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Folha Paroquial nº 144 *Ano III* 01.11.2020 — SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 5, 1-12)
Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

OH DITOSA IGREJA NOSSA MÃE

Este é um dos belos dias de festa que a Igreja nossa mãe nos proporciona viver. É um dia cheio de alegria, de júbilo e de festa emotiva. Hoje lembramo-nos da totalidade da Igreja que somos; a Igreja que ainda peregrina na terra, na esperança de chegar à pátria celeste, e a Igreja que já lá chegou e agora canta sem cessar os louvores eternos de Deus. Eles são os bem-aventurados que “se alegram e exultam, pois é grande nos céus a sua recompensa.” Hoje, convido-vos a aprofundar este mistério com as orações do missal. Ele começa com a antífona de entrada que, muitas vezes, se torna o cântico de entrada da missa: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

Depois do canto do hino do “Glória”, segue-se a oração de coleta do Presidente da celebração que recolhe a oração íntima e silenciosa dos fiéis, depois de os ter convidado à oração dizendo: Oremos…

Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de todos os santos, dignai-vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo….

Quase todos os dias a Igreja honra um ou mais santos, mas hoje é uma festa da santidade na igreja, de todos os seus ilustres conhecidos e desconhecidos, essa multidão imensa que ninguém pode contar e que estão vestidos com túnicas brancas e de palmas vitoriosas na mão, aclamando dia e noite o Cordeiro e seguindo-o para onde quer que Ele vá.

As 3 leituras vão-nos dando conta do mistério: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». Por isso agora cantam sem cessar diante do trono de Deus e do Cordeiro: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro».

No salmo responsorial, respondemos à Palavra escutada com júbilo e emoção: «Esta é a geração dos que procuram o Senhor».
A segunda leitura convida-nos a contemplar o amor do Pai que quis que fôssemos seus filhos no Filho. E S. João afirma com convicção: “E somo-lo de facto”. Mas depois, acrescenta: É certo que ainda não vimos tudo o que significa o facto de Deus querer que vivamos esta maravilhosa relação filial com Ele. Mas, quando virmos tudo claramente, isto é, quando chegarmos ao céu, então ficaremos extasiados porque veremos a Deus, face a face, e à luz d’Ele, ver-nos-emos a nós mesmos e àquilo que Ele quis para nós e, por isso, resta-nos a adoração, a ação de graças, o louvor eterno.

O Evangelho apresenta-nos o caminho da santidade, ou bem-aventurança, que é a mesma coisa. Esse caminho está resumido logo na primeira bem-aventurança: Bem-aventurados os que põem a sua alegria, a sua confiança e a sua esperança só em Deus; Poderão passar por muitas dificuldades, mas Deus não lhes faltará e o reino de Deus pertence-lhes. Porém, é no prefácio, esse louvor que antecede a aclamação do Santo, que a Igreja, através do sacerdote, dá largas à sua alegria e ao seu júbilo agradecido cantando-Lhe entusiasmadamente:
Senhor, Pai santo, é nosso dever dar-Vos graças, sempre e em toda a parte: Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste, onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:
Logo que o presidente termina, a assembleia irrompe na aclamação do “Santo”, afirmando que só Ele é Santo, três vezes Santo, e que, se alguém, ou alguma coisa, pode ser chamada santa, para além de Deus, é porque Lhe pertence e irradia a Sua santidade. Por isso o sacerdote continua rezando: “Senhor vós sois verdadeiramente santo, sois a fonte de toda a Santidade.

E a celebração eucarística termina, com chave de ouro, através da oração conclusiva da missa. Depois da comunhão e do silêncio sagrado que se lhe segue, ou do cântico depois da Comunhão, o sacerdote, antes de terminar a missa, reza a oração que a conclui e que é uma ação de graças pelo mistério celebrado. Quando somos convidados por um amigo para uma festa de banquete em sua casa, há as despedidas no final, e nós agradecemos ao dono da casa o convite e a honra que sentimos em ter estado em tão bela festa e quanto ela nos fez bem. É isso que o sacerdote faz, em nome de toda a assembleia, ao grande Senhor que nos convidou para o banquete. No dia de todos os santos, dizemos-Lhe no final: «Nós vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por nosso Senhor…»

E é a razão porque celebramos esta festa. Para avivarmos em nós o desejo e o ardor de passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste, fazendo o caminho da fé.

Como é bela a celebração da Eucaristia quando a celebramos com fé! Ela transforma-nos, cura-nos, encoraja-nos, reaviva a nossa esperança, ergue o nosso olhar do chão quotidiano para os altos montes donde nos vem o auxílio.”

Folha Paroquial nº 143 *Ano III* 25.10.2020 — DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

Eu Vos amo, Senhor: sois a minha força.

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“EVANGELHO (Mt 22, 34-40)
Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O MANDAMENTO DO AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO

Há uma frase bíblica que ao mesmo tempo que me dá alegria me levanta questões. É a seguinte: “Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Paulo diz que a esperança cristã é fundada em algo que já existe em nós. Assim como a esperança da mulher grávida que traz um filho no ventre não é uma esperança sem fundamento, assim a esperança cristã tem um poderoso fundamento: o amor de Deus já derramado nos nossos corações, pelo Espírito Santo. O amor de Deus infinito e eterno manifestou-se de modo supremo na morte de cruz do Filho unigénito e a sua ressurreição criou uma explosão do amor trinitário em nós. As barreiras que nos separavam de Deus foram aniquiladas com a cruz do Senhor e nós, agora, podemos experimentar todo o amor que Deus é, através do Espírito Santo. Jesus já o tinha dito: “Aquele que me ama será amado por meu Pai, nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada.” Então, esse amor eterno, infinito, inefável, que criou o mundo, foi-nos dado e vive em nós. Nós já não apenas sabemos que Deus nos ama, como a Bíblia no-lo repete tantas vezes e que constitui o primeiro anúncio da Igreja: “Deus ama-te, Deus ama-nos, Somos amados por Deus”; mas, mais do que isso, experimentamos em nós o seu amor, pois foi derramado abundantemente em nossos corações. Isso é para mim fonte de admiração e de gratidão para com Deus, mas levanta-me também algumas perguntas: Porque é que então, nós, cristãos, não amamos mais? Porque é que tantas vezes tenho de pedir a Deus a graça de saber amar, de saber dar-me, de vencer o meu desejo de comodismo? Porque é que o amor a todos não é assim tão natural e temos ainda tendência para nos fecharmos no nosso egoísmo? Para que precisamos nós, depois de Cristo, no Novo Testamento, de um mandamento que nos mande amar a Deus e ao próximo? Não devia ser natural em nós? Às vezes, chegamos a sentir mesmo por algumas pessoas aquilo que um cristão nunca devia sentir: sentimentos negativos. E isso causa-nos tristeza, pois desejamos amar. O papa Bento XVI, na bela e memorável encíclica que vale a pena ler muitas vezes, «Deus caritas est», diz : “Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos, agora o amor já não é apenas um mandamento, mas é a resposta ao dom com que Deus vem ao nosso encontro” (nº 1 da DCE). Compreendemos estas palavras, mas sentimos que muitas vezes a nossa resposta a este dom é muito fraca quando amamos pouco os irmãos à maneira de Deus. E o papa acrescenta como, em Cristo, devemos amar o próximo: “Eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspetiva de Jesus Cristo.” Ah, aqui já há uma resposta mais concreta e tranquilizadora à minha (nossa?) questão. E depois Bento XVI acrescenta: “Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser «piedoso» e cumprir os meus deveres religiosos, então definha também a relação com Deus. (…) Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus.”

