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Folha paroquial – 33º TC – 19 Nov

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Há 3 palavras que sinto virem ao de cima quando leio este texto dos talentos: as palavras alegria, fidelidade e serviço; “Muito bem, servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor”. A alegria é o resultado de quem serve o seu Senhor na fidelidade.

Cada homem e cada mulher se aperfeiçoa, como pessoa, através do trabalho e do serviço feito na alegria e no amor. O trabalho e o serviço não são uma condenação, mas uma libertação, porque nos constroem como pessoas. Não precisamos só do trabalho para ganharmos o pão de cada dia, mas porque através do trabalho deixamos a nossa marca na construção do mundo. Se trabalhássemos só porque precisamos de ganhar dinheiro, os reformados seriam todas pessoas felizes, e alguns entram em depressão quando deixam de trabalhar.

Deus criou o mundo imperfeito para que o aperfeiçoássemos, tornando-nos colaboradores d’Ele na obra da criação. O Filho do homem veio ao mundo para servir e a Sua vida foi um serviço de amor humilde até ao extremo. A marca pessoal que deixamos com o nosso serviço, podemos chamar-lhe talentos para usar as palavra do Evangelho. Outras vezes chamamos- lhes carismas ou dons de Deus, que são dados a cada um em benefício de todos.

Os talentos de que fala o Evangelho de hoje são os dons, a graça própria que é dada a cada um para o serviço do Senhor e da comunidade humana. Deus quis que a Sua Igreja fosse uma comunidade ministerial, quer dizer, uma comunidade onde todos estão ao serviço de todos, de uma forma organizada, e segundo os seus carismas e dons em vista da missão da Igreja. Diz a carta a Timóteo: «Ele salvou-nos e chamou-nos para o seu santo trabalho, não em atenção às nossas obras, mas segundo seu próprio desígnio» (2 Tim 1, 9). Deus redimiu-nos para realizarmos a Sua vontade, o crescimento do seu Reino.

Servir é um ato de amor. Porque amo a Cristo e a Sua Igreja quero dar o melhor de mim mesmo para a Sua Glória segundo os meus carismas ou talentos. Há um provérbio dinamarquês que diz: “O que és constitui o presente de Deus para ti; o que fazes com o que és constitui o presente que ofereces a Deus”. S. Paulo, escrevendo aos cristãos de Roma, diz-lhes: “Não sejais preguiçosos na vossa dedicação; deixai-vos inflamar pelo Espírito; entregai-vos ao serviço do Senhor”. E acrescenta: “Temos dons que, consoante a graça que nos foi dada, são diferentes: se é o da profecia, que seja usado em sintonia com a fé; se é o do serviço, que seja usado a servir; se um tem o de ensinar, que o use no ensino; se outro tem o de exortar, que o use na exortação; quem reparte, faça-o com generosidade; quem preside, faça-o com dedicação; quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria.”

O cristão que não se torna «pedra viva» da construção do edifício espiritual que é a Igreja, não cresce na vida cristã, pois ele é chamado a configurar-se com o Cristo servidor, e a crescer desenvolvendo os dons que lhe foram dados. Quando não o faz, enterra os seus talentos como o terceiro homem da parábola de hoje. Todos os serviços são bons e necessários e não há uns mais importantes do que outros; depende da forma como os vivemos. Conta-se que andavam três homens numa grande pedreira a partir pedra que seria levada para a construção de uma catedral. Um desconhecido passou e falou ao primeiro homem que suava, cansado, e com cara aborrecida: «Que fazes? “ Ele respondeu amargamente: «Não vês? -Estou aqui neste castigo diabólico a partir pedra todo o dia e as horas nunca mais passam».

A mesma pergunta foi feita ao segundo homem que fazia o mesmo trabalho: Ele respondeu: – Ganho o salário para sustentar a minha família. Ao terceiro homem, que partia pedra com ar feliz, foi-lhe feita a mesma pergunta: Ele ergueu a cabeça para as alturas e quase transfigurado pela alegria e pela fé, respondeu: “Trabalho na construção de uma catedral”. O serviço era o mesmo, mas a atitude do último transfigurava o serviço num ato libertador, num ato quase divino. O cristão deve fazer de todo o seu serviço um ato de oferenda a Deus Criador. Ele deve ver mais longe, pois todo o serviço que fazemos tem implicações com os outros, é construtor do mundo.

