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Folha Paroquial nº 147 *Ano III* 22.11.2020 — JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

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“EVANGELHO (Mt 25, 31-46)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’. E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

É NECESSÁRIO QUE ELE REINE

Porque é que é necessário que Ele reine como nos diz a primeira leitura?
Porque a Sagrada Escritura e a experiência humana, ao longo dos séculos e, de modo particular, nos nossos dias, nos mostra que a humanidade não tem saída sem que Cristo reine no mundo. O primeiro capítulo da encíclica Fratelli Tutti, do papa Francisco, tem como título «as sombras de um mundo fechado». E o papa, que é um homem de fé e de esperança, não deixa de nos mostrar as sombras deste mundo que, tendo avançado tanto científica e tecnologicamente, deixa tantos para trás que são “descartados” e esquecidos socialmente. Chegou-se a pensar que, com o progresso económico e social e com políticas de justa distribuição das riquezas, chegaria um tempo novo onde as desigualdades seriam grandemente reduzidas e a extrema pobreza desapareceria. Devemos todos continuar a lutar pela paz e pela justiça, sem nunca desistir de um mundo mais justo e mais fraterno, mas a realidade mostra que os homens entregues a si mesmos acabam por pensar só em si. A Constituição pastoral Gaudium et Spes lembrava-nos, na década de sessenta, que “os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem. Porque, no íntimo do próprio homem, muitos elementos se combatem.(…) Sofre assim em si mesmo a divisão, da qual tantas e tão grandes discórdias se originam para a sociedade” (nº 10) e, mais à frente, no nº 37, afirma: “A Sagrada escritura, confirmada pela experiência dos séculos, ensina que o progresso humano, tão grande bem para o homem, traz consigo também uma grande tentação: perturbada a ordem de valores e misturado o bem com o mal, os homens e os grupos consideram apenas o que é seu, esquecendo o dos outros. Deixa assim o mundo de ser um lugar de verdadeira fraternidade, enquanto que o acrescido dos homens ameaça já destruir o próprio género humano”. E, nesta altura, ainda não estávamos tão mal como agora, quanto às ameaças climáticas e outras. E depois, a Constituição lembra que só em Cristo morto e ressuscitado o mundo tem saída e será purificado. Por isso, escolhi para título desta reflexão uma frase da segunda leitura de hoje: «É necessário que Ele reine», para que todo o mal, soberba, injustiça, sejam colocadas debaixo dos seus pés. E Cristo reina não pelo amor da força, mas pela força do amor e da misericórdia. Vejamos as leituras que a Igreja escolheu para este dia: na primeira leitura, Deus apresenta-se como o bom pastor que se compadece das suas ovelhas abandonadas e feridas e vai buscá-las com ternura para as tratar, fortalecer e alegrar. Este Rei é um servo que lava os pés, que perdoa, que sara os corações dilacerados, que dá a vida pelas suas ovelhas. Ele conquista-as pela bondade e pela misericórdia e não pela violência e pela força. No Evangelho, é-nos dito que Jesus, o Rei universal, iluminará com a sua luz toda a nossa vida. Quando chegarmos junto d’Ele, “à sua Luz, nós veremos a luz”. Não precisaremos de palavras, nem ninguém nos julgará, senão nós mesmos, quando nos vermos inundados pela luz do amor eterno. Se vivemos no amor e na compaixão, essa luz far-nos-á sentir bem, acolhidos, como quem se sente em casa. «Vinde, benditos de meu Pai, para o reino que vos está preparado». Mas se, à luz do amor, só vemos em nós as trevas do encerramento no egoísmo e no desprezo pelos outros, dar-nos-emos conta de que «Ele teve fome e não lhe demos de comer, esteve sozinho e não nos importámos, esteve doente e na prisão e fechámos o coração». E então, diante do amor, a nossa dor de não termos amado será insuportável. Por isso, enquanto é tempo, convertamo-nos todos ao amor. É necessário que Cristo reine no nosso coração para que reine no mundo, e este seja transformado em reino de Deus onde habita a justiça e a fraternidade. “Depois será o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai, depois de ter aniquilado toda a soberania, autoridade e poder”. Diz-nos ainda a Constituição citada: «Constituído Senhor pela sua ressurreição, Cristo, a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, atua já pela força do seu Espírito no coração dos homens; não suscita neles apenas o desejo da vida futura, mas, por isso mesmo, anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana e a submeter para esse fim toda a terra.» Esta é a nossa missão de súbitos deste Rei do amor. Que Ele reine em nós, que nós cristãos sejamos construtores da esperança de um mundo novo, que trabalhemos mais pela nossa conversão interior e pela conversão das estruturas de pecado que bloqueiam a fraternidade entre os homens tornando-nos num mundo egoísta. Esta pandemia veio mostrar-nos à saciedade que estamos todos interdependentes, para o bem e para o mal, e que não podemos viver como queremos só pensando em nós, sob pena de prejudicarmos o conjunto e espalhar o vírus do nosso pecado contaminando todos os outros. Celebrar Cristo-Rei, leva-nos a deixar-nos conduzir pela Esperança que vence todo o derrotismo. Mas, a Esperança não é passiva, pelo contrário, é uma força poderosa que nos leva a agir, guiados pelo Espírito de Cristo e pelo seu mandamento do amor para insuflarmos no mundo a semente do reino, “reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz.” Quase me apetece dizer: Cristãos de todo o mundo e, todos vós, homens de boa vontade, uni-vos para serdes força transformadora de um mundo novo. Precisamos de refletir mais sobre a inserção dos cristãos no meio do mundo e lembrar aos leigos que a sua principal vocação são as realidades terrestres onde devem estar para darem o seu contributo para um mundo mais justo para que Cristo seja Rei e Senhor da história.

Jesus Cristo, Rei e Senhor Universal,
Reina nos nossos corações! Enche-nos do teu Espírito
E conduz os nossos passos pelos caminhos do amor fraterno.
Dá-nos o teu olhar de amor e compaixão sobre os irmãos e sobre o mundo.
Dá-nos a tua força para sermos construtores da história.
Não permitas que vivamos uma fé desencarnada e angélica,
Mas conduz-nos pelos caminhos do compromisso com a humanidade.
Que a Ceia da comunhão fraterna, que celebramos em cada Domingo,
alargue o nosso coração,
para amarmos o mundo e lutarmos pela justiça e pela paz.
Dá-nos um coração cheio de bondade
que se torne vulnerável diante dos pobres,
dos doentes e de todos os esquecidos.
Graças pelos homens e mulheres que “primeiraram”
Seguindo os teus passos.
Penso em Andreia Ricardi, da comunidade de Santo Egídio!
Hoje são chamados a mediar conflitos internacionais
Mas começaram pela visita aos pobres de Roma.
Eu sei, Senhor: Nós podíamos fazer mais e melhor
para que o teu reino crescesse no mundo!
Perdoa a nossa negligência, mas não desistas de nos enviar
o teu Espírito como um vento impetuoso
que nos empurre para as periferias do mundo.
Glória a ti, Cristo, Rei e Senhor do Universo
Amen

 

Folha Paroquial 146 *Ano III* 15.11.2020 — DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM

Ditoso o que segue o caminho do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 25, 14-30)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:«Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas o que recebera um só talento foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles.   que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem,  ervo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence’. O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu. Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes’».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

TIVE MEDO E ESCONDI O TEU TALENTO NA TERRA 

Andaram de volta do pai a pedir-lhe dinheiro mas não podiam dizer para o que era. O pai confiou neles mas também tinha lá um dedo que adivinhava o que andavam a tramar. E sabia que era coisa que valia a pena. Compraram o que precisaram e pintaram, recortaram, fizeram arranjos e mais arranjos. No dia em que a mãe fez anos, não tinham comprado nenhuma prenda nas lojas, mas tinham posto todos os seus talentos a render com criatividade e ofereceram à mãe a prenda mais bela do mundo. A mãe estava desenhada de muitas formas e sobretudo em muitas situações de que eles se lembravam. A fazer as refeições na cozinha, a pôr a mesa, a ir às compras, a deitar os filhos, a dar-lhes um beijo de boas noites e várias outras. Em cada foto ia uma frase encantadora e de imensa gratidão por ela ser o que era; simplesmente uma mãe genial. E havia poesia de iniciantes sobre a melhor mãe do mundo.

