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Folha Paroquial nº 138 *Ano III* 20.09.2020 — DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

O Senhor está perto de quantos O invocam.

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“EVANGELHO (Mt 20, 1-16)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».”

REFLEXÃO

“O texto do evangelho sugere-nos dois pontos de reflexão: O primeiro é que Deus não vê as coisas à maneira humana. A sua justiça não é a da deusa com a balança na mão e de olhos vendados para estabelecer a equidade material entre as partes. Deus olha com misericórdia. Ele não está de olhos vendados diante de nós, mas conhece-nos bem a partir do mais profundo de nós mesmos. Por isso ouvimos dizer-lhe a partir da 1ª leitura «Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos, e acima dos vossos estão os meus pensamentos». Aquele que veio no derradeiro momento recebeu tanto como os outros….Não se trata, claro, do trabalho numa vinha qualquer, mas estamos a falar numa parábola onde podemos ver aqueles que sempre foram cristãos e aqueles que chegaram à fé mais tarde, a meio da vida, ou no final. Fazer esta comparação a de quem recebe mais é medir as coisas à maneira humana. Estamos na comparação. E esse é o problema. Deus trata-nos a todos como filhos únicos e nós andamos a comparar o que Ele dá a um e a outro, a ver se recebo mais ou menos… Deus dá tudo em abundância. «Amigo, em nada te prejudico: Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho».

Este trabalhador, bem como todos os que entraram na murmuração, não valorizaram nada o que tinham. Estavam com o dono da vinha desde a primeira hora e não percebiam as vantagens que tinham. Há uns três anos um casal que tinha vivido sem Deus e não educaram os filhos na fé católica, fizeram um percurso Alpha e conheceram o Senhor. Um ano depois ouvi-os dizer com lágrimas: «Hoje temos tanta pena do tempo que desperdiçámos sem Deus! Andámos a vaguear à procura de encontrar o melhor que a vida nos podia dar e nunca encontrámos. Logo que conhecemos o Senhor soubemos que Ele era a Vida que procurávamos. E hoje sofremos porque não educámos os nossos filhos na fé e agora eles não estão tão abertos a isso, mas nós rezamos por eles todos os dias e damos-lhes o nosso testemunho». Deus deu a estes que vieram mais tarde o mesmo que deu aos que vieram mais cedo. Deus é bom e nunca pode dar menos a ninguém. O menos não existe em Deus pois Ele é plenitude.

O segundo ponto de reflexão tiro-o do mandato repetido do Senhor da vinha: “Ide vós também para a minha vinha.” A vinha é a missão que Deus nos confiou como Igreja. Quando este casal me deu aquele testemunho entre lágrimas, senti mais profundamente a razão de ser do mandato missionário de Jesus: «Ide e anunciai o Evangelho» para que o maior número possa conhecer a salvação. Para cada um de nós é dirigido este mandato: «Ide vós também para a minha vinha».
O Papa João Paulo II escreveu uma célebre exortação apostólica, que se seguiu ao Sínodo sobre os leigos e partiu desta parábola do Evangelho para nos lembrar: Ide vós também. O chamamento não diz respeito apenas aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para a Igreja e para o mundo. Lembra-o S. Gregório Magno que, ao pregar ao povo, comentava assim a parábola dos trabalhadores da vinha: «Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos, e vede se já sois trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que faz e veja se trabalha na vinha do Senhor».
É uma pergunta que lanço hoje a cada um de vós: Trabalho na vinha do Senhor? Jesus disse noutra passagem: «A vinha é grande e os trabalhadores são poucos…» Sim…como são poucos! Às vezes a vinha do Senhor parece-se com um estádio de futebol, fora do tempo da pandemia, em que há 22 jogadores que suam de tanto trabalhar e uma multidão que assiste. Alguns podem objetar: Mas que posso eu fazer? Tenho tão pouco tempo livre! Não se trata de pedir um trabalho a tempo inteiro mas de dares voluntariamente e, por amor a Deus e à Igreja, uma pequena participação nalguma coisa em que ajudes os outros e te ajudes a ti mesmo(a). O trabalho que te pedimos deve ser algo que gostes de fazer e que sintas que podes e sabes fazer. Não queremos que ninguém se sinta violentado a fazer algo que não gosta nem se sente à vontade para o fazer. Mas há tantas competências que cada um tem que podiam servir à vinha do Senhor. Vou colocar aqui alguns exemplos, mas só alguns pois eles nunca mais acabam:

SERVIÇOS ONDE PODE AJUDAR A SUA COMUNIDADE

“Ide vós também para a minha vinha”

Fazer parte de um coro (se tenho dom para o canto), tocar um instrumento musical (se o sei fazer), ler leituras numa missa onde venha habitualmente(recebendo cá uma formação para isso). Ajudar nos arranjos florais, serviço de acolhimento nas missas ou de ordem durante a pandemia. Fazer o peditório durante as missas de uma forma organizada e inscrita, prestar serviço de eletricista ocasionalmente, se é técnico de som, ajudar ocasionalmente a montar o som no exterior em diversas ocasiões, ou acompanhar o bom estado do som na igreja, técnico de multimédia ou de live streaming precisa-se muito, se é arquitecto precisamos do seu aconselhamento, se é engenheiro civil, precisamos de si, se é contabilista pode ajudar, se é professor pode ajudar dando explicações a gente com dificuldades económicas no serviço que é prestado na paróquia, fazer parte da equipa que prepara os pais e padrinhos para o batismo, ajudar a fazer o serviço de acompanhamento no luto, zelar pela limpeza das vestes litúrgicas, trabalhar na animação de um grupo de jovens, ser catequista, fazer parte da cadeia de oração com uma hora por semana, fazer parte de um pequeno grupo de partilha fraterna, atualizar o site, Facebook e outras redes socais, se sou jornalista, fotógrafo ou tenho competências em artes gráficas e design venha ajudar e faça parte da equipa de comunicação da paróquia. Quanto precisamos! Tem competências e gosta de marketing – pode ajudar nalguns serviços? E há alguém com experiência no fundraising que possa dar uma ajuda? Se já fiz um percurso Alpha posso fazer parte da animação do percurso ou fazer parte de uma célula paroquial. Se gosta de trabalhar com crianças ou é educadora de infância ou professora, pode ajudar fazendo trabalho com crianças, enquanto os pais estão a fazer sessões de formação para o batismo ou no Alpha e noutras situações? Se é engenheiro eletrotécnico ou eletrónico ou informático podia ajudar-nos pontualmente? Às vezes precisa-se muito do faz tudo, ( bricolage). É psicólogo ou psicóloga, e quer dar uma ajuda? Fazer parte de um grupo de crescimento da fé? Ou de um grupo bíblico? Estar disponível para servir pontualmente entrando numa bolsa de gente a quem se pode recorrer?

