Arquivo da categoria Unidade Pastoral

Folha Paroquial nº 46 *Ano I* 07.10.2018 — DOMINGO XXVII

«O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida»

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«EVANGELHO (Mc 10, 2-16)
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus uns fariseus, que, para O porem à prova, perguntaram-Lhe: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério».

Meditação
Deus criou o ser humano à sua imagem; homem e mulher o criou.
A 1ª leitura situa-nos nos primeiros capítulos do 1º livro da Bíblia, o Génesis, um livro que faz parte daquilo que se chama «sabedoria» quer dizer não é história mas reflexão: No 2º século antes de Cristo, provavelmente na corte de Salomão, um teólogo sentia-se inundado de questões: « Porquê a morte? Porquê o sofrimento? Porquê as dificuldades no casal? E todas as dificuldades com as quais nos enfrentamos tantas vezes—Para responder, ele contou uma história como Jesus contava parábolas. O autor não é um cientista, é um crente: Ele não pretende responder-nos ao quando e ao como da criação: Ele diz o sentido, o projeto de Deus. A parábola de hoje tenta compreender e situar a relação conjugal no plano de Deus. E como todas as histórias e parábolas ele emprega imagens; o jardim, o sono, o lado : Sob estas imagens prefigura-se uma mensagem para todos os tempos e para toda a humanidade em geral. A expressão Adão quer dizer terreno, feito do pó, não é um nome pessoal.
E qual a mensagem teológica deste texto?
Resumo-a em 4 pontos mas infelizmente por falta de espaço tem de ser mesmo resumida:
1ª A mulher faz parte da criação desde a origem. ( o que na Mesopotâmia não era evidente) E que ela é um dom de Deus e que o homem não pode ser feliz sem ela nem a humanidade ser completa.
2ª O projeto de Deus é a felicidade do homem. A expressão: “não é bom que o homem esteja só” significa que Deus procura a alegria e felicidade de cada pessoa.
3ª É uma afirmação muito importante e inovadora na Bíblia : A sexualidade é boa pois faz parte do projeto de Deus; É um dado muito importante para a felicidade do homem e da mulher.
4ª O ideal proposto ao casal humano não é o domínio de um sobre o outro mas a igualdade no diálogo: e quem diz diálogo diz ao mesmo tempo distancia e intimidade.
No evangelho colocam uma pergunta a Jesus sobre o divórcio e Jesus conduzi-os ao plano original de Deus que é narrado na 1ª leitura embora não tivesse dito a frase toda pois qualquer judeu a sabia de cor e que dizia:« Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou.” A verdadeira vocação do casal é ser imagem de Deus e é porque são imagem de Deus que « o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serem um só» Se o casal humano é imagem de Deus deve ser indivisível e indissolúvel e Jesus tira a conclusão lógica: « O que Deus concebeu na unidade não o separe o homem».
O divórcio é pois contra a vontade de Deus. Mas quando se vive na realidade concreta há muitas areias nas engrenagens pois o endurecimento do nosso coração continua a estar presente por causa do pecado. Em S. Mateus os discípulos dizem a Jesus; “Se é assim tão difícil o casamento não é muito interessante”- hoje muitos jovens dizem a mesma coisa e por isso não se casam. E Jesus mais uma vez os conduziu ao nível do mistério e do projeto de Deus. Se a realidade da construção da unidade num casal fosse fácil a questão do divórcio não se colocava, não podemos fugir ás dificuldades reais, ainda por cima com uma cultura que se centrou no indivíduo, e o casal são dois. Só pela graça de Deus se pode entrar no mistério do amor e das suas exigências. Entregues às nossas forças, não conseguimos responder ao desígnio do criador. A palavra mistério (grega) diz-se em latim sacramentum. O matrimónio é o dom da graça de Deus para o casal se amar com o amor vitorioso de Deus que é maior do que a morte. O matrimónio é infinitamente mais do que um casamento civil na igreja, é um dom extraordinário da graça que os habilita a amarem-se de um amor que tudo vence em Cristo. E perdeu-se tanto na vida dos casais e das famílias!!!
Fechámos a fonte donde brotava a água que nos fazia viver. E os casais não beberam não poderão vivera no amor pleno.
Que pena o sacramento do Matrimónio estar tão desvalorizado. É como se tivéssemos encerrado uma fonte.

Folha Paroquial nº 45 *Ano I* 30.09.2018 — DOMINGO XXVI

«Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco»

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«Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».»