Sei que foi o melhor aniversário desta mãe apesar das muitas lágrimas de sentida alegria. Não sei quais foram as palavras que os filhos lhe disseram quando lhe entregaram a prenda mas podiam ser mais ou menos a dos primeiros dois servos do evangelho de hoje: « Recebemos de ti tanto para nos fazer felizes que quisemos também fazer apelo aos nossos dons para te dizer o nosso amor e gratidão. Recebe a expressão do nosso reconhecimento. E se transportássemos este caso para o que nos diz o Senhor nesta parábola? Nós só colocamos alegre e ousadamente os nossos dons a render se amamos Aquele que distribuiu por nós os seus bens e partiu, prometendo que um dia voltaria.

Percebemos que a parábola faz alusão à segunda vinda do Senhor que é uma certeza da fé, como confessamos no credo: «De novo há-de vir no esplendor da sua glória». Este tempo de «ausência» é só aparente, pois Ele disse: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Quem ama o Senhor, vive na ansiosa expectativa do encontro amoroso com Ele e faz do tempo da espera, não algo estático, cristalizado e imutável, mas algo dinâmico onde todos os dons que Ele nos deu são postos a render para que, quando Ele vier, tenhamos a alegria de lhe apresentar o fruto do bom uso que fizemos de tudo o que Ele, com tanta prodigalidade, nos confiou.

Na Liturgia da Igreja rezamos: «Dos próprios bens que nos destes oferecemos à vossa divina majestade o sacrifício perfeito, santo e imaculado.» Nada temos que não tenhamos recebido como dom. Tudo nos vem do Senhor. Por isso, quem ama a Deus, põe toda a alegria em servi-lo com todos os dons que Ele lhe dá, e esforça-se por ser criativo, dinâmico e não acomodado.

O terceiro servo da parábola não tinha uma relação de amor com o Mestre, mas de medo. Que diferença em relação aos outros! “Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence.” É uma resposta que deve ter gerado um calafrio no coração do Mestre. Medo? Medo de mim que te dei tudo e a quem confiei uma parte dos meus bens? O que está por detrás desta atitude é uma imagem falsa que o servo tem acerca do Senhor que lhe confiou os talentos. Imagina-o alguém severo, incompreensivo, injusto e avarento, que não admite erros e incapaz de dar uma segunda oportunidade. E é porque o imagina assim que fica paralisado pelo medo de não errar e não arrisca fazer nada com o seu talento. Talvez valha a pena neste momento perguntar-nos: Como é a minha relação com o Senhor que me confiou tantos bens: É de confiança e de amor ou de medo? Quando a fé cristã se vive, não a partir do amor confiante e até entusiasmado, mas do medo, torna-se uma fé que não aquece a vida, uma fé fria centrada nos mínimos, sem criatividade e ousadia. «Eu cá tenho a minha fé”, dizem alguns, mas é algo que não motiva o próprio e não contagia ninguém. Quem tem esta fé baseada no medo, ou pelo menos fé sem amor, vive centrado no cumprimento dos preceitos, esquece o evangelho para conhecer sobretudo as regras que deve cumprir. Quando lhe falam de ser evangelizador ou de pôr os seus dons a render ao serviço dos outros na comunidade, ele acha isso ridículo. Ele já cumpre o que está mandado.

Ora o Pai, tal como no-lo revela Jesus, é um Pai cujo amor tem por desígnio de nos convidar a partilhar a alegria do seu reino. Ele convida-nos a pôr em prática toda a nossa energia para pôr a render com toda a confiança, e em plena liberdade, os dons que nos confiou. Que alegria Ele tem em poder dizer-nos: «Muito bem, servo bom e fiel, vem tomar parte na alegria do teu Senhor.»

Caros cristãos que amais o Senhor e não vos poupais no serviço da Sua Igreja e do Seu reino dando tempo, dinheiro, aptidões e tudo o mais para fazer crescer o seu reino, tudo vale a pena para poderdes ouvir o Senhor dizer-vos: “Muito bem, servo bom e fiel, vem tomar parte na alegria do teu Senhor.”

Folha Paroquial nº 145 *Ano III* 08.11.2020 — DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM

A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

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“EVANGELHO (Mt 25, 1-13)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

DO ENTUSIASMO DO INÍCIO À PERSEVERANÇA

1.Conheci alguém, há mais de 30 anos atrás, que fez uma experiência de Deus muito sentida, no Renovamento Carismático. Muita coisa mudou na sua vida, e algumas nada fáceis de mudar, por exigirem muita coragem e desprendimento. Foi uma verdadeira conversão que se manifestou não tanto pelas emoções, que também foram grandes, mas sobretudo pelo estilo de vida que mudou admiravelmente em conformidade com a vontade d’Aquele que Ele tinha encontrado e lhe tinha dado tanta alegria. Pôs muita coisa em ordem na sua vida: no plano financeiro, moral e relacional. Deu um bom testemunho a todos os que o conheciam, pois percebiam que uma mudança autêntica se tinha produzido nele. Porém, passados uns anos, vim a saber que já nem à missa ia e que, embora não tivesse voltado ao estilo de vida anterior, tinha perdido todo o entusiasmo, como se nada tivesse acontecido na sua vida. Encontrando-o um dia, em Lisboa, fomos tomar um café e conversámos sobre isso. Disse-me tristemente que agora já não praticava, que tinha deixado de rezar, mas sentia saudades da alegria e do entusiasmo daqueles tempos em que parecia ter conhecido a Deus. Parecia? – perguntei eu. – Sim, comecei a duvidar de tudo -disse ele – Quando aconteceu a minha conversão tudo era fácil. Deus parecia que vivia em mim e me dava força e coragem. Tudo valia a pena por causa D’Ele. Vivia numa grande alegria e sentia-me capaz de mudar este mundo e o outro, pela certeza de que Ele estava comigo. Mas pouco a pouco, parece que fiquei sozinho. Deixei de o sentir presente na minha vida. Comecei a pôr em causa escolhas que tinha feito por causa da fé e mesmo a duvidar se a minha experiência tinha sido autêntica. As dúvidas vieram umas atrás das outras e comecei a arrefecer. Deixei de ir ao grupo de oração, deixei de rezar e, depois, de ir à missa. Enquanto o ouvia partilhar tristemente a sua história, pensei quanto lhe faltou alguém que o ajudasse a fazer a mudança dos primeiros tempos para o tempo seguinte, o da perseverança na fé.