Isto é só uma amostra, mas posso não me encaixar em nada disto embora gostasse de servir. Venha ter com o pároco que há-de encontrar-se o seu lugar, pois na Igreja há lugar para todos. A Igreja é uma comunidade de irmãos onde todos são chamados a dar a sua ajuda para ela realizar a missão do anúncio do Evangelho. E quanto mais nos damos mais a vida tem beleza “pois quem quiser salvar a vida, há-de perdê-la”, disse Jesus.”

Folha Paroquial nº 137 *Ano III* 13.09.2020 — DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

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“EVANGELHO (Mt 18, 21-35)
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».”

REFLEXÃO

“Toca-nos a bondade misericordiosa do rei que quis ajustar contas com os servos. O castigo para a falta de pagamento era que o devedor fosse vendido com a mulher, os filhos e todas as suas posses. Seriam eles mesmos, com a sua vida escravizada, o pagamento da dívida. O que o devedor pede com humildade é apenas um prazo para arranjar o dinheiro necessário para pagar tudo, mas o rei estende o seu perdão muito mais longe… Não lhe dá um prazo para que pague, perdoa a dívida toda. Por isso é que é tão chocante que quem foi objeto de tanta misericórdia, logo depois, não tenha coração para agir da mesma forma. Vemos bem que Jesus fala do Pai e da razão porque Ele enviou o Filho ao mundo. Recordemos que toda a obra redentora de Cristo na Cruz é uma obra de perdão e reconciliação: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito, para que todo o que n’Ele crer não pereça no peso dos seus pecados e da sua separação de Deus mas encontre a vida eterna”.

“Que havemos de fazer irmãos?” -perguntavam os ouvintes da primeira homilia de Pedro, depois da ressurreição e do Pentecostes. A resposta foi: “Convertei-vos e peça cada um de vós o batismo para perdão dos vossos pecados. Recebereis então uma vida Nova”, isto é, sereis justificados, libertados, reconciliados com Deus. Com a morte de Jesus na Cruz, tudo vos foi perdoado, estais justificados diante de Deus que, gratuitamente, sem mérito vosso, veio ao vosso encontro oferecendo-vos o perdão. A única coisa que tendes de fazer é aceitá-lo livremente. O batismo é o primeiro e fundamental ato através do qual aderimos ao perdão e à justificação divina. Para quem já é batizado, e voltou a cair no pecado, tem o sacramento da penitência ou reconciliação para acolher de novo o perdão dos pecados cometidos. Quanto precisamos de redescobrir este sacramento de cura e libertação interior, gerador de alegria, de paz, e fonte de um novo e esperançoso recomeço! Para experimentarmos os seus efeitos em nós, precisa de ser bem preparado através de um bom exame de consciência feito na oração e na escuta da Palavra de Deus. Necessitamos pedir a Deus o dom de um verdadeiro arrependimento. Não é suficiente reconhecer o meu pecado, é necessário estar arrependido e ver crescer em mim o desejo e a determinação de me emendar. Preparo bem o encontro com a misericórdia de Cristo na pessoa visível do sacerdote? Confesso humildemente os meus pecados assumindo a verdade das minhas faltas e culpa? Ouço as palavras do sacerdote que me falam do amor maravilhoso de Deus que se alegra em perdoar e recebo em ação de graças a absolvição dos pecados? Quando saio de junto do sacerdote a minha alma está leve, a minha alegria foi revivificada, reencontrei a vida de Deus em mim que o pecado tinha escondido? Posso cantar eternamente as misericórdias do Senhor.

Se nós experimentámos profundamente o perdão de Deus como poderemos ficar de coração endurecido diante daquele que nos pede perdão de coisas tão pequenas? O perdão é qualquer coisa muito querida por Deus. Às vezes temos a tentação de pensar que o mundo seria mais humano se tudo estivesse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo dos que atuam mal. Mas não construiríamos assim um mundo tenebroso? Que seria de uma sociedade onde fosse suprimido de raiz o perdão? Que seria de nós se Deus não soubesse perdoar?

Só há pouco tempo a psicoterapia começou a interessar-se pelo perdão como caminho de cura psicológica e afetiva. Durante muito tempo foi entendido apenas como um passo religioso. No entanto, o perdão é necessário para conviver de maneira sã. As relações humanas estão cheias de tensões, conflitos, humilhações, enganos, infidelidades, agressões, atentados à vida dos outros, injustiças clamorosas e abusos destruidores. Quem não sabe perdoar, pode ficar com uma ferida interior permanente da qual sofre sempre e que traz outros males consigo levando à tristeza, ao desejo crescente de vingança, ao ódio, e a todos os males. Torna-se uma espiral que não acaba. Mas há algo que convém aclarar. Muitos pensam-se incapazes de perdoar porque confundem cólera com vingança. A cólera controlada é uma reação sã de irritação diante da injustiça sofrida, diante da agressão. O indivíduo revolta-se quase instintivamente para defender a sua vida e dignidade. Pelo contrário, o ódio, o ressentimento e a vingança vão mais além desta primeira reação. A pessoa vingativa procura fazer mal, humilhar e até destruir a quem lhe fez mal. Perdoar não quer dizer reprimir a cólera. Pelo contrário, nem convém nada reprimir. Nós precisamos da cólera diante do mal. Quem não se encoleriza nunca, não é normal. Nós deveríamos ser capazes de nos amar a nós mesmos, e amar os outros de tal forma que isso nos levasse a detestar como insuportável a violência, o egoísmo, o racismo, a discriminação e toda a injustiça. A cólera dá-nos a energia para mudarmos o que deve ser mudado, para podermos viver num ambiente são.

Reprimir pode acumular sentimentos de ira que mais tarde vão explodir para pessoas inocentes ou contra si mesmo. É mais são reconhecer e aceitar a cólera, a revolta, e falar do que se sente a alguém sem nada reprimir. Depois há um caminho a fazer. O texto da primeira leitura é traduzido pela Bíblia ecuménica de uma forma diferente e diz assim: “Lembra-te da aliança do Altíssimo e passa por cima da ofensa”. Parece-me ser uma bela definição do perdão. A realidade não pode apagar uma ofensa. As coisas não se apagam com uma esponja. Mas podemos passar por cima. Depois de uma ferida física, ficamos com uma cicatriz, a pele não voltará ao que era totalmente, nenhuma esponja poderá apagar aquela ferida já curada, mas que deixou uma marca na pele. Para uma ferida moral é a mesma coisa. Não podemos dizer que não aconteceu. E em casos graves podemos ficar marcados para toda a vida. Nada pode apagar a calúnia já feita, o gesto de desprezo, a infidelidade grave, os gestos de violência, as nossas palavras e atos produzem frutos venenosos. Depois do mal feito já não se pode voltar atrás, nem para o culpado nem para a vítima. No entanto, como diz Ben Sirá (1ª leitura) podemos passar por cima. O perdão não consiste em esquecer ou ignorar algo que não conseguimos esquecer, mas em passar por cima e tentar renovar a relação que foi cortada pela ofensa; trata-se de repropor a sua amizade, a sua confiança. É isso que quer dizer Perdão: etimologicamente são duas palavras: Perdão, quer dizer o dom perfeito, o dom dado para lá da ofensa. Ele só pode ser obra do Espírito Santo. Que Ele nos dê sempre a graça do perdão para nos sentirmos mais próximos do coração misericordioso do nosso Deus.”