A crise do pastor Moisés
Situemos este texto. O povo já está farto do Maná que é uma comida monótona e sente saudades das cebolas do Egipto: É daqui que vem o desânimo de Moisés; quando viu o povo pobre e mal agradecido, com boca de fidalgo, é tentado a deixar cair tudo por terra. E desejou morrer. «Moisés ouviu o povo que chorava, agrupado por clãs, cada um à entrada da sua tenda. O Senhor inflamou-se de uma cólera ardente e Moisés desorientou-se. …Porque colocas sobre mim o fardo de todo este povo? Fui eu que concebi todo este povo? Fui eu que o trouxe ao mundo? Queres que eu leve este povo no meu coração, como uma mãe leva ao colo o seu bébé? Onde encontrarei eu carne para toda esta gente? Já não posso mais, sozinho, conduzir todo este povo, é demasiado pesado para mim….dá-me antes a morte…(Núm 11,10-15)
E a resposta de Deus a Moisés é dupla: por um lado manda-o escolher uma lista de 70 colaboradores, para ser ajudado com um senado e, por outro, promete-lhe carne para todo o povo. Depois da escolha dos 70 homens, Moisés condu-los à tenda onde estava a arca da Aliança e aí Deus transmite a estes homens o Espírito que estava n’Ele, isto é, a graça de governo, associado a Moisés. O governo pastoral não é só uma questão de competências humanas, que também são precisas, e por isso Deus dá orientações a Moisés sobre quem ele deve escolher; mas é, em primeiro lugar, um deixar-se habitar pelo Espírito de Deus, aprender a depender d’Ele e a obedecer-Lhe. Hoje há leigos na Igreja que têm competências em várias matérias muito superiores às do pastor, seja ele padre ou bispo. Por isso, estes devem pedir a sua ajuda e aprender na humildade a escutá-los e a confiar-lhes responsabilidades na Igreja, sem que isso diminua o seu papel de ministro ordenado. Dá-me grande alegria nas reuniões do Conselho Pastoral Diocesano, órgão que aconselha o bispo a nível pastoral, ver a riqueza de um laicado competente e cheio de amor à Igreja que discute serenamente os temas levados à discussão e dão ao bispo a sua opinião avalizada sobre as questões. O mesmo se passa em muitos conselhos pastorais paroquiais como é o caso do de S. José que esteve reunido todo o sábado passado a debater o plano pastoral da paróquia e o de S. João Baptista que reuniu há um mês atrás.
Cientes desta riqueza dos membros do povo de Deus e sabendo que muitos sacerdotes estão esgotados, como Moisés, é pena não serem mais aproveitados para a liderança partilhada nas paróquias. Por isso a 5 e 6 de Outubro nas Jornadas de Pastoral, foram convidados muitos leigos para aprofundarem a sua forma de exercer melhor a liderança partilhada. Não está em causa substituir o Moisés (o padre) que é o ministro ordenado, mas juntos, em comunhão, cada um segundo o seu carisma, realizarem a Missão para bem do povo de Deus. Mas há um lado humano que o líder que delega responsabilidades tem de aceitar humildemente: deixar de controlar tudo. E esse é o problema que Moisés e Jesus aceitaram com facilidade, pois não queriam controlar tudo, mas que Josué e João no evangelho quiseram bloquear. Josué diz a Moisés: «Moisés, proíbe-o.» Mas este, ao contrário, continua fiel aos 70 que escolheu. Ele sabia bem que aceitando rodear-se de 70 co-responsáveis com ele, escolhia deixar de controlar tudo e alegra-se com isso dando uma resposta admirável: estás com ciúmes por minha causa? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e todos fossem cheios do Espírito. Um desejo que fica a aguardar até ao Pentecostes. Hoje já não é só alguns que recebem o Espírito para certas missões e em ocasiões especiais. Deus deseja que todo o povo do Senhor viva sempre cheio do Espírito Santo.
Feliz a comunidade onde pastores e povo vivem habitados pelo Espírito e isso se vê pelos seus frutos: alegria, comunhão, caridade, serviço, evangelização, paz .
Peçamos a Deus para que as nossas comunidades paroquiais sejam cheias do Espírito Santo abertas aos diversos carismas que este distribui para crescimento da Igreja.

Folha Paroquial nº 44 *Ano I* 23.09.2018 — DOMINGO XXV

“O Senhor sustenta a minha vida.”

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«Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia. Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?». Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».»

