Arquivo da categoria Homilias

Anunciar a ressurreição

O anúncio da ressurreição continua pelos séculos fora a ser o maior anúncio de todos os tempos. E este é um anúncio que transforma a vida para sempre. A primeira leitura que ouvimos na noite da grande vigília pascal, foi o relato da criação, do livro do Génesis, e a Santa Liturgia quer-nos dizer que a ressurreição de Cristo é uma nova criação. Tudo o que era antigo passou e tudo se fez novo. O que foi para o universo físico, segundo a teoria do Big Bang do padre Lemaitre, a grande explosão inicial, quando um pouco de matéria se começou a transformar em energia dando início a todo o movimento de expansão do universo que continua ainda depois de milhões de anos, é a ressurreição de Cristo para o universo do espírito. De facto, tudo o que existe e vive na Igreja, sacramentos, palavras e instituições – vão haurir a sua existência, força e sentido na ressurreição de Cristo. Sem a ressurreição de Cristo não haveria sacramentos, nem Igreja nem cristianismo. Estaríamos no Antigo Testamento.

O Evangelho deste Domingo de Páscoa colocou-nos nesse momento original em que Maria Madalena se encontra com o túmulo vazio. Podemos imaginar como aconteceu o anúncio de Maria Madalena aos discípulos, logo depois. Maria corre, quase sem respirar, ao encontro de Pedro e de João, entra ofegante no Cenáculo, sem conseguir mesmo pronunciar nenhuma palavra que se entenda. Antes que diga alguma coisa, cada um dos discípulos, olhando para ela, nota que se passou alguma coisa de inaudito e, enquanto a miram, ela tenta dizer algumas palavras que não lhe saem facilmente: «O Mestre, o Mestre…! Ressuscitado, Ressuscitado! O túmulo, o túmulo… vazio, vazio, está vazio…» A Boa Nova era demasiado explosiva para poder ser dita em ordem e com serenidade por esta mulher. Os apóstolos devem ter-lhe feito sinal e gritado para que tivesse calma, que respirasse e tentasse dizer com clareza do que se tratava. Mas, entretanto, um estremecimento se produziu neles: a presença do sobrenatural tinha enchido a sala e todos os que aí estavam.

A partir deste momento o mundo não foi mais o mesmo. A Boa nova da ressurreição de Cristo começava o seu curso através da história, como uma onda calma e majestosa, que nada nem ninguém pode ou poderá jamais parar.

É este anúncio de Cristo ressuscitado que hoje a Igreja, em tempos de pandemia, proclama com a mesma vivacidade: Cristo está vivo. É o Vivente. Já não pode mais morrer. Ele é a nossa alegria e a nossa esperança. E esta palavra “Esperança”, que aqui escrevo com maiúscula, ganha uma tal densidade com a ressurreição de Cristo que podemos dizer que a páscoa de Jesus é a fonte da Esperança cristã.

A ressurreição de Cristo é feita de dois elementos: o facto – “Ressuscitou” – e a significação para nós do próprio facto, «Para nossa justificação»: Jesus morreu para nos perdoar de todos os pecados e nos tornar justos diante de Deus. É sobre esta palavra justificação que conclui o capítulo 4 da Carta aos Romanos, abre-se depois o capítulo V onde o Apóstolo Paulo mostra como é que do mistério pascal jorram as três virtudes teologais da fé, esperança e caridade. Diz ele: «Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus …e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus…E a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom5,1-5). Destas três virtudes teologais é a esperança que Pedro coloca em relação com a Ressurreição dizendo: “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na sua grande misericórdia nos gerou de novo através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva”( Pd 1,3).