Folha Paroquial nº 136 *Ano III* 06.09.2020 — DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

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“EVANGELHO (Mt 18, 15-20)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».”

REFLEXÃO

“Hoje, a cultura pós-moderna, desvaloriza o “nós” para sublinhar exclusivamente o “eu”. A comunidade e os interesses de todos são desvalorizados em relação aos interesses pessoais. Esta mudança de perspetiva trouxe alguns aspetos positivos, pois levou ao reconhecimento universal dos direitos de cada pessoa humana, mas, levado ao exagero, pode pôr em causa esses mesmos direitos, já que cada um de nós não é uma ilha, mas só nos realizamos na relação com os outros.

É frequente ouvirmos frases como: «Cuida da tua vida que eu cuido da minha»; e, ainda pior: «cada um que se se arranje». A visão do “cada um por si” é contrária ao Evangelho e contrária também a uma visão humanista da vida. Nós somos chamados a amar, a interessar-nos uns pelos outros e a nunca desistir do nosso irmão, mesmo que ele insista em fazer escolhas de morte. Jesus diz, hoje, na segunda leitura, que a caridade é o pleno cumprimento da lei, pois todos os outros mandamentos conduzem a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Às vezes os irmãos, por fragilidade, podem afastar-se do caminho, fazer coisas erradas, com consequências devastadoras para si mesmos e para os que estão à sua volta. E que podemos nós fazer para os ajudar? Hoje, esta tentativa de ajuda é mais difícil de pôr em prática pelo receio que temos de nos estar a meter na liberdade dos outros. Por isso, exige ser uma ajuda muito respeitosa e discernida.

Nos Estados Unidos, na semana passada, numa estação do metro, alguém tentou violar uma rapariga em público e as pessoas que estavam na estação puseram-se a filmar as cenas e a enviá-las para as redes sociais sem nada fazerem. Parece impossível, mas muita gente tornou-se indiferente ao sofrimento dos outros. Felizmente não são todos, pois ainda há muita gente que estremece diante da dor do outro e arregaça as mangas.

Jesus quer que a comunidade dos seus discípulos viva este amor mútuo. A Igreja de Jesus deve ser o lugar onde o mandamento Novo se torna visível e palpável. Na visão pastoral da paróquia de S. João Baptista e na de S. José, este aspeto é mencionado. Na de S. João diz-se: “Somos uma comunidade orante e acolhedora”… e na de S. José diz-se…«Crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos…». Numa e noutra, expressa-se que somos chamados a formar uma comunidade que experimente visivelmente que nos interessamos uns pelos outros. Sentem já isso, ou ainda não? Quando cada um sofre, a comunidade deve estar próxima e estar com a pessoa; mas também quando cada um esmorece na fé, desanima, compete aos irmãos mais próximos acompanhá-lo com caridade, incentivá-lo a ser fiel a Deus. Naturalmente, exige-se sempre o respeito pela pessoa ainda que ela faça escolhas que nos façam sofrer, pois sabemos que não são boas. Onde esta ajuda se vive mais facilmente é nos pequenos grupos, pois é aí que se conhece melhor o irmão e se pode ajudá-lo e acompanhá-lo. Além disso, o pequeno grupo é preventivo, isto é, não ajuda só quando o erro já está feito, mas forma para os evitar. Por isso é tão importante que cada cristão tenha um pequeno grupo onde cresça com os outros. É acerca desses pequenos grupos que hoje o evangelho também fala: “Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus. Na verdade, onde dois ou três estão reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.”

O importante é que estejam reunidos em Seu nome, que escutem o seu chamamento, que vivam identificados com o Seu projeto do Reino de Deus. Que Jesus seja o centro do seu pequeno grupo. Esta presença viva e real de Jesus é a que há de animar, guiar e sustentar as pequenas comunidades dos seus seguidores, os pequenos grupos que se reúnem em seu nome, tal como as células paroquiais de evangelização, o grupo de catequese de adultos, a equipa Alpha, o grupo de oração ou de lectio divina, ou qualquer grupo da paróquia que, mesmo esporadicamente, se reúne por causa dele, para escutar a sua palavra, pô-lo no centro. E quando isso acontece, é Jesus quem alenta a sua oração, as suas celebrações, projetos e atividades. Esta presença é o segredo de toda e qualquer comunidade cristã viva. Cito a seguir o teólogo espanhol José Pagola: “Nós, discípulos do Senhor, não podemos reunir-nos hoje nos nossos grupos e comunidades de qualquer maneira: por costume, por inércia ou para cumprir obrigações religiosas. Podemos ser mais ou menos numerosos; podemos ser só dois ou três, mas o importante é que nos reunamos em seu nome, atraídos pela sua pessoa e pelo seu projeto de construir um mundo mais humano, mais fraterno, mais justo. Temos de reavivar a consciência de que somos comunidade de Jesus. Reunimo-nos para escutar o seu Evangelho, para manter viva a sua memória, para nos deixarmos contagiar pelo seu Espírito, para acolher em nós a sua alegria e a sua paz, para anunciar a Boa Notícia. Já o disse aqui mais que uma vez e repito-o. O futuro da fé cristã dependerá em boa parte de pequenos grupos de cristãos que, situados nas paróquias, as vão renovando pela experiência de comunhão que fazem uns com os outros, porque Jesus está no meio deles.” (De uma homilia do 23º Domingo Comum, Ano A).

Temo-nos encontrado para rezar e pedir por irmãos doentes, por situações difíceis, e temos experimentado que Jesus está de facto no meio de nós? Em S. João Baptista de vez em quando tem-se feito esta experiência e tem ajudado muitos a experimentar que Jesus é real, está vivo, muda a nossa vida, leva-nos a opções e escolhas novas, e escuta as nossas orações, de modo especial as que fazemos em comunidade. Então crescemos na fé e avançamos. Jesus quer ver-nos a caminhar uns com os outros, no amor, construindo uma civilização do amor e não uma sociedade egoísta em que cada um só olha para si mesmo e para os seus interesses. Ele conta connosco para isto.”

Folha Paroquial nº 135 *Ano III* 26.07.2020 — DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM

Quanto amo, Senhor, a vossa lei!

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“EVANGELHO (Mt 13, 44-52)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».”