Jesus continua a formar os seus discípulos, os de ontem e os de hoje, sobre como deve ser o pensamento e a ação dos que quiserem herdar o reino que Ele veio inaugurar. A Nicodemos e em tantas outras circunstâncias Jesus disse: « É preciso nascer de novo! Se não converterdes a vossa maneira de pensar e de agir não podeis ser meus discípulos e entrar no reino. Ouvimo-lo dizer a Pedro no Domingo passado: -«passa para trás de mim, Satanás, porque não tens em ti os pensamentos de Deus mas os dos homens.» Depois ensina-lhes que para O seguir é preciso renunciar a si mesmo, pegar na cruz e aprender a dar a vida para a receber em plenitude. No evangelho de hoje, Jesus continua o seu ensino sobre o mesmo tema, mas S. Marcos diz-nos que os discípulos nem entendiam aquelas palavras, ou então intuíam-mas tinham receio de que o que eles pensavam que Ele queria dizer era mesmo isso. E Jesus voltava a falar da sua entrega nas mãos dos homens que o haviam de matar mas que ressuscitaria ao terceiro dia. O mais espantoso que manifesta até que ponto os discípulos estavam noutra onda, é que, enquanto Ele lhes falava de humilhação e morte, eles discutiam, à socapa, entre eles, sobre qual deles seria o maior quando Jesus instaurasse o Reino como eles o imaginavam. Se Jesus não fosse o Mestre cheio de amor e paciência, teria desistido dos seus discípulos. Mas isso dá-me tanta esperança! Se Ele não desistiu daqueles doze que eram tão caturras, talvez eu possa ter confiança que também terá paciência com a minha lentidão a converter-me ao seu pensamento e a viver como Ele deseja. «Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos».
O desejo de grandeza e de prestígio, «a glória de mandar e a vã cobiça”, segundo as palavras do velho do Restelo, estão tão enraizadas no coração do homem velho, marcado pelo pecado, que é como o alcarracho que até a monda química tem dificuldade em destruir. Basta ver o que fizemos com a palavra ministro que vem do latim da palavra minus minor, o mais pequeno, o menor, como Jesus disse hoje: Quem quiser ser grande faça-se o ministro de todos, o mais pequeno. Mas hoje na vida civil e eclesiástica, o ministro é o maior. Mesmo aqueles que receberam ministérios laicais na igreja não conseguem fugir a esta tentação permanente de tirarmos proveito do cargo a que fomos chamados a servir os outros. É necessária uma vigilância contínua do nosso coração para não escorregarmos no plano inclinado de nos elevarmos sobranceiramente com aquilo que nos deveria fazer ainda mais humildes.
Na Basílica de S. Pedro no Vaticano está escrito a letras imensas: «Servus servorum Dei» É um dos títulos do papa, aliás belo: Servo dos servos de Deus. Os papas que mandaram construir a basílica eram tudo menos servos dos servos de Deus. Foi preciso esperar muitos anos para que os últimos papas a partir de João XXIII começassem a tentar levar mais a sério o evangelho do serviço e da humildade.
A segunda leitura, tirada da carta de S. Tiago, previne-nos contra as paixões que lutam nos nossos membros; Diz ele que essas paixões são a causa de muitos dos nossas males, desordens, invejas, divisões e guerras. Ele afirma mesmo que pedimos a Deus coisas que não obtemos porque pedimos mal levados apenas pelos nossos interesses egoístas e pelas nossas paixões.
S. Paulo no capítulo 12 da carta aos Romanos diz: “Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade” para viverdes segundo a vontade de Deus. De facto o mundo e a sua forma de viver exerce sobre nós um poderoso atrativo e é muito mais fácil deixarmo-nos moldar por ele do que pelos ensino de Jesus e a vontade de Deus. Mas só seremos sal da terra e luz do mundo se nos dispusermos a seguir Jesus na nossa forma de pensar e de atuar.

Folha Paroquial nº 43 *Ano I* 16.09.2018 — DOMINGO XXIV

“Caminharei na terra dos vivos, na presença do Senhor.”

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«Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».»