Procuremos ver de modo honesto e humilde aquilo em que somos bons e em que não somos: S. Paulo escreve: “Digo a todos e a cada um de vós que não se sinta acima do que deve sentir-se; mas (…) com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um.” Dons espirituais e habilidades naturais são sempre confirmados pelos outros. Se alguém pensa que tem um talento para cantar ou ensinar a cantar, e ninguém mais concorda, acha que a pessoa tem mesmo esse dom?

Desejemos todos servir com humildade o Corpo de Cristo segundo os talentos que recebemos e um dia ouviremos o Senhor a dizer-Nos. « Muito bem, servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor.»

Lista possível de serviços

  • Cantar num grupo coral da paróquia;
  • Tocar um instrumento que sirva a liturgia
  • Dirigir um coro; l
  • er a palavra de Deus na missa
  • Fazer parte de um grupo de arranjos florais para a Liturgia
  • Voluntariar-se no acolhimento na secretaria
  • Fazer parte de uma equipa de acolhimento aos Domingos (S. José)
  • Fazer parte de uma equipa de evangelização
  • Dar catequese a crianças, adolescentes ou adultos
  • Fazer parte de uma equipa de oração e acompanhamento das pessoas em luto na altura do funeral.
  • Fazer parte de uma equipa de preparação para o batismo
  • Fazer parte de uma cadeia de adoração a começar no próximo ano pastoral ( S. José)
  • Fazer parte de uma equipa de animação do percurso Alpha depois de fazer a preparação ( S. José)
  • Fazer parte de uma equipa de eventos excepcionais (S. José)
  • Visitar os doentes em casa
  • Fazer parte de um pequeno grupo de aprofundamento da fé.
  • Fazer parte da equipa de pastoral familiar (a formar) ( S. José)
  • Fazer parte de uma equipa de casais (a formar) ( S. José)
  • Animar um grupo de pais na catequese familiar (a formar) ( S. José)
  • Fazer parte de uma comissão paroquial Justiça e paz (a criar)
  • Fazer parte da equipa de comunicação da paróquia (a criar): folha paroquial, site, facebook, cartazes, Correio de Coimbra. ( S. José)
  • E muitos outros consoante as necessidades e dons que aparecem.

Oração

“Senhor Jesus Cristo, que sendo de condição divina, Te abaixaste à condição humana e ,ainda mais, Te fizeste servo dos homens, lavando-lhes os pés, perdoa-nos o nosso orgulho e vaidade e a tentação que temos em ser servidos mais do que servir. Faz da nossa comunidade paroquial uma família onde cada um encontra o seu lugar no serviço. Não permitas que enterremos os dons que nos deste e não Te sigamos no caminho do serviço. Dá-nos a graça e a alegria de nos “fazermos servos uns dos outros na caridade.” Amen.

Folha paroquial – 32º TC – 12 Nov

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O Senhor dá-nos a sabedoria para conduzirmos bem a nossa vida e fazermos boas escolhas para vivermos felizes. Salomão, podendo escolher riquezas e poder, escolheu a Sabedoria para poder orientar bem o seu povo na paz e na justiça. Aquele pedido agradou a Deus, que o encheu de Sabedoria. Esta não é apenas uma questão de saber intelectual. É muito mais que isso; tem a ver com a sabedoria do coração e é da ordem do saborear. A sabedoria vem de Deus e da sua Palavra. Quem O escuta com atenção adquire a Sabedoria e torna-se prudente e sensato. Quem não O escuta pode ter muito saber intelectual, mas cair na insensatez.

Várias vezes no evangelho, Jesus usa esta expressão: «Insensato». Lembramo-nos daquela parábola de Jesus em que um homem tinha feito uma grande colheita e já não sabia o que havia de fazer a tanto trigo e diz a si mesmo: «Já sei o que vou fazer: Vou construir novos e maiores celeiros onde guardarei toda a minha colheita e depois direi à minha alma:  «Ó minha alma, come, bebe e regala-te pois tens depósitos para muitos anos». Contudo, Deus disse-lhe: “Insensato! Esta mesma noite a tua vida te será tirada, e os bens que depositaste para quem serão? Assim acontecerá ao que amontoa para si e não é rico em relação a Deus.». O homem tentava ser esperto mas não era sábio, pois a sabedoria tem a ver com o sentido da existência.