REFLEXÃO

O VERDADEIRO TESOURO QUE ENCHE DE ALEGRIA

Na parábola de Jesus, o homem que encontrou um tesouro escondido no campo ficou tão contente, que foi vender tudo o que possuía para adquirir aquele campo. Ele foi sábio, como Salomão, que podendo pedir riquezas e poder sobre os inimigos, pede o tesouro da sabedoria para bem governar o seu povo. Mas muitas vezes o nosso tesouro é mesmo o material, como era o caso do jovem rico. Não conseguiu vender o que tinha para adquirir o tesouro. Isto é tão importante para o nosso crescimento na fé que dou início a alguns ensinamentos sobre o dinheiro. Muitos padres, eu incluído, sentimo-nos pouco confortáveis a falar sobre dinheiro nas missas. Até porque basta falar uma vez, ou duas, para se ouvir dizer que “o padre está sempre a falar em dinheiro.” E não há padre que escape a este rótulo, pois todos têm de falar de dinheiro, uma vez o outra, e, se levassem a sério a formação dos cristãos, falariam mais vezes – pois Jesus foi isso que fez. Mas o desconforto é maior ainda nos fiéis e, por isso, se sentem tão mal quando ouvem falar de dinheiro na missa. É mais ou menos como se o padre estivesse a falar de uma coisa suja, má, que tem mais a ver com o demónio. Isso tem como resultado em que não vemos o dinheiro como algo que faça parte da nossa vida espiritual. Muita gente tem a vida toda compartimentada à imagem dos cartões que traz na carteira. Ora se usa um, ora se usa outro conforme o lugar onde estamos. Assim, quando vamos à missa, ou quando rezamos, estamos a cuidar da nossa vida espiritual; quando vamos todos os dias para o trabalho cuidamos da vida profissional; quando investimos dinheiro em qualquer coisa cuidamos da nossa vida financeira; quando chegamos a casa, à noite, cuidamos da vida familiar, e assim por diante. Ora uma vida assim dividida não é vida cristã. Nós devemos amar a Deus com toda a nossa vida e nada fica fora da nossa relação com Deus. Por isso, a forma como vivo a vida profissional faz parte da minha vida espiritual bem como a forma como eu lido com o dinheiro também é a minha vida espiritual. Se não, teríamos uma parte em nós luminosa, a vida espiritual, e depois as outras seriam trevas, onde Deus não entrava. Por isso é tão importante e evangélico falar do dinheiro na igreja, pois o dinheiro faz parte da nossa vida e das nossas preocupações. Lidar bem com o dinheiro é uma realidade salutar e por isso não podemos dizer: «Não, dinheiro é algo que só falo com o meu gestor de conta bancária ou planeador de finanças.» Mas a verdade é que o dinheiro tem um grande impacto na nossa vida espiritual, na nossa relação com Deus. O rico do evangelho foi para o lugar dos tormentos porque usou mal a sua riqueza e Jesus dá-nos muitos outros exemplos. Porque é que Jesus falou tantas vezes sobre o dinheiro? Pelo menos 2.300 versículos falam sobre o dinheiro na sagrada Escritura, e isto porque no caminho da formação do discípulo é um assunto muito importante que tem a ver com a nossa salvação ou condenação. Na raiz da posse do dinheiro está o controlp de nós mesmos, a questão da segurança. O ser humano tem a tendência de juntar tesouros. E fazemo-lo por causa do nosso medo do futuro e da insegurança sobre a continuidade da vida. Desde que abandonámos a segurança do paraíso original, nunca mais nos sentimos realmente seguros em parte nenhuma. Os tesouros dão-nos uma sensação de segurança.

Jesus contou uma história que ilustra isso, e deu um exemplo: “Certo homem rico possuía uma propriedade fértil que dava boas colheitas. Assim os seus celeiros ficaram a transbordar, e não podia guardar tudo lá dentro. O homem pôs-se a pensar no problema. Por fim, exclamou: ‘Já sei, vou deitar abaixo os celeiros e construir outros maiores. Assim terei espaço suficiente. Depois direi a mim mesmo: ‘Amigo, armazenaste o bastante para o futuro. Agora, repousa e come, bebe e diverte-te.’ (Lucas 12: 16-19 ). O Senhor Jesus sabe como é a nossa nossa natureza humana desde que, com o pecado original, nos afastámos de Deus. Tornámo-nos pessoas inseguras que precisam de um tesouro para se sentirem seguras. De forma misericordiosa, e reconhecendo as nossas limitações, Ele forma os seus amigos dizendo-lhes:

“Não junteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas juntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Jesus quer que os seus amigos aprendam a confiar em Deus e a saber fazer boas escolhas na sua vida. Trabalhar para ter mais dinheiro, para sustentar a sua família e dar-lhe uma vida mais digna não é mal nenhum. Também, se alguém trabalhou honestamente e produziu riqueza, não fez nenhum mal porque ter dinheiro não é mal. O que pode ser mal é deixar o nosso coração apegado ao dinheiro. Na epístola de S. Tiago é dito: «O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.» Nem sempre estas palavras foram bem lidas: Não é o dinheiro que é a raiz de todos os males, é o amor, o apego a ele que faz mal, pois faz com que o dinheiro ocupe o lugar de Deus no nosso coração. A melhor forma de exercer a liberdade perante o apego do coração é dar generosamente. Quando o fazemos estamos a construir o tesouro no céu, como disse Jesus. E é uma sensação de grande liberdade quando nos desapossamos e fazemos gestos de liberdade, generosidade e amor. Ficamos mais ricos, empobrecendo-nos um pouco. E Deus não deixa de enriquecer com os seus dons os que n’Ele confiam.

O pedido de Salomão agradou a Deus porque ele, podendo pedir riquezas e poder, pediu a sabedoria para governar bem e, depois, com ela, lhe vieram também outros bens porque Deus o abençoou com riquezas que ele não pediu. A parábola do Evangelho de hoje mostra também a sabedoria do homem que investe no tesouro escondido no campo. E ele diz que tesouro é esse, o reino. Ou seja, ele mesmo. E esse tesouro é eterno, não se destrói e ainda por cima nos dá uma alegria que não passa. Então, como usar bem o nosso dinheiro? Deixamos isso para a próxima ocasião.”

Folha Paroquial nº 134 *Ano III* 19.07.2020 — DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.

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“EVANGELHO (Mt 13, 24-43)
Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’». Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão-de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. E os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».”