Em conclusão, o papa explica-nos que para amarmos os irmãos com o amor de Deus e à maneira de Deus, só é possível se vivermos em intimidade com Deus, deixando-nos conduzir pelo seu amor derramado nos nossos corações; mas, para isso, não nos podemos fechar numa religiosidade intimista e individualista mas numa comunhão amorosa com Deus aberta ao cumprimento da sua vontade e sempre questionando-nos se estamos a aderir à vontade de Deus. Porque estamos marcados pelos efeitos em nós do pecado original, o amor ao próximo, sobretudo àquele para quem não me sinto inclinado pelos laços de sangue ou de empatia, deve ser uma decisão amorosa e livre da nossa vontade. Eu tenho de decidir amar por um ato livre e não estar à espera que me venha a vontade de amar. Esta minha disponibilidade interior para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor vai curando o meu coração das feridas do egoísmo e vai-o alargando a uma dimensão da caridade cada vez maior. Foi assim que começaram os santos, como Teresa de Calcutá. Um jornalista americano que um dia acompanhou Madre Teresa viu-a tratar uma pessoa com feridas em tão grande putrefação que exclamou alto: «Eu não fazia este trabalho por dinheiro nenhum do mundo». Madre Teresa ergue-se, olha para ele, e agarrando o crucifico pendurado no seu sari, exclama decididamente: “E eu também não, sr. Jornalista. Não fazia isto por dinheiro nenhum do mundo. Faço-o gratuitamente porque Este mo mandou e me dá forças e amor para o fazer.” O amor cristão vai muito para além de um humanismo. Como diz Bento XVI, “Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina”.

Às vezes, quando se fala de caridade na igreja, muitos pensam logo só, e apenas, naquelas formas tradicionais de ajuda aos pobres que não têm que comer e vivem em situações miseráveis. E assim, quando pelo desenvolvimento da sociedade já não se vêm muito ou são sempre os mesmos, já não precisamos de praticar a caridade. Mas o amor é para viver em todas as circunstâncias. Se quando temos um idoso em tempo de covid, na nossa família, a ficar isolado e com medo e não o visitamos nem lhe damos afeto, onde está a nossa caridade? Neste tempo de covid, pensemos mais nesta faixa de população que está a viver situações dramáticas de solidão. Inventemos formas de manifestar o nosso amor, pois o amor é criativo. E perguntemo-nos todos os dias, ao fim de cada dia: «Hoje pratiquei a caridade com alguém?» Interessei-me pelos outros, para além daqueles que tenho de cuidar pelos laços do sangue? E, no início do dia, que a nossa oração possa conter um pedido e uma lembrança: «Ajuda-me a não passar ao lado de alguém que precise de uma palavra amiga, de um gesto de ternura, de um olhar de compreensão e que eu, pela minha distração ou pressa, lho negue. Que eu seja manifestação do teu amor eterno para os irmãos que eu encontrar.»
Felizes os que se disponibilizam para amar quotidianamente! Salvam a sua vida do vazio e do inferno, e abrem para si mesmos e para os outros as portas do Céu.”

Folha Paroquial nº 142 *Ano III* 18.10.2020 — DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM

Aclamai a glória e o poder do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 22, 15-21)
Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse. Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes acepção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-Lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

JESUS CRISTO É O SENHOR

Esta afirmação do kerigma cristão, proclamado depois da ressurreição do Senhor, diz a identidade de Cristo e de como devemos relacionar-nos com Ele. Proclamar que Jesus Cristo “é o Senhor” reenvia-nos à afirmação da primeira leitura, «Eu sou o Senhor e mais ninguém», e tem consequências enormes na nossa maneira de viver: em primeiro lugar, é um antídoto contra todas as idolatrias deste mundo, de ontem e de hoje. Por isso, os primeiros cristãos, que proclamavam Jesus como “o Senhor”, não podiam dobrar o joelho diante do imperador romano nem de qualquer poder terrestre por maior que ele fosse. E morriam por causa disso. Nós só nos inclinamos e nos ajoelhamos diante de Deus: do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em atitude de adoração como criaturas diante do criador. Quando nos ajoelhamos diante da imagem de um santo ou mesmo de Nossa Senhora, temos de ter o cuidado de fazer a diferença: aí é uma atitude de veneração, de respeito e de humildade mas não de adoração. Ajoelhamo-nos e prostramo-nos sim, diante da Eucaristia, do Santíssimo Sacramento, porque Ele « É o Senhor».

Jesus Cristo, pela sua morte e ressurreição, foi constituído Senhor dos vivos e dos mortos. Por isso é vã toda a tentativa dos senhores deste mundo, quando se sentem com poder, de se arrogarem em senhores da história como se tivessem na mão os destinos do mundo. Um hino cristão dos primeiros séculos diz: «Ele é a imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura. N’Ele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis (…) Ele é anterior a todas as coisas e por Ele tudo subsiste. (…) Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude.» ( Col 1,12-20)

Dizer que Jesus é o Senhor, Adonai (hebraico), Kyrios(em grego), significa dizer que Ele é o criador e Aquele por quem tudo subsiste e sem Ele nada pode existir.

Mas Deus, que é grande e Senhor, criador de tudo e de todos e sem o qual nada existe, criou o mundo e todos os seres levado pelo do seu amor eterno. Ele fez-se humilde e abaixou-se à pequenez da sua criatura. Ele não nos quer dominar como os senhores deste mundo, mas quer libertar-nos de todas as dominações que nos escravizam. Quis criar-nos livres e autónomos, capazes até de nos voltarmos contra Ele e de usarmos o nosso livre arbítrio para o negarmos e usarmos as capacidades que Ele nos deu, para vivermos sem Ele. Ciro, rei pagão da Pérsia, que tinha invadido a Babilónia, libertou o povo de Israel cativo neste império e enviou-o para o seu país; e Isaías afirma que, embora tenha sido visivelmente Ciro quem fez aquilo, foi Deus, condutor da história, que conduziu Ciro àquela ação boa, pois tudo está nas mãos de Deus. Para que Israel fosse liberto, Deus deu a Ciro poder sobre as nações. Foi Ele quem o “tomou pela mão direita, para subjugar diante dele as nações e fazer cair as armas da cintura dos reis, para abrir as portas à sua frente, sem que nenhuma lhe seja fechada: «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias»”.

No Evangelho, Jesus diz que se respeite o senhorio de César pois também César está nas mãos de Deus, ainda que não o saiba. Mas só Deus é Senhor. É na sua mão que está o destino do mundo e da história.

Sobretudo desde a revolução francesa para cá, a humanidade tem tentado livrar-se de Deus como se Ele fosse aquele que nos impede de sermos livres – e tem sido uma autêntica cegueira. São Paulo chama a isso “a impiedade”, que é a raíz de todo o pecado, a recusa de reconhecer a Deus, de lhe dar glória ou, dito de outro modo, a recusa de Deus como criador de todas as coisas e a recusa de si mesmo enquanto criatura. Mas sem Deus, em quem tudo subsiste, o homem fica perdido e errante no nada infinito. É a queda eterna, a impiedade.