2.Esta história real é uma introdução para comentar o evangelho de hoje e para pedirmos a sabedoria de Deus para nos guiarmos bem na vida.

A primeira geração cristã viveu convencida de que Jesus ressuscitado voltaria de novo e brevemente. Nessa altura estavam todos com as lâmpadas acesas. Mas isso não aconteceu, Jesus tardava em chegar. Pouco a pouco, os seguidores de Jesus tiveram que se preparar para uma longa espera. E alguns começaram a dormitar e deixaram apagar as suas candeias. Mas como manter vivo o entusiasmo e o espírito dos inícios? Como alimentar a fé sem deixar que se apague? É por isso que os evangelistas não se esqueceram de sublinhar as palavras de Jesus: “É pela vossa perseverança que salvareis as vossas almas.” Ou, segundo outro evangelista, “quem perseverar até ao fim será salvo.”

Estas questões colocam-se sempre na Igreja quando um carismático fundador de um movimento ou de uma ordem religiosa morre. Enquanto ele está vivo, o Movimento ou a Ordem religiosa vive do carisma do fundador, e quase nem precisa de estatutos. É o tempo do crescimento e do entusiasmo. Mas como manter aquela chama viva, aquele carisma, agora que o fundador já não está presente com a sua autoridade? É sempre um tempo difícil, o desta mudança. Mas é pela perseverança dos seus seguidores que o carisma vai dando o seu fruto na Igreja e no mundo. O Evangelho de hoje tem a ver com esta perseverança até ao fim, e de estar vigilante para não nos deixarmos adormecer e apagar a nossa chama.

3. O que pode querer dizer o azeite que as sensatas levam consigo? Jesus disse um dia: «Eu vim trazer o fogo à terra e quanto desejo que ele seja ateado!» Este fogo nasce do contacto vivo com Ele. Quanto mais nos distanciamos da sua pessoa, mais o azeite vai faltando e a chama se vai apagando.

Pretender conservar uma fé gasta sem a reavivar com o fogo da amizade e da proximidade com Jesus, é ter uma fé cristalizada do passado que não transforma a vida e não serve para nada. Passar de uma fé entusiasmada dos inícios para uma fé perseverante no amor sem se deixar cristalizar, é trazer sempre consigo o azeite que renova continuamente a chama. O azeite pode ser a Eucaristia dominical vivida, não como um preceito que temos de cumprir, mas como um banquete nupcial para o qual nos preparamos. Pode ser a Palavra de Deus escutada e meditada com amor, pois quando o fazemos abrimo-nos à presença d’Aquele que nos fala. É a oração quotidiana, e é todo o serviço que fazemos na paróquia ou noutros lados, por causa d’Ele. Permitam-me que faça uma interpretação possível desta parábola: As insensatas são aquelas que tendo tido já as candeias bem acesas com o fogo do amor de Deus se descuidaram, não foram perseverantes e, pouco a pouco, esfriaram a sua fé e o seu entusiasmo. O que precisariam? De um acompanhamento fraterno para se darem conta, pelo confronto com o testemunho dos outros, que precisam de mais azeite. Por isso é tão importante que uma pessoa que faz uma experiência de fé e de conversão não fique sozinha, mas faça parte de um pequeno grupo onde se reza e se partilha a fé. As sensatas foi isso que fizeram. Levaram consigo o azeite, quer dizer, souberam agarrar nos meios que lhes permitiu manter viva a chama da fé para que não se apagasse nem cristalizasse.

Muitas vezes temos muito trabalho em preparar adultos para o batismo, jovens para o crisma, pessoas para fazerem o percurso Alpha, mas depois falta-nos o mesmo cuidado no acompanhamento dessas pessoas até à sua plena integração na comunidade cristã ou nalgum grupo eclesial.

Estamos na semana dos Seminários. Rezemos pela perseverança dos sacerdotes para que mantenham sempre viva a chama da amizade com Jesus e não se deixem cristalizar num modo de vida sem chama e sem ardor.”

Folha Paroquial nº 144 *Ano III* 01.11.2020 — SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 5, 1-12)
Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

OH DITOSA IGREJA NOSSA MÃE

Este é um dos belos dias de festa que a Igreja nossa mãe nos proporciona viver. É um dia cheio de alegria, de júbilo e de festa emotiva. Hoje lembramo-nos da totalidade da Igreja que somos; a Igreja que ainda peregrina na terra, na esperança de chegar à pátria celeste, e a Igreja que já lá chegou e agora canta sem cessar os louvores eternos de Deus. Eles são os bem-aventurados que “se alegram e exultam, pois é grande nos céus a sua recompensa.” Hoje, convido-vos a aprofundar este mistério com as orações do missal. Ele começa com a antífona de entrada que, muitas vezes, se torna o cântico de entrada da missa: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

Depois do canto do hino do “Glória”, segue-se a oração de coleta do Presidente da celebração que recolhe a oração íntima e silenciosa dos fiéis, depois de os ter convidado à oração dizendo: Oremos…

Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de todos os santos, dignai-vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo….

Quase todos os dias a Igreja honra um ou mais santos, mas hoje é uma festa da santidade na igreja, de todos os seus ilustres conhecidos e desconhecidos, essa multidão imensa que ninguém pode contar e que estão vestidos com túnicas brancas e de palmas vitoriosas na mão, aclamando dia e noite o Cordeiro e seguindo-o para onde quer que Ele vá.

As 3 leituras vão-nos dando conta do mistério: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». Por isso agora cantam sem cessar diante do trono de Deus e do Cordeiro: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro».

No salmo responsorial, respondemos à Palavra escutada com júbilo e emoção: «Esta é a geração dos que procuram o Senhor».
A segunda leitura convida-nos a contemplar o amor do Pai que quis que fôssemos seus filhos no Filho. E S. João afirma com convicção: “E somo-lo de facto”. Mas depois, acrescenta: É certo que ainda não vimos tudo o que significa o facto de Deus querer que vivamos esta maravilhosa relação filial com Ele. Mas, quando virmos tudo claramente, isto é, quando chegarmos ao céu, então ficaremos extasiados porque veremos a Deus, face a face, e à luz d’Ele, ver-nos-emos a nós mesmos e àquilo que Ele quis para nós e, por isso, resta-nos a adoração, a ação de graças, o louvor eterno.

O Evangelho apresenta-nos o caminho da santidade, ou bem-aventurança, que é a mesma coisa. Esse caminho está resumido logo na primeira bem-aventurança: Bem-aventurados os que põem a sua alegria, a sua confiança e a sua esperança só em Deus; Poderão passar por muitas dificuldades, mas Deus não lhes faltará e o reino de Deus pertence-lhes. Porém, é no prefácio, esse louvor que antecede a aclamação do Santo, que a Igreja, através do sacerdote, dá largas à sua alegria e ao seu júbilo agradecido cantando-Lhe entusiasmadamente:
Senhor, Pai santo, é nosso dever dar-Vos graças, sempre e em toda a parte: Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste, onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:
Logo que o presidente termina, a assembleia irrompe na aclamação do “Santo”, afirmando que só Ele é Santo, três vezes Santo, e que, se alguém, ou alguma coisa, pode ser chamada santa, para além de Deus, é porque Lhe pertence e irradia a Sua santidade. Por isso o sacerdote continua rezando: “Senhor vós sois verdadeiramente santo, sois a fonte de toda a Santidade.