REFLEXÃO

DEPOIS DE CRESCER, É A MAIOR DE TODAS AS PLANTAS

No Evangelho de hoje, Jesus apresenta-nos três parábolas sobre o Reino de Deus. São parábolas sobre o crescimento. Primeiro a semente de mostarda é lançada à terra, e nasce a planta: depois, é chamada a crescer. Lembram-se ainda os da paróquia de S. José, como começa o enunciado da visão da paróquia? Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos. Crescemos enquanto nos formamos como discípulos, crescemos quando evangelizamos com ousadia e crescemos quando servimos com amor. Concentro-me na parábola da semente de mostarda: «Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, torna-se a maior das plantas da horta». O que chama a atenção é a capacidade de crescimento que uma semente tão pequenina leva consigo. No nosso orgulho, temos alguma dificuldade em conviver com a pequenez, com a humildade. Mesmo na Igreja, gostamos mais de coisas grandiosas, triunfais, imponentes, que chamem a atenção, do que da pequenez cheia daquela força escondida do testemunho humilde no quotidiano, semeando bondade e humanidade. Nalguns círculos, ainda se tem saudade dos tempos gloriosos em que a Igreja tinha poder e era a maior força da sociedade, impondo a sua visão a todos. Hoje somos chamados a viver, com humildade, no meio da sociedade e a partilhar a nossa visão do mundo com outras visões e, se queremos que a nossa visão seja convincente, teremos de o mostrar pelo testemunho de coerência com aquilo que dizemos.

A parábola do fermento que uma mulher deitou em três medidas de farinha lembra-nos também a pequenez do fermento em relação à grande quantidade de farinha onde ele é colocado. No entanto, sendo tão pequeno, o fermento tem uma tal vitalidade e força, que consegue levedar e fazer crescer a massa toda. Jesus nunca nos convidou a ser massa, mas a sermos fermento. No entanto, se formos fermento, o crescimento acontece porque leva consigo a levedura que faz crescer. E a levedura é a graça do Senhor, o dom do seu Espírito em nós. A nossa relação pessoal com o Senhor, isto é, a nossa vida de fé e de caridade, é chamada a crescer e não a estagnar, mas também a vida da Igreja e de cada paróquia ou grupo eclesial a que pertencemos deve crescer. Quando falo em crescimento refiro-me primeiramente ao crescimento interior, qualitativo, na vida da graça, na santidade.

A vida cristã quando é coerente e séria, atrai.

Os Atos dos Apóstolos mostram-nos como a comunidade cristã era uma semente de mostarda com uma força de crescimento extraordinária. Acerca da forma como viviam afirma-se: “Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um. Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação.”

Convém repetir aquilo a que podemos chamar as 5 vitaminas essenciais para o crescimento de um cristão, de um grupo ou de uma comunidade, e que estão bem patentes neste texto dos Atos dos Apóstolos.

Se as nossas paróquias viverem estes dinamismos, a que chamamos os 5 essenciais, e sobre os quais está plasmada a visão da paróquia de S. João Baptista e, indiretamente, a de S. José, só podemos crescer.

Lembro essas 5 vitaminas essenciais para o crescimento:

1º Adoração, isto é, união a Deus pela oração e os sacramentos. “Os irmãos eram assíduos à oração e à fração do pão. Ninguém cresce na fé se não for alimentado por esta água viva que nos vem do encontro com o Senhor na Eucaristia, na oração pessoal e comunitária, e na meditação da sua palavra.

2º Vida fraterna: Deus quis salvar-nos, não individualmente, mas em povo que o ame e o sirva. Ninguém cresce isolado dos outros, mas construindo com os outros comunhão eclesial, vivendo o mandamento novo, como Jesus nos ensinou. «Os irmãos erram assíduos à comunhão fraterna(…) Todos os crentes viviam unidos (…) Como se tivessem uma só alma (…) partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração.»

Alguém que venha só à missa ao Domingo mas que não tenha relação nenhuma com uma comunidade, não cresce na fé nem na caridade pois, para amar, tem de ter irmãos para amar.

3º Enraizamento em Cristo: precisamos de nos irmos convertendo mais à vontade de Deus, obedecendo à sua Palavra e tornando-nos verdadeiros discípulos dele. Este processo de crescimento na fé, ou discipulado, vai-se operando pela ação do Espírito Santo e pela nossa colaboração e adesão quando aceitamos formar melhor a nossa fé para sabermos a graça a que somos chamados. Habitualmente, é caminhando fielmente num pequeno grupo com quem vamos partilhando a vida de fé, rezando, escutando a palavra de Deus e o testemunho dos outros que vamos crescendo e enraizando-nos no Senhor. “Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos”.

4º Serviço no amor: nós crescemos, identificando-nos com o Senhor, servindo os outros e a comunidade. Há muitos cristãos que não querem nem pequenos nem grandes compromissos. Vivem só para si. Mas o serviço aos outros na comunidade enriquece-nos muito e dá vida à comunidade. Além de nos santificar, pois nos identifica com aquele que «não veio para ser servido mas para servir e dar a vida.» Quanto as nossas paróquias podiam ser mais belas e atrativas se todos pusessem os seus dons a render nalgum serviço na comunidade! Esse serviço passa também pela partilha de dinheiro e bens materiais para a missão da Igreja como nos fala o texto dos Atos: “Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.”

Este serviço pode e deve ser também social, político, no empenhamento em causas de transformação do mundo, como é o caso do voluntariado numa causa pela defesa do ambiente.

5º Evangelização: Já falei neste aspeto essencial da nossa fé na semana passada.

Não é facultativa para o cristão, a evangelização. Paulo dizia: «Ai de mim se não evangelizar.» Deus confiou-nos a missão da Igreja inteira. E foi a cada um de nós que Ele disse: «Sede minhas testemunhas». “Como o Pai me enviou também eu vos envio a vós”. «Ide e anunciai o evangelho. Recebestes de graça, dai de graça.»

Para muitos, evangelizar não se trata de deixar a casa e a família para partir. Todos percebemos isso. Por exemplo, um casal que tenha filhos, faz já um bom trabalho de evangelização se educa os seus filhos na fé, criando em sua casa uma autêntica igreja doméstica, onde se louva a Deus, se anuncia o evangelho e se pratica a caridade. Um cristão que se encontra muitas vezes com pessoas amigas que não são crentes, não deve preocupar-se por, na melhor oportunidade, partilhar com eles a sua fé e convidá-los a conhecer o Senhor propondo-lhes um caminho de fé como o Alpha ou outro? O texto dos Atos mostra como aquela forma de viver dos primeiros cristãos era tão bela, tão evangelizadora, que fazia crescer a comunidade pela atração.

Estas cinco vitaminas formam um sistema, isto é, estão interligadas entre si e precisam todas de funcionar bem para que o corpo esteja são e cresça.

Por isso todos os movimentos, grupos, comunidades cristãs que se esforçam por viver estes 5 aspetos, só podem crescer qualitativamente e depois também crescerão quantitativamente. Não é uma ilusão pensar que a paróquia de S. João Baptista e S. José podem crescer em muito maior número. Mas para isso acontecer temos de nos desfocar do número, para nos focarmos na beleza da nossa vida com o Senhor e da nossa vida fraterna na paróquia. Não massa, mas fermento.”

