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Folha Paroquial nº 177 *Ano IV* 20.06.2021 — DOMINGO XII DO TEMPO COMUM

Cantai ao Senhor, porque é eterno o seu amor.

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“EVANGELHO (Mc 4, 35-41)
Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

PASSEMOS PARA A OUTRA MARGEM

Jesus é quem tem a iniciativa de fazer embarcar os discípulos para atravessar o lago para a outra margem. Em Marcos, não se explica a razão daquela mudança de lugar mas, em Mateus, a narrativa explica que a partida é devida à presença de “numerosas multidões” (Mt 8,18). Depois de acalmar a tempestade, Jesus e os discípulos devem chegar à região dos Gadarenos ou dos Gerasenos, ou seja, uma região pagã da Decápole.

Há uma solução simples e eficaz para evitar a tempestade: ficar na margem onde se está. Ficar na mesma margem é mais seguro, não se assumem riscos. Na margem que conhecemos bem, os dias sucedem-se e assemelham-se. É verdade que há altos e baixos, mas ao menos dominamos os acontecimentos, sabemos como os enfrentar porque os fazemos desde sempre. Por isso tanta gente tem tanta dificuldade em aceitar as mudanças na Igreja. Mas aí, nessa barca, não estamos seguros de nada. O tempo muda rapidamente e não sabemos nunca o que vai acontecer, não podemos nada prever e programar e isso cria-nos desconforto e insegurança. O que é seguro e certo é que a vida não é a mesma na margem onde estou e na barca! E Cristo diz-nos: abandonemos o território familiar para nos dirigirmos a lugares que não conhecemos ou que não nos são habituais e nos fazem sentir inseguros. Mas não estaremos sós, iremos com Cristo que está na nossa barca.

ELE DORME
Jesus durante o tempo da tempestade que faz? Dorme. Mas não está ausente. Ele é plenamente homem com os seus limites e necessidades humanas. Depois de um dia de pregação, logo que chegou a noite, Jesus quer afastar-se a multidão. Fatigado, procura repouso sobre uma almofada na parte de trás do barco. As vagas que sacodem o barco, e a tempestade que cresce, não são capazes de o acordar, de tal forma o seu sono é pesado e repousante. São os seus discípulos que têm de gritar-lhe aos ouvidos: “-Acorda.” Também para nós o silêncio de Deus não é nem um abandono nem uma rejeição, mas um mistério que conduz a contemplar Cristo para nos deixarmos transformar por Ele.

NÓS PERECEMOS
Desde sempre a tradição cristã viu nesta barca agitada pela tempestade uma imagem da Igreja. Quando Marcos escreve o seu evangelho, Pedro já tinha sido martirizado e a perseguição tinha dizimado a jovem comunidade romana. O «passemos para o outro lado» tinha sentido. Apesar da tempestade, a Igreja deve viver e crescer neste mundo pagão e deixar de pensar no mundo judeu-cristão tranquilizante. Século após século, depois de alguma bonança, a tempestade volta a exigir-lhe que passe para o outro lado. E este tempo que estamos a viver é um convite forte a abrirmo-nos a paisagens novas, sonharmos uma igreja a viver de forma muito diferente de há 50 anos atrás. E todo o nosso esforço está em que as comunidades cristãs se desinstalem e criem uma cultura missionária de serviço, de proximidade, de amor fraterno, de compromisso na transformação do mundo.

O AMOR DE CRISTO NOS IMPELE
Felizmente, desde há dois mil anos, são imensos os que deixam a margem da sua zona de conforto para embarcarem com Jesus. Não são aventureiros curiosos para descobrir o novo mundo. São discípulos que embarcam, não porque sejam corajosos e seguros de si mesmos, mas somente porque Jesus está na barca e lhes diz: «Ide por todo o mundo», para a outra margem. Mas também porque “o amor de Cristo os impele” quando contemplam o seu amor manifestado na sua morte na cruz. E nada nem ninguém os pode separar desse amor que Ele um dia lhes manifestou. Diz Paulo na segunda leitura: “Se alguém está em Cristo é uma nova criatura”. O mundo antigo passou, um mundo novo nasceu. Doravante já não estamos na primeira Criação. Falta-nos talvez compreender a medida da transformação que foi introduzida no mundo pela ressurreição de Cristo. O Cristão é alguém que diz: «Doravante»! Doravante nada é como antes. Há uma nova humanidade. Agora somos chamados a viver da vida do Ressuscitado, que é uma vida feita de solidariedade, de justiça e de partilha; doravante podemos viver como Cristo, tornar-nos uma imagem sua, vivendo uma vida ao serviço dos outros, como Ele fez. Somos capazes, doravante, de chorar com os que choram e de enfrentar os mesmos combates que Jesus e dominar todas as tempestades que nos assaltam, venham donde vierem, pois Ele está connosco tal como na manhã de Páscoa. Todo o cristão pode dizer como Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» Basta que, como diz a carta aos Hebreus, mantenhamos o nosso olhar fixo em Jesus, o autor da nossa fé.

A palavra “impossível” não é cristã, pois nada é impossível a Deus e a quem crê no seu amor poderoso.

Folha Paroquial nº 176 *Ano IV* 13.06.2021 — DOMINGO XI DO TEMPO COMUM

É bom louvar-Vos, Senhor.

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“EVANGELHO (Mc 4, 26-34)

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

UMA VISÃO DE CRESCIMENTO

Em todo o Novo Testamento e particularmente nas parábolas de Jesus, a ideia de crescimento do reino é uma constante: a primeira parábola de hoje, a da semente do trigo, acentua a ideia do espanto do agricultor que vê a planta desenvolver-se, passando pelas várias etapas da sua maturação sem ele saber como. Ele sabe que semeou a semente, mas reconhece que o que fez é quase nada diante do mistério daquele desenvolvimento que começa por dar, primeiro, a planta, depois, a espiga e, por fim, o trigo maduro na espiga. O agricultor não nos dá a ideia de ser alguém ansioso e perturbado; pelo contrário, ele dorme descansado, pois levantando-se pela manhã, e olhando a planta, depara-se sempre com a alegria de ver a planta a crescer e a desenvolver-se. Este agricultor parece mais um contemplativo do poder daquela semente que traz consigo uma força misteriosa, uma graça de crescimento.

A segunda parábola, do grão de mostarda, acentua a ideia do crescimento. Começa por sublinhar a pequenez e a modéstia da semente: “Ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra”, para depois mostrar como a pequenez não é nenhum problema e que pode ser mesmo um bem. “Depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra”.

Na Carta aos Efésios, Paulo medita sobre o mistério da Igreja que formamos e diz que «Em Cristo qualquer construção bem ajustada, cresce para formar um templo santo no Senhor.» E mais à frente diz: «É por Ele que o corpo inteiro, coordenado e unido, por meio de todas as junturas, opera o seu crescimento orgânico segundo a atividade de cada uma das partes, a fim de se edificar na caridade» (Ef 4,16): Quer dizer que o crescimento é de todo o corpo e não só de uma das partes.

S. Lucas diz-nos, nos Atos dos Apóstolos, que «O Senhor aumentava todos os dias os que entravam no caminho da salvação”. E podíamos continuar….

Jesus na sua ação de bom pastor e Mestre tinha uma visão de crescimento do reino a longo prazo. Durante os seus três anos de vida pública como Messias dedicou-se intensamente à formação do grupo dos doze discípulos. Ensinou-lhes tudo o que recebeu do Pai e, depois de ressuscitado, enviou-os por todo o mundo com a força do Espírito Santo, para que também eles fizessem discípulos em toda a parte. O crescimento tornou-se então exponencial e imparável gerando uma nova civilização.

E entre nós? O reino de Deus cresce? Se fossemos a julgar pelo número de pessoas que vêm à missa, diríamos que não, mas além de ainda estarmos em pandemia, esse não é o critério maior para nos darmos conta do crescimento do reino de Deus. Cresce quando alguém experimenta em si a novidade do encontro com Deus que a transforma e lhe dá uma nova vida e uma nova esperança no futuro. A partir desse encontro a pessoa reorganiza-se e reinventa-se para viver ao jeito de Jesus e ao estilo das bem-aventuranças que Ele pregou.

Com o coração agradecido ao semeador, parece-me que, durante este ano que estivemos em pandemia, o reino de Deus cresceu no meio de nós. Temos sido testemunhas de um grande crescimento na fé de muitas pessoas e na sua inserção na Igreja. A pandemia não foi um obstáculo, mas uma oportunidade de lançar a semente do Evangelho em muitos corações através dos percursos Alpha online de adultos e jovens. As células aumentaram muito com pessoas que sentiram vontade de fazer um caminho novo com Cristo e com os irmãos. Foram mais de 50 pessoas novas que decidiram inserir-se nas células, que são pequenos grupos de dimensão familiar que se encontram semanalmente para orarem juntos, partilharem a Palavra de Deus, viverem a dimensão fraterna e servirem os irmãos. Já são mais de 150 pessoas que nas nossas paróquias se reúnem, nas suas casas, uma vez por semana. Mas sonhamos em alcançar as 500, dentro de 3 anos, se for essa a vontade de Deus. Por isso começamos um fórum aberto a todos, online, amanhã, segunda-feira, às 21:30.

Há ainda outros irmãos que ingressaram no percurso de S. José que é um caminho de catequese de adultos. Também umas dezenas de irmãos aceitaram servir nas equipas de animação do percurso Alpha onde continuam o seu crescimento na fé e no serviço. Novos irmãos entraram como catequistas e outros sentiram o apelo a servir em equipas de acolhimento aos seus irmãos à entrada da igreja para que tudo fosse feito em segurança. E podíamos continuar a celebrar a graça operante de Deus que faz crescer entre nós o seu reino. O que interessa, em primeiro lugar, é o crescimento na vida da graça ou na santidade, mas se este crescimento interior existir, vai provocando, por atração, o crescimento numérico, a não ser que haja forças exteriores que o impeçam.

A visão que nos orienta e produz paixão em nós, é de crescimento e, em S. José, é descrita com o seguinte enunciado: Paróquia de S. José é uma comunidade que nasce do encontro pessoal com Cristo, cresce pela comunhão com Deus e com os irmãos, forma discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.

Tudo começa com o encontro pessoal com Cristo que transforma a vida, mas depois vem o crescimento que se opera na união com o Senhor e na construção de relações fraternas, na formação de discípulos que evangelizam e servem.

A Visão de S. João Batista tem outro enunciado, mas baseia-se no mesmo, pois é o mesmo pároco que não pode ter duas visões. Paróquia de S. João Baptista é uma comunidade orante e acolhedora, enraizada em Cristo, que serve e anuncia o evangelho para a transformação do mundo. Estão presentes os mesmos 5 pontos essenciais que operam o crescimento; a evangelização como prioridade intencional, a vida orante e sacramental, a construção de laços fraternos para vivermos como irmãos, o crescimento ou enraizamento na vida de Cristo e o serviço na comunidade e aos pobres.

Que nós continuemos a preparar o campo e a lançar a semente e Ele faça germinar e crescer a planta sem sabermos bem como. Mas estamos-lhe muito gratos pela sua obra.

Folha Paroquial nº 175 *Ano IV* 06.06.2021 — DOMINGO X DO TEMPO COMUM

No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

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“EVANGELHO (Mc 3, 20-35)

Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, que eles nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois diziam: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode durar. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?». E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe»”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

As leituras de hoje abordam o problema do mal com o qual nos deparamos todos os dias e do qual somos vítimas, mas também fazedores.

Desde o princípio, o homem traz consigo uma inclinação para o mal: tende para o egoísmo, para o orgulho, para o domínio sobre os outros, para a intemperança dos sentidos. Quando dá livre curso aos seus instintos naturais temos as guerras, os abusos da natureza, a força destruidora da poluição, os abusos sexuais, o tráfico de seres humanos, a desigualdade crescente entre ricos e pobres e nunca mais acaba o novelo do pecado que nos destrói. E perguntamo-nos, como o fazem os bispos portugueses, numa nota sobre a pandemia: «Onde foi parar o ser humano?»

Todo o mal feito por uma pessoa a si mesma, ao ambiente e aos outros, atinge a todos, pois «tudo está conectado», diz o Papa Francisco. Somos solidários também no mal, ainda que o não queiramos. O governo, que não acautelou a final do campeonato no campo de Alvalade, ou no Porto, e as pessoas que num lado e noutro, se juntaram, sem máscara, e sem qualquer responsabilidade social, não fizeram um mal só a si mesmos, feriram todo o país que, entretanto, passou para risco amarelo na abordagem do Reino Unido o que vai diminuir em muito o fluxo de turistas empobrecendo o país.

É possível esperar uma vitória sobre o mal? É possível esperar uma vitória sobre o imenso sofrimento causado pelos homens com as suas ações injustas? O cristão dá uma resposta positiva a estas perguntas, e não porque disponha de respostas «racionais» ao problema do mal (que é e continua a ser um problema sem sentido e sem resposta, a que a tradição chamou o mistério da iniquidade), nem dispõe de receitas fáceis para o eliminar, mas porque pode referir-se como modelo a Cristo e à sua resposta: só é possível vencer o mal, contrapondo-o ao bem. Dito de outra maneira: o poder destruidor do mal pode ser vencido, substituindo-o pelo «Reino de Deus». Quem em Jesus e através de Jesus tenha reconhecido em ação a força do amor de Deus aos homens, será também capaz de sentir paixão pelo homem e realizar obras, talvez pequenas em aparência, mas que deixam, no entanto, vislumbrar um mundo mais justo. Quase todos conhecemos pessoas que levadas pelo desejo de mudar as situações de injustiça, de pobreza, de exploração, de agressão ao meio ambiente arregaçaram as mangas e, associando-se a outros, começaram a fazer a diferença. Isto não é ainda o combate contra a raiz do mal, mas é muito necessário pois trata-se do combate contra os sintomas e as consequências do mal. O mal-organizado vai criando estruturas de pecado que são difíceis de combater e que é preciso muita luta para conseguir algumas pequenas vitórias. A escravatura, como sistema, foi e continua a ser, uma poderosa estrutura de pecado. A corrupção endémica em alguns países e também no nosso, é uma poderosa teia de pecado.

Sem deixar de lutar acerrimamente contra estas cadeias destruidoras não podemos esquecer que a luta contra o mal é mais profunda, trava-se no coração de cada um de nós. Não nos damos conta ainda suficientemente da importância do anúncio do Reino de Deus que leva à conversão e transforma as trevas em luz. Mas o que permite que muitos se dediquem ao serviço dos seus irmãos destruindo as consequências do pecado na luta contra as injustiças é o facto de terem conhecido Jesus e a Luz que vem d’Ele e se puseram a combater o mal. Quando Jesus enviou os 72 discípulos à sua frente a todas as cidades e lugares aonde ele devia ir, dando-lhes as instruções de como deviam anunciar o evangelho, eles voltaram cheios de alegria ao verem que, pelo anúncio do evangelho, até os demónios se lhes sujeitavam. Ouçamos o texto: “Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome.» Disse-lhes Ele: «Eu via satanás cair do céu como um relâmpago.» O anúncio do Evangelho faz que Satanás entre em retirada. O seu campo é vencido.

A história dos homens apresenta-se como uma história de ruturas, de egoísmos, como negação da comunhão, como ausência de salvação. As relações que constrói estão frequentemente marcadas pelo ódio, pela violência, pelas divisões. Deus, conhecendo o coração humano e a sua divisão, enviou-nos um salvador para libertar o nosso coração da escravatura do pecado. Ele revela-nos o sentido último da vida humana. Sempre que o homem acolhe Jesus, encontra nele força para sair das cadeias do mal e do pecado. Quanto os homens precisam de o acolher no seu coração para termos um mundo novo!!! Dizia Tony Blair: “sem Cristo, este mundo vai para a ruína”

O Bem vence o mal, sempre que o evangelho entra profundamente no coração de alguém. E essa é a missão principal que Jesus nos confiou.

Folha Paroquial nº 174 *Ano IV* 30.05.2021 — DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança.

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“EVANGELHO (Mt 28,16-20)

Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

A forma como a Liturgia nos propõe a celebração dos mistérios da fé revela a pedagogia de uma mãe cheia de sabedoria que nos quer iniciar no conhecimento de Deus e na relação filial com Ele. Durante o tempo do Advento e do Natal, o Pai envia o Seu Filho que se faz em tudo igual a nós exceto no pecado. Durante o tempo de quaresma e Páscoa, seguimos Jesus, o Filho, que passou fazendo o bem, que os homens mataram e o Pai ressuscitou dos mortos. No Pentecostes, corolário do mistério pascal, o Espírito Santo é-nos apresentado e oferecido como Aquele que continua a obra de Cristo na Igreja e no mundo. Chegados aqui, supõe-se estarmos mais bem preparados para saber quem é o nosso Deus e quanto Ele nos ama. A Festa da Santíssima Trindade, resumindo toda a história da salvação, convida-nos a uma vibrante sinfonia de louvor, glória e ação de graças a este Deus uno e trino por tudo o que fez e faz por nós.

A mensagem central que ressalta da festa da Santíssima Trindade é que o nosso Deus não é um Deus longínquo, abstrato, mas um Deus próximo, que vem partilhar as nossas dores e alegrias e nos convida, também a nós, a estarmos atentos às dores e alegrias dos nossos irmãos, comprometendo-nos com eles como Ele se comprometeu connosco, em Cristo, até à morte na cruz.

Um rabino judeu, chamado Elie Jean Marie Setbon, converteu-se há tempos ao catolicismo e fez-se batizar. Escreveu um livro chamado “do Kippa à cruz”. Numa entrevista, fizeram-lhe a seguinte pergunta: Os cristãos têm o mesmo Deus que os judeus ou os Muçulmanos? Ele respondeu: «Sim e não». «Sim» porque há um só Deus e, portanto, só pode ser o mesmo; «não», se confrontamos as imagens que temos de Deus. Para um judeu, é impensável ter relações pessoais com Deus, chamando-O «Pai»; nem se deve sequer dizer o seu nome, por respeito.» Ora Jesus diz-nos: «Quando rezardes dizei: “Pai Nosso”. Para o cristão, é mesmo essencial fazer a experiência do encontro pessoal com Jesus, no Espírito Santo, e quando isto acontece fazemos a experiência mais admirável que se pode fazer nesta terra: a experiência de sermos filhos de Deus e de sussurrarmos interiormente a relação filial que temos com ele dizendo «Abba, Pai», ao jeito de Jesus, porque é o Espírito de Jesus que nos inunda e «dá testemunho ao nosso espírito que somos, de facto, filhos de Deus».

O facto de Deus ser Trindade de amor, ser relação, ser família, tem implicações profundas para nós, seus discípulos. Sendo criados por um Deus que é relação de pessoas, também em nós existe o apelo à comunhão. «Não é bom que o homem esteja só». Por isso, “aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente” (LG,9). A Igreja só testemunha o mistério de Deus quando, no seu seio, se vivem relações de comunhão e ela se torna sinal e sacramento de unidade para todo o género humano. A encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, é um grande serviço da Igreja ao mundo, pois a sua missão é ser sinal, mas também instrumento da unidade de todos os homens.

Para uma nova evangelização, é fundamental que as paróquias se estruturem para uma maior vivência da comunhão fraterna. O acolhimento a todos os que chegam à porta da igreja e em todos os lugares onde se acolhe, a construção de grupos de dimensão familiar que se reúnem quinzenal ou mensalmente para orar, partilhar a palavra e viver a dimensão fraterna, o serviço em grupo aos pobres, as ações comuns de evangelização, a liturgia participativa – mudará, pouco a pouco, o rosto da igreja vista tantas vezes como uma instituição que oferece serviços religiosos para passar a ser vista e experimentada como uma família espiritual onde todos são entusiasticamente acolhidos e encontram o seu lugar de pertença. Mas, ao mesmo tempo, somos chamados a trabalhar com todos os que não se sentem parte da igreja para com eles construir a unidade e a paz.

Neste dia da Santíssima Trindade celebramos, na Igreja de Coimbra, o dia da Igreja Diocesana, pois a Igreja é a melhor imagem da Santíssima Trindade. O tema deste dia é: Diocese de Coimbra, jovem com os jovens. A Igreja, embora fundada há mais de dois mil anos, é constantemente rejuvenescida pelo Espírito que lhe deu o impulso inicial e que continuamente a impele a deixar-se renovar. Os jovens dão à igreja esse rosto juvenil, sonhador, cheio de esperança no futuro que a provoca continuamente a ir mais além. Por isso uma comunidade cristã, sem jovens, fica empobrecida e corre o risco de deixar de sonhar e se instalar. Que o Plano Pastoral que vai ser dado à Diocese, sobre os jovens, desperte todas as comunidades para uma pastoral que os integre tornando-os corresponsáveis na sua missão evangelizadora.

Folha Paroquial nº 173 *Ano IV* 23.05.2021 — DOMINGO DE PENTECOSTES

Mandai, Senhor o vosso Espírito, e renovai a terra.

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“EVANGELHO (Mc 20,19-23)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

No Domingo passado, na Ascensão, a propósito do mandato missionário do final do evangelho de Marcos, lembrámos que os outros evangelistas Sinópticos, Mateus e Lucas, terminam todos com o mesmo mandato evangelizador, e em todos Jesus promete a sua presença. Em Mateus, Jesus diz que estará com eles todos os dias até ao fim dos tempos (Mt 28,20); em Marcos, é dito que o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam (Mc 16,20); e em Lucas, Jesus afirma-lhes que «Vou mandar sobre vós o que o meu Pai prometeu. Entretanto permanecei na cidade até serdes revestidos da força do Alto.» (Lc 24,49). Hoje, Domingo de Pentecostes, ouvimos o mandato missionário em S. João: «“Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”».

Nunca será demais dizê-lo: Evangelizar é a missão fundamental da Igreja. Ela existe para evangelizar. Não é uma insistência do nosso tempo, é um mandato bem explícito de Jesus que nenhum evangelista esqueceu de transmitir, pois era demasiado importante. Mas, ao mesmo tempo, é preciso nunca esquecer que o primeiro agente da evangelização é o Espírito Santo. Sem Ele, a evangelização seria uma propaganda. «Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo».

O Espírito impele-nos a «fazer-nos ao largo», a sairmos ao encontro do mundo, a irmos de casa em casa, a proclamarmos de todas as formas possíveis que Jesus está vivo, que, quando lhe abrimos o coração, uma nova vida acontece. Deus ama os homens e quer o seu bem e a sua salvação. O Espírito leva-nos a não nos fecharmos nos nossos interesses pessoais, mas a acreditarmos que vale a pena sermos generosos com a nossa vida, o nosso tempo e o nosso dinheiro na missão que Ele nos confia de chamar as pessoas à relação com Ele, pois quer que todos saibam que são amados infinitamente. Ao mesmo tempo, chama-nos a sermos construtores da Igreja como casa de comunhão onde todos aprendemos a amar e a servir com humildade. Quando o decidimos fazer, Ele vem em nosso auxílio e desenvolve em nós capacidades espirituais e humanas que desconhecíamos a que chamamos «dons» ou «carismas», como fala a segunda leitura. Esses dons são para o crescimento do Corpo que é a Igreja e, embora possam estar ligados a talentos naturais, vão muito mais além do que eles. São uma graça específica de Deus para a edificação da comunidade. Esses dons já se notam em muitos irmãos e precisam de ser valorizados e agradecidos. Os versículos que hoje ouvimos na segunda leitura fazem parte dos capítulos 12 a 14 da Carta aos Coríntios onde Paulo faz uma reflexão alargada sobre os dons e carismas para a edificação do Corpo de Cristo, dizendo que a distribuição destes dons é diversificada e que nem todos possuem este ou aquele carisma mas que Deus distribui-os a cada um conforme quer. Aquele que os recebe e que são confirmados pelos irmãos, deve recebê-los com gratidão e humildade colocando-se generosamente ao serviço da comunidade, pois foi para isso que lhe foram dados. Por conseguinte, os carismas são concedidos pelo Espírito Santo a determinados fiéis, a fim de os tornar capazes de contribuir para o bem comum da Igreja. A variedade dos carismas corresponde à variedade de serviços, que podem ser momentâneos ou duradouros, privados ou públicos. Quando um serviço se torna duradouro e recebe uma chancela de reconhecimento público da Igreja, chama-se ministério. Em primeiro lugar vêm os ministérios ordenados e depois os ministérios laicais. O Papa Francisco abriu à igreja a possibilidade de os leigos serem instituídos em novos ministérios reconhecidos. Entre os ministérios laicais recordamos aqueles instituídos com rito litúrgico: o leitorado e o acolitado. Depois, vêm os ministros extraordinários da comunhão eucarística e, recentemente, o Papa Francisco abriu a possibilidade de novos ministérios como o de catequista e de vários outros. Imagino uma Igreja ministerial em que cada um vive de uma forma entusiasmada o mandato que o Senhor nos deu de evangelizarmos e servirmos com alegria e amor. Na visão da paróquia de S. José, é dito: «Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos, fazemos discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.» E na de S. João Baptista está escrito: «Somos uma comunidade orante e acolhedora, enraizada em Cristo, que serve e anuncia o evangelho para a transformação do mundo.» Em cada visão está bem patente a negrito esta imagem do futuro de uma igreja que serve e evangeliza. Que o Espírito Santo nos inunde e o sonho se torne realidade concreta, pouco a pouco.

Folha Paroquial nº 172 *Ano IV* 16.05.2021 — ASCENSÃO DO SENHOR

Ergue-Se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta.

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“EVANGELHO (Mc 16,15-20)

Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

No dia da Ascensão escutamos sempre o Mandato missionário nas versões dos diferentes evangelistas, no Ano A, a versão de Mateus, no ano B, a versão de Marcos e, no ano C, a versão de Lucas. Jesus antes de partir para o Pai, entrega de uma forma solene aos discípulos o mandato de transformarem o mundo pelo anúncio do Evangelho, fazendo crescer a Igreja como comunidade de discípulos que testemunham uma nova forma de viver com valores novos. Mas não os deixa sozinhos: Disse-lhes mesmo que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, de serem batizados no Espírito Santo. Poderia ser um desastre se partissem sem esperar a vinda do Espírito e serem mergulhado n’Ele.

Essa nova forma de viver é-nos apresentada de forma sucinta na Carta aos Efésios, a segunda leitura que escutámos. Paulo, que está na prisão, em Roma, escreve à comunidade cristã de Éfeso, dizendo-lhes que eles devem viver com um comportamento que brilhe à sua volta e dê testemunho da novidade de vida em que entraram pela fé: Como deve ser essa vida? “Procedei com toda a humildade, mansidão e paciência para com todos”, tanto os de dentro como os de fora. E depois desenvolve sobretudo o aspeto da unidade e da caridade em que devem viver na comunidade cristã para darem testemunho para fora. “Suportai-vos uns aos outros com caridade”. Este «suportai-vos uns aos outros, pode ser entendido de duas formas: A primeira é: Vós sois diferentes e tendes temperamentos diferentes e frequentemente podereis ter pontos de vista diferentes, mas que isso não vos separe. Aprendei a aceitar-vos como sois, com as dificuldades de cada um, suportai as diferenças uns dos outros e aceitai-vos, porque todos vós tendes defeitos e pecados. Mas a outra aceção é: “Sede suporte uns para com os outros, apoiai-vos mutuamente sempre que qualquer um está em necessidade.” Depois Paulo apresenta os fundamentos teológicos para a vivência da unidade entre eles. «Tendes um só Senhor, uma só fé, um só batismo, uma só e mesma esperança na vida nova a que fostes chamados. Tendes um só Pai que é Pai de todos e atua em todos”. Logo a desunião será uma contradição com tudo isto e aos olhos dos de fora um grande contratestemunho que vos dificultaria o anúncio do Evangelho. Paulo acrescenta ainda que cada um recebeu a graça para viver esta comunhão fraterna quando recebeu o dom de Cristo e do seu Espírito no batismo.

O apóstolo dos gentios, mostra depois que as diferenças entre os cristãos são boas pois Deus não nos fez todos iguais, mas deu-nos dons e carismas diferentes para o anúncio do Evangelho: “Foi Ele também que a uns constituiu apóstolos, a outros evangelistas e a outros pastores e mestres, para o aperfeiçoamento dos cristãos, em ordem ao trabalho do ministério e à edificação do Corpo de Cristo”. Isto é, até naqueles que chamou ao ministério pastoral através do sacramento da Ordem, ele não deu os mesmos carismas a todos, mas cada um tem uma riqueza própria que se complementa com os outros. Uns são mais apóstolos, outros mais profetas, outros mais evangelistas, outros pastores e outros mestres. Cada um é padre de forma diferente mas todos complementares. Também o resto do povo de Deus , todos receberam dons, sublinho todos, e carismas que só são descobertos quando nos colocamos ao serviço uns dos outros. Esses dons podem partir de alguma competência e habilitação nata ou aprendida que já existe em cada um, mas depois Deus dá-lhe uma graça especial que faz com que esse dom toque os outros. Aquele que exerce o dom com humildade não só cresce no exercício desse dom como edifica os outros, levando-os a porem também os seus dons ao serviço. Frequentemente os irmãos fazem o seu serviço com tanta naturalidade e amor, que não se dão conta que receberam de Deus algum dom especial. Por isso é muito bom que quando vários irmãos reconhecem um dom num irmão da comunidade, que lho digam para que ele ou ela o desenvolva ainda mais e louve a Deus, evitando todo o tipo de orgulho ou vaidade pois é dom que lhe foi dado por graça e não por mérito. Tanto numa paróquia como noutra, enquanto escrevo, estou a pensar em vários irmãos em quem, não só eu, mas outros irmãos, reconhecem dons excelentes que edificam na forma como os exercem. Nunca podermos descobrir os dons daqueles que não servem e por isso, estes, também não chegam a desenvolver os seus talentos.

Como disse na semana passada é servindo juntos que vamos aprendendo a pôr em prática o mandamento novo, a descobrir a alegria que dá servir os irmãos e fazer o bem. Muitas doenças psicológicas e espirituais são curadas pelo serviço do amor. Paulo termina a sua carta dizendo que Deus deu estes dons diferentes “para o aperfeiçoamento dos cristãos” para construção do Corpo de Cristo que é a Igreja e “até que cheguemos todos ao estado de homem perfeito, à medida de Cristo na sua plenitude. “Paulo mostra-nos a imagem total para sabermos qual é o caminho para onde vamos: chegar ao estado do homem perfeito (no amor) à medida da estatura de Cristo na sua plenitude. Como diz na Carta aos Romanos a nossa vocação é sermos uma imagem idêntica à de Jesus, pois foi o modelo que Deus nos deu.

CELEBRAR O CRESCIMENTO NO SERVIÇO

Algo que precisamos muito de fazer crescer nas nossas paróquias é o espírito de serviço. A Igreja para ser uma comunidade de discípulos precisa de que eles se coloquem ao serviço como Jesus nos ensinou. E por isso, cada vez que irmãos se apresentam com alegria para o serviço devemos celebrar na alegria e na ação de graças esse acontecimento. E apraz-me testemunhar que este ano em S. José já se formaram 3 células de evangelização, cresceu o número de servidores na equipa Alpha adultos e na equipa Alpha jovens, houve novos catequistas e outros estão a ser convidados para o próximo ano. Houve gente nova que integrou os serviços de acolhimento em cada missa, houve gente nova para o coro da missa das 19:00 e ainda se precisam de muitos mais. Houve mais gente a inscrever-se como dador mensal de uma quantia financeira segundo as suas possibilidades para que a Igreja realize a sua missão. A messe será sempre grande e os trabalhadores poucos para o que é necessário, mas podemos melhorar muito. Celebremos com alegria os passos que vamos dando.

Folha Paroquial nº 171 *Ano IV* 09.05.2021 — DOMINGO VI DA PÁSCOA

O Senhor manifestou a salvação a todos os povos.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Jo 15,9-17)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

É ESTE O MEU MANDAMENTO,
QUE VOS AMEIS UNS AOS OUTROS, COMO EU VOS AMEI

Os textos bíblicos de hoje, na continuação do Domingo passado, colocam-nos no coração da vida e da experiência cristã. Tudo começa com o encontro pessoal com Cristo na força do Espírito. O romano e pagão Cornélio, que pratica o bem, é abençoado com uma visão de um anjo que lhe diz para mandar chamar Pedro que lhe dirá as Palavras que o conduzirão à Vida. Pedro chega a Casa de Cornélio e anuncia-lhe o Kerigma, isto é, o condensado do anúncio cristão, que contempla a iniciativa amorosa de Deus de nos enviar o seu Filho, que se fez homem, passou fazendo o bem e ensinando. Os homens mataram-no, mas Deus ressuscitou-o dos mortos e Ele apareceu aos seus discípulos que foram constituídos como as suas testemunhas. Agora, quem acreditar nele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados, o dom do Espírito Santo e uma Vida Nova.

Diz-nos o texto que “ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra.” Informa-nos também que essa vinda do Espírito não foi silenciosa, mas teve manifestações visíveis nos carismas que trouxe consigo em dom de línguas e de profecia. Assim, Cornélio e a sua família, abrindo o coração à fé, recebem, com o batismo, o perdão dos pecados em nome de Jesus e o dom do Espírito Santo, embora não tenha sido por esta ordem.

Cornélio e a sua família são agora renascidos pela água e pelo Espírito Santo, mas há ainda um longo caminho a percorrer. Agora precisam de aprender a nova Via ou Caminho do discipulado cristão que vai transformando a pessoa a nível do agir, até que se pareça cada vez mais com o agir de Jesus. É o processo da santificação ou da conversão. Nas palavras que ouvimos hoje, na segunda leitura e no Evangelho, o amor aparece como um dom e uma tarefa. Dom, porque primeiro recebemos em nós o amor de Deus. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho.” O amor vem de Deus, diz-nos ainda S. João. E Jesus continua no Evangelho: «Não fostes vós que me escolhestes, fui eu que vos escolhi e vos destinei para que vades e deis fruto». Ora, esse amor original de Deus vem até nós no Espírito Santo que é o amor de Deus derramado nos nossos corações. Por isso, quem renasceu pela água e pelo Espírito, conhece o amor de Deus, isto é, faz a experiência de que é amado por Deus. O amor antes de ser um mandamento é um dom, é uma experiência de vida e só pode amar quem faz a experiência do amor. Mas depois, com a experiência do dom, deve vir a resposta ao dom que é o nosso dever de amar, o cumprimento do mandamento do amor. E Jesus é claro: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando, que vos ameis aos outros.

A IGREJA ESCOLA DA FRATERNIDADE
A Igreja é a comunidade dos amigos de Jesus, daqueles que é suposto darem testemunho da vivência deste mandamento novo. Pois se nós, os discípulos, não o vivermos, quem o irá viver? Mas como iremos a aprender a viver o mandamento novo se não vivermos em igreja ou se só a visitarmos de relance, ao Domingo, para ir à Eucaristia, mas sem construirmos relações com os outros membros através do serviço? O amor fraterno só é possível começar a ser aprendido quando as diferenças de opiniões, de maneiras de ver, de temperamentos, se começam a manifestar.

S. Pacómio começou por ser um eremita – que era a escolha que muitos faziam naquela época, de quem se queria santificar naquele tempo. Afastavam-se do mundo para viverem sozinhos na solidão do deserto, no jejum e na oração. No entanto, algum tempo depois, Pacómio começou a questionar-se: Como é que eu poderei aprender a amar se não me relaciono com irmãos? Como vou aprender a crescer na humildade se vivo sozinho? Poderei eu aprender a ter paciência e bondade estando isolado? Ele percebeu que sem a Igreja não podia crescer. Por isso deixou de ser eremita e fundou um mosteiro

Ele percebeu que para que os frutos espirituais fossem desenvolvidos, era necessário que ele estivesse perto de pessoas. Pacómio encerrou a sua vida de eremita e formou um dos seus primeiros mosteiros.

O ACOLHIMENTO – UMA EXPRESSÃO DO AMOR FRATERNO
Este amor sincero e a partir da nossa experiência do amor de Cristo pode ser visibilizado no acolhimento aos irmãos que chegam para a celebração dominical, embora vá muito para além disso. Mas é um começo. Acolher com um sorriso os irmãos, conhecer os seus nomes, a sua história, dar-se conta de necessidades diversas que vivem, é mostrar que somos uma comunidade de irmãos onde todos são bem-vindos. Embora o acolhimento seja feito à porta da igreja por alguns, eles são representantes de toda a comunidade que deve toda ser acolhedora. Pouco a pouco, o rosto da comunidade aberta e fraterna começa a ver-se. E torna-se mais atraente e missionária.

O EXERCÍCIO DO CONVITE, ATO DO AMOR FRATERNO
Mas será também o verdadeiro amor fraterno que vem de Deus que me levará a crescer na cultura do convite aos irmãos, saindo da minha zona de conforto para ir ao encontro deles e convidá-los a virem a um percurso Alpha, ou a uma célula paroquial de evangelização ou à catequese de adultos ou simplesmente à missa. Porque amo os irmãos, desejo que eles tenham a alegria que me foi dada de conhecerem a Cristo e viverem uma relação com Ele.

IGREJA EM SAÍDA
É o mesmo ato de amor fraterno que me levará a querer servir a igreja no serviço dos pobres, quer dando aulas a emigrantes, quer ajudando filhos de famílias pobres a terem explicações para poderem ter sucesso nos exames, quer indo ao encontro de famílias em necessidade. O amor tira-nos da nossa zona de conforto e leva-nos em saída ao encontro dos outros. Uma comunidade missionária será uma comunidade que vive o mandamento novo do amor (comunhão) e vai em saída ao encontro dos outros (missão).

Jesus escolheu-nos e destinou-nos para que demos frutos de caridade e sejamos sal que preserva o mundo e lhe dá sabor.

Folha Paroquial nº 170 *Ano IV* 02.05.2021 — DOMINGO V DA PÁSCOA

Eu Vos louvo, Senhor, na assembleia dos justos.

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“EVANGELHO (Jo 15,1-8)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O MISTÉRIO DA VIDA CRISTÃ

O texto que hoje ouvimos do Evangelho leva-nos ao cerne da vida cristã e do mistério da Igreja. Digo mistério, porque é a parte invisível mas a mais importante. Assim como, num iceberg, o que se vê ao de cima é a menor parte – o resto está escondido, assim na vida cristã o mais importante é a vida de união com Cristo de cada discípulo.

Antes de partir para o Pai, Jesus lembra aos discípulos o principal: que vivam sempre unidos a Ele e nunca se separem d’Ele pois sem Ele nada podem fazer. E para percebermos isto bem, usa uma alegoria, uma imagem bem conhecida: a da videira. “Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto”. E depois Jesus acrescenta: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permaneceres em Mim. (…) Sem Mim nada podeis fazer.» E conclui: “A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos.” De facto, isto é a base de todo o discipulado cristão: Estar com Ele, permanecer n’Ele, cumprir os seus mandamentos, para depois sermos enviados por Ele. O Diretório da Catequese quando fala na finalidade da catequese diz: «A finalidade definitiva da catequese (de qualquer idade) é a de fazer com que alguém se ponha não apenas em contacto, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo». Somente Ele pode levar ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar na vida da Santíssima Trindade.

A Comunhão com Cristo é o centro da vida cristã. Dizer “vida cristã” ou “vida no Espírito”, quer dizer o mesmo: É viver a partir d’Aquele que nos habita e em quem queremos também habitar, Jesus Cristo através do seu Espírito. Esta vida é alimentada pela oração e pelos sacramentos e o teste da sua autenticidade é a observância dos mandamentos, sobretudo do mandamento novo.

Na segunda leitura, S. João diz-nos: “É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou. Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E sabemos que permanece em nós pelo Espírito que nos concedeu. “A espiritualidade cristã não é etérea, nas nuvens. Se vivemos em união com o Senhor e permanecemos n’Ele, Ele não nos fecha em nós mesmos e nas nossas consolações interiores mas envia-nos a praticar o bem, o amor, e a dar a vida pelos irmãos, isto é, a dar fruto. “A glória de meu Pai é que deis muito fruto e assim vos torneis meus discípulos.”

A Igreja crescia com a assistência do Espírito Santo

A vida dos primeiros cristãos dava imenso fruto e, por isso, é-nos dito que crescia com a assistência do Espírito Santo. O que faz crescer a Igreja é a vida interior dos cristãos, o amor fraterno que vivem entre eles e que se torna testemunho credível, o compromisso de todos no trabalho missionário dos apóstolos e esta assistência poderosa do Espírito Santo. O resultado são conversões extraordinárias de tantos, entre as quais sobressai a de Saulo de Tarso.

A primeira leitura conta-nos também um detalhe: Que Saulo, transformado pelo encontro pessoal com Cristo, queria agora juntar-se à Igreja para viver a vida nova dos irmãos e colaborar com eles no ardor missionário – mas todos o temiam pois, como os perseguiu, ainda duvidavam das suas intenções; mas Barnabé, convencido da conversão de Paulo, levou-o aos Apóstolos e deu-lhes a conhecer tudo o que tinha acontecido a Paulo. A partir daí Paulo foi acolhido na comunidade.

Hoje acontece também nalgumas comunidades quando começam a aparecer novas pessoas que fizeram o encontro pessoal com Cristo e querem aderir à comunidade cristã, de não se sentirem muito bem acolhidas pelos que já são membros há muitos anos, pois estes temem que os novos venham pôr em causa o seu status quo. Isto acontece geralmente em comunidades instaladas, envelhecidas pela rotina e falta de fervor missionário. Pelo contrário, uma comunidade quando se torna missionária, acolhe com júbilo os que chegam, interessa-se por eles e fá-los sentirem-se em casa. A forma como acolhemos é a pedra de toque para se perceber se estamos ou não a crescer na dimensão missionária e evangelizadora.

Que Cristo ressuscitado seja a nossa vida e que, vivendo n’Ele, demos frutos que perduram. Que as nossas assembleias dominicais sejam assembleias onde se celebra o entusiasmo da fé e da caridade. Quando isso acontecer, a missa pode durar duas ou três horas que não cansa ninguém, mas quando não há verdadeiro entusiasmo e alegria na fé, até meia hora é enfadonha.

Folha Paroquial nº 169 *Ano IV* 25.04.2021 — DOMINGO IV DA PÁSCOA

A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular.

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“EVANGELHO (Jo 10,11-18)

Naquele tempo, disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

A LIDERANÇA PASTORAL

Há muita gente avessa na igreja ao termo de líder e liderança, pois os remete imaginariamente mais para o mundo das empresas e da eficácia rentável do que para o serviço no amor. E a Igreja não é uma empresa e a eficácia não se mede com os mesmos instrumentos das empresas. No entanto, ela é também uma instituição humana, e pode aprender com as outras organizações humanas a estruturar-se melhor para a missão que lhe é confiada, dando muito fruto, “pois a glória do meu pai é que deis muito fruto e assim vos torneis meus discípulos”. A palavra leader vem do inglês e significa guiar, conduzir, liderar. Ora, o que é um pastor senão aquele que guia, conduz, orienta e lidera as ovelhas para que cheguem sem se perderem às fontes das águas?

Jesus diz de si mesmo que é o bom pastor, aquele que nos guia e dá a vida por nós. E o seu exemplo inspira os líderes cristãos; sejam eles papa, bispos, padres ou fiéis leigos.

No entanto, o dia de hoje lembra-nos que Cristo não entregou a sua Igreja a alguns que escolheu como líderes ou pastores, e foi embora deixando-lhes a eles o encargo de fazerem o melhor que sabiam. Não: Jesus diz-nos, e faz parte da nossa fé, que é Ele que continua a ser o pastor invisível do seu povo, embora tenha escolhido pastores visíveis. Jesus quando, no seu mandato missionário, enviou por todo o mundo os discípulos, disse-lhes: «Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos», e, segundo a fé católica, os ministros ordenados recebem pelo sacramento da ordem uma graça de configuração com Cristo, pastor e chefe da Igreja. São identificados com Ele a nível do ser, para agir em seu nome e, em seu nome, guiarem, conduzirem, governarem o povo de Deus que lhes é confiado. O Evangelho de hoje diz a todos os que são chamados a serem pastores como o devem ser a partir do exemplo de Cristo. Jesus deixa bem claro que o Bom Pastor é aquele que não se serve das ovelhas, mas que dá a vida por elas. Se repararmos bem, a expressão «dar a vida» aparece repetida no texto 5 vezes. O que não dá a vida pelas ovelhas não merece o título de pastor, é mercenário, isto é, não trabalha por amor, mas para se servir delas. Imitar e incarnar o Bom Pastor é missão de todos os ministros ordenados na Igreja, mas as palavras de Jesus servem para todos aqueles e aquelas que são líderes de qualquer pequeno ou grande grupo que têm por missão guiar. O catequista de crianças, de jovens ou de adultos, o líder de uma célula paroquial de evangelização, a equipa de liderança de um percurso Alpha, e aquele ou aquela que lidera um pequeno grupo, no mesmo percurso e ainda qualquer outro responsável de pequenos grupos, é pastor do seu grupo. Mas também o político cristão deve tomar para si estas palavras de Jesus, “O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas”, de contrário é mercenário.

O que faz um líder é a sua visão, e o seu carácter. Pela sua visão e a sua capacidade de a comunicar, ele pode arrastar outros atrás de si que acreditam nela, mas se não tiver um bom carácter, depressa se desiludem e o abandonam. O líder que todos aceitam seguir tem visão, sabe comunicá-la, mas o melhor líder é o que lidera pelo exemplo da vida, que é humilde, respeita os outros, sabe escutá-los, valorizá-los e ser completado pelos outros com o que lhe falta, pois nenhum líder tem os dons todos. Por isso ele rodeia-se de uma equipa em quem confia para juntos, com a mesma visão e os mesmos valores e a mesma paixão produzirem a mudança, pois nada acontece sem um líder empenhado e outros que se juntam a ele, acreditando no projeto. Uma comunidade fica sempre mais enriquecida quando o líder que a orienta não é solitário, mas decide com outros. As hipóteses de errar são muito menores. O livro do Êxodo apresenta-nos um belo episódio em que Moisés aparece como líder solitário, esgotado a fazer justiça ao povo que permanece todo o dia de pé, em fila, à espera da sua vez de ser ouvido. Jetro, seu sogro que vê aquele espetáculo diz-lhe: «Não está bem aquilo que estás a fazer. Com certeza desfalecerás tu e este povo que está contigo porque a tarefa é demasiado pesada para ti; não poderás realizá-la sozinho.» Aconselha-o, depois, a escolher líderes com bom coração, íntegros, que amem a Deus e que o irão ajudar na sua missão: Moisés aceita o conselho e no final o povo está feliz pois está melhor servido.( Ex 18, 13-27)

A Diocese de Coimbra, seguindo uma prática que já dá frutos em muitas Dioceses, determinou no seu último plano pastoral que todas os párocos constituíssem uma equipa de animação pastoral para o ajudar no governo da paróquia. Não é apenas um órgão consultivo, como o Conselho Pastoral, é muito mais do que isso. Dizem as orientações Diocesanas para as EAP’s: «A equipa de animação pastoral é um órgão local de corresponsabilidade eclesial, de âmbito paroquial ou de unidade pastoral, que programa, dinamiza, anima, acompanha e avalia tudo o que diz respeito à vida da respetiva paróquia ou unidade pastoral. Ela tem por missão escutar, observar, reler na fé os acontecimentos que marcam a vida pastoral da comunidade (paróquia, unidade pastoral ou outra), na relação com as orientações diocesanas e com o mundo que a envolve, discernir e dinamizar a ação pastoral local.» (artigo 1º e 2º)

As paróquias de S. José e S. João Baptista tinha cada uma a sua equipa com quem o padre se reunia quinzenalmente, mas agora as duas equipas reuniram-se numa só, o que é uma poupança de tempo para o pároco, embora se tenha tornado muito maior. Assim é mais fácil fazermos um caminho cada vez mais juntos e com uma visão comum. Reunimo-nos às terças-feiras de 15 em 15 dias, e vamos tratando vários assuntos da vida das paróquias. Primeiro, começou-se por trabalhar a visão da paróquia de S. José: entretanto veio a pandemia e não houve tempo para a comunicar aos grupos. Iremos brevemente trabalhar estes aspetos com os diversos grupos.

Os membros de S. José são: Rui Rato, Elisa Serra, Filipe Silva (escuteiro), Filipe Sousa (escuteiro), Natália Costa e Ricardo Mota.

Da EAP de S. João Baptista são: Madalena Sousa, Francisca Eiriz, Isolina Melo, Alexandra Marques (jovem), Beatriz Ferreira (jovem), Jorge Brandão e Paulo Farinha. De ambas fazem parte o pároco, o vigário paroquial e o diácono permanente.

Mas não esqueçamos: em tudo isto que faz parte de uma melhor estruturação do serviço na igreja para que a sua missão se realize, o que interessa não é a estrutura, ela está ao serviço da missão que Deus nos confiou.

Folha Paroquial nº 168 *Ano IV* 18.04.2021 — DOMINGO III DA PÁSCOA

Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz do vosso rosto

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“EVANGELHO (Lc 24,35-48)

Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

TEM DE SE CUMPRIR TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO

Podemos afirmar que a ideia central do texto do Evangelho de hoje é a ideia de “cumprimento do plano divino da salvação”: «Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Aliás, a ideia de cumprimento do plano de Deus percorre toda a Bíblia. Deus pode comparar-se a um artista que concebeu uma obra de arte. Tem essa obra por inteiro na cabeça e no coração, mas só aos poucos vai sendo realizada. Vai convidar muitos a colaborar com Ele naquela obra mas estes têm de confiar no artista e na sua ideia, acreditando que no fim a obra vai ser esplêndida. Quando finalmente a obra se completa depois de muitos esforços e fadigas, dão-se então conta da maravilha em que colaboraram. Então, e só então, poderão dizer: Ah sim, “tinham de cumprir-se” todas aquelas etapas para chegar aqui!

O desígnio amoroso de Deus, a que Paulo chama “Mistério”, e que se realiza «desde antes da criação do mundo», é muito mais grandioso que uma obra de arte, por melhor que ela seja. A Bíblia mostra-nos bem esse projeto de Deus em marcha. A longa paciência de Deus através dos tempos, as etapas e os inícios de realização, os fracassos e os recomeços, as colaborações. Dizer que o desígnio amoroso de Deus se cumpre na história da humanidade, é dizer que a História tem um SENTIDO, isto é, um significado e uma direção. A narrativa do nosso Credo leva-nos do princípio até à consumação dos séculos. Os crentes estão voltados para o futuro, o devir e não para o passado. Dizemos no Pai Nosso “Venha o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”, por outras palavras, Jesus ensinou-nos a rezar para que o plano de Deus se cumpra. E Ele veio para realizar esse plano até à plenitude… Ele está no centro da realização desse plano. Este plano não é limitador da liberdade e da responsabilidade humanas. Não há um cenário escrito de antemão. Pelo contrário, Deus respeita a liberdade do homem e é por isso mesmo que o plano de Deus não avança mais rápido, como diz S. Pedro (2 Pedro 3,9).

Quando Jesus ressuscitado, no relato da aparição aos discípulos do evangelho de hoje, lhes diz: «tem de se cumprir tudo o que está escrito», ensina-lhes a reconhecer na passagem dos dias e dos milénios a lenta, mas segura maturação da nova humanidade que será um dia reunida n’Ele. E é isso a inteligência das Escrituras. Não no sentido de «estava escrito», programado, mas está na continuação da obra de Deus. Então, para os discípulos, tudo se tornou luminoso: agora compreendem que o Deus de amor e de perdão queria ir até ao extremo do amor e do perdão. Claro que, para nos levar para além da morte, na luz da ressurreição, seria necessário que Ele próprio atravessasse a morte; claro que, para nos ensinar a ultrapassar o ódio com a força do amor, era preciso que Ele mesmo enfrentasse o ódio e a humilhação; e assim por diante. «Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as escrituras”. Compreender as Escrituras é compreender este plano que as atravessa do princípio ao fim, mas que só à luz da ressurreição e com a ação do Espírito é possível entender. Compreender as Escrituras é entender que a vida tem sentido porque é fruto de um amor imenso, o amor de Deus, e que Ele está comprometido connosco pela Sua aliança até à raiz dos cabelos. Compreender as Escrituras é entrar na exultação, no louvor, na gratidão e na ação de graças a esse Deus que nos amou e tudo fez por nós. É também comprometer-se com o bem da humanidade com quem Deus se comprometeu. A nossa missão de colaboração no plano de Deus é anunciar e viver o melhor possível esse desígnio benevolente de Deus. É o que Paulo chama «completar na minha carne o que falta à obra de Cristo.» Completar na nossa carne quer dizer simplesmente colocar a nossa vida quotidiana ao serviço desse grande plano.

Queres também entrar nesta história de amor sendo colaborador do plano de Deus para a salvação de cada pessoa humana?