«Dar a César o que é de César» significa reconhecer a autonomia das realidades terrestres proclamada pelo Concílio Vaticano II. Significa aceitar a lei da incarnação e das mediações humanas. É aceitar o caminho que nos permite, num justo comportamento em relação a César, de poder dar a Deus o que é de Deus, quer dizer, a totalidade do homem. Isto é, o homem só pertence a Deus, pois Ele é o seu criador e Senhor; mas o seu serviço a Deus passa pela construção do mundo como cidadãos, cumprindo todas as leis estabelecidas, como aliás Jesus fez. Jesus deu a Deus tudo, mas obedeceu aos poderes instituídos em tudo o que não ia contra a vontade do Pai. Jesus não contesta o poder de César, cuja sorte, como a de Ciro, está nas mãos de Deus. Em conclusão, o cristão que adora a Deus como único Senhor e que só se ajoelha diante dele, deve ser também o primeiro na linha da frente na construção de um mundo mais justo, em obediência a todas as leis humanas que não estejam em contradição com a sua fé e sua adoração ao único Deus.”

Folha Paroquial nº 141 *Ano III* 11.10.2020 — DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM

Habitarei para sempre na casa do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 22, 1-14)
Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

VINDE AO BANQUETE

Deus, que nos criou com amor eterno e que derramou esse amor divino nos nossos corações ao transmitir-nos o Espírito Santo, como o dom acima de todos os dons, não cessa de nos fortalecer, animar e alimentar no nosso caminho. E o fim do caminho é a alegria eterna com Deus, a que chamamos Céu, a morada de Deus, onde o salmista de hoje diz que quer habitar para sempre.

É muito importante que não percamos o horizonte para não temermos as dificuldades e os assaltos do caminho. O horizonte são as águas refrescantes para onde o Bom pastor nos quer conduzir suavemente. Para lá chegar, posso ter que passar por vales tenebrosos mas nada temerei porque Ele está comigo (Salmo do dia ). Os santos viveram sempre nesta tensão para a frente, e não desfaleceram apesar de tantas dificuldades por que passaram, porque sabiam para onde iam e não queriam errar o alvo que é a terra das delícias com Deus. Santa Teresa de Ávila diz num dos seus poemas: “Vivo sin vivir en mí, y tan alta vida espero, que muero porque no muero.” E ouvíamos Paulo dizer na segunda leitura, de há duas semanas: “Preferia morrer para estar com Cristo, pois para mim viver é Cristo e morrer é lucro” (Fil 21,1). Eles tinham os olhos postos, não no caminho que os pés pisavam, mas olhavam para a frente, para o sol que os atraía a correr. Por isso Paulo diz-nos hoje, na segunda leitura: «Sei viver na pobreza e na abundância (…) Tudo posso naquele que me conforta.» É que Deus não só nos aponta o Céu como o termo glorioso da jornada, como também nos faz viver já durante o caminho a sua presença consoladora, dando-nos todas as ajudas e graças para que não desfaleçamos e não erremos o alvo da nossa vida, continuando o caminho alegremente. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que vivia já um bocado do céu na terra porque “o céu é Deus e Deus vive em mim.”

O salmo que cantámos hoje, tão cheio de consolação e força, diz-nos que «Ainda que tenha de passar por vales tenebrosos, nada temo porque vós estais comigo (…) Para mim preparais a mesa… e o meu cálice transborda.» A mesa, o banquete das núpcias, é símbolo da alegria definitiva do Reino a que somos chamados. Aquele monte santo é o Céu, como está bem explícito: “Aqui, sobre este monte, o Senhor, há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo.”

No entanto, até lá chegarmos, durante o caminho, Deus não nos deixa morrer de fome. Sacia-nos com o pão do Céu, que é o seu corpo entregue e o seu sangue da aliança. Como outrora o povo de Israel que caminhava no deserto, Deus o alimentou com o maná ou, ainda mais tarde, quando Elias se refugiou no deserto e, esgotado pelo cansaço, com fome e sede, quis morrer, um anjo lhe aparece e lhe oferece pão e água fresca fazendo-o comer e beber por duas vezes, e levantando-o fê-lo continuar o caminho. E esse caminho conduziu-o ao encontro com o Deus vivo no Monte Horeb. A Eucaristia é o alimento do caminho, é a força e o ânimo que Deus nos dá no meio das dificuldades da vida. «Tudo posso naquele que me conforta.» E Deus conforta-nos quando não recusamos o convite que nos é feito no Evangelho de hoje: «Vinde às bodas.» Vinde ao encontro com o Deus vivo. Deus convida-nos à Eucaristia. Penso que Deus deve sentir uma grande dor porque tantos que se dizem cristãos desprezam tanto este inaudito dom que Jesus nos deixou e para o qual continua insistentemente a convidar-nos: “Vinde às bodas.” Como os da parábola também muitos continuam a arranjar mil e uma desculpas. E agora, com a covid, arranjámos mais uma: «Não é seguro». Parece que todos os lugares hoje são seguros menos a igreja. E eu acho que é o lugar mais seguro se continuarmos a fazer tudo como temos feito. Às vezes vemos imagens em certos filmes em que aldeias cheias de gente faminta por causa da guerra ou das cheias, quando chegam os camiões da ajuda alimentar da ONU ou de ONG’s, todos se precipitam para os camiões para terem a certeza de que lhes chega alguma comida, ainda que passem uns por cima dos outros. Se tivéssemos semelhante fome do Deus vivo, correríamos à procurar a Eucaristia fosse a que horas fosse, custasse o que custasse, porque nela encontramos o principal do que precisamos para o caminho até chegar àquele banquete derradeiro em que O Senhor, cingindo-se, mandará que nos sentemos à mesa e nos servirá (Lc 12,37)

Demos alegria a Deus e venhamos às bodas, à Eucaristia, para chegarmos ao banquete derradeiro que Ele prepara para nós desde toda a eternidade.

Estamos a viver momentos difíceis que ainda não tivemos tempo de processar bem. O que mais custa é não saber quando isto vai terminar. E há muita gente angustiada e profundamente solitária: de modo particular os idosos nos lares, mas muita outra gente. A todos os que se encontram em sofrimento e angústia, seja o da covid, seja outro sofrimento qualquer, ouçamos a experiência de Paulo que é também a experiência de todo o cristão que aceita viver o seu caminho com Deus: «Tudo posso n’Aquele que me conforta». Ou ainda o que diz o salmo: “Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome: Não temerei nenhum mal porque vós estais comigo, o vosso báculo – isto é, a vossa presença – me enche de confiança.”

Folha Paroquial nº 140 *Ano III* 04.10.2020 — DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM

A vinha do Senhor é a casa de Israel.

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“EVANGELHO (Mt 21, 33-43)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

DEUS AMA A SUA VINHA E CADA UMA DAS SUAS VIDEIRAS

Se lemos estes textos com profundidade orante não podemos deixar de sentir um estremecimento de emoção diante do amor eterno de Deus e da sua iniciativa amorosa por nós.

Os profetas do Antigo Testamento foram os primeiros escolhidos por Deus para nos falarem do amor de Deus, servindo-se das suas experiências humanas, sobretudo de duas: a imagem do amor paternal e a imagem do amor esponsal.

Vejamos a primeira: «Quando Israel era ainda menino já eu o amava – diz-nos Oseias, eu ensinava Efraim a andar dando os primeiros passos, eu tomava-o nos meus braços, segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer. Mas não reconheciam que era eu que cuidava deles.» (Os 11,1-4).