Na parábola dos talentos, enquanto os dois primeiros tiveram a sabedoria de fazer render os talentos que lhe foram dados, o último, enterrou o seu, em vez de o fazer render. E o Senhor disse-lhe: «Homem mau e preguiçoso! Como quem diz: Insensato! “Não deverias tu ter depositado o meu dinheiro no banco e eu tê-lo-ia levantado com juros?” Foram-te dados talentos e tu enterraste-os em vez de os desenvolver.

As donzelas imprudentes do Evangelho de hoje em vez de se prepararem para a vinda do esposo andaram distraídas com coisas supérfluas e quando Ele chegou não estavam lá, perdendo a oportunidade da sua vida de poderem entrar no banquete com o esposo. Foram imprudentes, insensatas. Deviam estar preparadas para estarem despertas quando o esposo chegasse.

E aquele Senhor que preparara um banquete com todo o requinte para os seus amigos e, depois, quando os manda convidar, cada um recusa o convite, apresentando desculpas fúteis: «Comprei uma junta de bois e quero ir vê-las”, outro diz: «casei-me, peço-te que me dispenses».  E O Senhor fica com imensa tristeza, pois o seu convite cheio de amor e consideração pelos convidados, foi trocado por coisas irrelevantes.

Insensato, imprudente, podia ter dito o Senhor… Ofereço-te a minha amizade, ofereço-te a Vida em abundância e tu escolhes rastejar. Muitas vezes deixamo-nos iludir pelas luzes atrativas do epidérmico: Deus queixa-se através do profeta Jeremias:  “Este povo cometeu dois pecados: «abandonou-me a Mim fonte das águas vivas e anda a buscar água inquinada em cisternas rotas que a não podem conter.” (Jer 2,13)

Precisamos da verdadeira Sabedoria para fazermos as escolhas que conduzem à Vida. Quantas vezes por coisas fúteis não deixamos também a Eucaristia ao Domingo? Um passeio, uma festa de anos de um amigo, alguém que apareceu em casa inesperadamente, tudo  serve de pretexto para recusarmos o convite divino e pormos Deus em último lugar na nossa vida.

Na semana dos Seminários peçamos a Deus a verdadeira Sabedoria para os jovens que o Senhor chama. Que saibam na sua vida escolher o verdadeiro bem e serem ricos aos olhos de Deus.

Oração

Deus de amor e sabedoria infinita,
Quantas vezes me deixei iludir e escolhi mal, sendo insensato.
A minha alma tem sede de Vós, Senhor
Sede da Vossa Sabedoria, daquela que levou o Vosso Filho
A rejeitar as tentações sedutoras do demónio, no deserto
E aderir sempre à vossa vontade.
Eu sei que a Vossa graça vale mais que a Vida
Por isso vos peço que a Vossa sabedoria me leve sempre a escolher a vossa graça
Mais do que todas as delícias desta terra. Amen.

 

Folha paroquial – 31º TC – 5 Nov

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Há tempos, perguntei a um colega mais velho, qual foi o primeiro serviço com que começou o seu ministério. Respondeu-me com algum orgulho: “-Fui caudatário do sr D. Ernesto durante 5 anos”. -Caudatário o que é isso?-perguntei: “-Era quem segurava a longa cauda do Bispo quando este ia à Sé. Confesso que não consegui reprimir a minha vontade de rir ao imaginar o sacerdote, todo orgulhoso, a segurar na cauda do bispo e, este ainda mais orgulhoso, a pavonear-se pela Sé fora, com a sua longa cauda. E isto foi há 60 ou 70 anos…! É verdade que somos sempre injustos quando julgamos a história a partir da nossa visão de hoje, mas temos que dizer que o Evangelho que hoje ouvimos era uma crítica aos fariseus daquele tempo e continua a ser bem válido para hoje, pois não mudámos assim tanto em muitas coisas. Só muito lentamente o Evangelho vai entrando no nosso coração de discípulos-missionários e espanto-me com a paciência de Deus em esperar pela nossa conversão.