Hoje as leituras e, de modo especial o evangelho, apontam-nos o caminho de fé do discípulo, que é progressivo e fruto de uma relação para levar ao conhecimento de Jesus que não é intelectual mas relacional. Só conhecemos bem aqueles que amamos. Estamos no meio do evangelho de Marcos. Este evangelista construiu o seu evangelho à volta da descoberta progressiva da identidade de Jesus. Começa por dizer que Ele é o Filho de Deus, a meio coloca a afirmação de Pedro escutada hoje: “Tu és o Messias” e termina com a afirmação do centurião junto à cruz; «Este homem era realmente o filho de Deus. A resposta de Pedro sobre a identidade de Jesus parece corretíssima mas, mais à frente, vemos que afinal Pedro tem ainda um longo caminho a percorrer até que a expressão: “Tu és o Messias “ tivesse o mesmo significado que tinha para Jesus. Para Pedro, “O Messias” era Aquele que vinha com a força e o poder de Deus libertar o povo de Israel dos seus dominadores, os romanos, e fazer da sua nação a primeira entre todos os povos. Ele estava a segui-lo para ter um lugar ao sol ao pé do «Rei de Israel». Mas Jesus sabe que não é Aquele Messias esperado por Pedro e por isso “começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.” Isso para Pedro é inconcebível e tenta meter na cabeça de Jesus «bom senso». Chama-o de parte para o contestar. Mas Jesus tem uma expressão firme que na nossa tradução em português perde muito: No original grego Jesus diz a Pedro: «Passa para trás de mim, Satanás porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». “Passa para trás de mim”, quer dizer: «Faz-te meu discípulo, deixa que seja eu a indicar-te o caminho de como ser Messias-Salvador, da forma como o Pai o pensou. Não sejas o continuador da voz de Satanás no deserto. Os teus pensamentos não são segundo Deus e o seu Espírito, mas segundo os homens inclinados a seguir os seus instintos mais fáceis. No pensamento dos homens a vida é boa quando se tem poder, prestígio, dinheiro, honra, reconhecimento social: Eu porém digo-vos: Se alguém quiser seguir-Me dando plenitude à sua vida, seja capaz de a dar, pois aquele que a dá, recebe-a com um sentido novo, experimentará a salvação no âmago da sua própria vida, mas quem teimar em fechar-se na sua vidinha confortável, egoísta, superficial, esse perde-a. Pedro vai aprender a andar nos passos de Jesus, mas vai levar tempo. Depois das lágrimas da sua negação por três vezes, e depois de Jesus ter ressuscitado dos mortos, Jesus vai-lhe perguntar junto ao lago de Tiberíades, (onde está hoje a igreja do primado, lembram-se?). Pedro, tu amas-me? E o pobre do Pedro nem é capaz de responder com o mesmo verbo, mas responde: “Senhor tu sabes que eu sou deveras teu amigo.” Ele agora já sabe que o seu amor é pobre e fraco, mas verdadeiro e sincero; está pronto para ser pastor das ovelhas porque aprendeu a ser discípulo. Está pronto para dar tudo pelo Mestre que o salvou e n’Ele confiou. Que grande caminho de discípulo ele fez! Um caminho lento e progressivo, como o de todo o discípulo. No princípio é feito de entusiasmo exterior, de sentimentos e emoções ainda superficiais que podem desaparecer com as primeiras dificuldades, mas é passando pela tentação, pelo sofrimento aceite e entregue por amor, que a fé do discípulo vai amadurecendo, tornando-se mais profunda, mais verdadeira, mais iluminadora, capaz de ir até à dádiva da própria vida. Pedro vai ir até ao fim, dando a sua vida à imagem do Mestre. As lutas e as tentações de Pedro, e até as suas quedas, ajudam-nos a perceber o caminho do discípulo rumo à maturidade da fé, cuja meta é a estatura de Cristo na sua plenitude.

Folha Paroquial – Domingo XXIII do Tempo Comum- 09-09-2018

“Ó minha alma, louva o Senhor.”

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«Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.»