E a celebração eucarística termina, com chave de ouro, através da oração conclusiva da missa. Depois da comunhão e do silêncio sagrado que se lhe segue, ou do cântico depois da Comunhão, o sacerdote, antes de terminar a missa, reza a oração que a conclui e que é uma ação de graças pelo mistério celebrado. Quando somos convidados por um amigo para uma festa de banquete em sua casa, há as despedidas no final, e nós agradecemos ao dono da casa o convite e a honra que sentimos em ter estado em tão bela festa e quanto ela nos fez bem. É isso que o sacerdote faz, em nome de toda a assembleia, ao grande Senhor que nos convidou para o banquete. No dia de todos os santos, dizemos-Lhe no final: «Nós vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por nosso Senhor…»

E é a razão porque celebramos esta festa. Para avivarmos em nós o desejo e o ardor de passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste, fazendo o caminho da fé.

Como é bela a celebração da Eucaristia quando a celebramos com fé! Ela transforma-nos, cura-nos, encoraja-nos, reaviva a nossa esperança, ergue o nosso olhar do chão quotidiano para os altos montes donde nos vem o auxílio.”

Folha Paroquial nº 143 *Ano III* 25.10.2020 — DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

Eu Vos amo, Senhor: sois a minha força.

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“EVANGELHO (Mt 22, 34-40)
Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

O MANDAMENTO DO AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO

Há uma frase bíblica que ao mesmo tempo que me dá alegria me levanta questões. É a seguinte: “Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Paulo diz que a esperança cristã é fundada em algo que já existe em nós. Assim como a esperança da mulher grávida que traz um filho no ventre não é uma esperança sem fundamento, assim a esperança cristã tem um poderoso fundamento: o amor de Deus já derramado nos nossos corações, pelo Espírito Santo. O amor de Deus infinito e eterno manifestou-se de modo supremo na morte de cruz do Filho unigénito e a sua ressurreição criou uma explosão do amor trinitário em nós. As barreiras que nos separavam de Deus foram aniquiladas com a cruz do Senhor e nós, agora, podemos experimentar todo o amor que Deus é, através do Espírito Santo. Jesus já o tinha dito: “Aquele que me ama será amado por meu Pai, nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada.” Então, esse amor eterno, infinito, inefável, que criou o mundo, foi-nos dado e vive em nós. Nós já não apenas sabemos que Deus nos ama, como a Bíblia no-lo repete tantas vezes e que constitui o primeiro anúncio da Igreja: “Deus ama-te, Deus ama-nos, Somos amados por Deus”; mas, mais do que isso, experimentamos em nós o seu amor, pois foi derramado abundantemente em nossos corações. Isso é para mim fonte de admiração e de gratidão para com Deus, mas levanta-me também algumas perguntas: Porque é que então, nós, cristãos, não amamos mais? Porque é que tantas vezes tenho de pedir a Deus a graça de saber amar, de saber dar-me, de vencer o meu desejo de comodismo? Porque é que o amor a todos não é assim tão natural e temos ainda tendência para nos fecharmos no nosso egoísmo? Para que precisamos nós, depois de Cristo, no Novo Testamento, de um mandamento que nos mande amar a Deus e ao próximo? Não devia ser natural em nós? Às vezes, chegamos a sentir mesmo por algumas pessoas aquilo que um cristão nunca devia sentir: sentimentos negativos. E isso causa-nos tristeza, pois desejamos amar. O papa Bento XVI, na bela e memorável encíclica que vale a pena ler muitas vezes, «Deus caritas est», diz : “Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos, agora o amor já não é apenas um mandamento, mas é a resposta ao dom com que Deus vem ao nosso encontro” (nº 1 da DCE). Compreendemos estas palavras, mas sentimos que muitas vezes a nossa resposta a este dom é muito fraca quando amamos pouco os irmãos à maneira de Deus. E o papa acrescenta como, em Cristo, devemos amar o próximo: “Eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspetiva de Jesus Cristo.” Ah, aqui já há uma resposta mais concreta e tranquilizadora à minha (nossa?) questão. E depois Bento XVI acrescenta: “Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser «piedoso» e cumprir os meus deveres religiosos, então definha também a relação com Deus. (…) Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus.”

Em conclusão, o papa explica-nos que para amarmos os irmãos com o amor de Deus e à maneira de Deus, só é possível se vivermos em intimidade com Deus, deixando-nos conduzir pelo seu amor derramado nos nossos corações; mas, para isso, não nos podemos fechar numa religiosidade intimista e individualista mas numa comunhão amorosa com Deus aberta ao cumprimento da sua vontade e sempre questionando-nos se estamos a aderir à vontade de Deus. Porque estamos marcados pelos efeitos em nós do pecado original, o amor ao próximo, sobretudo àquele para quem não me sinto inclinado pelos laços de sangue ou de empatia, deve ser uma decisão amorosa e livre da nossa vontade. Eu tenho de decidir amar por um ato livre e não estar à espera que me venha a vontade de amar. Esta minha disponibilidade interior para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor vai curando o meu coração das feridas do egoísmo e vai-o alargando a uma dimensão da caridade cada vez maior. Foi assim que começaram os santos, como Teresa de Calcutá. Um jornalista americano que um dia acompanhou Madre Teresa viu-a tratar uma pessoa com feridas em tão grande putrefação que exclamou alto: «Eu não fazia este trabalho por dinheiro nenhum do mundo». Madre Teresa ergue-se, olha para ele, e agarrando o crucifico pendurado no seu sari, exclama decididamente: “E eu também não, sr. Jornalista. Não fazia isto por dinheiro nenhum do mundo. Faço-o gratuitamente porque Este mo mandou e me dá forças e amor para o fazer.” O amor cristão vai muito para além de um humanismo. Como diz Bento XVI, “Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina”.

Às vezes, quando se fala de caridade na igreja, muitos pensam logo só, e apenas, naquelas formas tradicionais de ajuda aos pobres que não têm que comer e vivem em situações miseráveis. E assim, quando pelo desenvolvimento da sociedade já não se vêm muito ou são sempre os mesmos, já não precisamos de praticar a caridade. Mas o amor é para viver em todas as circunstâncias. Se quando temos um idoso em tempo de covid, na nossa família, a ficar isolado e com medo e não o visitamos nem lhe damos afeto, onde está a nossa caridade? Neste tempo de covid, pensemos mais nesta faixa de população que está a viver situações dramáticas de solidão. Inventemos formas de manifestar o nosso amor, pois o amor é criativo. E perguntemo-nos todos os dias, ao fim de cada dia: «Hoje pratiquei a caridade com alguém?» Interessei-me pelos outros, para além daqueles que tenho de cuidar pelos laços do sangue? E, no início do dia, que a nossa oração possa conter um pedido e uma lembrança: «Ajuda-me a não passar ao lado de alguém que precise de uma palavra amiga, de um gesto de ternura, de um olhar de compreensão e que eu, pela minha distração ou pressa, lho negue. Que eu seja manifestação do teu amor eterno para os irmãos que eu encontrar.»
Felizes os que se disponibilizam para amar quotidianamente! Salvam a sua vida do vazio e do inferno, e abrem para si mesmos e para os outros as portas do Céu.”