São imagens familiares que muitos de nós talvez tenhamos contemplado muitas vezes. Mas Deus acrescenta, através do profeta: “este povo é duro de converter”; quanto mais Deus atrai os homens para si, mais eles parecem voltar-se para os ídolos. O que deve fazer Deus nesta situação? Abandoná-los? Destruí-los? Parece ser o que Deus diz na primeira leitura de hoje, diante da vinha sem frutos depois de tanto cuidado do vinhateiro. Mas Deus partilha com o profeta o seu drama íntimo, uma espécie de «fraqueza» e de impotência na qual se encontra por causa do seu amor visceral pela criatura. Deus parece sentir um “ataque cardíaco” diante do pensamento da destruição do seu povo. “O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não destruirei Efraim; porque sou Deus e não um homem.” (Os 11, 5-8)

A outra experiência humana de amor que a Bíblia usa para falar do amor divino por nós, é o amor esponsal, que é aquele que vem hoje descrito nas leituras. Deus recorreu a este género de amor para nos dizer o seu amor apaixonado por nós. Usou todas as fases pelas quais passa o amor esponsal: o charme do amor inicial do namoro (Jer 2,2), a plenitude da alegria no dia das núpcias (Is 62,5), o drama da rutura (Os 2,4), e finalmente o perdão com o renascimento e o recomeço, cheio de esperança, do amor de outrora (Os 2,16).

Esta introdução é para nos falar dos textos de hoje: a primeira leitura começa com uma canção que se cantava nas vindimas onde se mostrava a solicitude do vinhateiro pela sua vinha e os cuidados que tinha com ela. E, por isso, tornou-se depois numa canção de núpcias porque, com ela, convidava-se o jovem esposo a dispensar os mesmos cuidados e amor à sua jovem esposa. “Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar”. “Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?”

O profeta Isaías retoma a mesma canção, mas desta vez para falar da Aliança entre Deus e Israel. Da cantiga das vindimas, tornada cântico nupcial, ele retira uma verdadeira parábola. E é o profeta que decifra a parábola: “A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel, e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror. “

O que está bem patente em todas as leituras é o amor criativo, grande e forte de Deus, a sua iniciativa amorosa para nos prodigalizar tudo o que é necessário para que percebamos, acolhamos e vivamos do seu amor e que, a nossa resposta, os frutos que produzimos, que deviam ser bons e doces, são maus e amargos para tristeza e desconsolo de Deus.

Senhor Deus e Mestre da Vinha que é a tua Igreja imortal!
Quanto fizeste por nós!
Tens cuidado de cada um com laços de ternura e de amor!
Posso ver na minha vida pessoal os teus passos seguros e cuidadosos…
Sempre que clamei por ti, me pegaste ternamente pela mão!
Mas, tantas vezes, não tenho sido agradecido!
Quantas vezes me deixei conduzir pelo mau caminho,
causando-te dor e pena.
Sempre me foste buscar, como ovelha perdida pelos montes, e me puseste alegremente aos ombros, como em dia de festa: Senhor porque nos amas tanto? Porque não te cansas de nos perdoar?
Já me perdoaste 70 vezes 7 vezes.
Quem sou eu, para merecer tanto cuidado e dedicação?
Rendo-me, Senhor, ao teu amor infinito!
Prostro-me em adoração e admiração diante de ti!
Por causa do teu amor pela vinha,
quero dar-me mais a ela, servi-la melhor.
Gostava de dar mais frutos bons! Que te alegrassem e te enternecessem.
Senhor, não desistas de mim, de nós!
Tenho esperança de que a tua vinha te possa ainda oferecer os frutos mais doces que alegrem o teu coração ferido pela ingratidão.
Por isso, Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.
Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.
Neste ano de trabalho sinodal, vela pela tua Vinha de Coimbra
Atrai-nos para ti, e diz-nos que estarás sempre connosco.
Ámen.

Folha Paroquial nº 139 *Ano III* 27.09.2020 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.

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“EVANGELHO (Mt 21, 28-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Vivei as mesmas disposições que havia em Cristo Jesus

Na reflexão de hoje vou centrar-me na segunda leitura, o que não é habitual, mas que os tempos que estamos a viver me sugerem que aprofundemos.

Começo por sublinhar a expressão usada por Paulo, «Em Cristo Jesus». “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”. Não se trata de sentimentalismo, mas de viver as mesmas disposições interiores da vontade e do coração que orientavam a vida de Jesus. A expressão é utilizada duas vezes: no princípio do texto, onde é dito: “Se há em Cristo alguma consolação”…e depois, no fim, “tende entre vós os mesmos sentimentos que há em Cristo Jesus”. Entre uma e outra, Paulo enumera uma série destas disposições. Esta fórmula «Em Cristo Jesus» deve ser lida no sentido forte e profundo que ela tem na fé cristã. Desde o nosso batismo, nós pertencemos a Cristo, fazemos parte d’Ele; e esta nova identidade que é comum a todos os batizados ultrapassa todas as nossas diversidades. Desde o batismo levamos connosco o mesmo nome de família: este nome é «CRISTÃO». E quando encontramos «Cristãos», é este sentimento de pertença comum que ultrapassa (ou deveria ultrapassar) todos os outros. Pode comparar-se a uma grande reunião de família alargada onde sabemos que cada um daqueles que ali encontramos são nossos primos, tios ou outro qualquer parentesco. Todos aqueles que já estiveram nestas reuniões familiares onde se experimenta o mesmo sentimento de pertença comum, podem ter uma ideia do que Paulo quer dizer: consolação, amor, ternura, comunhão. Ora, foi neste mistério de amor e de comunhão que fomos mergulhados no dia do batismo. Agora é preciso vivê-lo no quotidiano. «Completai a minha alegria, tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração», mais ou menos como se dissesse: «Honrai a vossa família, honrai o Nome de Cristão que levais convosco». E se Paulo faz referência ao «em Cristo Jesus», quer dizer que não se situa no domínio do ter mas do ser: «Vós que fostes batizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo» (Gál 3,27). Como quem diz: “Sempre que encontreis um outro batizado, não olheis senão para o que ele é em profundidade. Ele é membro do Corpo de Cristo”.

As nossas reuniões dominicais estão pensadas para que experimentemos esta fraternidade e a alimentemos: cantamos juntos, rezamos juntos, dizemos juntos: “Pai Nosso que estais nos céus”. dirigimo-nos juntos, ao mesmo tempo, em procissão, para comungar o mesmo pão, formando um só corpo. Antes disso, olhamos uns para os outros e damo-nos o abraço da fraternidade e da paz. Para que conscientizemos mais a nossa comunhão em Cristo começou-se há vários anos em SJBaptista e há 3 anos em SJosé o ministério do acolhimento à entrada da igreja e também à saída para que nos saudemos e aprofundemos mais os laços de comunhão… pois não basta que esses laços que nos unem sejam apenas de carácter teológico, isto é a partir do ser. É preciso que passem para o percetível do quotidiano, que a Igreja seja esse mistério de comunhão que evangeliza.

