, Deus diz à Igreja o que disse a Abraão. «Deixa a tua terra, as tuas seguranças e parte para o novo que eu te vou indicar».

E faz-nos uma promessa de que, se nos pusermos a caminho e nos abrirmos ao novo, enviar-nos-á uma chuva de bênçãos. Jesus, mostrando aos discípulos o seu rosto cheio da luz divina, apresenta-lhes também a promessa da ressurreição e da vida gloriosa com Deus no céu, mas ainda não é tempo de «implantar ali as tendas»: é preciso descer e continuar o caminho do deserto, da conversão e da cruz.

Sentimo-nos a caminho, abertos à novidade de Deus, ou já plantámos as nossas tendas com estacas tão profundas como quem conta já não sair dali?

Quais são os auxílios, os oásis a que estamos a recorrer para nos fortalecer no caminho da quaresma?

Que chamamento Deus nos tem feito? E como temos respondido? Quais são os pesos que nos atrapalham e impedem o caminho?