Assim, a ressurreição de Cristo é a força, o dinamismo que alimenta, a partir de dentro, a esperança cristã. E porquê? Porque Cristo, pela sua ressurreição, abriu-nos a possibilidade de uma vida com Deus mesmo para além da morte. Cristo abriu uma brecha no muro terrível e fatal da morte através da qual todos podem segui-Lo. A esperança não começou a existir com Cristo; o que ganhou foi uma dimensão concreta com alicerces firmes. Explico usando as palavras do Papa Francisco: “Quando falamos de Esperança, às vezes entendemo-la como um sentimento bom mas sem fundamento. Referimo-nos a algo que esperamos que aconteça, mas que pode realizar-se ou não. É como um desejo”. Por exemplo, quando começou a pandemia espalhou-se por aí uma frase que era uma esperança deste tipo de bons desejos: «Vai tudo correr bem». Sabemos que esta esperança não se realizou em imensos casos em que correu tudo mal. Ora, a Esperança cristã não é assim. Continua o Papa Francisco: “Nós esperamos algo que já se cumpriu. (…) Tenho a certeza de que estou a caminho de algo que existe, não de algo que eu desejo que exista. A Esperança cristã é a expetativa de algo que já se cumpriu em Jesus de Nazaré e que certamente se há de realizar para todos nós». Por isso Paulo afirma: «A Esperança (cristã) não engana porque o amor de Deus (O Espírito Santo, dom do ressuscitado) já foi derramado nos nossos corações». É por causa desta esperança, diz S. Pedro, «que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações». E, mais à frente, acrescenta: «Não temais as ameaças daqueles que vos fazem mal nem vos deixeis perturbar, mas, no íntimo dos vossos corações, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça». Os cristãos que vivem desta esperança fundamentada mudam a sua perspetiva de vida, pois passam a viver orientados por um horizonte de eternidade. A morte já não é um muro fatal e inultrapassável: Jesus destrui esse muro e faz-nos passar com Ele para a Vida que não tem fim. E assim ajuda-nos a viver todas as dificuldades do mundo presente.

No entanto, para que esta Esperança se torne a nossa bússola, é preciso que tenhamos experimentado o encontro pessoal com Cristo ressuscitado pois, sem este encontro, a ressurreição pode tornar-se mais uma ideia do que um facto real. E quanto mais vivemos uma união profunda com Jesus, mais a certeza da nossa ressurreição no seguimento de Cristo se torna uma experiência de vida gloriosa. Nós vemos nos Evangelhos que, cada vez que alguém se encontra com Jesus de Nazaré, sai transformado desse encontro. Ele deu-lhes uma esperança nova. Pensemos em Maria Madalena, em Mateus, em Zaqueu, na Samaritana e em tantos outros. Hoje, esse encontro é com Jesus ressuscitado que nos faz participantes da sua ressurreição quando aceitamos segui-lo, aprendendo com Ele a morrer para o que é velho.

Mas alguém poderia perguntar: “Mas como viver esse encontro pessoal com Ele?” Diz a escritura: «Como hão de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão de ouvir falar se não houver quem O anuncie? E como hão de anunciar, se não forem enviados? (…) Portanto a fé surge da pregação da palavra de Cristo.» (Rom 10, 14-17).

A Palavra que anunciamos é a própria Palavra de Cristo que, quando é escutada e acolhida, transmite-nos o dom da fé e faz-nos encontrar o ressuscitado que já nos habita pelo seu Espírito e nos abre a uma Esperança viva. É por isso que pregamos, que organizamos percursos Alpha, células de evangelização, catequese de adultos e tudo o mais, para dar a possibilidade a todos de se encontrar com o ressuscitado e ser habitado por esta Esperança que não engana.
“Bendito seja Deus porque nos gerou de novo através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva” (Pd 1,3). A Ele, o Vivente, seja dada glória e honra pelos séculos dos séculos. Amen.

Pe Jorge Santos

DIA DE TODOS OS SANTOS

Na próxima sexta-feira, dia 1 de Novembro, celebramos a Solenidade de Todos os Santos.

Nesta festa celebramos aqueles cristãos anónimos, que viveram ao nosso lado e passaram fazendo o bem, procurando corresponder ao amor que Jesus nos propôs. Se nos parece difícil imitar os gestos dos grandes santos, podemos seguir os passos destes que não fizeram atos extraordinários, mas que foram fiéis no seu dia a dia, respondendo ao convite de Deus: «Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo».

As missas são nos mesmos horários de Domingo. Em S. João Baptista só haverá a missa das 11 horas.