Mas os tempos da pandemia estão a levar-nos por um caminho que pode tornar-se perigoso a partir daquilo que podemos ir encarnando sem nos darmos conta. Agora existe um acolhimento para se respeitarem as normas de saúde, mas é mais um serviço de ordem. As pessoas são convidadas ao afastamento umas das outras quando tudo o que a Igreja tem feito e deve continuar a fazer, é convidar à aproximação. O anterior provincial dos jesuítas portugueses P. José Frazão Correia, escrevia um artigo em que abordava esta problemática e punha o dedo na ferida. Dizia ele: «As medidas sanitárias, por enquanto, não as poderemos evitar nem dispensar. No essencial, este ponto está assumido. O que me parece menos claro é o grau de consciência reflexa que teremos, pastores e comunidades cristãs, do significado e do alcance, a meu ver problemático, que um conjunto de práticas sanitárias e afins, aplicadas na liturgia e a partir da liturgia, poderão ir gerando na compreensão que temos da Igreja e do seu modo de estar no mundo, sobretudo se essas práticas vierem a prolongar-se no tempo. Por serem essencialmente linguagem não-verbal, têm força simbólica e performativa. Sem recorrer a linguagem verbal e sem que se tenha imediata consciência do processo, há práticas higiénico-sanitárias, seguidas no âmbito litúrgico e sacramental, que vão deixando a sua marca e modelando identidade. À força de repetição no tempo, enquanto formas externas, vão conduzindo a alterações internas, exercendo influência sobre sentimentos, pensamentos, disposições. Geram, por isso, determinados modos de ser e de estar em Igreja, dos quais poderemos não nos aperceber imediatamente, mas que, de facto, têm efeitos na realidade eclesial e, em muitos casos, estão manifestamente em contradição com o que se professa. Declara-se implicitamente uma coisa, mas atua-se efetivamente uma outra. A título de exemplo, fala-se de comunhão – supõe-se, evoca-se, invoca-se, apela-se – mas inúmeras práticas higiénicas e de segurança introduzidas são de desconfiança, de proteção e de isolamento; canta-se que “formamos um só corpo”, ao mesmo tempo que se pede e se evita qualquer proximidade e contacto corpóreo. (…)No momento presente, muito especialmente na celebração da Eucaristia, a linguagem não-verbal assume particular relevo, dizendo bem mais do que a linguagem verbal: rostos tapados; mãos higienizadas em vários momentos – por vezes, revestidas por luvas protetoras; limitação de qualquer gesto de proximidade; contínua distância de segurança; lugares marcados e separados o mais possível uns dos outros, quando não previamente reservados; deslocações limitadas ao mínimo indispensável; proibição do gesto da paz e inibição de algumas respostas; canto ainda mais limitado do que o habitual a solistas ou ao pequeno coro; etc. O acolhimento no espaço litúrgico tende a ser funcional e inexpressivo, já que a tónica é toda posta na segurança e na proteção. Conduz-se impessoalmente cada um ao seu lugar, como numa qualquer sala de espetáculos. Repetem-se informações técnicas sem empatia nem emoção, como num qualquer outro lugar público onde se reúnam várias pessoas para usufruir de um serviço. Sem querer, obviamente, a liturgia poderá estar a dar o seu contributo significativo para a “globalização da indiferença” e para o “relativismo” que, justamente, a Igreja tanto contesta. Assim, dificilmente terá lugar e expressão a comunidade viva de batizados que se reconhecem mutuamente e que, na alegria, celebra festivamente um dom surpreendente e imerecido que alimenta a vida e gera corpo eclesial.»

Mas isto pode mudar alguma coisa? A nível exterior, enquanto durar a pandemia não podemos mudar quase nada, mas se consciencializamos que o que estamos a fazer não é o correto, não é o que nos identifica como Igreja, isso pode ajudar-nos.”

Folha Paroquial nº 138 *Ano III* 20.09.2020 — DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

O Senhor está perto de quantos O invocam.

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“EVANGELHO (Mt 20, 1-16)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».”

REFLEXÃO

“O texto do evangelho sugere-nos dois pontos de reflexão: O primeiro é que Deus não vê as coisas à maneira humana. A sua justiça não é a da deusa com a balança na mão e de olhos vendados para estabelecer a equidade material entre as partes. Deus olha com misericórdia. Ele não está de olhos vendados diante de nós, mas conhece-nos bem a partir do mais profundo de nós mesmos. Por isso ouvimos dizer-lhe a partir da 1ª leitura «Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos, e acima dos vossos estão os meus pensamentos». Aquele que veio no derradeiro momento recebeu tanto como os outros….Não se trata, claro, do trabalho numa vinha qualquer, mas estamos a falar numa parábola onde podemos ver aqueles que sempre foram cristãos e aqueles que chegaram à fé mais tarde, a meio da vida, ou no final. Fazer esta comparação a de quem recebe mais é medir as coisas à maneira humana. Estamos na comparação. E esse é o problema. Deus trata-nos a todos como filhos únicos e nós andamos a comparar o que Ele dá a um e a outro, a ver se recebo mais ou menos… Deus dá tudo em abundância. «Amigo, em nada te prejudico: Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho».

Este trabalhador, bem como todos os que entraram na murmuração, não valorizaram nada o que tinham. Estavam com o dono da vinha desde a primeira hora e não percebiam as vantagens que tinham. Há uns três anos um casal que tinha vivido sem Deus e não educaram os filhos na fé católica, fizeram um percurso Alpha e conheceram o Senhor. Um ano depois ouvi-os dizer com lágrimas: «Hoje temos tanta pena do tempo que desperdiçámos sem Deus! Andámos a vaguear à procura de encontrar o melhor que a vida nos podia dar e nunca encontrámos. Logo que conhecemos o Senhor soubemos que Ele era a Vida que procurávamos. E hoje sofremos porque não educámos os nossos filhos na fé e agora eles não estão tão abertos a isso, mas nós rezamos por eles todos os dias e damos-lhes o nosso testemunho». Deus deu a estes que vieram mais tarde o mesmo que deu aos que vieram mais cedo. Deus é bom e nunca pode dar menos a ninguém. O menos não existe em Deus pois Ele é plenitude.

O segundo ponto de reflexão tiro-o do mandato repetido do Senhor da vinha: “Ide vós também para a minha vinha.” A vinha é a missão que Deus nos confiou como Igreja. Quando este casal me deu aquele testemunho entre lágrimas, senti mais profundamente a razão de ser do mandato missionário de Jesus: «Ide e anunciai o Evangelho» para que o maior número possa conhecer a salvação. Para cada um de nós é dirigido este mandato: «Ide vós também para a minha vinha».
O Papa João Paulo II escreveu uma célebre exortação apostólica, que se seguiu ao Sínodo sobre os leigos e partiu desta parábola do Evangelho para nos lembrar: Ide vós também. O chamamento não diz respeito apenas aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para a Igreja e para o mundo. Lembra-o S. Gregório Magno que, ao pregar ao povo, comentava assim a parábola dos trabalhadores da vinha: «Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos, e vede se já sois trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que faz e veja se trabalha na vinha do Senhor».
É uma pergunta que lanço hoje a cada um de vós: Trabalho na vinha do Senhor? Jesus disse noutra passagem: «A vinha é grande e os trabalhadores são poucos…» Sim…como são poucos! Às vezes a vinha do Senhor parece-se com um estádio de futebol, fora do tempo da pandemia, em que há 22 jogadores que suam de tanto trabalhar e uma multidão que assiste. Alguns podem objetar: Mas que posso eu fazer? Tenho tão pouco tempo livre! Não se trata de pedir um trabalho a tempo inteiro mas de dares voluntariamente e, por amor a Deus e à Igreja, uma pequena participação nalguma coisa em que ajudes os outros e te ajudes a ti mesmo(a). O trabalho que te pedimos deve ser algo que gostes de fazer e que sintas que podes e sabes fazer. Não queremos que ninguém se sinta violentado a fazer algo que não gosta nem se sente à vontade para o fazer. Mas há tantas competências que cada um tem que podiam servir à vinha do Senhor. Vou colocar aqui alguns exemplos, mas só alguns pois eles nunca mais acabam:

SERVIÇOS ONDE PODE AJUDAR A SUA COMUNIDADE

“Ide vós também para a minha vinha”

Fazer parte de um coro (se tenho dom para o canto), tocar um instrumento musical (se o sei fazer), ler leituras numa missa onde venha habitualmente(recebendo cá uma formação para isso). Ajudar nos arranjos florais, serviço de acolhimento nas missas ou de ordem durante a pandemia. Fazer o peditório durante as missas de uma forma organizada e inscrita, prestar serviço de eletricista ocasionalmente, se é técnico de som, ajudar ocasionalmente a montar o som no exterior em diversas ocasiões, ou acompanhar o bom estado do som na igreja, técnico de multimédia ou de live streaming precisa-se muito, se é arquitecto precisamos do seu aconselhamento, se é engenheiro civil, precisamos de si, se é contabilista pode ajudar, se é professor pode ajudar dando explicações a gente com dificuldades económicas no serviço que é prestado na paróquia, fazer parte da equipa que prepara os pais e padrinhos para o batismo, ajudar a fazer o serviço de acompanhamento no luto, zelar pela limpeza das vestes litúrgicas, trabalhar na animação de um grupo de jovens, ser catequista, fazer parte da cadeia de oração com uma hora por semana, fazer parte de um pequeno grupo de partilha fraterna, atualizar o site, Facebook e outras redes socais, se sou jornalista, fotógrafo ou tenho competências em artes gráficas e design venha ajudar e faça parte da equipa de comunicação da paróquia. Quanto precisamos! Tem competências e gosta de marketing – pode ajudar nalguns serviços? E há alguém com experiência no fundraising que possa dar uma ajuda? Se já fiz um percurso Alpha posso fazer parte da animação do percurso ou fazer parte de uma célula paroquial. Se gosta de trabalhar com crianças ou é educadora de infância ou professora, pode ajudar fazendo trabalho com crianças, enquanto os pais estão a fazer sessões de formação para o batismo ou no Alpha e noutras situações? Se é engenheiro eletrotécnico ou eletrónico ou informático podia ajudar-nos pontualmente? Às vezes precisa-se muito do faz tudo, ( bricolage). É psicólogo ou psicóloga, e quer dar uma ajuda? Fazer parte de um grupo de crescimento da fé? Ou de um grupo bíblico? Estar disponível para servir pontualmente entrando numa bolsa de gente a quem se pode recorrer?

Isto é só uma amostra, mas posso não me encaixar em nada disto embora gostasse de servir. Venha ter com o pároco que há-de encontrar-se o seu lugar, pois na Igreja há lugar para todos. A Igreja é uma comunidade de irmãos onde todos são chamados a dar a sua ajuda para ela realizar a missão do anúncio do Evangelho. E quanto mais nos damos mais a vida tem beleza “pois quem quiser salvar a vida, há-de perdê-la”, disse Jesus.”

Folha Paroquial nº 137 *Ano III* 13.09.2020 — DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

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“EVANGELHO (Mt 18, 21-35)
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».”

REFLEXÃO

“Toca-nos a bondade misericordiosa do rei que quis ajustar contas com os servos. O castigo para a falta de pagamento era que o devedor fosse vendido com a mulher, os filhos e todas as suas posses. Seriam eles mesmos, com a sua vida escravizada, o pagamento da dívida. O que o devedor pede com humildade é apenas um prazo para arranjar o dinheiro necessário para pagar tudo, mas o rei estende o seu perdão muito mais longe… Não lhe dá um prazo para que pague, perdoa a dívida toda. Por isso é que é tão chocante que quem foi objeto de tanta misericórdia, logo depois, não tenha coração para agir da mesma forma. Vemos bem que Jesus fala do Pai e da razão porque Ele enviou o Filho ao mundo. Recordemos que toda a obra redentora de Cristo na Cruz é uma obra de perdão e reconciliação: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito, para que todo o que n’Ele crer não pereça no peso dos seus pecados e da sua separação de Deus mas encontre a vida eterna”.

“Que havemos de fazer irmãos?” -perguntavam os ouvintes da primeira homilia de Pedro, depois da ressurreição e do Pentecostes. A resposta foi: “Convertei-vos e peça cada um de vós o batismo para perdão dos vossos pecados. Recebereis então uma vida Nova”, isto é, sereis justificados, libertados, reconciliados com Deus. Com a morte de Jesus na Cruz, tudo vos foi perdoado, estais justificados diante de Deus que, gratuitamente, sem mérito vosso, veio ao vosso encontro oferecendo-vos o perdão. A única coisa que tendes de fazer é aceitá-lo livremente. O batismo é o primeiro e fundamental ato através do qual aderimos ao perdão e à justificação divina. Para quem já é batizado, e voltou a cair no pecado, tem o sacramento da penitência ou reconciliação para acolher de novo o perdão dos pecados cometidos. Quanto precisamos de redescobrir este sacramento de cura e libertação interior, gerador de alegria, de paz, e fonte de um novo e esperançoso recomeço! Para experimentarmos os seus efeitos em nós, precisa de ser bem preparado através de um bom exame de consciência feito na oração e na escuta da Palavra de Deus. Necessitamos pedir a Deus o dom de um verdadeiro arrependimento. Não é suficiente reconhecer o meu pecado, é necessário estar arrependido e ver crescer em mim o desejo e a determinação de me emendar. Preparo bem o encontro com a misericórdia de Cristo na pessoa visível do sacerdote? Confesso humildemente os meus pecados assumindo a verdade das minhas faltas e culpa? Ouço as palavras do sacerdote que me falam do amor maravilhoso de Deus que se alegra em perdoar e recebo em ação de graças a absolvição dos pecados? Quando saio de junto do sacerdote a minha alma está leve, a minha alegria foi revivificada, reencontrei a vida de Deus em mim que o pecado tinha escondido? Posso cantar eternamente as misericórdias do Senhor.

Se nós experimentámos profundamente o perdão de Deus como poderemos ficar de coração endurecido diante daquele que nos pede perdão de coisas tão pequenas? O perdão é qualquer coisa muito querida por Deus. Às vezes temos a tentação de pensar que o mundo seria mais humano se tudo estivesse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo dos que atuam mal. Mas não construiríamos assim um mundo tenebroso? Que seria de uma sociedade onde fosse suprimido de raiz o perdão? Que seria de nós se Deus não soubesse perdoar?

Só há pouco tempo a psicoterapia começou a interessar-se pelo perdão como caminho de cura psicológica e afetiva. Durante muito tempo foi entendido apenas como um passo religioso. No entanto, o perdão é necessário para conviver de maneira sã. As relações humanas estão cheias de tensões, conflitos, humilhações, enganos, infidelidades, agressões, atentados à vida dos outros, injustiças clamorosas e abusos destruidores. Quem não sabe perdoar, pode ficar com uma ferida interior permanente da qual sofre sempre e que traz outros males consigo levando à tristeza, ao desejo crescente de vingança, ao ódio, e a todos os males. Torna-se uma espiral que não acaba. Mas há algo que convém aclarar. Muitos pensam-se incapazes de perdoar porque confundem cólera com vingança. A cólera controlada é uma reação sã de irritação diante da injustiça sofrida, diante da agressão. O indivíduo revolta-se quase instintivamente para defender a sua vida e dignidade. Pelo contrário, o ódio, o ressentimento e a vingança vão mais além desta primeira reação. A pessoa vingativa procura fazer mal, humilhar e até destruir a quem lhe fez mal. Perdoar não quer dizer reprimir a cólera. Pelo contrário, nem convém nada reprimir. Nós precisamos da cólera diante do mal. Quem não se encoleriza nunca, não é normal. Nós deveríamos ser capazes de nos amar a nós mesmos, e amar os outros de tal forma que isso nos levasse a detestar como insuportável a violência, o egoísmo, o racismo, a discriminação e toda a injustiça. A cólera dá-nos a energia para mudarmos o que deve ser mudado, para podermos viver num ambiente são.

Reprimir pode acumular sentimentos de ira que mais tarde vão explodir para pessoas inocentes ou contra si mesmo. É mais são reconhecer e aceitar a cólera, a revolta, e falar do que se sente a alguém sem nada reprimir. Depois há um caminho a fazer. O texto da primeira leitura é traduzido pela Bíblia ecuménica de uma forma diferente e diz assim: “Lembra-te da aliança do Altíssimo e passa por cima da ofensa”. Parece-me ser uma bela definição do perdão. A realidade não pode apagar uma ofensa. As coisas não se apagam com uma esponja. Mas podemos passar por cima. Depois de uma ferida física, ficamos com uma cicatriz, a pele não voltará ao que era totalmente, nenhuma esponja poderá apagar aquela ferida já curada, mas que deixou uma marca na pele. Para uma ferida moral é a mesma coisa. Não podemos dizer que não aconteceu. E em casos graves podemos ficar marcados para toda a vida. Nada pode apagar a calúnia já feita, o gesto de desprezo, a infidelidade grave, os gestos de violência, as nossas palavras e atos produzem frutos venenosos. Depois do mal feito já não se pode voltar atrás, nem para o culpado nem para a vítima. No entanto, como diz Ben Sirá (1ª leitura) podemos passar por cima. O perdão não consiste em esquecer ou ignorar algo que não conseguimos esquecer, mas em passar por cima e tentar renovar a relação que foi cortada pela ofensa; trata-se de repropor a sua amizade, a sua confiança. É isso que quer dizer Perdão: etimologicamente são duas palavras: Perdão, quer dizer o dom perfeito, o dom dado para lá da ofensa. Ele só pode ser obra do Espírito Santo. Que Ele nos dê sempre a graça do perdão para nos sentirmos mais próximos do coração misericordioso do nosso Deus.”

Folha Paroquial nº 136 *Ano III* 06.09.2020 — DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

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“EVANGELHO (Mt 18, 15-20)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».”

REFLEXÃO

“Hoje, a cultura pós-moderna, desvaloriza o “nós” para sublinhar exclusivamente o “eu”. A comunidade e os interesses de todos são desvalorizados em relação aos interesses pessoais. Esta mudança de perspetiva trouxe alguns aspetos positivos, pois levou ao reconhecimento universal dos direitos de cada pessoa humana, mas, levado ao exagero, pode pôr em causa esses mesmos direitos, já que cada um de nós não é uma ilha, mas só nos realizamos na relação com os outros.

É frequente ouvirmos frases como: «Cuida da tua vida que eu cuido da minha»; e, ainda pior: «cada um que se se arranje». A visão do “cada um por si” é contrária ao Evangelho e contrária também a uma visão humanista da vida. Nós somos chamados a amar, a interessar-nos uns pelos outros e a nunca desistir do nosso irmão, mesmo que ele insista em fazer escolhas de morte. Jesus diz, hoje, na segunda leitura, que a caridade é o pleno cumprimento da lei, pois todos os outros mandamentos conduzem a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Às vezes os irmãos, por fragilidade, podem afastar-se do caminho, fazer coisas erradas, com consequências devastadoras para si mesmos e para os que estão à sua volta. E que podemos nós fazer para os ajudar? Hoje, esta tentativa de ajuda é mais difícil de pôr em prática pelo receio que temos de nos estar a meter na liberdade dos outros. Por isso, exige ser uma ajuda muito respeitosa e discernida.

Nos Estados Unidos, na semana passada, numa estação do metro, alguém tentou violar uma rapariga em público e as pessoas que estavam na estação puseram-se a filmar as cenas e a enviá-las para as redes sociais sem nada fazerem. Parece impossível, mas muita gente tornou-se indiferente ao sofrimento dos outros. Felizmente não são todos, pois ainda há muita gente que estremece diante da dor do outro e arregaça as mangas.

Jesus quer que a comunidade dos seus discípulos viva este amor mútuo. A Igreja de Jesus deve ser o lugar onde o mandamento Novo se torna visível e palpável. Na visão pastoral da paróquia de S. João Baptista e na de S. José, este aspeto é mencionado. Na de S. João diz-se: “Somos uma comunidade orante e acolhedora”… e na de S. José diz-se…«Crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos…». Numa e noutra, expressa-se que somos chamados a formar uma comunidade que experimente visivelmente que nos interessamos uns pelos outros. Sentem já isso, ou ainda não? Quando cada um sofre, a comunidade deve estar próxima e estar com a pessoa; mas também quando cada um esmorece na fé, desanima, compete aos irmãos mais próximos acompanhá-lo com caridade, incentivá-lo a ser fiel a Deus. Naturalmente, exige-se sempre o respeito pela pessoa ainda que ela faça escolhas que nos façam sofrer, pois sabemos que não são boas. Onde esta ajuda se vive mais facilmente é nos pequenos grupos, pois é aí que se conhece melhor o irmão e se pode ajudá-lo e acompanhá-lo. Além disso, o pequeno grupo é preventivo, isto é, não ajuda só quando o erro já está feito, mas forma para os evitar. Por isso é tão importante que cada cristão tenha um pequeno grupo onde cresça com os outros. É acerca desses pequenos grupos que hoje o evangelho também fala: “Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus. Na verdade, onde dois ou três estão reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.”

O importante é que estejam reunidos em Seu nome, que escutem o seu chamamento, que vivam identificados com o Seu projeto do Reino de Deus. Que Jesus seja o centro do seu pequeno grupo. Esta presença viva e real de Jesus é a que há de animar, guiar e sustentar as pequenas comunidades dos seus seguidores, os pequenos grupos que se reúnem em seu nome, tal como as células paroquiais de evangelização, o grupo de catequese de adultos, a equipa Alpha, o grupo de oração ou de lectio divina, ou qualquer grupo da paróquia que, mesmo esporadicamente, se reúne por causa dele, para escutar a sua palavra, pô-lo no centro. E quando isso acontece, é Jesus quem alenta a sua oração, as suas celebrações, projetos e atividades. Esta presença é o segredo de toda e qualquer comunidade cristã viva. Cito a seguir o teólogo espanhol José Pagola: “Nós, discípulos do Senhor, não podemos reunir-nos hoje nos nossos grupos e comunidades de qualquer maneira: por costume, por inércia ou para cumprir obrigações religiosas. Podemos ser mais ou menos numerosos; podemos ser só dois ou três, mas o importante é que nos reunamos em seu nome, atraídos pela sua pessoa e pelo seu projeto de construir um mundo mais humano, mais fraterno, mais justo. Temos de reavivar a consciência de que somos comunidade de Jesus. Reunimo-nos para escutar o seu Evangelho, para manter viva a sua memória, para nos deixarmos contagiar pelo seu Espírito, para acolher em nós a sua alegria e a sua paz, para anunciar a Boa Notícia. Já o disse aqui mais que uma vez e repito-o. O futuro da fé cristã dependerá em boa parte de pequenos grupos de cristãos que, situados nas paróquias, as vão renovando pela experiência de comunhão que fazem uns com os outros, porque Jesus está no meio deles.” (De uma homilia do 23º Domingo Comum, Ano A).

Temo-nos encontrado para rezar e pedir por irmãos doentes, por situações difíceis, e temos experimentado que Jesus está de facto no meio de nós? Em S. João Baptista de vez em quando tem-se feito esta experiência e tem ajudado muitos a experimentar que Jesus é real, está vivo, muda a nossa vida, leva-nos a opções e escolhas novas, e escuta as nossas orações, de modo especial as que fazemos em comunidade. Então crescemos na fé e avançamos. Jesus quer ver-nos a caminhar uns com os outros, no amor, construindo uma civilização do amor e não uma sociedade egoísta em que cada um só olha para si mesmo e para os seus interesses. Ele conta connosco para isto.”

Folha Paroquial nº 135 *Ano III* 26.07.2020 — DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM

Quanto amo, Senhor, a vossa lei!

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 13, 44-52)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».”

REFLEXÃO

O VERDADEIRO TESOURO QUE ENCHE DE ALEGRIA

Na parábola de Jesus, o homem que encontrou um tesouro escondido no campo ficou tão contente, que foi vender tudo o que possuía para adquirir aquele campo. Ele foi sábio, como Salomão, que podendo pedir riquezas e poder sobre os inimigos, pede o tesouro da sabedoria para bem governar o seu povo. Mas muitas vezes o nosso tesouro é mesmo o material, como era o caso do jovem rico. Não conseguiu vender o que tinha para adquirir o tesouro. Isto é tão importante para o nosso crescimento na fé que dou início a alguns ensinamentos sobre o dinheiro. Muitos padres, eu incluído, sentimo-nos pouco confortáveis a falar sobre dinheiro nas missas. Até porque basta falar uma vez, ou duas, para se ouvir dizer que “o padre está sempre a falar em dinheiro.” E não há padre que escape a este rótulo, pois todos têm de falar de dinheiro, uma vez o outra, e, se levassem a sério a formação dos cristãos, falariam mais vezes – pois Jesus foi isso que fez. Mas o desconforto é maior ainda nos fiéis e, por isso, se sentem tão mal quando ouvem falar de dinheiro na missa. É mais ou menos como se o padre estivesse a falar de uma coisa suja, má, que tem mais a ver com o demónio. Isso tem como resultado em que não vemos o dinheiro como algo que faça parte da nossa vida espiritual. Muita gente tem a vida toda compartimentada à imagem dos cartões que traz na carteira. Ora se usa um, ora se usa outro conforme o lugar onde estamos. Assim, quando vamos à missa, ou quando rezamos, estamos a cuidar da nossa vida espiritual; quando vamos todos os dias para o trabalho cuidamos da vida profissional; quando investimos dinheiro em qualquer coisa cuidamos da nossa vida financeira; quando chegamos a casa, à noite, cuidamos da vida familiar, e assim por diante. Ora uma vida assim dividida não é vida cristã. Nós devemos amar a Deus com toda a nossa vida e nada fica fora da nossa relação com Deus. Por isso, a forma como vivo a vida profissional faz parte da minha vida espiritual bem como a forma como eu lido com o dinheiro também é a minha vida espiritual. Se não, teríamos uma parte em nós luminosa, a vida espiritual, e depois as outras seriam trevas, onde Deus não entrava. Por isso é tão importante e evangélico falar do dinheiro na igreja, pois o dinheiro faz parte da nossa vida e das nossas preocupações. Lidar bem com o dinheiro é uma realidade salutar e por isso não podemos dizer: «Não, dinheiro é algo que só falo com o meu gestor de conta bancária ou planeador de finanças.» Mas a verdade é que o dinheiro tem um grande impacto na nossa vida espiritual, na nossa relação com Deus. O rico do evangelho foi para o lugar dos tormentos porque usou mal a sua riqueza e Jesus dá-nos muitos outros exemplos. Porque é que Jesus falou tantas vezes sobre o dinheiro? Pelo menos 2.300 versículos falam sobre o dinheiro na sagrada Escritura, e isto porque no caminho da formação do discípulo é um assunto muito importante que tem a ver com a nossa salvação ou condenação. Na raiz da posse do dinheiro está o controlp de nós mesmos, a questão da segurança. O ser humano tem a tendência de juntar tesouros. E fazemo-lo por causa do nosso medo do futuro e da insegurança sobre a continuidade da vida. Desde que abandonámos a segurança do paraíso original, nunca mais nos sentimos realmente seguros em parte nenhuma. Os tesouros dão-nos uma sensação de segurança.

Jesus contou uma história que ilustra isso, e deu um exemplo: “Certo homem rico possuía uma propriedade fértil que dava boas colheitas. Assim os seus celeiros ficaram a transbordar, e não podia guardar tudo lá dentro. O homem pôs-se a pensar no problema. Por fim, exclamou: ‘Já sei, vou deitar abaixo os celeiros e construir outros maiores. Assim terei espaço suficiente. Depois direi a mim mesmo: ‘Amigo, armazenaste o bastante para o futuro. Agora, repousa e come, bebe e diverte-te.’ (Lucas 12: 16-19 ). O Senhor Jesus sabe como é a nossa nossa natureza humana desde que, com o pecado original, nos afastámos de Deus. Tornámo-nos pessoas inseguras que precisam de um tesouro para se sentirem seguras. De forma misericordiosa, e reconhecendo as nossas limitações, Ele forma os seus amigos dizendo-lhes:

“Não junteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas juntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Jesus quer que os seus amigos aprendam a confiar em Deus e a saber fazer boas escolhas na sua vida. Trabalhar para ter mais dinheiro, para sustentar a sua família e dar-lhe uma vida mais digna não é mal nenhum. Também, se alguém trabalhou honestamente e produziu riqueza, não fez nenhum mal porque ter dinheiro não é mal. O que pode ser mal é deixar o nosso coração apegado ao dinheiro. Na epístola de S. Tiago é dito: «O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.» Nem sempre estas palavras foram bem lidas: Não é o dinheiro que é a raiz de todos os males, é o amor, o apego a ele que faz mal, pois faz com que o dinheiro ocupe o lugar de Deus no nosso coração. A melhor forma de exercer a liberdade perante o apego do coração é dar generosamente. Quando o fazemos estamos a construir o tesouro no céu, como disse Jesus. E é uma sensação de grande liberdade quando nos desapossamos e fazemos gestos de liberdade, generosidade e amor. Ficamos mais ricos, empobrecendo-nos um pouco. E Deus não deixa de enriquecer com os seus dons os que n’Ele confiam.

O pedido de Salomão agradou a Deus porque ele, podendo pedir riquezas e poder, pediu a sabedoria para governar bem e, depois, com ela, lhe vieram também outros bens porque Deus o abençoou com riquezas que ele não pediu. A parábola do Evangelho de hoje mostra também a sabedoria do homem que investe no tesouro escondido no campo. E ele diz que tesouro é esse, o reino. Ou seja, ele mesmo. E esse tesouro é eterno, não se destrói e ainda por cima nos dá uma alegria que não passa. Então, como usar bem o nosso dinheiro? Deixamos isso para a próxima ocasião.”