Folha Paroquial nº 133 *Ano III* 12.07.2020 — DOMINGO XV DO TEMPO COMUM

A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.

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“EVANGELHO (Mt 13, 1-23)
Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e
sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos: «Saiu o semeador a semear. Quando
semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde
não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não
terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem;
outras, sessenta; outras, trinta por um. Quem tem ouvidos, oiça». Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes
falas em parábolas?». Jesus respondeu: «Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. Pois àquele que
tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: ‘Ouvindo ouvireis, mas sem
compreender; olhando olhareis, mas sem ver. Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os
seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu
os cure’. Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem! Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram. Escutai, então, o que significa a parábola do semeador: Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da
riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».”

REFLEXÃO

“Esta é uma bela parábola de Jesus que, no fundo, é uma meditação sobre as diversas formas como cada um de nós responde ao dom da fé semeado no nosso coração. O semeador é Ele, que semeia para todos os lados mesmo os mais improváveis. Parece ser um grande esbanjador: se não, porque atiraria Ele semente para os lados onde se sabe que dificilmente poderá nascer alguma coisa? No entanto, o semeador atira para todo o lado, para que todos possam ter a possibilidade de acolher a Palavra.

Hoje, gostava de me concentrar naquelas sementes que caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos, e os espinhos cresceram e afogaram-nas. A explicação que depois o evangelista dá à parábola de Jesus diz acerca desta terra: “Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto.

Lembram-se da Visão de cada paróquia? A de S. João Baptista diz: «Somos (queremos ser) Comunidade orante e acolhedora, enraizada em Cristo, que serve e anuncia o Evangelho para a transformação do mundo?». E a de S. José que diz: “Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos, formamos discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.» sublinho na primeira, o “enraizados em Cristo” e, na segunda, o “crescemos e formamos discípulos”: Em ambas está bem explícito que o que Deus espera de nós é que a fé não seja superficial mas que ganhe raíz no nosso coração. Não basta acolher com alegria, num dia de festa, com as emoções em alta, a fé, e depois, no momento de dificuldade, de dúvida, em que o ambiente não é a favor, abandonarmos o que antes nos tinha dado alegria. «Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe, de momento, com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante e ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra sucumbe logo».

A nossa vida de fé é chamada a ganhar raízes no Senhor, a identificarmo-nos com Ele em tudo, também na cruz, na entrega, no amor e no perdão. E isso é um caminho de discipulado, de conversão constante, para que as nossas escolhas sejam as do evangelho.

Se não nos enraizamos em Cristo, permaneceremos sempre com uma fé infantil, porque superficial, facilmente levados por qualquer vento de doutrina, ao sabor do jogo dos homens, das modas de cada época, dos interesses instalados na sociedade. E há tantos cristãos que, embora vindo à Eucaristia dominical, mais facilmente se identificam com a doutrina dos meios de comunicação social, do política e socialmente correto, ou do que lhe é mais fácil e apetecível, que com a Palavra de Cristo. A verdade é que, se formos honestos, reconhecemos que todos somos tentados e muitas vezes caímos em escolher o que nos é mais agradável, embora sabendo lá no fundo que não é essa a vontade de Deus. S. Paulo, na carta aos Efésios, reza para que os cristãos cheguem à estatura do “homem adulto na fé,” à medida completa da plenitude de Cristo. Cristãos que defendem ou concordam com o aborto ou com a eutanásia, ainda que digam que só em certas situações, são guiados não pelo mandamento divino mas pela influência que neles tem a pressão do pensamento dominante.

Então, como fazer para nos enraizarmos cada vez mais no Senhor, para não sermos inconstantes e superficiais?

O texto termina por dizer: «E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

O que fazer para ser boa terra, de tal forma que a semente dê fruto? É a necessária vida de união com o Senhor, pela fé e pelos sacramentos.

«Crescemos na comunhão com Deus…» O amor ao Senhor far-nos-á crescer no desejo de que a nossa vida se assemelhe mais à sua vontade.

Escutaremos então de bom grado a sua palavra, meditá-la-emos de todo o coração, não só para a conhecermos melhor, mas para a pormos em prática configurando-nos mais com Jesus. Aprenderemos a viver não só segundo os nossos interesses mas, renunciando muitas vezes a nós mesmos, aprenderemos a servir com humildade, a perdoar como o Senhor nos ensinou, a amar para lá das simpatias pessoais e, pouco a pouco, o que conta na nossa vida é Cristo e a sua vontade, como dizia Paulo: «Para mim viver é Cristo».

Que o Seu Espírito nos inunde e nos dê a graça de nos configurarmos de tal forma com Ele que vivamos plenamente enraizados n’Ele, firmes na fé.”

Folha Paroquial nº 132 *Ano III* 05.07.2020 — DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM

Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei.

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“EVANGELHO (Mt 11, 25-30)
Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e
inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu
Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde
a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou
manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».”