 

Deus cura e salva

Um sacerdote dizia há tempos numa homilia que hoje não há curas nem milagres. Isso era no tempo de Jesus em que as pessoas não conheciam a ciência e, por isso, esperavam de Deus aquilo que podemos esperar hoje do conhecimento. E acrescentava: “As curas hoje acontecem nos hospitais e são fruto do trabalho da ciência. Os milagres são o trabalho com os pobres, aquilo que se consegue alcançar com a solidariedade social e a partilha.» Alguém que estava nessa missa sentiu que aquilo, tendo uma pequena parte de verdade, pois de facto Deus cura através da ciência e dos médicos e há maravilhas que são realizadas no mundo através da doação e da entrega de tanta gente generosa em favor dos mais pobres, era extremamente redutor, e anti–evangélico. Foi à sacristia e disse ao padre: Desculpe, senhor padre, mas fiquei incomodada com as suas palavras: «No fundo o que o Senhor disse é que Jesus está morto e hoje só nos resta d’Ele um conjunto de bons ensinamentos éticos. Mas essa não é a minha fé e creio que também não é a fé da Igreja.» E de facto não é isto que o Evangelho nos diz e não é esta a tradição viva da Igreja. Deus diz: «Eu sou o Senhor que te cura» (Ex 15,26) e a palavra hebraica para dizer cura é «sozdo» que quer dizer salvar e curar ao mesmo tempo. Deus cura salvando, atingindo não só a alma, mas muitas vezes o corpo.

Um quarto dos evangelhos é a narrativa das curas de Jesus. O Evangelho de hoje é um desses relatos entre tantos. S. Mateus expressa-o assim: “Jesus começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades.” (Mt 4, 23) Mas Jesus não se contentou em curar no seu tempo: disse aos seus seguidores: «vós fareis também estas coisas e até maiores do que estas porque eu vou para o Pai.» Quando envia os 72 discípulos (não só os Doze), diz-lhes: “Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: ‘O Reino de Deus já está próximo de vós’.” E, de facto, nos Atos dos Apóstolos, os discípulos fazem o que Jesus lhes mandou e exercem o ministério de cura em nome de Jesus, manifestando assim que Jesus ressuscitado está com eles. A Igreja ao longo dos séculos nunca deixou de exercer o ministério da cura.

Porque é que Jesus cura? Os evangelistas quando falam das curas que Jesus realiza afirmam quase sempre que “Jesus encheu-se de compaixão”. O que leva Jesus a atuar é, em primeiro lugar, ele achar intolerável que alguém sofra daquele modo. Fica compadecido e estende a Sua mão salvadora. Mas as curas são também um anúncio jubiloso de que o Reino de Deus já está no meio de nós. Podemos dizer que O Reino de Deus é como que a esfera de influência de Deus. Quando a esfera de influência de Deus for total e completa – como será um dia – então não vai haver mais doença. Por isso, existe um aspeto futuro do Reino. A Bíblia fala-nos de um novo céu e uma nova terra onde não haverá mais cancro, não haverá mais sofrimento, não haverá mais dor, mais lágrimas, mais morte. Haverá cura total para toda a gente. Mas agora, nem toda a gente é curada ainda, pois se é verdade que, com Jesus, o Reino de Deus já está no meio de nós, ainda não está na sua plenitude pois aguardamos a segunda vinda de Cristo. S. Paulo diz assim: «Nós gememos no nosso íntimo» – porque todos os nossos corpos estão em declínio, aguardando a adoção filial, a libertação do nosso corpo.» A libertação total dos nossos corpos só acontecerá no futuro. Por isso, quando alguém é curado hoje pelo poder da fé, é um anúncio do futuro que está a acontecer. No futuro vai ser assim…todos serão curados.

E no presente? Aquilo que os homens podem fazer pela ciência médica é com eles, mas podemos e devemos sempre rezar pelos médicos para que sejam instrumentos de Deus curando e aliviando a dor psíquica e física, mas a oração faz sempre bem ao doente que vai ser operado ou que acabou de receber uma notícia de que tem uma doença grave. O medo angustia-nos e deprime-nos. A oração liberta e dá força. A Igreja aconselha as pessoas a receberem a unção dos doentes antes de irem para uma intervenção cirúrgica para irem com a confiança da fé. Nós devemos rezar em todas as circunstâncias pelos que sofrem e pedir a Deus a cura total da pessoa. Deus é soberanamente livre para agir segundo a sua infinita sabedoria, ou dando a força e graça interior para se unir à Cruz do Senhor, ou curando a doença para manifestação do seu Reino. A pessoa curada que se volta para Deus e viu nisso a sua misericórdia mudando de vida, não foi só curada, foi salva. A pessoa que foi curada, mas não reconheceu o Senhor voltando-se para Ele, foi curada, mas não salva. No evangelho de hoje nove foram curados, mas um deles recebeu mais do que a cura, reconheceu o seu Salvador e a vida dele passou a ter outra dimensão. A comunidade cristã deve acreditar mais no poder salvador de Jesus e voltar-se para ele para rezar comunitariamente pelos que sofrem. Quanto mais rezar pelos doentes mais maravilhas verá e a sua fé crescerá, pois perceberá que Jesus está vivo e atuante no meio dela.