As leituras de hoje são dirigidas em primeiro lugar aos «que tratam a Deus por tu», isto é, aos “profissionais do sagrado” e depois a todo o povo crente. A 1ª leitura começa com estas palavras: “Eu sou um grande Rei, diz o Senhor do Universo, e o meu nome é temível entre as nações”. O profeta Malaquias dava-se conta de que a glória que devia ser dirigida a Deus era usurpada pelos sacerdotes e por Isso Deus diz: «Se não Me ouvirdes, se não vos empenhardes em dar glória ao meu nome, diz o Senhor do Universo, mandarei sobre vós a maldição”. E qual a glória que roubam a Deus? É o facto de serem injustos, fazerem acepção de pessoas, não escutarem a Palavra de Deus, desviando do caminho os mais simples. Deus é amor e não procura para si qualquer tipo de exaltação egoísta pois não precisa. “A glória de Deus é o homem vivo”. Deus é glorificado quando os pobres são amados e servidos, quando a injustiça é combatida, quando a verdade é reposta. Os sacerdotes usurpam a glória de Deus porque fazem acepção de pessoas e não ligam aos pobres preferindo os ricos, porque não ouvem a sua palavra e desviam do caminho reto os mais simples que confiam neles.

No confronto de Jesus com os fariseus trata-se de algo semelhante. Estes têm uma grande presença exterior com grandes sinais a revelar que são homens de oração e do cumprimento da lei: Trazem consigo, na fronte e nos braços, os filactérios, caixinhas que continham versículos bíblicos, como o apelo à escuta (shema) e franjas mais compridas que o normal, demonstrando que são homens de oração. Dizem a palavra de Deus, mas não vivem da Palavra, porque as suas mentes e os seus corações estão tomados por outros interesses. Procuram o aplauso dos homens, os lugares de prestígio nos acontecimentos sociais e nas reuniões religiosas, os títulos de honra quando são saudados. Jesus critica, não o simples uso dos títulos, mas a orientação profunda dos seus corações que os leva ao desejo de estarem em primeiro lugar, o desejo de dominar, e a usurpação da autoridade de Deus. Jesus pede aos seus discípulos uma orientação diferente. Abster-se de títulos significa renunciar a privilegiar-se a si próprio, não reclamar posições de grandeza e de prestígio na comunidade que os levará ao orgulho e à vaidade. E lembra-lhes que são todos irmãos e todos discípulos à escuta do único Mestre. Quem tem tarefas de ensinamento e governo na comunidade dos discípulos, será o primeiro na escuta do seu Senhor. Quem tem encargos de governo numa Igreja fraterna, será o primeiro a servir. Só escutando e servindo se ingressa no Reino de Deus. Jesus termina a sua vida neste mundo lavando os pés aos discípulos e dizendo-lhes que é assim que eles devem fazer aos seus irmãos. Mas atenção! O evangelho questiona também a assembleia inteira dos cristãos, de modo particular todos os que estão à frente de serviços e grupos na Igreja. Às vezes, começamos todos com boa intenção, a servir, mas depois ganhamos o gosto pelo lugar e sentimo-nos ameaçados por outros que apareçam com ideias novas.

Ninguém na Igreja deve estar apegado a nenhum lugar e deve procurar fazer tudo com muita humildade para não usurpar a glória de Deus. O nosso serviço na Igreja não é para tirarmos dele honra, prestígio e glória para nós, mas é para servirmos com humildade e alegria. É bom sinal a disponibilidade para sermos substituídos quando é necessário, sinal de que não estamos apegados ao lugar. O papa, os bispos, os padres e os leigos, na vida da igreja, e os homens e mulheres, no seu trabalho na vida civil, são todos feitos da mesma massa. Todos somos tentados pelo prestígio pelo poder que ele dá. Mas os cristãos deviam resistir melhor a esta tentação pois têm o exemplo e a palavra de Cristo que nos diz: «Não deve ser assim entre vós, Aquele que quiser ser o primeiro, faça-se o servo de todos, pois o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a vida por todos.» O problema é que, às vezes, não somos ouvintes da Palavra para nós. Conhecemo-la bem para os outros. Na oração do pai Nosso, Jesus ensinou-nos a dizer, Pai Santificado seja o Vosso Nome, que no serviço que fazemos na Igreja, e fora dela, seja para santificar e glorificar o Santo Nome de Deus e não para glorificarmos o nosso nome. O Papa Francisco tenta viver isto de uma forma exemplar. Recusou o seu quarto papal, não quer carros de alta gama, mas automóvel simples, recusa passar férias no palácio de Castel Gandolfo, residência de férias dos papas, num sítio esplendoroso e num palácio de sonho. Carrega com a sua pasta nas viagens e dispensa tudo o que é vassalagem desnecessária. Ele mostra-nos o que deve ser um verdadeiro líder e pastor. Homem íntegro, servidor, que se preocupa com os que deve servir, que dá o exemplo. Ele é o primeiro ouvinte da palavra. Que ouvindo a Palavra de Jesus aprendamos todos com o exemplo do papa.