Folha Paroquial nº 142 *Ano III* 18.10.2020 — DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM

Aclamai a glória e o poder do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 22, 15-21)
Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse. Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes acepção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-Lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

JESUS CRISTO É O SENHOR

Esta afirmação do kerigma cristão, proclamado depois da ressurreição do Senhor, diz a identidade de Cristo e de como devemos relacionar-nos com Ele. Proclamar que Jesus Cristo “é o Senhor” reenvia-nos à afirmação da primeira leitura, «Eu sou o Senhor e mais ninguém», e tem consequências enormes na nossa maneira de viver: em primeiro lugar, é um antídoto contra todas as idolatrias deste mundo, de ontem e de hoje. Por isso, os primeiros cristãos, que proclamavam Jesus como “o Senhor”, não podiam dobrar o joelho diante do imperador romano nem de qualquer poder terrestre por maior que ele fosse. E morriam por causa disso. Nós só nos inclinamos e nos ajoelhamos diante de Deus: do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em atitude de adoração como criaturas diante do criador. Quando nos ajoelhamos diante da imagem de um santo ou mesmo de Nossa Senhora, temos de ter o cuidado de fazer a diferença: aí é uma atitude de veneração, de respeito e de humildade mas não de adoração. Ajoelhamo-nos e prostramo-nos sim, diante da Eucaristia, do Santíssimo Sacramento, porque Ele « É o Senhor».

Jesus Cristo, pela sua morte e ressurreição, foi constituído Senhor dos vivos e dos mortos. Por isso é vã toda a tentativa dos senhores deste mundo, quando se sentem com poder, de se arrogarem em senhores da história como se tivessem na mão os destinos do mundo. Um hino cristão dos primeiros séculos diz: «Ele é a imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura. N’Ele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis (…) Ele é anterior a todas as coisas e por Ele tudo subsiste. (…) Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude.» ( Col 1,12-20)

Dizer que Jesus é o Senhor, Adonai (hebraico), Kyrios(em grego), significa dizer que Ele é o criador e Aquele por quem tudo subsiste e sem Ele nada pode existir.

Mas Deus, que é grande e Senhor, criador de tudo e de todos e sem o qual nada existe, criou o mundo e todos os seres levado pelo do seu amor eterno. Ele fez-se humilde e abaixou-se à pequenez da sua criatura. Ele não nos quer dominar como os senhores deste mundo, mas quer libertar-nos de todas as dominações que nos escravizam. Quis criar-nos livres e autónomos, capazes até de nos voltarmos contra Ele e de usarmos o nosso livre arbítrio para o negarmos e usarmos as capacidades que Ele nos deu, para vivermos sem Ele. Ciro, rei pagão da Pérsia, que tinha invadido a Babilónia, libertou o povo de Israel cativo neste império e enviou-o para o seu país; e Isaías afirma que, embora tenha sido visivelmente Ciro quem fez aquilo, foi Deus, condutor da história, que conduziu Ciro àquela ação boa, pois tudo está nas mãos de Deus. Para que Israel fosse liberto, Deus deu a Ciro poder sobre as nações. Foi Ele quem o “tomou pela mão direita, para subjugar diante dele as nações e fazer cair as armas da cintura dos reis, para abrir as portas à sua frente, sem que nenhuma lhe seja fechada: «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias»”.

No Evangelho, Jesus diz que se respeite o senhorio de César pois também César está nas mãos de Deus, ainda que não o saiba. Mas só Deus é Senhor. É na sua mão que está o destino do mundo e da história.

Sobretudo desde a revolução francesa para cá, a humanidade tem tentado livrar-se de Deus como se Ele fosse aquele que nos impede de sermos livres – e tem sido uma autêntica cegueira. São Paulo chama a isso “a impiedade”, que é a raíz de todo o pecado, a recusa de reconhecer a Deus, de lhe dar glória ou, dito de outro modo, a recusa de Deus como criador de todas as coisas e a recusa de si mesmo enquanto criatura. Mas sem Deus, em quem tudo subsiste, o homem fica perdido e errante no nada infinito. É a queda eterna, a impiedade.

«Dar a César o que é de César» significa reconhecer a autonomia das realidades terrestres proclamada pelo Concílio Vaticano II. Significa aceitar a lei da incarnação e das mediações humanas. É aceitar o caminho que nos permite, num justo comportamento em relação a César, de poder dar a Deus o que é de Deus, quer dizer, a totalidade do homem. Isto é, o homem só pertence a Deus, pois Ele é o seu criador e Senhor; mas o seu serviço a Deus passa pela construção do mundo como cidadãos, cumprindo todas as leis estabelecidas, como aliás Jesus fez. Jesus deu a Deus tudo, mas obedeceu aos poderes instituídos em tudo o que não ia contra a vontade do Pai. Jesus não contesta o poder de César, cuja sorte, como a de Ciro, está nas mãos de Deus. Em conclusão, o cristão que adora a Deus como único Senhor e que só se ajoelha diante dele, deve ser também o primeiro na linha da frente na construção de um mundo mais justo, em obediência a todas as leis humanas que não estejam em contradição com a sua fé e sua adoração ao único Deus.”

Folha Paroquial nº 141 *Ano III* 11.10.2020 — DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM

Habitarei para sempre na casa do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 22, 1-14)
Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

VINDE AO BANQUETE

Deus, que nos criou com amor eterno e que derramou esse amor divino nos nossos corações ao transmitir-nos o Espírito Santo, como o dom acima de todos os dons, não cessa de nos fortalecer, animar e alimentar no nosso caminho. E o fim do caminho é a alegria eterna com Deus, a que chamamos Céu, a morada de Deus, onde o salmista de hoje diz que quer habitar para sempre.

É muito importante que não percamos o horizonte para não temermos as dificuldades e os assaltos do caminho. O horizonte são as águas refrescantes para onde o Bom pastor nos quer conduzir suavemente. Para lá chegar, posso ter que passar por vales tenebrosos mas nada temerei porque Ele está comigo (Salmo do dia ). Os santos viveram sempre nesta tensão para a frente, e não desfaleceram apesar de tantas dificuldades por que passaram, porque sabiam para onde iam e não queriam errar o alvo que é a terra das delícias com Deus. Santa Teresa de Ávila diz num dos seus poemas: “Vivo sin vivir en mí, y tan alta vida espero, que muero porque no muero.” E ouvíamos Paulo dizer na segunda leitura, de há duas semanas: “Preferia morrer para estar com Cristo, pois para mim viver é Cristo e morrer é lucro” (Fil 21,1). Eles tinham os olhos postos, não no caminho que os pés pisavam, mas olhavam para a frente, para o sol que os atraía a correr. Por isso Paulo diz-nos hoje, na segunda leitura: «Sei viver na pobreza e na abundância (…) Tudo posso naquele que me conforta.» É que Deus não só nos aponta o Céu como o termo glorioso da jornada, como também nos faz viver já durante o caminho a sua presença consoladora, dando-nos todas as ajudas e graças para que não desfaleçamos e não erremos o alvo da nossa vida, continuando o caminho alegremente. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que vivia já um bocado do céu na terra porque “o céu é Deus e Deus vive em mim.”

O salmo que cantámos hoje, tão cheio de consolação e força, diz-nos que «Ainda que tenha de passar por vales tenebrosos, nada temo porque vós estais comigo (…) Para mim preparais a mesa… e o meu cálice transborda.» A mesa, o banquete das núpcias, é símbolo da alegria definitiva do Reino a que somos chamados. Aquele monte santo é o Céu, como está bem explícito: “Aqui, sobre este monte, o Senhor, há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo.”

No entanto, até lá chegarmos, durante o caminho, Deus não nos deixa morrer de fome. Sacia-nos com o pão do Céu, que é o seu corpo entregue e o seu sangue da aliança. Como outrora o povo de Israel que caminhava no deserto, Deus o alimentou com o maná ou, ainda mais tarde, quando Elias se refugiou no deserto e, esgotado pelo cansaço, com fome e sede, quis morrer, um anjo lhe aparece e lhe oferece pão e água fresca fazendo-o comer e beber por duas vezes, e levantando-o fê-lo continuar o caminho. E esse caminho conduziu-o ao encontro com o Deus vivo no Monte Horeb. A Eucaristia é o alimento do caminho, é a força e o ânimo que Deus nos dá no meio das dificuldades da vida. «Tudo posso naquele que me conforta.» E Deus conforta-nos quando não recusamos o convite que nos é feito no Evangelho de hoje: «Vinde às bodas.» Vinde ao encontro com o Deus vivo. Deus convida-nos à Eucaristia. Penso que Deus deve sentir uma grande dor porque tantos que se dizem cristãos desprezam tanto este inaudito dom que Jesus nos deixou e para o qual continua insistentemente a convidar-nos: “Vinde às bodas.” Como os da parábola também muitos continuam a arranjar mil e uma desculpas. E agora, com a covid, arranjámos mais uma: «Não é seguro». Parece que todos os lugares hoje são seguros menos a igreja. E eu acho que é o lugar mais seguro se continuarmos a fazer tudo como temos feito. Às vezes vemos imagens em certos filmes em que aldeias cheias de gente faminta por causa da guerra ou das cheias, quando chegam os camiões da ajuda alimentar da ONU ou de ONG’s, todos se precipitam para os camiões para terem a certeza de que lhes chega alguma comida, ainda que passem uns por cima dos outros. Se tivéssemos semelhante fome do Deus vivo, correríamos à procurar a Eucaristia fosse a que horas fosse, custasse o que custasse, porque nela encontramos o principal do que precisamos para o caminho até chegar àquele banquete derradeiro em que O Senhor, cingindo-se, mandará que nos sentemos à mesa e nos servirá (Lc 12,37)

Demos alegria a Deus e venhamos às bodas, à Eucaristia, para chegarmos ao banquete derradeiro que Ele prepara para nós desde toda a eternidade.

Estamos a viver momentos difíceis que ainda não tivemos tempo de processar bem. O que mais custa é não saber quando isto vai terminar. E há muita gente angustiada e profundamente solitária: de modo particular os idosos nos lares, mas muita outra gente. A todos os que se encontram em sofrimento e angústia, seja o da covid, seja outro sofrimento qualquer, ouçamos a experiência de Paulo que é também a experiência de todo o cristão que aceita viver o seu caminho com Deus: «Tudo posso n’Aquele que me conforta». Ou ainda o que diz o salmo: “Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome: Não temerei nenhum mal porque vós estais comigo, o vosso báculo – isto é, a vossa presença – me enche de confiança.”

Folha Paroquial nº 140 *Ano III* 04.10.2020 — DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM

A vinha do Senhor é a casa de Israel.

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“EVANGELHO (Mt 21, 33-43)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

DEUS AMA A SUA VINHA E CADA UMA DAS SUAS VIDEIRAS

Se lemos estes textos com profundidade orante não podemos deixar de sentir um estremecimento de emoção diante do amor eterno de Deus e da sua iniciativa amorosa por nós.

Os profetas do Antigo Testamento foram os primeiros escolhidos por Deus para nos falarem do amor de Deus, servindo-se das suas experiências humanas, sobretudo de duas: a imagem do amor paternal e a imagem do amor esponsal.

Vejamos a primeira: «Quando Israel era ainda menino já eu o amava – diz-nos Oseias, eu ensinava Efraim a andar dando os primeiros passos, eu tomava-o nos meus braços, segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer. Mas não reconheciam que era eu que cuidava deles.» (Os 11,1-4).

São imagens familiares que muitos de nós talvez tenhamos contemplado muitas vezes. Mas Deus acrescenta, através do profeta: “este povo é duro de converter”; quanto mais Deus atrai os homens para si, mais eles parecem voltar-se para os ídolos. O que deve fazer Deus nesta situação? Abandoná-los? Destruí-los? Parece ser o que Deus diz na primeira leitura de hoje, diante da vinha sem frutos depois de tanto cuidado do vinhateiro. Mas Deus partilha com o profeta o seu drama íntimo, uma espécie de «fraqueza» e de impotência na qual se encontra por causa do seu amor visceral pela criatura. Deus parece sentir um “ataque cardíaco” diante do pensamento da destruição do seu povo. “O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não destruirei Efraim; porque sou Deus e não um homem.” (Os 11, 5-8)

A outra experiência humana de amor que a Bíblia usa para falar do amor divino por nós, é o amor esponsal, que é aquele que vem hoje descrito nas leituras. Deus recorreu a este género de amor para nos dizer o seu amor apaixonado por nós. Usou todas as fases pelas quais passa o amor esponsal: o charme do amor inicial do namoro (Jer 2,2), a plenitude da alegria no dia das núpcias (Is 62,5), o drama da rutura (Os 2,4), e finalmente o perdão com o renascimento e o recomeço, cheio de esperança, do amor de outrora (Os 2,16).

Esta introdução é para nos falar dos textos de hoje: a primeira leitura começa com uma canção que se cantava nas vindimas onde se mostrava a solicitude do vinhateiro pela sua vinha e os cuidados que tinha com ela. E, por isso, tornou-se depois numa canção de núpcias porque, com ela, convidava-se o jovem esposo a dispensar os mesmos cuidados e amor à sua jovem esposa. “Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar”. “Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?”

O profeta Isaías retoma a mesma canção, mas desta vez para falar da Aliança entre Deus e Israel. Da cantiga das vindimas, tornada cântico nupcial, ele retira uma verdadeira parábola. E é o profeta que decifra a parábola: “A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel, e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror. “

O que está bem patente em todas as leituras é o amor criativo, grande e forte de Deus, a sua iniciativa amorosa para nos prodigalizar tudo o que é necessário para que percebamos, acolhamos e vivamos do seu amor e que, a nossa resposta, os frutos que produzimos, que deviam ser bons e doces, são maus e amargos para tristeza e desconsolo de Deus.

Senhor Deus e Mestre da Vinha que é a tua Igreja imortal!
Quanto fizeste por nós!
Tens cuidado de cada um com laços de ternura e de amor!
Posso ver na minha vida pessoal os teus passos seguros e cuidadosos…
Sempre que clamei por ti, me pegaste ternamente pela mão!
Mas, tantas vezes, não tenho sido agradecido!
Quantas vezes me deixei conduzir pelo mau caminho,
causando-te dor e pena.
Sempre me foste buscar, como ovelha perdida pelos montes, e me puseste alegremente aos ombros, como em dia de festa: Senhor porque nos amas tanto? Porque não te cansas de nos perdoar?
Já me perdoaste 70 vezes 7 vezes.
Quem sou eu, para merecer tanto cuidado e dedicação?
Rendo-me, Senhor, ao teu amor infinito!
Prostro-me em adoração e admiração diante de ti!
Por causa do teu amor pela vinha,
quero dar-me mais a ela, servi-la melhor.
Gostava de dar mais frutos bons! Que te alegrassem e te enternecessem.
Senhor, não desistas de mim, de nós!
Tenho esperança de que a tua vinha te possa ainda oferecer os frutos mais doces que alegrem o teu coração ferido pela ingratidão.
Por isso, Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.
Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.
Neste ano de trabalho sinodal, vela pela tua Vinha de Coimbra
Atrai-nos para ti, e diz-nos que estarás sempre connosco.
Ámen.

Folha Paroquial nº 139 *Ano III* 27.09.2020 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.

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“EVANGELHO (Mt 21, 28-32)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Vivei as mesmas disposições que havia em Cristo Jesus

Na reflexão de hoje vou centrar-me na segunda leitura, o que não é habitual, mas que os tempos que estamos a viver me sugerem que aprofundemos.

Começo por sublinhar a expressão usada por Paulo, «Em Cristo Jesus». “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”. Não se trata de sentimentalismo, mas de viver as mesmas disposições interiores da vontade e do coração que orientavam a vida de Jesus. A expressão é utilizada duas vezes: no princípio do texto, onde é dito: “Se há em Cristo alguma consolação”…e depois, no fim, “tende entre vós os mesmos sentimentos que há em Cristo Jesus”. Entre uma e outra, Paulo enumera uma série destas disposições. Esta fórmula «Em Cristo Jesus» deve ser lida no sentido forte e profundo que ela tem na fé cristã. Desde o nosso batismo, nós pertencemos a Cristo, fazemos parte d’Ele; e esta nova identidade que é comum a todos os batizados ultrapassa todas as nossas diversidades. Desde o batismo levamos connosco o mesmo nome de família: este nome é «CRISTÃO». E quando encontramos «Cristãos», é este sentimento de pertença comum que ultrapassa (ou deveria ultrapassar) todos os outros. Pode comparar-se a uma grande reunião de família alargada onde sabemos que cada um daqueles que ali encontramos são nossos primos, tios ou outro qualquer parentesco. Todos aqueles que já estiveram nestas reuniões familiares onde se experimenta o mesmo sentimento de pertença comum, podem ter uma ideia do que Paulo quer dizer: consolação, amor, ternura, comunhão. Ora, foi neste mistério de amor e de comunhão que fomos mergulhados no dia do batismo. Agora é preciso vivê-lo no quotidiano. «Completai a minha alegria, tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração», mais ou menos como se dissesse: «Honrai a vossa família, honrai o Nome de Cristão que levais convosco». E se Paulo faz referência ao «em Cristo Jesus», quer dizer que não se situa no domínio do ter mas do ser: «Vós que fostes batizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo» (Gál 3,27). Como quem diz: “Sempre que encontreis um outro batizado, não olheis senão para o que ele é em profundidade. Ele é membro do Corpo de Cristo”.

As nossas reuniões dominicais estão pensadas para que experimentemos esta fraternidade e a alimentemos: cantamos juntos, rezamos juntos, dizemos juntos: “Pai Nosso que estais nos céus”. dirigimo-nos juntos, ao mesmo tempo, em procissão, para comungar o mesmo pão, formando um só corpo. Antes disso, olhamos uns para os outros e damo-nos o abraço da fraternidade e da paz. Para que conscientizemos mais a nossa comunhão em Cristo começou-se há vários anos em SJBaptista e há 3 anos em SJosé o ministério do acolhimento à entrada da igreja e também à saída para que nos saudemos e aprofundemos mais os laços de comunhão… pois não basta que esses laços que nos unem sejam apenas de carácter teológico, isto é a partir do ser. É preciso que passem para o percetível do quotidiano, que a Igreja seja esse mistério de comunhão que evangeliza.

Mas os tempos da pandemia estão a levar-nos por um caminho que pode tornar-se perigoso a partir daquilo que podemos ir encarnando sem nos darmos conta. Agora existe um acolhimento para se respeitarem as normas de saúde, mas é mais um serviço de ordem. As pessoas são convidadas ao afastamento umas das outras quando tudo o que a Igreja tem feito e deve continuar a fazer, é convidar à aproximação. O anterior provincial dos jesuítas portugueses P. José Frazão Correia, escrevia um artigo em que abordava esta problemática e punha o dedo na ferida. Dizia ele: «As medidas sanitárias, por enquanto, não as poderemos evitar nem dispensar. No essencial, este ponto está assumido. O que me parece menos claro é o grau de consciência reflexa que teremos, pastores e comunidades cristãs, do significado e do alcance, a meu ver problemático, que um conjunto de práticas sanitárias e afins, aplicadas na liturgia e a partir da liturgia, poderão ir gerando na compreensão que temos da Igreja e do seu modo de estar no mundo, sobretudo se essas práticas vierem a prolongar-se no tempo. Por serem essencialmente linguagem não-verbal, têm força simbólica e performativa. Sem recorrer a linguagem verbal e sem que se tenha imediata consciência do processo, há práticas higiénico-sanitárias, seguidas no âmbito litúrgico e sacramental, que vão deixando a sua marca e modelando identidade. À força de repetição no tempo, enquanto formas externas, vão conduzindo a alterações internas, exercendo influência sobre sentimentos, pensamentos, disposições. Geram, por isso, determinados modos de ser e de estar em Igreja, dos quais poderemos não nos aperceber imediatamente, mas que, de facto, têm efeitos na realidade eclesial e, em muitos casos, estão manifestamente em contradição com o que se professa. Declara-se implicitamente uma coisa, mas atua-se efetivamente uma outra. A título de exemplo, fala-se de comunhão – supõe-se, evoca-se, invoca-se, apela-se – mas inúmeras práticas higiénicas e de segurança introduzidas são de desconfiança, de proteção e de isolamento; canta-se que “formamos um só corpo”, ao mesmo tempo que se pede e se evita qualquer proximidade e contacto corpóreo. (…)No momento presente, muito especialmente na celebração da Eucaristia, a linguagem não-verbal assume particular relevo, dizendo bem mais do que a linguagem verbal: rostos tapados; mãos higienizadas em vários momentos – por vezes, revestidas por luvas protetoras; limitação de qualquer gesto de proximidade; contínua distância de segurança; lugares marcados e separados o mais possível uns dos outros, quando não previamente reservados; deslocações limitadas ao mínimo indispensável; proibição do gesto da paz e inibição de algumas respostas; canto ainda mais limitado do que o habitual a solistas ou ao pequeno coro; etc. O acolhimento no espaço litúrgico tende a ser funcional e inexpressivo, já que a tónica é toda posta na segurança e na proteção. Conduz-se impessoalmente cada um ao seu lugar, como numa qualquer sala de espetáculos. Repetem-se informações técnicas sem empatia nem emoção, como num qualquer outro lugar público onde se reúnam várias pessoas para usufruir de um serviço. Sem querer, obviamente, a liturgia poderá estar a dar o seu contributo significativo para a “globalização da indiferença” e para o “relativismo” que, justamente, a Igreja tanto contesta. Assim, dificilmente terá lugar e expressão a comunidade viva de batizados que se reconhecem mutuamente e que, na alegria, celebra festivamente um dom surpreendente e imerecido que alimenta a vida e gera corpo eclesial.»

Mas isto pode mudar alguma coisa? A nível exterior, enquanto durar a pandemia não podemos mudar quase nada, mas se consciencializamos que o que estamos a fazer não é o correto, não é o que nos identifica como Igreja, isso pode ajudar-nos.”

Folha Paroquial nº 138 *Ano III* 20.09.2020 — DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

O Senhor está perto de quantos O invocam.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mt 20, 1-16)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».”

REFLEXÃO

“O texto do evangelho sugere-nos dois pontos de reflexão: O primeiro é que Deus não vê as coisas à maneira humana. A sua justiça não é a da deusa com a balança na mão e de olhos vendados para estabelecer a equidade material entre as partes. Deus olha com misericórdia. Ele não está de olhos vendados diante de nós, mas conhece-nos bem a partir do mais profundo de nós mesmos. Por isso ouvimos dizer-lhe a partir da 1ª leitura «Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos, e acima dos vossos estão os meus pensamentos». Aquele que veio no derradeiro momento recebeu tanto como os outros….Não se trata, claro, do trabalho numa vinha qualquer, mas estamos a falar numa parábola onde podemos ver aqueles que sempre foram cristãos e aqueles que chegaram à fé mais tarde, a meio da vida, ou no final. Fazer esta comparação a de quem recebe mais é medir as coisas à maneira humana. Estamos na comparação. E esse é o problema. Deus trata-nos a todos como filhos únicos e nós andamos a comparar o que Ele dá a um e a outro, a ver se recebo mais ou menos… Deus dá tudo em abundância. «Amigo, em nada te prejudico: Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho».

Este trabalhador, bem como todos os que entraram na murmuração, não valorizaram nada o que tinham. Estavam com o dono da vinha desde a primeira hora e não percebiam as vantagens que tinham. Há uns três anos um casal que tinha vivido sem Deus e não educaram os filhos na fé católica, fizeram um percurso Alpha e conheceram o Senhor. Um ano depois ouvi-os dizer com lágrimas: «Hoje temos tanta pena do tempo que desperdiçámos sem Deus! Andámos a vaguear à procura de encontrar o melhor que a vida nos podia dar e nunca encontrámos. Logo que conhecemos o Senhor soubemos que Ele era a Vida que procurávamos. E hoje sofremos porque não educámos os nossos filhos na fé e agora eles não estão tão abertos a isso, mas nós rezamos por eles todos os dias e damos-lhes o nosso testemunho». Deus deu a estes que vieram mais tarde o mesmo que deu aos que vieram mais cedo. Deus é bom e nunca pode dar menos a ninguém. O menos não existe em Deus pois Ele é plenitude.

O segundo ponto de reflexão tiro-o do mandato repetido do Senhor da vinha: “Ide vós também para a minha vinha.” A vinha é a missão que Deus nos confiou como Igreja. Quando este casal me deu aquele testemunho entre lágrimas, senti mais profundamente a razão de ser do mandato missionário de Jesus: «Ide e anunciai o Evangelho» para que o maior número possa conhecer a salvação. Para cada um de nós é dirigido este mandato: «Ide vós também para a minha vinha».
O Papa João Paulo II escreveu uma célebre exortação apostólica, que se seguiu ao Sínodo sobre os leigos e partiu desta parábola do Evangelho para nos lembrar: Ide vós também. O chamamento não diz respeito apenas aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para a Igreja e para o mundo. Lembra-o S. Gregório Magno que, ao pregar ao povo, comentava assim a parábola dos trabalhadores da vinha: «Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos, e vede se já sois trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que faz e veja se trabalha na vinha do Senhor».
É uma pergunta que lanço hoje a cada um de vós: Trabalho na vinha do Senhor? Jesus disse noutra passagem: «A vinha é grande e os trabalhadores são poucos…» Sim…como são poucos! Às vezes a vinha do Senhor parece-se com um estádio de futebol, fora do tempo da pandemia, em que há 22 jogadores que suam de tanto trabalhar e uma multidão que assiste. Alguns podem objetar: Mas que posso eu fazer? Tenho tão pouco tempo livre! Não se trata de pedir um trabalho a tempo inteiro mas de dares voluntariamente e, por amor a Deus e à Igreja, uma pequena participação nalguma coisa em que ajudes os outros e te ajudes a ti mesmo(a). O trabalho que te pedimos deve ser algo que gostes de fazer e que sintas que podes e sabes fazer. Não queremos que ninguém se sinta violentado a fazer algo que não gosta nem se sente à vontade para o fazer. Mas há tantas competências que cada um tem que podiam servir à vinha do Senhor. Vou colocar aqui alguns exemplos, mas só alguns pois eles nunca mais acabam:

SERVIÇOS ONDE PODE AJUDAR A SUA COMUNIDADE

“Ide vós também para a minha vinha”

Fazer parte de um coro (se tenho dom para o canto), tocar um instrumento musical (se o sei fazer), ler leituras numa missa onde venha habitualmente(recebendo cá uma formação para isso). Ajudar nos arranjos florais, serviço de acolhimento nas missas ou de ordem durante a pandemia. Fazer o peditório durante as missas de uma forma organizada e inscrita, prestar serviço de eletricista ocasionalmente, se é técnico de som, ajudar ocasionalmente a montar o som no exterior em diversas ocasiões, ou acompanhar o bom estado do som na igreja, técnico de multimédia ou de live streaming precisa-se muito, se é arquitecto precisamos do seu aconselhamento, se é engenheiro civil, precisamos de si, se é contabilista pode ajudar, se é professor pode ajudar dando explicações a gente com dificuldades económicas no serviço que é prestado na paróquia, fazer parte da equipa que prepara os pais e padrinhos para o batismo, ajudar a fazer o serviço de acompanhamento no luto, zelar pela limpeza das vestes litúrgicas, trabalhar na animação de um grupo de jovens, ser catequista, fazer parte da cadeia de oração com uma hora por semana, fazer parte de um pequeno grupo de partilha fraterna, atualizar o site, Facebook e outras redes socais, se sou jornalista, fotógrafo ou tenho competências em artes gráficas e design venha ajudar e faça parte da equipa de comunicação da paróquia. Quanto precisamos! Tem competências e gosta de marketing – pode ajudar nalguns serviços? E há alguém com experiência no fundraising que possa dar uma ajuda? Se já fiz um percurso Alpha posso fazer parte da animação do percurso ou fazer parte de uma célula paroquial. Se gosta de trabalhar com crianças ou é educadora de infância ou professora, pode ajudar fazendo trabalho com crianças, enquanto os pais estão a fazer sessões de formação para o batismo ou no Alpha e noutras situações? Se é engenheiro eletrotécnico ou eletrónico ou informático podia ajudar-nos pontualmente? Às vezes precisa-se muito do faz tudo, ( bricolage). É psicólogo ou psicóloga, e quer dar uma ajuda? Fazer parte de um grupo de crescimento da fé? Ou de um grupo bíblico? Estar disponível para servir pontualmente entrando numa bolsa de gente a quem se pode recorrer?

Isto é só uma amostra, mas posso não me encaixar em nada disto embora gostasse de servir. Venha ter com o pároco que há-de encontrar-se o seu lugar, pois na Igreja há lugar para todos. A Igreja é uma comunidade de irmãos onde todos são chamados a dar a sua ajuda para ela realizar a missão do anúncio do Evangelho. E quanto mais nos damos mais a vida tem beleza “pois quem quiser salvar a vida, há-de perdê-la”, disse Jesus.”