Pe Jorge Santos

Deus cura e salva

Um sacerdote dizia há tempos numa homilia que hoje não há curas nem milagres. Isso era no tempo de Jesus em que as pessoas não conheciam a ciência e, por isso, esperavam de Deus aquilo que podemos esperar hoje do conhecimento. E acrescentava: “As curas hoje acontecem nos hospitais e são fruto do trabalho da ciência. Os milagres são o trabalho com os pobres, aquilo que se consegue alcançar com a solidariedade social e a partilha.» Alguém que estava nessa missa sentiu que aquilo, tendo uma pequena parte de verdade, pois de facto Deus cura através da ciência e dos médicos e há maravilhas que são realizadas no mundo através da doação e da entrega de tanta gente generosa em favor dos mais pobres, era extremamente redutor, e anti–evangélico. Foi à sacristia e disse ao padre: Desculpe, senhor padre, mas fiquei incomodada com as suas palavras: «No fundo o que o Senhor disse é que Jesus está morto e hoje só nos resta d’Ele um conjunto de bons ensinamentos éticos. Mas essa não é a minha fé e creio que também não é a fé da Igreja.» E de facto não é isto que o Evangelho nos diz e não é esta a tradição viva da Igreja. Deus diz: «Eu sou o Senhor que te cura» (Ex 15,26) e a palavra hebraica para dizer cura é «sozdo» que quer dizer salvar e curar ao mesmo tempo. Deus cura salvando, atingindo não só a alma, mas muitas vezes o corpo.</p>

Um quarto dos evangelhos é a narrativa das curas de Jesus. O Evangelho de hoje é um desses relatos entre tantos. S. Mateus expressa-o assim: “Jesus começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades.” (Mt 4, 23) Mas Jesus não se contentou em curar no seu tempo: disse aos seus seguidores: «vós fareis também estas coisas e até maiores do que estas porque eu vou para o Pai.» Quando envia os 72 discípulos (não só os Doze), diz-lhes: “Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: ‘O Reino de Deus já está próximo de vós’.” E, de facto, nos Atos dos Apóstolos, os discípulos fazem o que Jesus lhes mandou e exercem o ministério de cura em nome de Jesus, manifestando assim que Jesus ressuscitado está com eles. A Igreja ao longo dos séculos nunca deixou de exercer o ministério da cura.

Porque é que Jesus cura? Os evangelistas quando falam das curas que Jesus realiza afirmam quase sempre que “Jesus encheu-se de compaixão”. O que leva Jesus a atuar é, em primeiro lugar, ele achar intolerável que alguém sofra daquele modo. Fica compadecido e estende a Sua mão salvadora. Mas as curas são também um anúncio jubiloso de que o Reino de Deus já está no meio de nós. Podemos dizer que O Reino de Deus é como que a esfera de influência de Deus. Quando a esfera de influência de Deus for total e completa – como será um dia – então não vai haver mais doença. Por isso, existe um aspeto futuro do Reino. A Bíblia fala-nos de um novo céu e uma nova terra onde não haverá mais cancro, não haverá mais sofrimento, não haverá mais dor, mais lágrimas, mais morte. Haverá cura total para toda a gente. Mas agora, nem toda a gente é curada ainda, pois se é verdade que, com Jesus, o Reino de Deus já está no meio de nós, ainda não está na sua plenitude pois aguardamos a segunda vinda de Cristo. S. Paulo diz assim: «Nós gememos no nosso íntimo» – porque todos os nossos corpos estão em declínio, aguardando a adoção filial, a libertação do nosso corpo.» A libertação total dos nossos corpos só acontecerá no futuro. Por isso, quando alguém é curado hoje pelo poder da fé, é um anúncio do futuro que está a acontecer. No futuro vai ser assim…todos serão curados.