REFLEXÃO

BENDIGO-TE, PAI, PELO TEU PLANO DE AMOR

Para compreendermos melhor as palavras de Jesus convém saber o que está antes. Depois dos primeiros sucessos que marcam o início da pregação de Jesus, com todo o caudal de novidade que continha, Jesus começa a confrontar-se com a recusa da fé n’Ele, pela maioria dos seus auditores. Vejamos o que dizem os versículos anteriores: Jesus começou a censurar as cidades onde tinha realizado a maior parte dos seus milagres, por não se terem convertido: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti , Betsaida! Porque se os milagres realizados entre vós, tivessem sido feitos em Tiro e em Sidon, de há muito se teriam convertido» (…) …É nesta ocasião que Jesus, olhando para os pobres e humildes que tinha à sua volta, aqueles que O aceitavam, exclama: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado.» Este grito de louvor mostra como Jesus não fica desanimado com o facto de muitos o recusarem. Ele sabe que tudo está nas mãos do Pai e tudo pertence ao seu plano de amor. Por isso O louva com confiança por aquele pequeno resto humilde que o segue. Quando olhamos a minoria de crentes praticantes que somos, no meio desta cidade, podemos ser tentados a deixar-nos esmagar pelo número tão pequeno de cerca de 7 a 10 % dos que frequentam a missa dominical. Mas pelo contrário, somos chamados a alegrar-nos n’Ele e a louvá-lo pelos caminhos que Ele permite que vivamos e também pelos discípulos de hoje que, com grande amor, O seguem e fazem tanto por Ele. Quantas vezes acabo por fazer um louvor semelhante quando vejo a quantidade de cristãos em S. José e S. João Baptista que tão dedicadamente se dão a Jesus e fazem coisas tão bonitas por Ele! Além disso, a Igreja em Portugal, ainda que minoritária, tem a maior obra social do país (60%) e o serviço que presta em tantos domínios à sociedade, vai imensamente para além do número dos que frequentam a liturgia dominical. Por isso, Ele nos convida à confiança: «Vinde a Mim vós todos que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei». Mas não é isto uma pretensão demasiado grande da parte do homem Jesus de Nazaré? Que diríamos nós de alguém que nos dissesse estas palavras? Jesus, ao dizê-las, fala-nos da consciência que tem de si mesmo e do mistério da sua identidade.
É pela relação com Deus seu Pai que o homem Jesus de Nazaré, fraco e sofredor como nós, se afirma, ao mesmo tempo, em comunhão amorosa com o mistério de Deus. “Tudo me foi dado por meu Pai”…”Ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Esta confidência faz-nos descobrir a consciência que Jesus tinha de si mesmo.
Humanamente falando, é uma pretensão insustentável. Ele afirma, com toda a clareza, que Ele é o único que conhece Deus e é o único capaz de dizer qualquer coisa de válido sobre Ele. É porque Ele partilha o amor trinitário que pode fazer esta afirmação. A identidade de Jesus escapa a toda a investigação da inteligência humana. Nós não temos acesso à sua pessoa senão pela Fé que reconhece que o Filho é igual ao Pai. Ele dirá a Pedro: “O que dizes de mim foi o meu pai quem to revelou” (Mt 16,16)
Permaneçamos humildes e pobres diante de Deus. É a melhor maneira de ter acesso à infinita riqueza da vida divina. Aquele que não é capaz de se esvaziar da sua auto-suficiência poderá acolher o amor infinito de Deus?
“Manso e humilde de coração”, segundo a palavra de Jesus, é tornar-se capaz de entrar na Paz e na glória de Deus. Os sábios e os entendidos, muitas vezes demasiado cheios de si próprios, poderão deixar espaço à sabedoria e ao conhecimento de Deus? O abaixamento de Cristo não foi uma destruição. Foi a aurora da sua ressurreição. Eis o que o Filho nos revelou pela sua vida como nos diz a oração de coleta da missa de hoje: “Pela humilhação do vosso Filho, levantastes o mundo decaído”.

Jesus, manso e humilde de coração,
tornai o nosso coração semelhante ao vosso.

Folha Paroquial nº 131 *Ano III* 28.06.2020 — DOMINGO XIII DO TEMPO COMUM

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 10, 37-42)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: Não perderá a sua recompensa».”

REFLEXÃO

A FORMAÇÃO DOS DISCÍPULOS

Há dois Domingos atrás, S. Mateus apresentava-nos Jesus a escolher os Doze discípulos diante da grandeza do trabalho que havia para fazer: «A messe é grande mas os operários são poucos.» Então escolhe os doze, um a um, e é-nos dito o nome de todos. Depois Jesus envia-os dando-lhes instruções. A partir deste envio passam a ser chamados apóstolos – que quer dizer enviados. No Domingo seguinte, ouvimos Jesus a formar os apóstolos dizendo-lhes que estejam preparados para a rejeição e a perseguição, que irão acontecer certamente. Mas dá-lhes uma certeza: Deus conhece-os bem e está com eles . Nem um cabelo da sua cabeça cairá sem que o Pai o saiba. Assim, as suas vidas estão nas mãos do Pai.

Neste Domingo, São Mateus apresenta-nos as características do discípulo que quer seguir o Senhor. E nós somos os discípulos de hoje: Jesus identifica-se totalmente com os seus discípulos. «Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem me recebe, recebe Aquele que me enviou. » Mas o discípulo é também alguém que se deve configurar cada vez mais com o seu mestre Jesus. E configurar quer dizer assumir a mesma figura, o mesmo modelo, o mesmo carácter. «Quem não toma a sua cruz para Me seguir não é digno de mim.» Se Jesus não fugiu da cruz, também o discípulo deve assumi-la na sua vida. Se o Mestre entregou a sua vida por nós e depois a recebeu em abundância porque o Pai o ressuscitou e lhe deu uma Vida imortal, também o discípulo sabe que o seu caminho é dar a vida, dando-se aos outros no amor e não se fechando em si mesmo. Na medida em que o faz descobre que afinal a vida ganha-se quando se dá.

Ser cristão é ir assumindo esta mentalidade nova, esta forma de ser, como dizia Paulo aos cristãos de Roma: “Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual. Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito.” (Rom 12)

Paulo tornou-se um bom discípulo que assumiu na sua mente e coração todos os ensinamentos de Jesus. Por isso nos diz: “Não vivais segundo o espírito do mundo mas transformai-vos por uma nova mentalidade, segundo Deus”. E que mentalidade é essa? A que ofereçais os vossos corpos numa entrega a Deus no amor, isto é, vivei dando-vos – e essa é a vossa oferta agradável a Deus, o vosso sacrifício Santo.

Que nós nos deixemos transformar segundo Jesus.”

Folha Paroquial nº 130 *Ano III* 21.06.2020 — DOMINGO XII DO TEMPO COMUM

Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor.

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“EVANGELHO (Mt 10, 26-33)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Portanto, não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos. A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus”

REFLEXÃO

A Visão da paróquia de S. José

Na folha da semana passada começámos a explicar a visão da paróquia, e dissemos o que era a visão, as suas caraterísticas e necessidade. Falámos também que Jesus viveu sempre polarizado pela sua visão. Hoje começamos a explicação da visão específica da paróquia de São José. Relembro o enunciado:

Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos, formamos discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.

Se reparamos bem, a visão está moldada numa imagem, a do processo dinâmico da vida biológica: nascemos, crescemos e amadurecemos dando fruto de vida e amor.

Centremo-nos agora na primeira afirmação: Nascemos do encontro pessoal com Cristo. Dito de outra forma: Sonhamos ser uma comunidade onde todos fazem a experiência feliz de um novo nascimento em Cristo pela ação sentida do Espírito Santo. A vida cristã sem este novo nascimento faltar-lhe-á sempre o essencial e nunca se perceberá bem. Dizia Jesus a Nicodemos: “Tens de nascer de novo. Quem não nascer de novo não pode entrar no reino dos céus.” O papa Bento XVI exprimia-o desta forma: «No início do ser cristão não está uma grande ideia ou um pensamento ético, mas um acontecimento, um encontro pessoal com Cristo, que dá à vida um novo horizonte e com este um novo rumo». Muitos cristãos, batizados, de todas as paróquias, nunca fizeram este encontro e desejam-no. Receberam uma fé como herança sociológica, adotaram-na e muitos são cristãos com muito boa vontade e serão salvos por isso, mas eles próprios gostavam de fazer uma experiência mais íntima e profunda que desse à sua vida uma nova paixão.

Ser cristão sem este novo nascimento é como estar casado, mas não sentir amor pelo cônjuge com quem se vive. É um casamento de conveniência ou por obrigação e torna-se cansativo. Hoje é difícil que funcione uma relação sem amor, como é difícil alguém se manter na Igreja sem conhecer a Cristo pela experiência do Espírito Santo.