Faz que os surdos ouçam
No início da fé cristã está um encontro com Jesus. Por isso, só há fé cristã se houver encontro pessoal do crente com Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado. Hoje esse encontro acontece pela ação do Espírito que nos revela o «rosto» de Jesus e nos leva a abrir-nos à sua graça. A categoria de encontro faz parte essencial da fé cristã. O P. Nuno Santos, que publicou a sua tese de doutoramento sobre a esperança, analisa, demoradamente, 18 encontros que Jesus teve nos evangelhos com pessoas diferentes mostrando como cada encontro termina em alegria, júbilo, transformação da vida que ganha uma esperança e um rumo novo.
Hoje o evangelho apresenta-nos mais um desses encontros com Jesus, desta vez com um surdo-mudo. Este encontro segue-se depois da discussão com os judeus acerca das regras da pureza, como escutámos no evangelho de Domingo passado. Jesus partiu para território pagão, na Decápole, uma confederação de dez cidades mais de cultura grega e não judaica. É aqui que se dá o encontro com o surdo. Hoje já não se diz surdo-mudo, pois a mudez é uma consequência natural da surdez. De qualquer forma trata-se de uma enfermidade dupla.
Levam-lhe então o surdo e pedem-lhe para impor as mãos sobre ele. Jesus faz então alguns gestos que nunca tinha feito até agora. Conduz o enfermo à parte, longe da multidão e faz gestos sobre ele que os curandeiros faziam habitualmente; «meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua.» Não muda os gestos, mas dá-lhes um sentido novo: «Erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». O gesto de erguer os olhos ao céu não deixa nenhuma ambiguidade: Jesus só cura graças ao poder que lhe vem do Pai» Quanto ao suspiro, pelo vocabulário em grego, trata-se mais de um gemido: é a mesma palavra empregue nos Actos dos Apóstolos por Estevão no seu discurso para descrever o sofrimento do povo de Israel escravo no Egipto. Paulo emprega a mesma palavra para falar da impaciência da criação cativa na esperança da libertação: «Toda a criação geme e sofre as dores da maternidade esperando a libertação( Rom8, 22) e é empregue várias outras vezes sempre no mesmo contexto de sofrimento que espera ser libertado. Jesus lança o gemido como quem vive a impaciência pela libertação do sofrimento em que aquele surdo tem vivido por não poder ouvir nem falar. E eis o surdo curado: “Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente”. A resposta do povo, (não esqueçamos que se trata de pagãos) é uma proclamação das maravilhas de Deus: “Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem”. E com esta frase nos reenvia à 1ª leitura do profeta Isaías que anuncia a era da felicidade para os dias da vinda do Messias: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria.” As promessas messiânicas são então para todos, judeus e pagãos. E curiosamente, são os pagãos quem melhor decifra os sinais. Eles «proclamam», diz-nos Marcos. E a palavra não foi escolhida ao acaso. Proclamar aparece sempre como o anúncio de algo novo que Deus fez: “É a ordem de Jesus aos seus apóstolos depois da sua ressurreição. «Ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova».
Jesus diz ao surdo : Effata, quer dizer : Abre-te. Na celebração do batismo dos adultos, o sacerdote lê sempre esta passagem do evangelho de Marcos, depois toca os ouvidos e os lábios do batizado dizendo: « Effatha», quer dizer: “Abre-te, para proclamares, pelo louvor e pela glória de Deus, a fé que Ele vos transmitiu”. Parece-nos ouvir aqui a oração do salmo: «Senhor abri os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.»
A cura do surdo- mudo tem um alto valor simbólico no Novo Testamento. O discípulo é aquele que ouve a palavra de Deus e deixando-se transformar por ela, proclama o que Deus fez por Ele num louvor incessante. A sua boca abre-se para falar d’Ele porque o seu coração está cheio do fruto do encontro misericordioso com Ele. Como escreveu o papa Francisco, «a alegria do evangelho enche o coração e a vida d’aquele que se encontrou com Cristo.»
Quando na celebração vemos as pessoas que não abrem a boca para cantar nem para responder às orações, quando poucas vezes, ou nunca, falamos do Senhor e proclamamos o seu louvor, não estaremos surdos- mudos? Precisamos do encontro com Jesus que cura os surdos e abre os lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor.
Que Jesus cure as nossas comunidades da surdez e da mudez, para que sejam comunidades missionárias prontas para escutar a Deus e proclamar as suas maravilhas.
Cura os surdos e os mudos ao ponto de não poderem calar o que viram e ouviram.

Folha Paroquial – Domingo XVI do Tempo Comum- 22-07-2018

“« O Senhor é meu pastor: nada me faltará.»”

Folha Paroquial – Domingo XV do Tempo Comum- 15-07-2018

“«Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia.»”

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EVANGELHO (Mc 6, 7-13 )
Naquele tempo, Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