E no presente? Aquilo que os homens podem fazer pela ciência médica é com eles, mas podemos e devemos sempre rezar pelos médicos para que sejam instrumentos de Deus curando e aliviando a dor psíquica e física, mas a oração faz sempre bem ao doente que vai ser operado ou que acabou de receber uma notícia de que tem uma doença grave. O medo angustia-nos e deprime-nos. A oração liberta e dá força. A Igreja aconselha as pessoas a receberem a unção dos doentes antes de irem para uma intervenção cirúrgica para irem com a confiança da fé. Nós devemos rezar em todas as circunstâncias pelos que sofrem e pedir a Deus a cura total da pessoa. Deus é soberanamente livre para agir segundo a sua infinita sabedoria, ou dando a força e graça interior para se unir à Cruz do Senhor, ou curando a doença para manifestação do seu Reino. A pessoa curada que se volta para Deus e viu nisso a sua misericórdia mudando de vida, não foi só curada, foi salva. A pessoa que foi curada, mas não reconheceu o Senhor voltando-se para Ele, foi curada, mas não salva. No evangelho de hoje nove foram curados, mas um deles recebeu mais do que a cura, reconheceu o seu Salvador e a vida dele passou a ter outra dimensão. A comunidade cristã deve acreditar mais no poder salvador de Jesus e voltar-se para ele para rezar comunitariamente pelos que sofrem. Quanto mais rezar pelos doentes mais maravilhas verá e a sua fé crescerá, pois perceberá que Jesus está vivo e atuante no meio dela.

Pe Jorge Santos

Homilia na Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (Pe Jorge)

Maria o que disseste ao longo da tua vida?

O que disseste na Anunciação do Anjo?

Fazes parte da nossa condição, conheces os limites das nossas possibilidades humanas. Deus pede-te o inacreditável e faz-te descobrir que nada é impossível a Deus. E tu respondes: “Eis-me aqui. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra.

E o que disseste na tua visita a Isabel?

Tu és Filha de Israel. Do teu coração brotou a ação de graças que durante séculos foi cantada nas Escrituras e, em cada sábado, escutavas e meditavas no teu coração. «A minha alma exulta no Senhor», dizia o cântico de Ana que tantas vezes escutaste e cantaste.

E em Belém, Maria, que disseste tu?

Não encontraste lugar para Ele em nenhuma hospedaria e tiveste que O dar à luz numa pobre manjedoura. Deixaste o céu cantar cânticos de júbilo, a glória nos céus e a paz na terra aos homens, tu que és da nossa pobre condição. Que felicidade a tua, no meio da pobreza, mostrar o teu Filho aos pastores no presépio! Alegria da vida nascente! A tua alma exulta de alegria em Deus…

E que disseste tu, Maria, aos doze anos quando entravas na adolescência?

Tu deste-te. Entregaste-te na confiança. Já não és a rapariguita do dia da Anunciação. Agora és mãe nesta família. Porquê então falar? Guardavas tudo no teu coração. É um segredo de amor que se teceu entre ti e Ele. O que se partilha com Deus é uma graça indizível.

E quando Ele chegou aos 20 anos da Sua juventude, que disseste tu?

Ele ia e vinha com José, na azáfama da carpintaria, que dizia algumas piadas com os colegas da mesma idade. Ele te lembrara alguns anos atrás «que devia ocupar-se das coisas do Seu Pai». Mas tu sabias que todo o Seu ser, tecido do teu, vivia em unidade com Deus. Para quê substituir-te a Ele que é a Palavra viva que Deus nos deu? E continuavas a guardar tudo na tua alma confiante.

E nas bodas de Caná, Maria, que disseste tu?

Mulher atenta às alegrias que poderiam transformar-se em preocupação e aflição, conduzistes o teu Filho aos serventes para que lhes fizesse o dom deste primeiro milagre. Como aos pastores em Belém, também agora O apresentas aos homens dizendo-lhes: «Fazei tudo o que Ele vos disser».