Como operacionalizar e programar a pastoral para este novo nascimento? É ter programas contínuos de primeiro anúncio que podem levar ao encontro pessoal com Cristo. Um programa de primeiro anúncio é uma sementeira que não para. Há muitos métodos para fazer isto; e Deus pode fazer-se encontrar das formas mais inesperadas. Paul Claudel, poeta e diplomata francês do século XIX, era ateu e aos 18 anos, entrando na catedral de Paris e a ouvir o coro da Catedral de Notre-Dame, sentiu a presença de Deus e converteu-se. Foi o seu novo nascimento. Isto mesmo tem acontecido com milhares de pessoas a começar por Saulo de Tarso. São conversões inesperadas. Mas estas não são o normal da vida. O normal é que a conversão seja o fruto de uma Palavra divina escutada ou sentida que leva a uma emoção interior que perdura e nos transforma. Na paróquia de S. José como em tantas outras da nossa Diocese, o método Alpha é um programa de primeiro anúncio que pretendemos que seja permanente. Imaginemos que temos uma conversa com alguém que intuímos que anda à procura, mas não sabe o que procura; tem sede, mas não sabe onde está a fonte. Para onde o convidar? Em primeiro lugar para um percurso Alpha que dura dez semanas. Aí esperamos que ele se encontre com Jesus, pelo Espírito Santo, e faça uma bela experiência eclesial de bom acolhimento fraterno. Se isto acontecer, ao acabar o percurso pode ter desejo de mais. Aquilo foi bom, mas não chega. Agora vem o crescimento. Mas essa parte fica para a próxima semana.”

Folha Paroquial nº 129 *Ano III* 14.06.2020 — DOMINGO XI DO TEMPO COMUM

Nós somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.

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“EVANGELHO (Mt 9,36-10,8)
Naquele tempo, Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus disse então aos seus discípulos: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Depois chamou a Si os seus doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades. São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou. Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções: «Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça».”

REFLEXÃO

A Visão de Jesus

Se tivermos presente os evangelhos na sua globalidade, percebe-mos que Jesus vivia polarizado por uma visão e um programa de vida que Ele queria realizar. Quando começa a sua vida pública, entra na Sinagoga de Nazaré, onde se tinha criado, e lendo o profeta Isaías, encontra aí o seu programa de vida. “O Senhor enviou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos oprimidos, a alegria aos que sofrem”. O que Jesus vê, ao longe, é o homem salvo. Se definirmos visão como “um sonho realizável que produz paixão em nós”, podemos dizer que Jesus viveu habitado pelo sonho de ver a alegria da salvação no coração dos homens quando se encontravam com a misericórdia de Deus. Quando Jesus entrou em casa de Zaqueu, vislumbrou a sua visão em cumprimento; quando esteve sentado junto ao poço de Jacob a conversar com a Samaritana, estava a cumprir o seu programa, polarizado pela vi-são do homem renascido pelo encontro com Deus. E como se ale-grava interiormente nesses momentos, ao ponto de estremecer de alegria sob a ação do Espírito Santo! Mas Jesus sabia que isso eram apenas sinais do reino, pois ainda faltava muito para ver a sua visão totalmente realizada. O chamamento dos discípulos é para dar continuidade à realização da sua visão, depois da sua partida para o pai.

Ao longo da história do cristianismo, a visão de Jesus foi assumida e vivida com matizes diferentes por homens e mulheres que se deixaram tocar por Jesus. Francisco de Assis, vendo a igreja de S. Damião em ruínas, ouve Jesus a dizer-lhe: “Francisco, reconstrói a minha igreja, pois, como vês, está em ruínas.” E S. Francisco, vi-vendo a santa pobreza, vai reconstruir a Igreja do seu tempo comunicando a sua visão a tantos que o seguiram. S. Charles de Foucauld, que vai ser canonizado brevemente, dizia: “Sonho com qualquer coisa de muito simples, grupos pequenos e semelhantes às comunidades dos primeiros tempos na Igreja… viver a vida de Nazaré, no trabalho e na contemplação de Jesus… ser uma família pequena, onde tudo seja muito humilde e simples”. E esta é a vi-são que vai polarizar toda a vida deste homem que outros vão seguir.

A equipa de animação pastoral da paróquia (EAP) de S. José, andou durante um ano a trabalhar para escutar interiormente e receber de Deus a visão para a paróquia. (A paróquia de S. João Baptista já tinha feito este trabalho há vários anos, e já está a desenvolver a sua visão que a maioria dos paroquianos conhece de cor). A Visão de uma paróquia é uma imagem do que Cristo nos chama a tornarmo-nos, como comunidade, para prosseguir a sua missão de salvação, no nosso ambiente concreto. Ela apresenta um futuro duradouro que suscita paixão e força no coração dos fieis. Como a fé, dá a ver coisas antes que elas se realizem (Hebreus 11,1). Ela responde à pergunta: «Para onde vamos?» «Onde queremos estar daqui a 10 ou 20 anos?»

Quais as características e vantagens de uma visão?

É clara e fácil de comunicar, dá um horizonte comum e uma direção a médio ou longo prazo. Preserva da confusão: “Por falta de visão o povo entra no caos” (Prov 29, 18). Quando a visão é partilhada, torna-se fonte de unidade. Dá sentido e coerência às nossas atividades. Ela é espiritual e estimula a fé, a esperança e a caridade.

É audaciosa e entusiasmante, motiva e dinamiza toda a comunidade. «I have a dream». Suscita a criatividade e congrega energias. Porque é ampla, implica cada um na missão, segundo os talentos e carismas. Incarnada, leva em conta o meio ambiente comunitário e dá-nos segurança.

É realista e serve de critério para discernir as melhores oportunidades. Permite hierarquizar as prioridades e avaliar os nossos avanços.

Andamos há muito tempo a olhar a paróquia, aspetos positivos e limites, o ambiente externo com as suas oportunidades e também com as suas dificuldades. Fomos conversando com muitos paroquianos, e foi-se gerando na EAP algum pensamento comum, que julgamos vir de nós e do Espírito Santo, que acabou por ficar com a seguinte redação:

Nascemos do encontro pessoal com Cristo, crescemos na comunhão com Deus e com os irmãos, formamo-nos como discípulos que evangelizam com ousadia e servem com amor.

Deixo a explicação do conteúdo da visão para o próximo Domingo. Acrescento apenas que a visão está no presente porque é um sonho que nos polariza no presente e porque também já existe uma parte realizada a mostrar-nos que não é um sonho idealista mas concretizável. A paróquia tem já uma história e um caminho realizado, e a visão faz-se sempre a partir desse caminho e tendo em conta essa história. É a partir daqui que nos projetamos no futuro.”