NUEVA ETAPA EVANGELIZADORA
O papa Francisco está-nos a chamar para uma «nova etapa evangelizadora marcada pela alegria de Jesus». Em que consiste esta etapa?
Onde pode estar a sua novidade? Que havemos de mudar? Qual foi realmente a intenção de Jesus ao enviar os seus discípulos a prolongar a sua tarefa evangelizadora?
O relato de Marcos deixa claro que só Jesus é a fonte, o inspirador e o modelo da ação evangelizadora dos seus seguidores. Não farão nada em nome próprio. São « enviados» de Jesus
Não se pregarão a si mesmos: Só anunciarão o seu evangelho: Não terão outros interesses: só se dedicarão a abrir caminhos ao reino de Deus.
A única maneira de impulsionar «uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria de Jesus» é purificar e intensificar esta vinculação com Jesus: Não haverá nova evangelização se não há novos evangelizadores, e não haverá novos evangelizadores se não há contacto mais vivo, lúcido e apaixonado com Jesus: Sem ele faremos tudo menos introduzir o seu Espírito no mundo.
Ao enviá-los, Jesus não deixa os seus discípulos abandonados às suas forças: Dá-lhes “ poder”, que não é poder para controlar, governar ou dominar os outros, mas a sua força para «expulsar os espíritos imundos», libertando as pessoas do que as escraviza, oprime e desumaniza.
Os discípulos sabem muito bem em que consiste o encargo que Jesus lhes confere. Nunca o viram a governar ninguém, no sentido de querer controlar alguém. Sempre o viram foi a curar as feridas, a aliviar o sofrimento, a regenerar vidas, libertando os medos, contagiando confiança em Deus. » Curar» e «libertar» são tarefas prioritárias na atuação de Jesus. Darão um rosto radicalmente diferente à nossa evangelização.
Jesus envia-os com o necessário para o caminho. Segundo S. Marcos. Só levarão bastão, sandálias e uma túnica. Não necessitam de mais para serem testemunhas do essencial. Jesus quere-os ver livres e sem apegos; sempre disponíveis, sem se instalarem no bem-estar; confiando na força do evangelho.
Sem recuperar este estilo evangélico, não há « nova etapa evangelizadora». O importante não é pôr em marcha novas atividades e estratégias, que também são necessárias, mas desprender-nos de costumes, estruturas e servilismos que nos estão a impedir de sermos livres para contagiar o essencial do Evangelho com verdade e simplicidade.
Na Igreja perdeu-se este estilo itinerante que Jesus sugere: O seu caminho é lento e pesado. Não sabemos acompanhar a humanidade: Não temos agilidade para passar de uma cultura já passada a outra atual. Agarramo-nos ao poder que temos tido. Enredamo-nos em interesses que não coincidem com o reino de Deus. Necessitamos de conversão.
José Antonio Pagola
Por falta de tempo deixo aqui a reflexão que o teólogo espanhol Jose António Pagola faz do evangelho deste Domingo. Quem dera que, pouco a pouco, recuperemos o estilo evangélico de Jesus. Começámos ao lançar a adoração eucarística, por nos voltar para Jesus para nos «vincularmos mais a Ele, é o princípio mas falta ainda muita coisa. Que Ee nos ajude a converter-nos pessoalmente e pastoralmente.

Folha Paroquial – Domingo XIV do Tempo Comum- 08-07-2018

“«Os nossos olhos estão postos no Senhor, até que Se compadeça de nós.»”

Folha Paroquial – Domingo XIII

“«Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.»”

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«Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-Se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha f ilha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Entretanto, vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Mas riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.»