Conta-nos, Maria, que disseste tu, naquele dia em Cafarnaúm?

Os teus parentes levaram-te com eles ao Seu encontro, pois diziam «que estava fora de si». Mas tu sabias que Ele devia ocupar-se das coisas do Pai. Por isso, nada disseste. Ficaste discreta no silêncio do apagamento e ouviste-O perguntar: «Quem é minha mãe e meus irmãos?» E Ele próprio respondeu: «Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus». Confirmou-te na tua entrega. Tu és realmente a Sua mãe pois fazes a vontade do Pai na perfeição, como Ele a irá fazer no Gólgota.

E no Calvário, Maria, diz-nos o que ouviste.

Gritos hostis de ódio e tão pouco amor. É a espada de dores predita por Simeão no Templo, há já trinta anos, e que agora te atravessa a alma e te fere. Sem dúvida que te lembraste daquele dia da Anunciação, em que disseste: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». E ouviste a tua nova missão, o pedido de uma nova entrega naquela voz doce e frágil que se extinguia na cruz: «Mulher eis aí o teu Filho».

E que disseste tu, Maria, na tua dormição, quando fechavas os olhos para esta vida?

Nada, senão dizer de novo aos filhos que te foram confiados o que sempre conservaste no teu coração e que eles também deveriam conservar e redizer por sua vez: Tu disseste-lhes o teu Magnificat a Deus para que o pudessem cantar contigo de geração em geração.

Maria que ouviste tu ao chegar à glória do céu?

A humilde serva do Senhor é recebida em festa no meio de coros de anjos que se inclinam diante da sua Rainha: Como é bela e formosa a Filha de Jerusalém que se levanta como a aurora e resplandece como sol nascente. És conduzida junto do ancião venerável e daquele que esteve morto, mas agora vive pelos séculos dos séculos. O Rei do Universo estende-te o cetro real sorrindo para ti que és Sua mãe: Vem, Nova Eva, Virgem Filha de Sião, Mulher Nova, recebe o Reino que te está destinado e senta-te a meu lado como Rainha. E no céu ouviu-se um clamor de júbilo e alegria. E cantou-se de novo o Magnificat a Deus que ecoa pelos séculos dos séculos.

Pe Jorge Santos

 

 

Homilia D. Virgílio na tomada de posse da Paróquia e S. José

«A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel»

Pe. Jorge e Pe. Filipe tomam posse na Paróquia de S. José

Tomada de posse na Paróquia de São José pela nova equipe pastoral (Pe Jorge e Pe Filipe), na presença do nosso bispo, D. Virgílio Antunes, e consequente nascimento da nova Unidade Pastoral na qual a nossa paróquia será integrada. Leu-se uma ata à qual se seguiram as assinaturas e umas palavras do pároco cessante, Pe João, e do novo pároco, Pe Jorge. Num ato simbólico e com carinho, perante toda a comunidade paroquial o Pe João entregou ao Pe Jorge as chaves da Igreja e da casa paroquial que a nova equipa presbiteral irá ocupar.

Homilia D. Virgílio na Abertura Solene do Ano Pastoral

ABERTURA SOLENE DO ANO PASTORAL DE 2017-2018
NA DIOCESE DE COIMBRA
HOMILIA DA MISSA DO XXV DOMINGO COMUM A
SÉ NOVA 2017-09-23