ORAÇÃO

Ó Deus imenso e cheio de majestade
Que te aniquilaste a ti próprio
Assumindo a pobre condição humana.
Vivendo como nós, fizeste-te o mais humilde de todos
Abaixaste-te para nos lavar os pés, mostrando-nos o que era servir com amor.
Sendo Deus soberano obedeceste até à morte e morte de cruz.
Por isso, O Pai te exaltou e te deu um Nome acima de todo o nome.
Deus grande e cheio de humildade
Concede-nos a Luz do Teu Espírito
Para que nenhum de nós ouse usurpar a Tua Glória
E Te sirva com alegria nos irmãos
Para que um dia possamos ouvir da tua boca:
«Muito bem, bom e fiel servidor: Entra na alegria do teu Senhor.»

Folha paroquial – 30º TC – 29 Out

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Para quem vê a vida cristã pelo lado de fora, sem sentido de pertença, ainda que porventura batizados, o cristianismo dá-lhes a impressão de ser um complexo de obrigações e leis a cumprir. Foi contra esta visão que Jesus lutou no seu tempo. Os judeus, sim, tinham um emaranhado complexo de 613 leis dispersos pelos 5 primeiros livros chamados a Torah, ou a Lei, e que nós hoje chamamos o Pentateuco. Daí a pergunta do Doutor da Lei que é enviado pelos fariseus para o experimentar. O texto diz que os fariseus souberam que, numa discussão com os saduceus, Jesus os tinha deixado sem argumentos, sem saberem o que retorquir. Então os fariseus, talvez pensando que seriam mais espertos que os saduceus, reúnem-se e combinam entre si qual a melhor pergunta a colocar a Jesus, pois estavam convencidos da superioridade da sua doutrina. Escolheram um dos mais doutos entre eles, para o diálogo com Jesus: Um mestre na lei. E a pergunta que este lhe faz tem sentido. No emaranhado das nossas 613 mandamentos em que nos perdemos, qual será o maior, aquele que, se for cumprido, poderá resumir todos os outros? E a resposta não se fez esperar. Para responder, Jesus não se baseia em ensinamentos de grandes mestres do Seu tempo, por melhores que fossem. Ele vai buscar a resposta à fonte, ao texto bíblico, e dá-a em dois momentos. No 1º momento, cita o livro do Levítico e centra o mandamento no amor em Deus: «‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. E acrescenta: «Este é o maior e o primeiro mandamento». Parecia estar tudo dito e o Mestre da Lei preparado para ir embora. Mas Jesus faz uma pausa e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante a este: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». O amor de Deus e  do próximo tornaram-se inseparáveis, e para sempre. Um não pode aparecer nem crescer sem que a seu lado surja e cresça também o outro.

 

Voltando à frase com que comecei, se muitas pessoas têm uma ideia demasiado rígida do cristianismo, vendo-o apenas como um conjunto de normas e leis obrigatórias, é porque talvez a Igreja não tivesse sabido apresentar o principal e o mais belo da vida cristã que é o amor. O amor é tudo no cristianismo, porque Deus é amor. O decisivo na nossa vida, aquilo que a salva e faz dela uma vida em plenitude, é a experiência do amor de Deus e o resplandecimento desse mesmo amor nas nossas vidas, respondendo com ele a Deus e aos irmãos. O Papa Bento XVI Introduz a encíclica Deus é Amor com estas palavras: «Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele» (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã; além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: «Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem».

Para o cristão, o amor, mais do que um mandamento é, em primeiro lugar, uma experiência de vida; nós sabemos e acreditamos no amor que Deus nos tem, porque o experimentamos. Esta experiência é o fundamental do ser cristão. Este encontro com o Deus que nos ama muda tudo e está no início do ser cristão. Toda a conversão é fruto da descoberta de que Deus nos ama.

Ao falar do amor a Deus, Jesus não está a pensar em sentimentos ou emoções que podem brotar do nosso coração. Amar ao Senhor com todo o coração é reconhecer Deus como Fonte última da nossa existência e mostrar esse amor no rosto visível e encarnado dos irmãos.

Deus, incarnando na história e tendo-se feito homem, não deixa que o nosso amor fique nas nuvens ou no etéreo. «Nós amamos a Deus se amamos os irmãos». E “quem diz que ama a Deus que não vê e não ama os irmãos que vê, é mentiroso e a verdade não está n’Ele.” O cristão que ama, ama a partir de Deus e do amor que d’Ele recebe, pois «o amor de Deus foi derramado no nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado».

Jesus, na última Ceia, deixa-nos o mandamento novo. O que tinha de novo é o «como eu vos amei» Olhando para a forma como Jesus nos amou, fazendo-se servo, humilde, perdoando até morrer por nós, temos o modelo do verdadeiro amor.

Jesus quer que a sua Igreja seja uma comunidade que viva o seu mandamento novo e que mostre ao mundo que o amor é possível apesar da fraqueza e do pecado dos seus discípulos.

Por isso, a paróquia deve ser uma comunidade de serviço no amor fraterno. Os grupos que a compõem devem amar-se, interessar-se uns pelos outros e não viverem de costas voltadas uns para os outros.

Os Atos dos Apóstolos dizem-nos que os cristãos eram assíduos à comunhão fraterna e viviam unidos.

No dia 8 de novembro, convido todos os grupos e movimentos de S. José para as 21H00, na hora de Adoração, para rezarmos juntos e para uma pequena reflexão e partilha sobre a comunhão na diversidade. Um encontro semelhante terá lugar, de dois em dois meses, à quarta-feira, a começar a 15 de Novembro, na paróquia de S. João Baptista, para os diferentes grupos desta comunidade. O mandamento do amor deve começar a ser vivido pelos que estão na animação e liderança da comunidade e vai-se alargando a todos. O amor deve começar nos irmãos e estender-se para fora. Se não praticamos a caridade em casa, é difícil depois acreditarem em nós. Jesus disse. «É por este sinal que todos reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros». Se não há, entre nós, sinais e gestos de caridade e comunhão fraterna, quem vai acreditar na nossa palavra?

A beleza da Igreja está na experiência que faz do amor de Deus. «Nós conhecemos e acreditamos no amor que Deus nos tem», e na resposta a esse amor manifestado na caridade para com os irmãos. Que a nossa comunidade resplandeça o amor de Deus no amor dos irmãos a começar pelos mais comprometidos.

Oração

Pai bondoso e cheio de amor para com todos
Cujo amor nunca se cansa nem se esgota.
É bom saborear a tua bondade infinita e contemplar, com admiração,
Todas as coisas que criaste por amor.
Pai Santo, és a defesa mais segura dos pobres e dos humildes,
Concede-nos um coração livre de todos os ídolos,
Para Vos servirmos unicamente a Vós e aos irmãos
Segundo o Espírito do Teu Filho
Fazendo do Seu mandamento Novo a única lei da vida.
Que a  Igreja do Teu Filho, que tanto amas, saiba resplandecer
O amor, como sinal de que somos Seus discípulos. Amen.

 

Folha Paroquial – 29º TC – 22 Out

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A máxima que o Evangelho de hoje nos apresenta, «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», deve ser a mais conhecida e repetida por toda a gente, mas sem lhe perceber o significado profundo e, muitas vezes, tentando manipulá-la a seu proveito.

A 1ª leitura ajuda-nos a compreender melhor o significado da resposta de Jesus no evangelho. Entremos na questão posta a Jesus pelos fariseus: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas». Jesus percebe bem aquele elogio, que é verdadeiro, mas vai, porém, cheio de malícia. Pretendem lançar-Lhe uma cilada. Por isso, começa por lhes chamar: «hipócritas». «É lícito ou não pagar tributo a César?» É permitido ou proibido? Esperavam uma resposta ao «permitido-proibido», na qual muitas vezes nos fechamos. Ora, nós vivemos na fé e no amor e, quando se vive assim, não há respostas rígidas medidas a metro. Não há medida para quem ama. Esse tipo de perguntas é próprio de quem procura os mínimos para cumprir a lei.

Mas Jesus aproveita a pergunta para os obrigar a refletir. «Dar a César o que é de César» significa reconhecer a autonomia das realidades terrestres proclamada pelo Concílio Vaticano II. Significa aceitar a lei da incarnação e das mediações humanas. É aceitar o caminho que nos permite, num justo comportamento em relação a César, de poder dar a Deus o que é de Deus, quer dizer, a totalidade do homem. Isto é, o homem só pertence a Deus, pois Ele é o seu criador e Senhor; mas o seu serviço a Deus passa pela construção do mundo como cidadãos, cumprindo todas as leis estabelecidas, como aliás Jesus fez. Jesus deu a Deus tudo, mas obedeceu aos poderes instituídos em tudo o que não ia contra a vontade do Pai. Jesus não contesta o poder de César, cuja sorte, como a de Ciro, está nas mãos de Deus.

A máxima «dai a César o que é de César» fundamenta, pois, o comportamento leal do cristão para com a autoridade civil e a sua obrigação moral de participar ativamente na construção da cidade dos homens e na vida política, lugar excelente do exercício da caridade e do bem comum.

O problema para o crente surge quando os poderes humanos, cedendo à grande tentação, têm a pretensão de sujeitar o homem e exigir deste uma obediência que vá contra Deus e contra a sua consciência. Ora, só Deus é Senhor e só Ele é digno da nossa entrega total. O homem não pertence a nenhum poder terreno. O imperador não pode impor-lhe opções e comportamentos contrários a Deus e à exigência de observar os Seus mandamentos. Quando isto acontece, o crente não só pode, mas deve desobedecer à autoridade civil. Um trabalhador da saúde não deve obedecer a quem lhe manda fazer um aborto, ou a quem, em nome da lei, o obrigasse a praticar a eutanásia. Um trabalhador de uma empresa não pode aceitar colaborar numa mentira que o patrão lhe exija fazer para ganhar mais dinheiro.

«Dar a Deus o que é de Deus» significa dar-Lhe tudo, o nosso coração, o nosso tempo, o nosso louvor e a nossa adoração. Não damos a Deus o que Lhe pertence quando não o honramos com a missa dominical, com um tempo de oração, e com tudo que nos ajude a conhecer a palavra de Deus, para lhe sermos mais fiéis. Mas «dar a Deus o que é de Deus» consiste também «em dar a César o que é de César», pois servir a Deus é servir os homens na caridade e na justiça.

Em conclusão, todas as leituras de hoje são um convite a não nos deixarmos escravizar por nenhum poder humano, pois só Deus é o Senhor. A adoração do único Deus permite-nos permanecer de coração livre em relação a todos os poderes que nos pretendem escravizar.

Com o salmo de hoje cantamos «Dai ao Senhor, ó família dos povos, dai ao Senhor glória e poder. Dai ao Senhor a glória do seu nome» e, com o profeta Isaías, afirmamos toda a solenidade: «Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu sou o Senhor e mais ninguém». «Eu sou o Alpha e o Ómega, o Princípio e o Fim de todas as coisas». Os primeiros cristãos eram mortos por recusar dobrar o joelho diante da imagem do imperador que tinha pretensão de ser Deus. E nós? Quais são os ídolos diante de quem nos dobramos? Quem ocupa o lugar central no nosso coração? Demos a Deus a glória, a honra, e a adoração que Lhe pertence, para que possamos livremente servir o mundo que também é de Deus e não de César?

Oração

Pai Santo, estava a pensar que cumprir os meus deveres cívicos na retidão e na honestidade é tão difícil como cumprir os meus deveres religiosos, mas depois pus-me a pensar se havia «dois deveres» ou se afinal o dever era só um! Se és Tu que me dizes que «devo dar a César o que é de César», então esse dever é religioso porque és Tu que mo mandas.

Pai, todas as criaturas Vos obedecem no misterioso enredo das vontades livres dos homens; 
Fazei que nenhum de nós abuse do seu poder,
Mas que toda a autoridade sirva para o bem de todos, conforme o Espírito e a Palavra do Vosso Filho e a humanidade inteira Vos reconheça como o único Deus.

Amen.

 

Folha Paroquial – 28º Domingo do Tempo Comum – 15 Out

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«Não podemos ser bons cristãos sem ir à missa ao Domingo? O mais importante não é praticar o bem», esta é uma pergunta frequentemente feita pelos ditos «católicos não praticantes». A pergunta pode colocar-se de outra forma: podemos ser bons filhos e bons membros de uma família se nunca respondemos ao convite que os pais nos fazem, em dias de festa, de virmos comer um almoço com eles e os outros irmãos? A dinâmica do evangelho de hoje passa-se entre estes dois verbos, «Vinde às bodas», e «ide pelas encruzilhadas dos caminhos». Estes dois verbos dizem o mistério da Igreja e da vocação e missão a que todos os batizados são chamados. A Igreja é comunhão para a missão. Somos chamados a estar com o Senhor a saborear a sua bondade a experimentar quanto Ele nos ama e nos quer ver felizes. Somos chamados também a amar-nos no Senhor como Ele nos amou, a colocarmo-nos ao serviço uns dos outros, a ser uma comunidade de afetos e de relações onde ninguém é anónimo e onde cada um em momentos difíceis da vida sabe que pode contar com a comunidade.

O banquete faustoso com vinhos apetitosos, vivido em sã alegria e comunhão, é uma imagem da felicidade que Deus deseja dar-nos e que começa já aqui, quando o acolhemos nas nossas vidas. Jesus, no evangelho de S. João, começa o seu ministério messiânico num banquete de casamento onde tem de haver festa e júbilo porque o noivo está com eles. A água convertida em vinho bom e abundante torna-se a alegria de todos os comensais do casamento de Caná. Jesus foi chamado glutão e amigo de beber porque entrava em casa de todos os que o convidavam e comia com eles alegremente. A mesa é o lugar da unidade, da comunhão, da paz e da alegria, e estes são sinais duradouros do mundo novo que Deus nos reserva no reino que há de vir. «Naqueles dias o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces»; «os que semearam em lágrimas recolhem com alegria.»

A Eucaristia é, nesta terra, a melhor expressão e o melhor anúncio desse banquete de núpcias do Reino para o qual todos somos convidados. São Paulo diz que ela é «penhor» da glória futura. Ela é uma antecipação, uma profecia e promessa desse banquete eterno. São Paulo disse-o «todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste vinho, celebramos a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26). Se todos percebêssemos o valor que Jesus deu à Eucaristia, a Ceia que nos deixou em Testamento, na hora da sua paixão, como fruto do seu amor e da sua entrega, não recusaríamos, tão facilmente, o convite com desculpas banais do «não tenho tempo». Felizes os convidados para as bodas do Cordeiro.

ORAÇÃO

Senhor nosso Deus, louvamos-te pelos teus desígnios de paz e felicidade para cada um de nós. Tu queres dar-nos tudo aquilo que o nosso coração, no mais profundo de si mesmo anseia. Nós ansiamos por um tempo onde os homens vivam como irmãos, onde não haja dor, sofrimento e lágrimas. Onde uns não passem fome, enquanto outros malbaratam escandalosamente dinheiro em coisas inúteis. Ansiamos por um mundo onde não haja mais guerras, divisões e injustiças. Como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus, Tu não porias tão grandes desejos no nosso coração se não os pudesses cumular. Por isso, temos a certeza que se realizará a tua promessa descrita na primeira leitura de hoje. Até lá, somos convidados a trabalhar para, aos poucos, transformarmos a história, para vivermos num mundo que avance, cada dia, para mais próximo dessa realidade que nunca conseguiremos construir, totalmente, só com o nosso esforço. A Eucaristia celebrada em cada Domingo lembra-nos que Tu estás no centro da história, como Alpha e Ómega, princípio e fim de todas as coisas, fazendo o mundo caminhar para a sua plenitude. Obrigado por esse dom admirável que é a Tua presença na Eucaristia. Senhor, que a nossa comunidade paroquial, reunida no amor, à volta da Ceia que nos deixaste, seja um sinal, para os de dentro e para os de fora, dessa unidade que desejas para toda a humanidade. Faz ressoar mais alto o teu convite para que os batizados venham sentar-se à tua mesa e comer o pão da unidade. Amen.