Eu vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.
Quando em vista da preparação das missas de Domingo comecei a meditar o evangelho deste dia, fiquei logo preso com as palavras de Jairo, chefe da sinagoga, a Jesus: ««A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Fui imediatamente transportado para um caso conhecido em que a mãe, entre lágrimas angustiadas me pede frequentemente: «A minha única filha está a morrer, reze por ela.» Decidi colocá-la todos os dias no altar da Eucaristia e confiá-la ao poder de Deus. Confio-a também à oração dos leitores. Jesus é o Salvador de todo o homem e do homem no seu todo. Os dez leprosos que lhe pediram para ser curados quando iam pelo caminho para se mostrarem aos sacerdotes perceberam que estavam curados, mas só um voltou atrás reconhecendo Aquele que o curou e prostrando-se diante dele. Foram dez os curados da doença física mas só um experimentou a salvação. Os textos de hoje mostram-nos, como grande parte dos evangelhos, que Deus é um Deus que cura porque quer salvar-nos por dentro. Quer que saibamos que somos amados e que a nossa vida tem um destino de eternidade. Ele compadece-se de nós e não quer a nossa doença ou morte, como diz a primeira leitura. “Não foi Deus quem fez a morte, nem Ele Se alegra com a perdição dos vivos”.
Hoje os nossos contemporâneos, mesmo os cristãos, não estamos muito à vontade com o tema da cura. Cheira-nos a charlatanismo ou exploração das fraquezas emocionais dos que estão em situação de fragilidade. Um padre dizia há tempos num sermão: «Hoje não há curas nem milagres. Isso era no tempo de Jesus». Não sei com que fé os participantes naquela missa de lá saíram. Mas uma das pessoas que ouviu e me contou disse para si mesma: “Aqui Deus morreu. Já não há nada a fazer nem a esperar». Foi o que concluíram os amigos de Jairo depois da filha ter morrido. «Já não vale a pena estares a importunar o mestre. A tua filha morreu.» Mas Jesus disse-lhe: “Não temas: crê somente.”
Cerca dum quarto dos evangelhos é consagrado à cura dos doentes, pois era o sinal por excelência de que o reino de Deus estava entre nós. E Jesus mandou a Igreja fazer o que Ele fez. Ao longo da história da Igreja nunca as curas cessaram, sinal de que Jesus está vivo. Santo Agostinho de Hipona ( 354-430), declara no seu livro a Cidade de Deus que “ ainda hoje milagres se realizam no nome de Cristo” Ele cita o exemplo de um homem cego em Milão que recuperou a vista, na sua presença. Cita igualmente uma mulher muito piedosa de uma grande linhagem- que foi curada de um cancro no seio, que os médicos diziam incurável.
Temos sido testemunhas, na paróquia de S. João Baptista, ao longo destes dois anos, de curas admiráveis pelas quais damos muitas graças a Deus. Isso tem tido como resultado as pessoas acreditarem mais no poder do Senhor e se voltarem mais para Ele. Cresceu enormemente os pedidos de oração durante as muitas horas de adoração. Se não acreditarmos e não pedirmos, não veremos a glória de Deus. Mas se acreditarmos Ele manifestará a Sua glória porque Ele quer que todos se salvem e dá-nos os sinais da sua salvação.
Não quero entrar pelo caminho fácil do curandeirismo ou charlatanismo. Sabemos que muitos por quem rezamos, não se curam, porque a cura não é um fim em si mesmo. As curas de Jesus estão ordenadas a qualquer coisa de mais importante, o reino de Deus, o anúncio de um mundo onde todos os sofrimentos serão abolidos, pois como diz a primeira leitura, «Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem da sua própria natureza». As curas são uma luz neste mundo a apontar para o mundo novo onde já não haverá mais doença, mais dor, mais morte.
A cura maior da nossa vida é a libertação do pecado e viver em harmonia e paz com Deus. Conhecemos muita gente de corpo são que está bastante doente e gente de corpo doente que vende alegria e paz, mas nada disto contradiz a importância de rezarmos pelos irmãos que nos pedem oração, pois muitos chegarão à fé ao experimentarem a solicitude misericordiosa de Deus para com eles. Frequentemente há pessoas que vêm ter com o sacerdote com pedidos que revelam uma crença não muito «católica». Pedem para benzer as casas porque andam lá coisas esquisitas, querem uma bênção porque acham que têm qualquer coisa que as anda a tentar. Muitas vezes lhes digo: “Vou rezar por si, não porque acredito que tenha alguma coisa disso, mas porque está a sofrer e precisa da graça de Deus. E então, ali mesmo, rezo com ela e por ela. Jesus disse: Não rejeitarei nenhum dos que vêm a Mim e nós temos de fazer o mesmo. E como dizia o P. Tardiff, «Não interessa a razão que as traz que pode ser errada, mas o que importa é como regressam.» Temos de acreditar mais no poder da oração feita com fé e confiança. A doença, seja ela psíquica, física ou espiritual, é um mal que existe no mundo que Deus não deseja para nós. Por isso é que a quantos sofrendo lhe pediam ajuda, Jesus compadecia-se da sua situação e a ninguém disse: «Olha carrega o sofrimento que é para desconto dos teus pecados». O leproso chegou junto d’Ele e disse-lhe: «Senhor, se tu quiseres podes curar-me”. E imediatamente ouviu a resposta: « Sim, quero, fica limpo».
Se é verdade que o sofrimento não vem de Deus, também é verdade que muitas vezes é através dele que encontramos a Deus. Muitas vezes é na experiência da nossa condição frágil como Jairo, ou a mulher com o fluxo de sangue, que nos aproximamos d’Ele e encontramos mais do que procurávamos. Procurávamos a cura do corpo e encontrámos a salvação do corpo e da alma que é muito mais. Bendito seja Deus que é nosso salvador.

Folha Paroquial – Domingo XII – Solenidade do Nascimento de São João Baptista

“«O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe»…”

A folha pode ser descarregada em: São João Baptista

«Naquele tempo, chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas a mãe interveio e disse: «Não, Ele vai chamar-se João». Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João».
Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos.
Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?». Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. O menino ia crescendo e o seu espírito fortalecia-se. E foi habitar no deserto até ao dia em que se manifestou a Israel.»

O sentido teológico e antropológico da festa
As festas de S. João Baptista são como que a porta de entrada das festas religiosas do verão que se vão sucedendo nas nossas aldeias, vilas e cidades.
Celebrar a alegria da vida, o reconhecimento e a gratidão a Deus pela criação, fez sempre parte, até hoje, das diversas culturas, tanto no paganismo como no cristianismo. É um dado antropológico e cultural. O homem precisa de celebrar. Digo «até hoje», porque na sociedade tecnicista em que vivemos o homem atual parece perder a capacidade de celebrar a festa. O trabalho e a produção eficaz fazem os seres humanos entrar num frenesim que os torna incapazes de celebrar a alegria da vida.
Hoje, os dias de festa são vistos mais como dias sem trabalho, feriados, do que festas. Assim, a festa deixa de ter conteúdo e fica vazia sendo substituída pelo turismo, viagens sem parar, ou fuga para os locais de divertimento, como as discotecas e outros locais.
Mas a festa é muito mais do que um dia feriado ou do que férias. O importante é “viver em festa por dentro. Saber celebrar a vida, abrir-nos ao dom do criador. Despertar o melhor que há em nós e que fica obscurecido pela superficialidade, a atividade e o ritmo agitado do dia a dia.” (Jose Pagola).
A Igreja ao evangelizar a cultura pagã, transformou as festas pagãs em festividades em honra de Cristo, de Nossa Senhora ou dos santos e, graças a estas festas religiosas, o povo, ao longo de muitos anos, aprofundou e alimentou a sua fé e sentiu o desafio à conversão e santidade. Lembro-me que em criança as festas eram antecedidas de tríduos preparatórios. Muita gente se preparava para viver cristãmente a festa confessando-se e comungando. Ainda hoje os mais velhos assim fazem. Como diz D. Jorge Ortiga, «hoje os tempos são outros, mas o testemunho dos santos é algo intemporal. Quando evocamos os santos e repassamos a sua vida, estamos a colocar a nossa própria vida em questão, estamos a criar oportunidades para arrepiar novos caminhos de santidade, isto é, de aproximação aos nossos anseios mais íntimos e, por isso, queremos, ou devemos querer, alimentar e aprofundar a fé.” Quando festejamos S. João Batista, como é agora o caso, podemos ser tocados com o seu exemplo: Ele foi um homem de fé e de coragem. Reconheceu, antes de todos os outros, que Jesus era o Cristo ou Messias. Foi humilde e soube retirar-se no momento certo, o que não é nada fácil. Falou daquilo que era essencial com palavras que todos entendiam. Viveu para Deus até ao martírio e Deus deu-lhe a vida eterna. O Anjo do Senhor diz a Zacarias, no Evangelho de hoje, que João “será motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento”. Nós, em festa, alegramo-nos com o seu nascimento e desejamos aprender com Ele a saber falar de Jesus com palavras que todos entendam, mas sobretudo com uma vida simples e coerente.
Os textos da missa de hoje falam-nos ainda de um aspeto importante da nossa fé: A vocação e a missão. O livro de Isaías começa assim “O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe”…Mas se isso é bem notório acerca de João Baptista e de muitos outros personagens bíblicos, temos mais dificuldades em pensar que Deus faz o mesmo com cada um de nós. Acreditamos que Ele também nos chamou desde o ventre materno e que nos confia uma missão neste mundo diferente para cada um? Se para João Baptista foi importante saber qual era a sua missão para se focar nela, também o é para cada um de nós.

Quando descobrimos a nossa missão neste mundo e a levamos a sério, tornamo-nos audazes e criativos, transformadores desse mundo. Compete-nos ir descobrindo, ao longo da vida, o que quer Deus de nós, qual a missão que Ele nos confia. João Baptista foi para o silêncio do deserto para ouvir melhor a voz de Deus e receber d’Ele a Palavra e a força para viver a sua missão.
Também nós precisamos deste silêncio para nos encontramos com a nossa vocação e a nossa missão. E não só nós como indivíduos, mas também cada instituição precisa de descobrir a missão para que existe para se focar nela e não se dispersar em todas as direções. O Papa Francisco lembra muita vez que a Igreja não é nenhuma ONG (organização não governamental), porque quando a Igreja deixa de anunciar o evangelho que é a sua principal missão, começa a dispersar-se em muitas coisas que são boas também, mas não são a razão pela qual existe.
Mas para além deste aspeto central da festa, há o aspeto da alegria gerada pela comunhão fraterna. Aqueles que celebraram juntos a Eucaristia continuam agora no exterior a festa da amizade e da fraternidade, através da comida, da bebida e do lúdico.
O Papa Francisco escreveu que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, 1). Um santo triste é um triste santo, diz o povo. A festa é uma oportunidade de saborear a beleza da vida que, mesmo com agruras e dificuldades, não deixa de ser bela quando temos fé e temos ao nosso lado os amigos e os irmãos.
Desejamos a todos os irmãos da paróquia de S. João Baptista que aproveitem bem a festa para os dois aspetos que aqui realço: Aprender com o padroeiro a amar e a servir a Deus, e a confraternizar com os irmãos, acolhendo a todos, dando testemunho da alegria de se sentir membro da Igreja.