Caríssimos irmãos e irmãs!
A abertura solene do novo ano pastoral convoca-nos a todos para um novo começo na missão de nos aproximarmos de Cristo, a nossa vocação universal de cristãos. Escolhemos como frase chave do nosso Plano Pastoral para 2017-2020 a frase da Primeira Epístola de Pedro “aproximai-vos do Senhor” (1 Pd 2, 4), pois ser cristãos é estarmos em caminho para Aquele que é “o Caminho, a Verdade e a Vida”.
A Epístola aos Filipenses, que escutámos na primeira leitura, apresenta-nos a mesma verdade por meio da expressão, porventura ainda mais forte de Paulo, “para mim viver é Cristo e morrer é lucro”. Se Cristo é a nossa origem e o nosso fim, se Ele é tudo para nós, tanto faz viver sobre esta terra, como morrer, desde que estejamos n’Ele e com Ele.
Para estarmos com o Senhor, que é a nossa vida, precisamos de nos pôr a caminho, precisamos de partir constantemente de nós e das nossas ocupações e preocupações mundanas e de nos mover em direção a Ele, precisamos de nos mover interiormente para nossa aproximarmos d’Ele. A espiritualidade cristã nunca é uma realidade totalmente adquirida, nem uma realidade estática em que nos encontramos, mas é um dinamismo interior do Espírito de Deus em nós, que nos leva a estar sempre em caminho para o Senhor. 
A vida espiritual do cristão parte da certeza da fé no Senhor que vem ao nosso encontro e nos dá o Seu Espírito que nos há de mover para nos aproximarmos d’Ele, com decisão, com gozo interior, mas também com desprendimento e com o desejo renovado de estar com Ele.
A Primeira Leitura, partindo da certeza de fé que o Senhor vem ao nosso encontro, traduzia tudo o que é a resposta e o esforço humano, quando dizia: “procurai o Senhor”, “convertei-vos ao Senhor”. Aceitemos este desafio com todas as forças da nossa vontade humana, mas sempre confiados no eterno desejo que Deus tem de nos encontrar. 
Ao enviar-nos o Seu Espírito, Deus dá-nos a graça de que precisa a nossa humanidade para nos pormos a caminho e chegarmos à comunhão com Ele, àquilo que humanamente seria impossível. A vida no Espírito, a que chamamos espiritualidade, é o dom de Deus que nos capacita para o encontro vital que nunca mais pode parar até que repousemos eternamente na comunhão com Cristo. 
A vida no Espírito é, por isso, o caminho da conversão a que alude a Profecia de Isaías, quando diz; “converta-se ao Senhor”; é o caminho da conversão proclamado por Jesus no início da Sua vida pública, quando diz: “convertei-vos e acreditai no Evangelho”; e é o caminho da conversão proclamado ainda hoje pela Igreja em todas as suas ações de anúncio do Evangelho. É o que queremos nós, Diocese de Coimbra, quando propomos a toda a comunidade cristão um Plano Pastoral, baseado na expressão “aproximai-vos do Senhor”.

O convite de nos aproximarmos do Senhor, dirige-se, em primeiro lugar a nós: a mim como bispo, a ti como sacerdote ou diácono, a ti como consagrado, a ti como leigo. Frequentemente caímos no erro de procurar ser intermediários de Deus para fazer chegar este convite à multidão de homens e mulheres a quem se dirige sem que ele nos inclua e envolva, em primeiro lugar, a nós. 
Quem não se converte não pode levar os outros à conversão, quem não caminha no Espírito não pode ajudar outros a serem homens espirituais, quem não vive o Evangelho não pode ensinar a viver n’Ele. É enquanto pessoas, enquanto comunidades cristãs e enquanto Igreja que estão em estado permanente de conversão, que sempre se aproximam mais do Senhor e que sempre acolhem de modo renovado o Evangelho, que podemos realizar a missão que nos é confiada.
Os chamados agentes de pastoral, isto é, todos aqueles que receberam a graça de trabalhar ativamente na Igreja em favor da evangelização e da edificação do Corpo Santo de Cristo, são os primeiros a receber o dom da conversão, os primeiros a acolher a força do Espírito para se tornarem santos, os primeiros a deixar entrar o Evangelho no coração a fim de viverem de maneira digna do mesmo Evangelho. Trata-se efetivamente de uma graça que nunca agradeceremos suficientemente ao Senhor e trata-se, ao mesmo tempo, de uma missão, da mais nobre missão, a de cooperar com Cristo, na docilidade ao Espírito Santo, em favor do encontro salvador.
Aproximar-se do Senhor e dispor-se a ajudar outros a aproximarem-se do Senhor são um dom e uma missão, que nos consolam e nos enchem de alegria. Não precisamos de outra recompensa, pois o Senhor já nos deu tudo ao conceder-nos o maior dom, o Espírito Santo, e a maior graça, a participação na Sua própria missão. Nos dias difíceis, quando nos faltar o ânimo para continuar o caminho, quando nos confrontarmos com o aparente insucesso, quando forem grandes as dificuldades na missão, confiemos tudo ao Senhor e Ele cuidará de nós, guardará a Sua Igreja, abrir-nos-á os novos caminhos da esperança.

A parábola do Evangelho que escutámos ensina-nos que Jesus convida muitos trabalhadores para cooperarem com Ele na realização da Sua obra, o anúncio do Evangelho para a salvação da humanidade, a construção do Seu Povo Santo como sinal e realização do Reino de Deus no mundo. Ensina-nos ainda que a Igreja, sacramento de Cristo no mundo, convida homens e mulheres de todas as condições para trabalharem alegremente ao serviço da sua edificação em todos os tempos e lugares da história. Essas pessoas somos nós e são muitas outras que não esperam nenhuma outra recompensa senão a certeza de realizarem a sua vocação de discípulos evangelizadores. 
Diante de Deus, nenhum de nós é tão pobre que não tenha nada para dar e ninguém é tão rico que possa ficar fechado no seu bem estar, esquecendo o próprio Deus que chama e a humanidade que reclama mediadores para o encontro com a Palavra da Salvação. Enquanto Povo de Deus e em nome de Cristo e da Igreja que chama, sentimo-nos honrados e agradecidos por acolher o dom de cooperar na realização da obra maior, que não é humana, mas divina.

“Ide vós também para a minha vinha”. Esta é o campo imenso do mundo inteiro, é o campo minúsculo do lugar em que estou, o pequeno mundo das minhas relações pessoais, familiares ou sociais. Todo o lugar é espaço de evangelização enquanto comunicação da fé: de forma organizada por meio dos métodos oferecidos pela Igreja no seio da comunidade cristã; de forma espontânea por meio da palavra e do testemunho onde quer que se passem os nossos dias.
Em resposta aos novos tempos em que vivemos, somos convidados pela Igreja, de modo especial pela voz do magistério do Papa Francisco, a caminhar em duas frentes. 
Em primeiro lugar, a atualização dos meios, das formas e do ardor com que realizamos toda a ação pastoral, evangelizadora, catequética, litúrgica e caritativa. Não basta fazer ou realizar ações ou atividades, mas é imperioso ir com o ardor da fé, com a humildade do Espírito e com os métodos adequados ao modo de ser da humanidade do tempo presente, em cada um dos meios concretos aos quais nos dirigimos.
Em segundo lugar, os destinatários aos quais a Igreja dirige a sua ação evangelizadora, a que o Papa chamou as periferias, ou seja, as pessoas que estão nas margens da fé e da Igreja, mas também nas margens distantes da sociedade, em virtude das condições económicas, das diversas formas de exclusão, do estilo de vida que assumiram, das distâncias geográficas, do baixo nível cultural, da situação familiar, da situação de doença e perda de familiares ou de qualquer outra circunstância que as torna mais frágeis espiritualmente, psicologicamente, socialmente, economicamente ou eclesialmente. Se Jesus e o seu Evangelho fazem uma clara opção pelos mais pobres, as periferias segundo a linguagem do Papa Francisco, a Igreja tem de fazer uma clara opção pelos pobres, as nossas comunidades das paróquias e das unidades pastorais têm de fazer uma clara opção pelos pobres.
Diante das dificuldades de realizar a missão que nos foi confiada, convido-vos a interiorizar duas certezas: primeira – não há nenhuma comunidade cristã que não tenha capacidade evangelizadora, pois ela constitui a identidade da Igreja e é dom do Espírito Santo que vem em auxílio da nossa fragilidade; segunda – não há nenhuma porção da humanidade que não possa ser evangelizada, pois é o mesmo Espírito Santo que vai à frente e que prepara os corações para o anúncio que somos convidados a fazer.
Em nome de Cristo que me chamou a exercer o ministério pastoral gostaria, hoje, de repetir as palavras desafiadoras que escutámos na liturgia: convertei-vos ao Senhor para que possais dizer com fé: para mim viver é Cristo; e ainda, ide vós também trabalhar para a minha vinha, porque o Senhor é bom, guarda no coração os seus discípulos e chama-lhes os seus amigos.

Confiamos a Igreja Diocesana e todos os seus membros a Nossa Senhora, para que nos acompanhe em todas as suas necessidades e nos indique os caminhos a seguir para que o mundo creia e seja salvo. Ámen.

Coimbra, 24 de setembro de 2017
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra